Maquiavel e a Autonomia do Político: O Príncipe, Virtù e Fortuna

Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli, 1469–1527) é, ao lado de poucos outros, um dos nomes cuja obra dividiu a história da filosofia em antes e depois. Antes dele, a filosofia política pertencia ao gênero do “espelho de príncipes” — tratados que prescreviam ao governante as virtudes morais clássicas (prudência, justiça, fortaleza, temperança) e a obediência à lei divina. Depois dele, a política tornou-se um domínio autônomo, com lógica própria, que não pode ser reduzido à moral nem à teologia. Essa ruptura é tão decisiva que muitos historiadores fazem coincidir o nascimento da filosofia política moderna com a publicação de O Príncipe (1513). ...

Montaigne — Ensaios, Ceticismo e a Arte do Autoconhecimento

Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) é um daqueles raros pensadores cuja influência não se mede pela construção de um sistema, mas pela invenção de uma forma. Ao criar o ensaio — palavra que ele mesmo cunhou, do francês essai, tentativa — inaugurou um modo de pensar que recusa a pretensão de verdade definitiva e faz do próprio sujeito pensante o objeto e o instrumento da investigação. Seus Essais, publicados entre 1580 e 1595, permanecem entre os textos mais lidos e relidos da literatura ocidental, e sua relevância filosófica só cresceu com o tempo. ...

Erasmo de Roterdã

Erasmo de Roterdã Nascido em Roterdã por volta de 1466, Erasmo (Desidério Erasmo de Roterdã) foi o maior humanista do Renascimento do Norte da Europa — o “príncipe dos humanistas”. Cônego agostiniano e padre, dedicou-se às letras e percorreu a Europa, travando amizade com Thomas Morus na Inglaterra. Erudito incomparável em grego e latim, fez da palavra culta um instrumento de reforma e de ironia. Morreu na Basileia em 1536, tendo recusado tanto o dogmatismo da velha Igreja quanto a ruptura protestante. ...

Johannes Kepler

Johannes Kepler Nascido em Weil der Stadt, na Alemanha, em 1571, Johannes Kepler foi um espírito de transição fascinante: protestante devoto, estudou teologia em Tübingen, mas dedicou a vida à astronomia, convencido de que decifrar a ordem dos céus era ler a mente de Deus. Trabalhou como assistente do grande observador Tycho Brahe em Praga e, ao herdar seus dados de altíssima precisão — sobretudo sobre Marte —, dispôs do material que tornaria possíveis suas descobertas. ...

Marsílio Ficino

Marsílio Ficino Filósofo italiano e sacerdote católico. Líder da Academia Platônica de Florença sob o patrocínio de Cosme de Médici. Traduziu toda a obra de Platão para o latim pela primeira vez, além do Corpus Hermeticum e de Plotino. Ficino nasceu em Figline Valdarno, na Toscana, em 1433, e cresceu num ambiente de intenso intercâmbio cultural proporcionado pelo mecenato dos Médici. Quando Cosme de Médici decidiu fundar uma academia platônica inspirada no modelo da Antiguidade, escolheu Ficino para dirigi-la e incumbiu-o da monumental tarefa de traduzir para o latim os diálogos de Platão — corpus praticamente inacessível ao Ocidente medieval —, bem como os textos neoplatônicos de Plotino, Jâmblico e Proclo, além do recém-descoberto Corpus Hermeticum. Esse trabalho de tradução, concluído entre as décadas de 1460 e 1490, foi decisivo para que a filosofia platônica voltasse a circular no debate intelectual europeu após séculos de predominância aristotélica. ...

Martinho Lutero

Martinho Lutero Teólogo agostiniano alemão; iniciador da Reforma Protestante. As 95 Teses (1517) contra as indulgências papais desencadearam uma ruptura que transformou a Europa religiosa, política e intelectualmente. Conceitos-chave Justificação pela fé somente (sola fide): o homem não é salvo por obras, méritos ou sacramentos — somente pela fé em Cristo; contra a soteriologia do mérito da Igreja Católica Sola Scriptura: a Bíblia é a única autoridade religiosa; a tradição e os decretos papais não têm autoridade equivalente. Traduziu a Bíblia para o alemão — funda a língua literária alemã moderna Sacerdócio universal dos crentes: todos os cristãos batizados são sacerdotes — dissolve a hierarquia clerical como mediação necessária entre Deus e o fiel Dois reinos (Zwei-Reiche-Lehre): o reino espiritual (governado pelo Evangelho) e o reino temporal (governado pela lei e pela espada) — clara separação que influenciou a secularização política Liberdade cristã (De Liberdade do Cristão, 1520): “O cristão é senhor livre de todas as coisas e não está submetido a ninguém. O cristão é servo obediente em todas as coisas e está submetido a todos” — paradoxo da liberdade interior com serviço ao próximo Contra o livre-arbítrio (De Servo Arbítrio, 1525): contra Erasmo — a vontade humana é escravizada pelo pecado; só a graça divina irresistível pode liberar; predestinação Influenciado por Santo Agostinho — graça, pecado original, predestinação São Paulo — justificação pela fé (Romanos, Gálatas) Guilherme de Ockham — nominalismo e crítica da metafísica escolástica Erasmo — humanismo textual (mas rompe com ele) Influenciou Calvino — reforma reformada e predestinação absoluta Kant — autonomia moral (secularização da consciência individual luterana) Kierkegaard — fé radical e individual contra a instituição Secularização e modernidade política europeia Hegel — Reforma como momento do Espírito na história Obras 95 Teses (1517); Da Liberdade do Cristão (1520); Da Babel Babilônica da Igreja (1520); Do Servo Arbítrio (1525); Catecismo Maior e Menor (1529); Bíblia em Alemão (NT: 1522; completa: 1534). ...

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico Nascido em Toruń, na Polônia, em 1473, Nicolau Copérnico foi cônego da catedral de Frombork e um homem do Renascimento: estudou em Cracóvia e na Itália (Bolonha, Pádua), dedicando-se ao direito, à medicina e, sobretudo, à astronomia. De modo discreto e prudente, durante décadas amadureceu uma ideia que mudaria a imagem do mundo — e que só publicaria no fim da vida. Essa ideia é o heliocentrismo: não a Terra, mas o Sol, está no centro do sistema planetário; a Terra é apenas mais um planeta, que gira sobre seu próprio eixo e se desloca em torno do Sol. Era uma ruptura com mais de mil anos de cosmologia geocêntrica, herdada de Ptolomeu e Aristóteles, segundo a qual a Terra imóvel ocupava o centro do universo. Copérnico não buscava apenas a verdade física, mas também uma explicação matematicamente mais simples e harmoniosa do que o complicado sistema de epiciclos ptolomaico. ...

Pico della Mirandola

Pico della Mirandola Giovanni Pico della Mirandola. Filósofo italiano prodigio; sabia latim, grego, hebraico, árabe e aramaico. Propôs realizar um debate em Roma com 900 teses de todas as tradições filosóficas — o papa Inocêncio VIII condenou algumas delas. Morreu aos 31 anos. Formado na Academia Platônica de Florença em estreito diálogo com Marcílio Ficino e no círculo de Lorenzo de’ Medici, Pico representou o ápice do humanismo renascentista. Em 1486, redigiu as 900 Conclusiones — teses extraídas de fontes tão diversas quanto Platão, Aristóteles, Avicena, Averróis, a Cabala judaica e o Corpus Hermeticum — com a ambição de demonstrar que a verdade filosófica e religiosa era uma só, acessível por múltiplos caminhos. O projeto foi interrompido quando uma comissão papal condenou treze das teses como heréticas; Pico refugiou-se em França e só retornou à Itália graças à proteção de Lorenzo de’ Medici. ...

Thomas More (Thomas Morus)

Thomas More (Thomas Morus) Humanista, jurista e estadista inglês. Lord Chanceler de Henrique VIII; recusou reconhecer o rei como chefe supremo da Igreja e foi decapitado. Canonizado pela Igreja Católica (1935). Autor do conceito de utopia. Thomas More nasceu em Londres em 1478, filho de um advogado bem-sucedido, e recebeu formação clássica rigorosa — estudou em Oxford e nos Inns of Court, tornando-se um dos juristas mais respeitados da Inglaterra Tudor. Sua amizade com Erasmo, selada ainda no início do século XVI, definiu sua orientação intelectual: o humanismo cristão, que acreditava ser possível reformar a sociedade através do aprofundamento moral e da renovação das letras, sem ruptura com a tradição católica. Nesse contexto, Utopia (1516) não é apenas uma fantasia literária, mas uma obra de filosofia política rigorosa, que combina o gênero do diálogo platônico com a sátira lucianesca para radiografar os males da Europa de sua época — a concentração fundiária, a corrupção da nobreza, as guerras dinásticas e a desumanidade das penas capitais. ...

[email protected]
Sobre · Contato · Política de Privacidade · Termos de Uso