Pragmatismo: Peirce, James, Dewey, Rorty e a Tradição da Filosofia Americana

O pragmatismo é a contribuição mais original da América à história da filosofia. Nascido no final do século XIX num contexto de pós-guerra civil, de expansão científica e de transformação industrial, o pragmatismo recusou tanto o racionalismo europeu quanto o empirismo britânico para propor uma alternativa: a filosofia deve ser avaliada pelo que faz, não pelo que contempla; as ideias são instrumentos de ação, não espelhos da realidade. Este artigo percorre o pragmatismo clássico — Peirce, James, Dewey, Mead — e o neopragmatismo do século XX — Rorty, Putnam, Brandom, Misak. ...

A Verdade na Filosofia — De Alétheia à Pós-Verdade

Poucas questões atravessam a história da filosofia com tanta constância quanto a pergunta: o que é a verdade? De Parmênides a Foucault, cada época reformulou essa interrogação conforme seus pressupostos sobre a razão, a linguagem, o ser e o poder. O presente artigo percorre as principais estações desse itinerário — da alétheia grega à crise contemporânea da pós-verdade — não como mera cronologia, mas como mapa das tensões que ainda definem o pensamento filosófico. ...

C. I. Lewis

Clarence Irving Lewis (1883–1964) nasceu em Stoneham, Massachusetts, e formou-se em Harvard (1906), onde teve como professores William James e Josiah Royce — o pragmatismo do primeiro e o idealismo absoluto do segundo marcariam permanentemente sua filosofia. Lecionou na Universidade da Califórnia em Berkeley entre 1911 e 1920, antes de retornar a Harvard, onde permaneceu até se aposentar em 1953 como titular da cátedra Edgar Pierce de Filosofia. Sua obra articula dois campos que, à primeira vista, parecem distantes — a lógica formal e a teoria do conhecimento — em torno de uma mesma preocupação: como conceitos e sistemas dedutivos, embora convencionais em sua origem, podem ainda assim organizar de modo objetivo a experiência. ...

Charles Sanders Peirce

Charles Sanders Peirce Lógico, matemático, filósofo e cientista americano. Fundador do pragmatismo e da semiótica moderna. Uma das mentes mais originais da história da filosofia, embora negligenciado em vida. Seu trabalho influenciou profundamente William James, John Dewey e toda a tradição analítica e continental do séc. XX. Formado em Química pela Universidade Harvard e atuando por décadas no U.S. Coast and Geodetic Survey, Peirce nunca obteve um cargo universitário permanente — em parte por dificuldades pessoais, em parte pela hostilidade de figuras influentes do meio acadêmico, como o astrônomo Simon Newcomb; foi William James, paradoxalmente, quem o amparou nos anos de penúria e se tornou seu maior divulgador. Essa marginalidade institucional não impediu que desenvolvesse, em centenas de manuscritos não publicados, uma arquitetura filosófica de rara profundidade: uma fenomenologia original, uma lógica formal avançada, uma teoria dos signos e uma metafísica evolucionária. ...

John Dewey

John Dewey Filósofo americano, o maior expoente do pragmatismo no século XX. Reformulou o pragmatismo como instrumentalismo: o conhecimento é um instrumento para resolver problemas práticos. Filósofo da democracia e da educação, exerceu influência monumental sobre a pedagogia moderna. Formado na atmosfera do idealismo hegeliano que dominava a filosofia acadêmica norte-americana no fim do século XIX, Dewey afastou-se gradualmente desse ponto de partida ao incorporar o naturalismo evolutivo de Darwin e o método experimental das ciências da natureza. A virada decisiva ocorreu durante seus anos na Universidade de Chicago, onde fundou uma escola-laboratório destinada a testar, na prática educativa, suas ideias sobre a continuidade entre pensamento e ação. Dessa experiência nasceu a convicção central de toda a sua obra: a de que a separação entre teoria e prática, entre o conhecer e o fazer, é um equívoco herdado da tradição filosófica que privilegiou a contemplação em detrimento da experiência viva. Para Dewey, pensar não é refletir um mundo já pronto, mas intervir nele para reorganizá-lo diante de situações que se tornaram problemáticas. ...

Richard Rorty

Richard Rorty Richard McKay Rorty foi um filósofo americano que lecionou em Princeton, na Universidade da Virgínia e em Stanford. Começou como filósofo analítico formado na tradição Wittgenstein-Sellars, mas Philosophy and the Mirror of Nature (1979) o projetou como um dos críticos mais radicais da tradição epistemológica ocidental. Rorty é o principal representante do neopragmatismo, que combina a herança pragmatista americana (Dewey, James) com elementos da filosofia continental (Heidegger, Derrida) e da filosofia analítica tardia (Wittgenstein, Quine, Sellars). ...

W.V.O. Quine

W.V.O. Quine Willard Van Orman Quine foi um dos mais influentes filósofos analíticos do século XX. Professor em Harvard por décadas, seu trabalho revolucionou a epistemologia, a filosofia da linguagem e a ontologia, ao mesmo tempo em que destruiu os fundamentos do positivismo lógico do Círculo de Viena. Quine é o principal elo entre o pragmatismo americano (Dewey, James) e a filosofia analítica contemporânea. Conceitos-chave Crítica à Distinção Analítico/Sintético (“Two Dogmas of Empiricism”, 1951, Philosophical Review; republicado em From a Logical Point of View, 1953): Quine ataca dois dogmas do empirismo: (1) a crença numa distinção nítida entre proposições analíticas (verdadeiras por significado, ex.: “todo solteiro é não-casado”) e sintéticas (verdadeiras por fato empírico); e (2) o reducionismo (cada enunciado tem um conteúdo empírico isolado). Quine argumenta que a noção de “analiticidade” é circular — pressupõe “sinonímia”, que pressupõe “analiticidade”. ...

William James

William James Filósofo e psicólogo americano, co-fundador do pragmatismo e pioneiro da psicologia moderna. Irmão do escritor Henry James. Popularizou e desenvolveu o pragmatismo de Peirce numa direção mais psicológica e humanista, com influência enorme sobre a filosofia, a psicologia e a teologia do século XX. Conceitos-chave Pragmatismo como método: uma ideia é verdadeira se funciona, se produz consequências satisfatórias para a ação — verdade como valor instrumental, não correspondência estática Verdade como processo: “a verdade acontece a uma ideia; ela se torna verdade, é feita verdadeira pelos eventos” — a verdade é dinâmica e verificável na experiência Empirismo radical: a experiência não inclui apenas coisas, mas também as relações entre elas — crítica ao empirismo clássico que fragmentava a experiência em átomos isolados Fluxo de consciência (stream of consciousness): a consciência não é discreta e estática, mas contínua, pessoal e seletiva — conceito que influenciou profundamente a literatura modernista Vontade de crer (will to believe): diante de questões onde a evidência é insuficiente e a decisão é forçada e importante (como a crença em Deus), é racionalmente legítimo crer com base em razões práticas e emotivas Variedades da experiência religiosa: a religião deve ser avaliada pelos seus efeitos na vida das pessoas, não por sua metafísica; o misticismo tem validade psicológica real Pluralismo: a realidade é múltipla e inacabada — crítica ao monismo absoluto hegeliano Influenciado por Peirce — máxima pragmática original Darwin — evolucionismo e funcionalismo mental Hume — ceticismo e empirismo Kant — teoria do conhecimento (criticamente) Influenciou John Dewey — instrumentalismo e filosofia da educação Bergson — relação mútua entre filosofia da vida e do tempo Wittgenstein — referências explícitas em Investigações Filosóficas Psicologia americana (funcionalismo, behaviorismo) Teologia liberal e movimento modernista religioso Obras Os Princípios da Psicologia (1890); A Vontade de Crer (1897); As Variedades da Experiência Religiosa (1902); Pragmatismo (1907); Empirismo Radical (1912). ...

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