Mencio

Mencio Nota sobre fontes: As datas de Mêncio (孟子 Mèngzǐ, “Mestre Meng”; nome pessoal Kē 軻) são estimativas convencionais — c. 372–289 a.C. — baseadas em cronologias históricas tradicionais. O texto Mèngzǐ (孟子), compilado em 7 livros (piān), é considerado uma obra mais unitária do que os Analectos de Confúcio, embora também envolva contribuições de discípulos na redação final. Mêncio é considerado na tradição confuciana o “Segundo Sábio” (Yàshèng 亞聖), imediatamente abaixo de Confúcio. ...

Michael Sandel

Michael Sandel Michael Sandel (n. 1953, Minneapolis) é um filósofo político americano, professor de governo em Harvard desde 1980, conhecido tanto pelo rigor acadêmico de sua crítica ao liberalismo rawlsiano quanto pelo enorme alcance público de seu curso “Justice”, uma das aulas mais populares da história de Harvard. Sandel é uma das figuras centrais do chamado debate liberalismo–comunitarismo dos anos 1980, embora também recuse o rótulo. Sua tese de doutorado, publicada como Liberalism and the Limits of Justice (1982), ofereceu uma das mais incisivas críticas filosóficas a Uma Teoria da Justiça de John Rawls. Em décadas seguintes, ampliou seu escopo para a crítica da mercantilização da vida social e da ideologia meritocrática. ...

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

Michel Foucault

Michel Foucault Michel Foucault nasceu em Poitiers em 1926 e formou-se na École Normale Supérieure, onde teve entre seus mestres Jean Hyppolite e Louis Althusser. Psicólogo de formação além de filósofo, ocupou a partir de 1970 a cátedra de “História dos Sistemas de Pensamento” no Collège de France e foi um intelectual politicamente engajado — sobretudo na luta pela reforma das prisões. Tornou-se uma das figuras mais citadas das ciências humanas em todo o mundo. Morreu em Paris, em 1984, de doença relacionada à aids. ...

Mikhail Bakhtin

Mikhail Bakhtin Mikhail Mikháilovitch Bakhtin (16 de novembro de 1895, Oriol — 7 de março de 1975, Moscou) foi filósofo da linguagem, teórico da literatura e da cultura. Marginalizado e quase desconhecido em vida na União Soviética — preso e enviado ao exílio em 1929, lecionou por décadas em universidades provincianas —, foi redescoberto a partir dos anos 1960 e tornou-se um dos pensadores russos mais influentes do mundo nas ciências humanas. Foi o centro do chamado Círculo de Bakhtin, que reunia também Valentin Volóchinov e Pável Medviédev (a autoria de algumas obras assinadas por eles é objeto de debate acadêmico). ...

Montesquieu

Montesquieu Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, nasceu em 1689 perto de Bordéus, em família da nobreza de toga. Magistrado e presidente do Parlamento de Bordéus, ganhou fama literária com as Cartas Persas (1721), sátira anônima e espirituosa que critica os costumes e as instituições francesas pelos olhos de viajantes persas fictícios. Depois de viajar pela Europa — admirando sobretudo a constituição inglesa —, dedicou cerca de vinte anos à sua obra-prima, O Espírito das Leis (1748), em que funda a moderna ciência política comparada. ...

Nāgārjuna

Nāgārjuna Nāgārjuna (c. 150–c. 250 d.C.) é o fundador da escola Mādhyamaka do Budismo Mahāyāna e é considerado, em muitas tradições budistas, como o segundo Buda. Sua obra exerceu influência decisiva sobre o Budismo tibetano, chinês (e daí japonês e coreano), bem como sobre a filosofia indiana posterior. Sua principal obra, a Mūlamadhyamakakārikā (MMK — Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio), é um dos textos mais comentados e discutidos da história da filosofia. ...

Nancy Fraser

Nancy Fraser Nancy Fraser (n. 20 de maio de 1947, Baltimore) é uma teórica crítica e filósofa feminista norte-americana, professora emérita da cátedra Henry A. and Louise Loeb na New School for Social Research, em Nova York. Herdeira da tradição da Escola de Frankfurt, é uma das vozes mais influentes da teoria crítica contemporânea. Sua contribuição mais célebre foi reformular a questão da justiça em torno da tensão entre redistribuição (a dimensão econômica) e reconhecimento (a dimensão cultural), alertando para o risco de que as lutas por identidade e visibilidade eclipsem as lutas por igualdade material. Nas últimas décadas, ampliou esse diagnóstico numa crítica abrangente do capitalismo e de suas relações com o feminismo, a ecologia e a democracia. ...

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico Nascido em Toruń, na Polônia, em 1473, Nicolau Copérnico foi cônego da catedral de Frombork e um homem do Renascimento: estudou em Cracóvia e na Itália (Bolonha, Pádua), dedicando-se ao direito, à medicina e, sobretudo, à astronomia. De modo discreto e prudente, durante décadas amadureceu uma ideia que mudaria a imagem do mundo — e que só publicaria no fim da vida. Essa ideia é o heliocentrismo: não a Terra, mas o Sol, está no centro do sistema planetário; a Terra é apenas mais um planeta, que gira sobre seu próprio eixo e se desloca em torno do Sol. Era uma ruptura com mais de mil anos de cosmologia geocêntrica, herdada de Ptolomeu e Aristóteles, segundo a qual a Terra imóvel ocupava o centro do universo. Copérnico não buscava apenas a verdade física, mas também uma explicação matematicamente mais simples e harmoniosa do que o complicado sistema de epiciclos ptolomaico. ...

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa Cardeal alemão; figura de transição entre a Escolástica e o Renascimento. Usou a matemática como analogia filosófica (não como método em sentido técnico) para expressar a relação entre o infinito divino e o finito humano. Nascido em Kues (atual Bernkastel-Kues, Alemanha) em 1401, Nicolau frequentou a escola dos Irmãos da Vida Comum em Deventer e se formou em direito canônico em Pádua, onde tomou contato com o humanismo italiano. Tornou-se cardeal em 1448 e bispo de Brixen (Bressanone), desempenhando papel ativo nos debates conciliares que agitaram a Igreja no século XV — primeiro como defensor da supremacia do concílio sobre o papa, posição que mais tarde reviu a favor do primado pontifício. Sua trajetória eclesiástica e intelectual reflete o espírito do século: um pensamento que oscila entre a tradição medieval e as novas perspectivas abertas pela redescoberta dos textos platônicos e neoplatônicos. ...

Nikolai Berdiáev

Nikolai Berdiáev Nikolai Aleksándrovitch Berdiáev (18 de março de 1874, Kiev — 24 de março de 1948, Clamart, França) foi filósofo religioso e político russo, frequentemente descrito como um “existencialista cristão”. De origem aristocrática, começou marxista — chegou a ser exilado internamente sob o tsarismo por suas atividades —, mas rompeu cedo com o materialismo rumo ao idealismo e à Ortodoxia. Participou da coletânea crítica Vekhi (1909). Expulso da Rússia soviética em 1922, no episódio dos “navios dos filósofos”, viveu em Berlim e depois em Clamart, perto de Paris, onde dirigiu a revista Put e se tornou a voz mais conhecida do pensamento russo no exílio. Foi indicado várias vezes ao Prêmio Nobel. ...

Nishida Kitaro

Nishida Kitaro Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Na convenção japonesa o sobrenome (Nishida) precede o nome próprio (Kitarō); usa-se aqui a ordem japonesa, conforme prática editorial corrente para filósofos modernos do Japão. Nishida Kitarō (西田 幾多郎) é o fundador da Escola de Kyoto e o filósofo japonês moderno mais influente do século XX. Praticante de Zen Rinzai desde a juventude — sob orientação dos mestres Setsumon e Kōshū —, formou-se em filosofia na Universidade Imperial de Tóquio e lecionou na Universidade Imperial de Kyoto, onde reuniu em torno de si a geração que daria corpo à dita “Escola”. Seu projeto pode ser descrito como a tentativa, sem precedente comparável no Japão moderno, de articular a experiência meditativa budista com o vocabulário e o rigor da filosofia europeia (sobretudo alemã) — sem, contudo, reduzir uma à outra. ...

Oswald Spengler

Oswald Spengler Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880–1936) nasceu em Blankenburg, na Alemanha, filho de um funcionário dos correios. Formou-se em matemática e ciências naturais, lecionou brevemente no ensino secundário e depois se dedicou inteiramente à escrita como autor independente em Munique. Sua obra magna, A Decadência do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes), publicada em dois volumes — Forma e Realidade (1918) e Perspectivas da História Universal (1922) — converteu-o, quase da noite para o dia, num dos autores mais discutidos da Europa entreguerras: o primeiro volume apareceu poucos meses antes da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, e seu título parecia profetizar o colapso então em curso. ...

Parmênides

Parmênides Natural de Eleia, colônia grega no sul da Itália, e ativo na primeira metade do século V a.C., Parmênides é o fundador da ontologia — a investigação sobre o ser enquanto ser — e a maior figura da chamada escola eleática. Expôs seu pensamento num poema filosófico, Sobre a Natureza, do qual restam fragmentos: nele, um jovem é conduzido em um carro até uma deusa que lhe revela a verdade. ...

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend Paul Feyerabend foi um filósofo da ciência austríaco, uma das vozes mais provocadoras do século XX. Formado em Viena e radicado por décadas em Berkeley, começou próximo do empirismo lógico e do racionalismo crítico de Popper — chegou a estudar com Popper na London School of Economics — para depois se tornar um de seus críticos mais incisivos. Sua obra mais célebre, Contra o Método (1975), defende o anarquismo epistemológico: a tese de que não existe um método científico único, universal e a-histórico capaz de explicar o sucesso da ciência. Examinando episódios reais da história da ciência, sobretudo o caso de Galileu, Feyerabend argumenta que o progresso frequentemente exigiu violar as regras metodológicas então vigentes. Sua provocação tornou-se sinônimo de uma defesa radical do pluralismo e da liberdade intelectual contra qualquer dogmatismo, inclusive o científico. ...

Paul Ricoeur

Paul Ricoeur Filósofo francês, um dos maiores hermeneutas do século XX. Sintetizou a fenomenologia de Husserl com a hermenêutica de Gadamer, a psicanálise de Freud e a filosofia analítica da ação. Sua obra percorre o conflito das interpretações, a teoria da narrativa e a ética do si mesmo. Conceitos-chave Hermenêutica do suspeito vs. da confiança: existem duas grandes tradições interpretativas — a da suspeita (Marx, Nietzsche, Freud — os textos escondem algo) e a da confiança (a tradição religiosa e poética — os textos revelam algo). A hermenêutica madura oscila entre as duas Identidade narrativa (identité narrative): a identidade pessoal não é uma substância fixa, mas é construída narrativamente — somos os personagens das histórias que contamos sobre nós mesmos (idem vs. ipse: identidade como mesmidade vs. ipseidade) Tempo e narrativa: o tempo humano só se torna compreensível quando narrado — a narrativa (historiografia e ficção) configura a experiência temporal e lhe dá sentido (mimesis em três fases: prefiguração, configuração, refiguração) Metáfora viva: a metáfora não é mero ornamento retórico — ela cria novos significados ao aproximar campos semânticos distantes; “redescrevia a realidade” Conflito das interpretações: não há interpretação neutra — toda leitura envolve uma posição; a hermenêutica deve assumir o conflito entre perspectivas em vez de eliminá-lo O si mesmo como um outro (soi-même comme un autre): a ipseidade (quem sou) é sempre mediada pelo outro — a alteridade constitui o si mesmo; proposta de uma ética da solicitude e da justiça Pequena ética: “visar à vida boa, com e para os outros, em instituições justas” — articulação entre perspectiva ética (teleológica) e perspectiva moral (deontológica) Influenciado por Husserl e Heidegger — fenomenologia Gadamer — hermenêutica filosófica Freud — psicanálise e suspeita Marx e Nietzsche — hermenêutica da suspeita Filosofia analítica da ação (Austin, Strawson) Influenciou Teologia narrativa e bíblica Filosofia do direito e hermenêutica jurídica Historiografia e filosofia da história Habermas — ética e comunicação Obras Filosofia da Vontade (1950–60); Da Interpretação: Ensaio sobre Freud (1965); O Conflito das Interpretações (1969); A Metáfora Viva (1975); Tempo e Narrativa (3 vols., 1983–85); O Si-Mesmo Como um Outro (1990); A Memória, a História, o Esquecimento (2000). ...

Paulo Freire

Paulo Freire Nascido no Recife em 1921, em meio à pobreza do Nordeste brasileiro, Paulo Freire é o pensador brasileiro mais citado e traduzido no mundo, e o Patrono da Educação Brasileira. Sua filosofia nasceu da prática: em 1963, na experiência pioneira de Angicos, alfabetizou trabalhadores rurais em poucas semanas com um método que unia a leitura da palavra e a leitura do mundo. Visto como ameaça, foi preso e exilado após o golpe de 1964, passando por Bolívia, Chile, Estados Unidos e Suíça; só retornaria ao Brasil em 1980. Articulou fenomenologia, marxismo e existencialismo numa teoria que é, a um só tempo, pedagogia e filosofia política da emancipação. ...

Pável Florenski

Pável Florenski Pável Aleksándrovitch Florenski (21 de janeiro de 1882 [v.a. 9 de janeiro], Yevlakh, atual Azerbaijão — 8 de dezembro de 1937, executado próximo a Leningrado) foi sacerdote ortodoxo, filósofo, matemático, físico e historiador da arte — uma das inteligências mais abrangentes da Rússia do século XX. Seus contemporâneos o chamaram de “o Leonardo da Vinci russo”, expressão que, embora encomiástica, aponta para a real amplitude de suas contribuições: estudou teologia em Moscou sob a orientação de Serguei Trubetskói, ordenou-se sacerdote em 1911 e, em paralelo, lecionou matemática e filosofia nas mais importantes instituições do país. Após a Revolução de 1917, continuou trabalhando em institutos científicos soviéticos — recusando emigrar como fizeram muitos de seus contemporâneos —, até ser preso pela primeira vez em 1928. Deportado ao Gulag, foi finalmente fuzilado em 8 de dezembro de 1937; durante décadas, o regime soviético falsificou a data de sua morte, registrando erroneamente 1943. ...

Peter Singer

Peter Singer Filósofo australiano, professor na Universidade de Princeton. É o mais influente filósofo utilitarista vivo e um dos fundadores do movimento contemporâneo pelos direitos dos animais. Sua obra Libertação Animal (1975) introduziu o conceito de especismo e transformou o debate ético sobre o tratamento dos animais. Defende um utilitarismo de preferências (posteriormente revisado para utilitarismo hedonista) e aplica a filosofia moral a questões práticas: pobreza global, eutanásia, aborto, meio ambiente e altruísmo eficaz. ...

Philippa Foot

Philippa Foot Philippa Foot (1920–2010) foi uma das mais influentes filósofas morais britânicas do século XX e figura central no renascimento da ética da virtude. Formada e por muito tempo radicada em Oxford, ensinou também por longos períodos nos Estados Unidos. Sua trajetória intelectual representa um desafio sistemático ao não-cognitivismo e ao emotivismo que dominavam a metaética anglófona do pós-guerra: contra a tese de uma separação radical entre fato e valor, Foot procurou mostrar que os juízos morais têm conteúdo cognitivo e estão enraizados em fatos sobre a vida humana. Sua obra culmina no naturalismo ético neoaristotélico de Natural Goodness (2001). Foi também figura de consciência cívica: ajudou a fundar a Oxfam, organização de combate à fome e à pobreza. ...

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