John Rawls

John Rawls Filósofo político americano; Uma Teoria da Justiça (1971) relançou a filosofia política normativa após décadas de domínio do positivismo e do utilitarismo. A obra mais influente da filosofia política do séc. XX. Professor em Harvard durante a maior parte de sua carreira, Rawls escreveu num momento em que muitos consideravam a filosofia política morta, reduzida a análise conceitual ou a uma história das doutrinas. Seu problema central era encontrar uma concepção de justiça para as instituições básicas da sociedade — a constituição, a economia, a família — que pudesse ser aceita por cidadãos livres e iguais sem apelar a uma única visão de mundo. Contra o utilitarismo dominante, que estava disposto a sacrificar o bem-estar de alguns em nome da soma agregada, Rawls insistia que cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem o bem-estar geral pode anular. Para articular essa intuição, recuperou a tradição contratualista de Locke, Rousseau e Kant, mas em um nível mais alto de abstração: o acordo não versa sobre um governo concreto, e sim sobre os próprios princípios que devem reger a estrutura básica. ...

John Searle

John Searle John Rogers Searle, nascido em Denver (Colorado) em 1932 e falecido em 2025, foi professor emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley. Suas contribuições abrangem filosofia da linguagem (teoria dos atos de fala), filosofia da mente (o argumento do Quarto Chinês, naturalismo biológico) e ontologia social (a construção da realidade institucional). É um dos filósofos analíticos mais lidos e debatidos do séc. XX e início do XXI. Conceitos-chave Teoria dos Atos de Fala (Speech Acts, 1969): Desenvolvendo J.L. Austin, Searle sistematiza a teoria. Todo ato de fala envolve: Ato locucionário: proferir sons com sentido e referência Ato ilocucionário: o que se faz ao proferir (afirmar, prometer, ordenar, perguntar) Ato perlocucionário: o efeito causado no ouvinte Searle analisa as condições de êxito (felicity conditions) de diferentes atos ilocucionários e propõe uma taxonomia: assertivos, diretivos, compromissivos, expressivos, declarativos. Intencionalidade (Intentionality, 1983): Os estados mentais têm intencionalidade — são acerca de algo (aboutness). Searle analisa a estrutura da intencionalidade: conteúdo intencional, condições de satisfação, direção de ajuste (mente-para-mundo em crenças; mundo-para-mente em desejos). Influência explícita de Husserl e Brentano, integrada no quadro analítico. O Quarto Chinês (“Minds, Brains, and Programs”, Behavioral and Brain Sciences, 1980): Experimento de pensamento contra a Inteligência Artificial Forte (a tese de que um programa computacional adequado é uma mente). Imagine uma pessoa fechada num quarto que recebe perguntas em chinês e possui um manual de regras para produzir respostas corretas em chinês — sem entender nada do idioma. Para observadores externos, o quarto “entende chinês”. Mas sintaxe não é suficiente para semântica. Conclusão: nenhuma simulação computacional de processos mentais é genuína cognição, pois lhe falta intencionalidade real. Naturalismo Biológico: A consciência e a intencionalidade são fenômenos biológicos — causados por processos neurais e realizados no cérebro. Não são redutíveis a padrões funcionais abstratos (contra o funcionalismo), mas tampouco são imateriais (contra o dualismo). A consciência é uma propriedade de nível superior do sistema nervoso, como a liquidez é uma propriedade de nível superior das moléculas de H₂O. A Construção da Realidade Social (The Construction of Social Reality, 1995): Como objetos como dinheiro, casamentos, governos e fronteiras existem? Esses fatos institucionais dependem do reconhecimento coletivo de uma função de status: “X conta como Y no contexto C”. O dinheiro de papel é papel (X) que, num contexto social (C), conta como meio de troca (Y). Esta estrutura é recursiva e autoimposta, mas genuinamente objetiva dentro do quadro institucional. Background: Condições de possibilidade não-intencionais da intencionalidade — capacidades, habilidades, hábitos e pressuposições que não são em si estados intencionais mas habilitam o funcionamento dos estados intencionais. Conceito que dialoga com Heidegger e Wittgenstein. ...

John Stuart Mill

John Stuart Mill Nascido em Londres em 1806, John Stuart Mill foi submetido pelo pai, James Mill, a uma educação extraordinariamente precoce e rigorosa — concebida pelo círculo de Bentham para formar um pensador utilitarista: aprendeu grego aos três anos e devorava clássicos e economia na infância. Aos vinte, sofreu uma profunda crise existencial, da qual se recuperou em parte pela poesia romântica — experiência que o levou a corrigir o utilitarismo árido em que fora criado. Foi também economista, deputado e companheiro intelectual de Harriet Taylor. Tornou-se o mais influente liberal do século XIX. ...

José Carlos Mariátegui

Nascido em Moquegua, no Peru, em 1894, José Carlos Mariátegui venceu uma infância pobre e uma saúde frágil — que lhe custaria uma perna e, mais tarde, o confinaria à cama — para se tornar, como autodidata, o mais original pensador marxista da América Latina. Jornalista combativo, passou alguns anos na Itália, onde absorveu o marxismo e as ideias de Croce e Sorel; de volta ao Peru, fundou a influente revista Amauta e o Partido Socialista. Morreu em 1930, com apenas 35 anos, deixando uma obra breve e fulgurante. ...

José Ortega y Gasset

José Ortega y Gasset José Ortega y Gasset nasceu em Madri, em 9 de maio de 1883, e morreu na mesma cidade, em 18 de outubro de 1955. Estudou em Madri e, na Alemanha, sobretudo em Marburgo, onde teve contato com o neokantismo de Hermann Cohen e Paul Natorp. Em 1910 assumiu a cátedra de Metafísica da Universidade Central de Madri. Foi o principal animador da chamada geração de 1914, fundou a Revista de Occidente (1923) e atuou na vida pública republicana. Com a Guerra Civil, deixou a Espanha em 1936 e viveu no exílio (França, Argentina, Portugal) até o regresso à Espanha na segunda metade da década de 1940; em 1948 fundou, com Julián Marías, o Instituto de Humanidades, em Madri. ...

Josef Pieper

Josef Pieper Josef Pieper nasceu em Elte, na Vestfália, em 4 de maio de 1904, e morreu em Münster em 6 de novembro de 1997. Estudou filosofia, direito e sociologia em Münster e Berlim e doutorou-se em 1928. Atuou inicialmente em pesquisa sociológica e como escritor independente e, a partir de 1959/1960, foi professor titular de antropologia filosófica na Universidade de Münster, onde lecionou por muitos anos. Recebeu em 1981 o Prêmio Balzan de Filosofia. Sua obra, escrita em estilo deliberadamente claro, avesso ao jargão acadêmico, tem como fonte principal Tomás de Aquino, lido em diálogo com Platão e Aristóteles, e dirige-se a questões da vida cotidiana: o trabalho, o tempo livre, as virtudes, a esperança, a linguagem. ...

Joseph Maréchal

Joseph Maréchal foi um filósofo e psicólogo jesuíta belga, fundador do Tomismo Transcendental — corrente que empreendeu uma síntese entre a metafísica tomista e a filosofia crítica de Kant. Sua obra marca um momento decisivo na renovação da escolástica no séc. XX e exerceu influência profunda sobre figuras como Karl Rahner e Bernard Lonergan. Conceitos-chave Ponto de Partida da Metafísica (Le Point de départ de la Métaphysique, 5 cadernos, 1922–1947): Obra capital. Maréchal percorre a história da epistemologia — da filosofia grega ao kantismo — para fundamentar a metafísica tomista diante da crítica kantiana. O Caderno V (“O Tomismo diante da Filosofia Crítica”) é o mais discutido. Finalidade Dinâmica do Intelecto: O argumento central de Maréchal: o intelecto humano, ao conhecer objetos finitos, orienta-se necessariamente em direção ao Ser absoluto como horizonte implícito de todo julgamento afirmativo. Todo ato de conhecimento envolve uma afirmação que ultrapassa o dado fenomênico e aponta para o Ser em sentido pleno. Esta dinâmica não é apenas psicológica — é ontológica: revela a abertura constitutiva do espírito para o Absoluto. Tomismo Transcendental: Maréchal aceita o método transcendental kantiano (perguntar pelas condições de possibilidade do conhecimento), mas conclui que as condições de possibilidade do julgamento envolvem uma afirmação implícita do Ser necessário — o que Kant excluía como ilegítimo. A metafísica é assim “salva” não apesar de Kant, mas através da análise kantiana. Psicologia Experimental: Além da filosofia, Maréchal contribuiu para a psicologia e a mística, investigando os fenômenos de consciência religiosa e contemplativa em Études sur la psychologie des mystiques (2 vol., 1924–1937). ...

Joshua Greene

Joshua Greene Joshua Greene (n. 1974) é professor de psicologia e diretor do Laboratório de Cognição Moral (Moral Cognition Lab) da Universidade de Harvard. Sua obra situa-se na confluência da filosofia moral, da psicologia experimental e das neurociências cognitivas, e representa um dos esforços mais influentes da virada empírica na ética contemporânea. Greene não se limita a descrever como as pessoas raciocinam sobre questões morais: usa esses dados para defender uma tese normativa explícita — que o utilitarismo, ou mais precisamente o consequencialismo profundo (“deep pragmatic utilitarianism”), é a teoria moral mais justificada para arbitrar conflitos entre grupos com sistemas de valores distintos. ...

Judith Butler

Judith Butler Filósofa americana; figura central da teoria queer e dos estudos de gênero. Problemas de Gênero (1990) transformou as humanidades ao propor que o gênero não é identidade fixa, mas performance. Nascida em Cleveland, Ohio, em 1956, Butler doutorou-se em filosofia pela Universidade Yale em 1984 com uma dissertação sobre a recepção hegeliana na França. Sua formação atravessa o existencialismo francês, a fenomenologia e o pós-estruturalismo, combinação que lhe permitiu interrogar categorias consideradas naturais — como “sexo”, “gênero” e “sujeito” — a partir de seus processos históricos de produção. O problema central que guia sua obra é: de que modo as normas culturais fabricam corpos e identidades que passam por naturais? Essa questão a situa no cruzamento entre filosofia continental, teoria feminista e política das minorias. ...

Judith Jarvis Thomson

Judith Jarvis Thomson Judith Jarvis Thomson (1929–2020) foi professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e uma das vozes mais rigorosas da ética analítica norte-americana da segunda metade do século XX. Seu trabalho se caracteriza pela análise minuciosa de casos concretos e pelo emprego de experimentos mentais como instrumentos de teste para princípios morais gerais. Formada na Columbia University e em Cambridge (UK), dedicou décadas ao exame sistemático de conceitos como direitos, permissibilidade moral, causalidade e responsabilidade — com atenção especial às situações em que intuições fortes entram em conflito com teorias normativas coerentes. ...

Julia Kristeva

Julia Kristeva Julia Kristeva (nascida em 24 de junho de 1941, em Sliven, Bulgária) é uma filósofa, psicanalista, linguista, semioticista e romancista búlgaro-francesa. Chegou a Paris em 1965 com uma bolsa de doutorado e logo se integrou ao grupo da revista Tel Quel, epicentro da vanguarda intelectual francesa. Tornou-se professora na Universidade de Paris VII e psicanalista em exercício. Sua obra atravessa a linguística, a teoria literária, a psicanálise e a filosofia, com forte influência de Bakhtin, de Saussure e de Lacan. ...

Jürgen Habermas

Jürgen Habermas Nascido em 1929, na Alemanha, e marcado na juventude pela experiência do nazismo e do pós-guerra, Jürgen Habermas tornou-se o principal nome da segunda geração da Escola de Frankfurt e um dos filósofos mais influentes das últimas décadas (faleceu em 2026). Assistente de Adorno, herdou a tradição da Teoria Crítica, mas recusou seu pessimismo: onde Horkheimer e Adorno viam a razão moderna degenerar em pura dominação, Habermas procurou resgatar um potencial emancipatório da própria razão. ...

Karl Jaspers

Karl Jaspers Psiquiatra e filósofo alemão, uma das figuras centrais da filosofia da existência ao lado de Heidegger e Kierkegaard. Partiu da psiquiatria (Psicopatologia Geral, 1913) para a filosofia, desenvolvendo uma reflexão sobre a existência humana centrada nas situações-limite, na comunicação existencial e na transcendência. Foi mentor de Hannah Arendt em Heidelberg. Após a Segunda Guerra, tornou-se voz influente sobre a questão da culpa alemã e sobre os fundamentos éticos da política. ...

Karl Marx

Karl Marx Nascido em Trier, na Renânia prussiana, em 1818, Karl Marx estudou direito e filosofia em Bonn e Berlim, onde se aproximou dos jovens hegelianos. Impedido na carreira acadêmica por suas posições radicais, dedicou-se ao jornalismo e, perseguido pela censura, exilou-se em Paris, Bruxelas e, por fim, Londres, onde viveu décadas de pobreza, amparado pelo amigo e colaborador Friedrich Engels e debruçado sobre os economistas na sala de leitura do Museu Britânico. Mais do que interpretar o mundo, queria transformá-lo: “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa, porém, é transformá-lo” (Tese 11 sobre Feuerbach). ...

Karl Popper

Karl Popper Filósofo austríaco-britânico. Propôs o falsificacionismo como critério de demarcação científica e defendeu a sociedade aberta contra o totalitarismo. Crítico agudo do marxismo e do historicismo. Nascido em Viena em 1902, Popper formou-se em contato com o Círculo de Viena — o grupo de filósofos e cientistas que buscava fundar o conhecimento em bases estritamente verificacionistas. Em vez de aderir ao verificacionismo, porém, Popper inverteu a questão: o problema central da epistemologia não é como confirmamos teorias, mas como as distinguimos de pseudo-ciências. Sua resposta, o falsificacionismo, estabeleceu que o marco da cientificidade é a refutabilidade: uma teoria é científica se — e somente se — é possível conceber um experimento ou observação capaz de derrubá-la. Essa virada metodológica, apresentada em A Lógica da Descoberta Científica (1934), redefiniu os fundamentos da filosofia da ciência do século XX. ...

Kimberlé Crenshaw

Kimberlé Crenshaw Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959, em Canton, Ohio) é uma jurista norte-americana, professora de direito na UCLA e na Universidade Columbia. É uma das fundadoras da Teoria Crítica da Raça (Critical Race Theory) e a autora que cunhou o conceito de interseccionalidade, hoje central nos estudos de gênero, raça e filosofia política, mas originalmente formulado no terreno do direito antidiscriminatório. O problema de que parte é prático e jurídico. Analisando casos de discriminação — em especial o caso DeGraffenreid v. General Motors (1976), em que mulheres negras foram juridicamente desamparadas porque a empresa contratava mulheres (brancas) e negros (homens) —, Crenshaw mostrou que os enquadramentos de eixo único (discriminação ou por raça ou por gênero) deixavam invisível a situação de quem está na interseção de mais de um eixo. ...

Kurt Godel

Kurt Godel Kurt Gödel é amplamente reconhecido como o maior lógico desde Aristóteles. Nascido em Brünn (atual Brno, República Checa) em 28 de abril de 1906, e morto em Princeton em 14 de janeiro de 1978, sua obra transformou radicalmente a lógica matemática, a fundamentos da matemática e a filosofia da mente. Seus dois Teoremas da Incompletude (1931) demoliram parcialmente o programa formalista de David Hilbert e estabeleceram limites intrínsecos a qualquer sistema axiomático suficientemente poderoso. ...

Kwame Anthony Appiah

Kwame Anthony Appiah Kwame Anthony Appiah nasceu em 8 de maio de 1954 em Londres, de pai ganês (Joe Appiah, advogado e político) e mãe britânica (Peggy Cripps). Cresceu em Kumasi, Gana, e estudou filosofia em Cambridge (BA e PhD). Lecionou em Yale, Cornell, Duke, Harvard e Princeton; atualmente é professor na New York University. Appiah é um dos filósofos mais versáteis e influentes do mundo anglófono contemporâneo, com contribuições à ética, à filosofia da linguagem, à filosofia da mente, à teoria racial e à filosofia política. É um dos pensadores que mais sistematicamente questionou os pressupostos do “racialismo” — a crença de que existem raças biológicas humanas dotadas de essências morais e intelectuais. ...

Kwame Nkrumah

Kwame Nkrumah Kwame Nkrumah (21 de setembro de 1909 – 27 de abril de 1972) nasceu em Nkroful, na Costa do Ouro (atual Gana). Estudou nos EUA (Lincoln University e University of Pennsylvania) e no Reino Unido (London School of Economics), onde desenvolveu suas ideias pan-africanistas em contato com figuras como C.L.R. James e George Padmore. Retornou à Costa do Ouro em 1947, liderou o movimento de independência e tornou-se o primeiro presidente de Gana em 1957 — o primeiro país africano subsaariano a obter independência no período pós-guerra. Foi deposto por um golpe militar em 1966, enquanto estava em Pequim, a caminho de Hanói. Viveu o restante de sua vida no exílio, na Guiné-Conakri, onde morreu em 1972. Nkrumah é considerado um dos pais fundadores do pan-africanismo moderno e figura central da Organização da Unidade Africana (fundada em 1963). ...

Laozi (老子)

Laozi (老子) Nota histórica fundamental: A existência de Laozi como personagem histórico individual é debatida entre os especialistas. O historiador Sima Qian (c. 145–86 a.C.), em Shiji, registra várias tradições sobre Laozi sem poder decidir entre elas — indicativo de que a incerteza é antiga. O texto a ele atribuído, o Dàodéjīng (道德經, “Clássico do Caminho e da Virtude”, também chamado Laozi), pode ser uma compilação de materiais de diferentes origens; a erudição moderna situa a forma atual do texto no século IV ou III a.C. A figura de Laozi como sábio ancião que teria encontrado Confúcio e depois deixado a China pelo Ocidente é provavelmente lendária. ...

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