Enrique Dussel

Enrique Dussel Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1934, Enrique Dussel teve formação cosmopolita — estudou na Argentina, na Espanha, na França e na Alemanha, e pesquisou também a história da Igreja na América Latina. Após um atentado a bomba contra sua casa, exilou-se no México em 1975, onde se naturalizou e viveu até sua morte, em 2023. É o principal nome da Filosofia da Libertação latino-americana e uma referência central do pensamento decolonial. ...

Epicuro

Epicuro Nascido na ilha de Samos por volta de 341 a.C., Epicuro fundou em Atenas, em 307 a.C., a escola conhecida como o Jardim (Kêpos) — comunidade de amigos que, de modo notável para a época, acolhia mulheres e escravos. Viveu de maneira simples e retirada, e morreu por volta de 270 a.C. enfrentando com serenidade as dores de uma doença renal. Sua filosofia, herdeira de Sócrates no ideal da filosofia como arte de viver, tem um objetivo terapêutico: libertar o ser humano daquilo que perturba sua paz. ...

Epiteto

Epiteto Ex-escravo frígio; o estoico que mais viveu o que pregou. Sua distinção central estrutura toda a ética estoica: o que depende de nós (eph’ hêmin: pensamentos, impulsos, julgamentos, desejos) vs. o que não depende (ouk eph’ hêmin: corpo, fama, riqueza, saúde). A liberdade interior é absoluta e não pode ser tirada por nenhum senhor. “Suporta e abstém-te” (anékhou kai apékhou). Nascido em Hierápolis, na Frígia (atual Turquia), Epiteto passou os primeiros anos da vida na condição de escravo em Roma, a serviço de Epafrodito, liberto ligado à corte de Nero. Foi nesse contexto que estudou com o estoico Musônio Rufo, de quem herdou a convicção de que a filosofia só vale na medida em que transforma a conduta. Conta-se que era coxo — tradição que ele próprio teria comentado com serena indiferença, exemplo vivo de sua doutrina de que a deficiência atinge o corpo, não a prohairesis, a vontade que escolhe. Liberto mais tarde, dedicou-se ao ensino em Roma até que o imperador Domiciano expulsou os filósofos da cidade; transferiu-se então para Nicópolis, no Epiro (noroeste da Grécia), onde fundou uma escola que atraiu discípulos de toda parte, inclusive jovens da elite romana. ...

Erasmo de Roterdã

Erasmo de Roterdã Nascido em Roterdã por volta de 1466, Erasmo (Desidério Erasmo de Roterdã) foi o maior humanista do Renascimento do Norte da Europa — o “príncipe dos humanistas”. Cônego agostiniano e padre, dedicou-se às letras e percorreu a Europa, travando amizade com Thomas Morus na Inglaterra. Erudito incomparável em grego e latim, fez da palavra culta um instrumento de reforma e de ironia. Morreu na Basileia em 1536, tendo recusado tanto o dogmatismo da velha Igreja quanto a ruptura protestante. ...

Ernst Cassirer

Ernst Cassirer Ernst Cassirer nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 28 de julho de 1874 e morreu em Nova York em 13 de abril de 1945. Formado na tradição neokantiana da Escola de Marburg — cujos pilares eram Hermann Cohen e Paul Natorp —, Cassirer começou a vida intelectual editando textos de Leibniz e estudando os fundamentos lógicos das ciências exatas. Mas o projeto que o tornaria singular na filosofia do século XX foi uma ampliação radical da herança kantiana: onde Kant havia perguntado pelas condições de possibilidade do conhecimento científico, Cassirer perguntou pelas condições de possibilidade de toda forma de sentido humano — do mito à linguagem, da arte à ciência. Essa reorientação resultou na monumental Filosofia das Formas Simbólicas (3 vols., 1923–1929), obra que transformou a epistemologia neokantiana em uma filosofia da cultura de alcance antropológico. ...

Farias Brito

Farias Brito Raimundo de Farias Brito (1862–1917), nascido no Ceará, é considerado um dos pensadores mais originais da filosofia brasileira de seu período. Em uma época marcada pela hegemonia do positivismo e do materialismo de inspiração científica, Farias Brito desenvolveu um espiritualismo de tom próprio, no qual a consciência é tomada como a realidade fundamental e como verdadeiro ponto de partida da reflexão filosófica. Sua obra, de forte acento metafísico, dirige-se contra a redução do real ao mero mecanismo material e busca recolocar o problema do espírito no centro da filosofia. Embora menos lido fora dos círculos especializados, exerceu influência duradoura sobre o pensamento católico e espiritualista brasileiro das gerações seguintes. ...

Ferdinand de Saussure

Ferdinand de Saussure Ferdinand de Saussure (26 de novembro de 1857, Genebra — 22 de fevereiro de 1913, Vufflens-le-Château) foi um linguista suíço, considerado o pai da linguística moderna e a fonte teórica de que se alimentaria o estruturalismo no século XX. Formou-se na tradição comparatista de Leipzig, entre os neogramáticos, e aos 21 anos publicou o Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes (1878), em que postulou, por pura coerência do sistema, a existência de “coeficientes sonânticos” cuja realidade só seria confirmada décadas depois, com o deciframento do hitita (as laringais). Lecionou em Paris e, a partir de 1891, em Genebra, onde ministrou três vezes (1907; 1908–09; 1910–11) um curso de linguística geral. Publicou pouco em vida; sua obra decisiva é póstuma. ...

Filon de Alexandria

Filon de Alexandria Nota sobre datação: as datas de Fílon não são conhecidas com precisão; sua vida é estimada entre c. 25/15 a.C. e c. 45/50 d.C., tendo como ponto de referência firmemente datado a embaixada que liderou a Calígula em 39/40 d.C., relatada em Legatio ad Gaium. Fílon de Alexandria — em latim Philo Iudaeus, “Fílon o Judeu” — foi um pensador judeu helenístico, oriundo de uma das famílias mais ricas e influentes da diáspora judaica de Alexandria. Cidadão romano, contemporâneo de Jesus, Sêneca e dos primeiros imperadores júlio-claudianos, escreveu inteiramente em grego e operou no cruzamento de duas tradições: o judaísmo bíblico e a filosofia grega — especialmente o platonismo médio, o estoicismo e o pitagorismo. Em 38 d.C. Alexandria foi palco de violentos ataques antijudaicos sob o governo de Aulo Avílio Flaco (narrados em In Flaccum), e em 39/40 d.C. Fílon liderou a delegação dos judeus de Alexandria que se dirigiu a Roma para apresentar queixas a Calígula. Atenção: Fílon é frequentemente classificado, de modo impreciso, como “neoplatônico”; rigorosamente, ele é pré-neoplatônico — anterior a Plotino em mais de dois séculos — e deve ser situado no platonismo médio. ...

Frances Kamm

Frances Kamm Frances Myrna Kamm (n. c. 1947) é uma das mais rigorosas e influentes filósofas morais da tradição analítica contemporânea. Formada nos Estados Unidos, construiu sua carreira acadêmica em instituições como NYU, Rutgers e Harvard, onde lecionou por muitos anos na Escola de Governo Kennedy e no departamento de filosofia. Seu projeto intelectual central consiste em desenvolver uma teoria não-consequencialista dos direitos morais e do dano permissível que seja ao mesmo tempo normativamente precisa e metodologicamente transparente. Contra as éticas que avaliam ações exclusivamente pelos seus resultados, Kamm argumenta que há restrições deontológicas genuínas — estruturas morais que determinam o que é permitido fazer a uma pessoa, independentemente do quanto bem isso geraria no todo. ...

Francis Bacon

Francis Bacon “Pai do Empirismo” e da ciência experimental moderna. Lorde Chanceler da Inglaterra; caiu em desgraça por corrupção. Seu projeto era renovar o saber substituindo o Organon de Aristóteles por um novo método indutivo-experimental. Bacon escreve na passagem do Renascimento para a modernidade, num momento em que a filosofia natural ainda era dominada pelo aristotelismo escolástico transmitido pelas universidades. Contra essa tradição, ele diagnostica que o conhecimento herdado havia se tornado estéril: muito hábil em disputar e classificar, mas incapaz de produzir obras úteis e de ampliar o domínio humano sobre a natureza. O problema central, para Bacon, não era a falta de inteligência, mas a falta de um método correto. A lógica silogística de Aristóteles, em sua leitura, apenas reorganiza noções confusas já contidas nas palavras, sem garantir que essas noções correspondam às coisas; por isso ela serve para vencer debates, não para descobrir verdades novas sobre o mundo. Em resposta, Bacon propõe uma “Grande Instauração” (Instauratio Magna) do saber, um recomeço que parte da experiência ordenada e da observação metódica em vez da autoridade dos antigos. ...

Francis Fukuyama

Francis Fukuyama Francis Yoshihiro Fukuyama (1952–) nasceu em Chicago, filho de um pastor protestante nipo-americano de segunda geração, doutor em sociologia, e de uma nascida em Kyoto, filha do economista Shiro Kawata, fundador do Departamento de Economia da Universidade de Kyoto. Formou-se em estudos clássicos pela Universidade Cornell — onde foi aluno de Allan Bloom — e doutorou-se em ciência política pela Universidade Harvard. Trabalhava no corpo de planejamento político (Policy Planning Staff) do Departamento de Estado dos Estados Unidos quando publicou, no verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o ensaio que o tornaria mundialmente conhecido: “The End of History?”, na revista The National Interest. Ampliado em livro como O Fim da História e o Último Homem (1992), o argumento provocou um dos debates intelectuais mais intensos do fim do século XX. ...

Frantz Fanon

Frantz Fanon Frantz Omar Fanon nasceu em 20 de julho de 1925 em Fort-de-France, Martinica (então colônia francesa). Psiquiatra, ensaísta e militante político, é a figura mais influente da filosofia anticolonial africana e caribenha. Formado em medicina e psiquiatria na França (Lyon), trabalhou como chefe de serviço de psiquiatria no Hospital de Blida-Joinville, na Argélia, a partir de 1953. Diante das atrocidades da Guerra de Independência da Argélia (1954–1962), aderiu ao FLN (Frente de Libertação Nacional) e tornou-se um dos principais porta-vozes intelectuais da causa anticolonial. Morreu de leucemia em Bethesda, Maryland, em 6 de dezembro de 1961, com 36 anos, dias após a publicação de Les damnés de la terre. ...

Franz Brentano

Franz Brentano Franz Brentano (1838–1917) foi um filósofo austríaco-alemão cuja obra constitui um dos pontos de inflexão silenciosos da filosofia moderna. Nascido em Marienberg am Rhein, em uma família católica de origem italiana — era sobrinho do poeta romântico Clemens Brentano —, doutorou-se em 1862 em Tübingen com a tese Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles (“Dos múltiplos sentidos do ente em Aristóteles”), trabalho que, lido na adolescência por Martin Heidegger, marcaria toda uma linhagem de retorno a Aristóteles no século XX. Ordenado sacerdote católico em 1864, habilitou-se em Würzburg em 1866 e renunciou ao sacerdócio em 1873, em meio à crise aberta pelo dogma da infalibilidade papal (Vaticano I, 1870). Em Viena, onde lecionou de 1874 a 1895, formou uma constelação de discípulos — Husserl, Meinong, Twardowski, Stumpf, Ehrenfels, Marty — que dariam origem à fenomenologia, à teoria do objeto e à Escola de Lvov-Varsóvia. Perdeu a cátedra em 1880 por casar-se (a lei austríaca tratava ex-padres como ainda vinculados ao celibato) e foi reduzido a Privatdozent. Aposentado em 1895, viveu em Florença e depois em Zurique, onde morreu cego em 1917. ...

Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche Filho de um pastor luterano, Friedrich Nietzsche nasceu em Röcken, na Prússia, em 1844. Filólogo clássico precocíssimo, tornou-se professor na Universidade da Basileia aos 24 anos — antes mesmo de concluir o doutorado. A admiração e depois a ruptura com o compositor Richard Wagner, somadas à saúde frágil, levaram-no a abandonar a cátedra em 1879 e a viver como andarilho solitário pela Suíça e pela Itália, escrevendo seus livros mais importantes. Em janeiro de 1889, em Turim, sofreu um colapso mental do qual nunca se recuperou: passou os últimos onze anos incapacitado, e sua obra inédita acabou em parte deturpada pela irmã Elisabeth — apesar de o próprio Nietzsche ter rejeitado com veemência o nacionalismo e o antissemitismo alemães. ...

Friedrich Schleiermacher

Friedrich Schleiermacher Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 21 de novembro de 1768 e faleceu em Berlim em 12 de fevereiro de 1834. Filho de um capelão reformado, estudou no seminário morávia de Barby e depois em Halle. Tornou-se pregador em Berlim, professor em Halle (1804–1807) e, a partir de 1810, professor de teologia e filosofia na recém-fundada Universidade de Berlim — da qual foi um dos principais articuladores intelectuais, ao lado de Wilhelm von Humboldt e Fichte. ...

Friedrich Wilhelm Joseph Schelling

Friedrich Wilhelm Joseph Schelling O mais versátil dos idealistas alemães; seu pensamento passou por múltiplas fases radicalmente distintas. Influenciou diretamente o Romantismo e antecipou o Existencialismo. Nascido em Leonberg, Württemberg, em 1775, Schelling estudou no Stift de Tübingen ao lado de Hegel e Hölderlin, onde o entusiasmo pela Revolução Francesa e pela filosofia kantiana moldou sua geração. Aos vinte anos já publicava textos de notável originalidade, e em 1798 assumiu uma cátedra em Jena — então epicentro intelectual do idealismo e do Romantismo alemão. Esse ambiente fez dele interlocutor direto de Fichte, Goethe e dos irmãos Schlegel, consolidando sua reputação como o mais promissor filósofo de sua época. ...

G.E. Moore

G.E. Moore Filósofo britânico, cofundador — junto com Russell e Frege — da filosofia analítica. Sua crítica ao idealismo britânico e seu trabalho em ética influenciaram decisivamente toda a tradição analítica do século XX. Conceitos-chave Falácia naturalista (naturalistic fallacy): o erro de definir o bem em termos de propriedades naturais (prazer, evolução, desejo). O bem (good) é simples, indefinível e não-natural — não pode ser reduzido a nenhuma propriedade empírica. Crítica central ao utilitarismo e ao naturalismo ético Questão aberta (open question argument): para qualquer propriedade natural X, sempre faz sentido perguntar “X é bom?” — se o bem fosse idêntico a X, a questão seria absurda. Isso prova que bem ≠ X Intuicionismo moral: os valores morais fundamentais são conhecidos por intuição direta, não por inferência ou definição. Ética é uma ciência autônoma, não redutível às ciências naturais Realismo do senso comum: contra o idealismo de Berkeley e Hegel — o mundo externo existe independentemente da mente. Defesa do realismo do senso comum como ponto de partida filosófico Prova do mundo externo: “aqui está uma mão, aqui está outra” — argumenta que podemos provar a existência do mundo externo com mais certeza do que qualquer premissa filosófica abstrata que a negue Análise dos conceitos: a tarefa central da filosofia é a análise — decompor conceitos complexos em seus componentes mais simples e precisos; programa que define a filosofia analítica Bens intrínsecos: certos estados são bons por si mesmos (amizade, beleza, conhecimento) — independentemente de qualquer consequência. Crítica ao hedonismo utilitarista Influenciado por Kant — ética deontológica e autonomia da moral Russell — programa analítico (influência mútua) Sidgwick — intuicionismo moral britânico Influenciou Russell e Wittgenstein — filosofia analítica Grupo de Bloomsbury (Virginia Woolf, Keynes) — ética e estética Metaética contemporânea (intuicionismo, realismo moral) Karl Popper — teoria do conhecimento Obras Principia Ethica (1903); Ética (1912); Estudos Filosóficos (1922); Alguns Problemas Fundamentais da Filosofia (1953). ...

Galileu Galilei

Galileu Galilei Nascido em Pisa em 1564, Galileu Galilei é frequentemente chamado de “pai da ciência moderna”. Professor de matemática em Pisa e Pádua, em 1609 aperfeiçoou o recém-inventado telescópio e o apontou para o céu — com resultados que abalaram a cosmologia aristotélica: montanhas e crateras na Lua, quatro satélites girando em torno de Júpiter, as fases de Vênus, manchas no Sol. O céu, afinal, não era o reino perfeito e imutável que se supunha. ...

Gayatri Spivak

Gayatri Spivak Gayatri Chakravorty Spivak (n. 1942, Calcutá) é uma teórica indiana e professora de literatura comparada na Universidade Columbia. Sua tradução para o inglês de De la grammatologie (1976) tornou Derrida acessível ao mundo anglófono e marcou o início de uma das obras mais influentes — e dificultosamente sintética — da teoria contemporânea. Spivak combina desconstrução, marxismo, feminismo e crítica pós-colonial. Foi associada ao Subaltern Studies Group, coletivo de historiadores sul-asiáticos que, a partir de Gramsci e de Ranajit Guha, propunha reescrever a história colonial e nacional a partir das classes subalternas. Seu ensaio “Can the Subaltern Speak?” (1988; Pode o subalterno falar?) tornou-se referência canônica do campo. Em obras posteriores, Spivak ampliou sua reflexão para a globalização, a pedagogia e a literatura-mundo. ...

Georg Lukács

Georg Lukács Georg (György) Lukács (13 de abril de 1885, Budapeste — 4 de junho de 1971, Budapeste) foi um filósofo e crítico literário húngaro, fundador, com sua obra de 1923, daquilo que se chamaria marxismo ocidental. Nascido em família judaica abastada e assimilada, formou-se na cultura neokantiana alemã — foi próximo de Georg Simmel e Max Weber — antes de aderir ao comunismo em 1918. Foi comissário do povo para a educação e a cultura na efêmera República Soviética Húngara de 1919 e, décadas depois, ministro da cultura no governo de Imre Nagy durante a Revolução Húngara de 1956. Sua trajetória, atravessada por sucessivas autocríticas e por uma relação tensa com o stalinismo, vai da estética pré-marxista ao marxismo hegeliano e, por fim, a uma vasta Ontologia do Ser Social. ...

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