Édouard Glissant

Édouard Glissant Édouard Glissant (21 de setembro de 1928, Sainte-Marie, Martinica — 3 de fevereiro de 2011, Paris) foi poeta, romancista, ensaísta e filósofo, uma das maiores figuras do pensamento caribenho e da teoria pós-colonial de língua francesa. Aluno do Lycée Schœlcher, onde teve Aimé Césaire entre seus professores, estudou depois filosofia na Sorbonne e etnografia no Musée de l’Homme, em Paris. Recebeu o Prêmio Renaudot em 1958 pelo romance La Lézarde. Toda a sua obra — atravessando poesia, ficção e filosofia — gira em torno de uma intuição: a de que a identidade não se funda numa raiz única, mas numa relação sempre aberta com o outro. Contra as filosofias da pureza e da origem, Glissant pensou o Caribe — terra da plantação, do desenraizamento e da mistura forçada — como laboratório de uma humanidade por vir. ...

Edward Said

Edward Said Edward Wadie Said (1935–2003) foi um crítico literário e teórico cultural palestino-americano. Nasceu em Jerusalém sob o Mandato Britânico, em família cristã palestina; foi criado entre Jerusalém e o Cairo, formou-se em Princeton e Harvard, e ensinou literatura comparada na Universidade Columbia de 1963 até sua morte. Sua obra Orientalism (1978; Orientalismo) é considerada texto fundador dos estudos pós-coloniais: ali, mobilizando Foucault (discurso/poder) e Gramsci (hegemonia), Said sustenta que o “Oriente” não é uma região neutra do mundo, mas uma construção do discurso ocidental que produz seu objeto e legitima a dominação colonial. Said foi também um intelectual público de primeira grandeza: membro do Conselho Nacional Palestino entre 1977 e 1991, defensor da causa palestina, modelo influente do “intelectual exilado” e dissidente. ...

Elizabeth Anscombe

Elizabeth Anscombe Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe (1919–2001) foi uma das mais originais filósofas analíticas do século XX. Aluna e amiga próxima de Ludwig Wittgenstein em Cambridge, tornou-se uma de suas executoras literárias e traduziu para o inglês as Investigações Filosóficas (Philosophical Investigations, 1953), tradução até hoje canônica. Católica convicta, uniu o rigor da tradição analítica a uma sensibilidade aristotélico-tomista que marcaria toda a sua obra. Sua monografia Intention (1957) é amplamente reconhecida como o texto fundador da filosofia da ação contemporânea, enquanto o artigo “Modern Moral Philosophy” (1958) é apontado como o ponto de partida do revival da ética da virtude no mundo anglófono. Lecionou em Oxford e, a partir de 1970, ocupou a cátedra de filosofia em Cambridge que pertencera a Wittgenstein. ...

Emmanuel Lévinas

Emmanuel Lévinas Filósofo lituano-francês, um dos pensadores mais importantes do século XX. Introduziu Husserl e Heidegger na França, mas depois os superou criticamente. Sobrevivente do Holocausto, desenvolveu uma filosofia onde a ética é a filosofia primeira — anterior à ontologia. Conceitos-chave O Rosto (le visage): a manifestação do Outro que me interpela e exige resposta — não é uma face física, mas uma presença ética que diz “não matarás”; o ponto de onde emerge toda responsabilidade moral Ética como filosofia primeira: contra Heidegger, para quem a ontologia (ser) é fundamento de tudo — para Lévinas, a relação ética com o Outro precede e funda toda ontologia Alteridade radical (autrui): o Outro não é redutível ao mesmo, não pode ser totalmente compreendido ou assimilado — sua irredutibilidade é o fato ético fundamental Totalidade e Infinito: a filosofia ocidental tende à “totalização” — englobar o diferente no mesmo. O Infinito irrompe nessa totalidade pelo rosto do Outro, resistindo à captura Responsabilidade infinita: sou responsável pelo Outro de modo assimétrico e sem reciprocidade — “sou responsável mesmo pelo que não fiz”; a responsabilidade precede a liberdade Il y a (há): experiência do ser anônimo, impessoal, ameaçador — o rumor do ser antes de qualquer existente; a noite em que o ser se torna insuportável Dizer e Dito (le Dire / le Dit): o “Dizer” é a exposição ética ao Outro, o ato de endereçamento; o “Dito” é o conteúdo proposicional — a ética está no Dizer, que o Dito sempre trai Influenciado por Husserl — fenomenologia (foi seu aluno e tradutor) Heidegger — ontologia fundamental (depois criticamente superado) Bergson — filosofia da duração e vida Tradição judaica (Talmude, Rosenzweig, Buber) Influenciou Derrida — desconstrução e ética (debate sobre violência e metafísica) Habermas — ética e reconhecimento do outro Judith Butler — vulnerabilidade e responsabilidade ética Teologia cristã e judaica contemporânea Estudos pós-coloniais e teoria do reconhecimento Obras Da Existência ao Existente (1947); Totalidade e Infinito (1961); De Outra Forma que Ser (1974); Ética e Infinito (1982). ...

Emmanuel Mounier

Emmanuel Mounier Emmanuel Mounier nasceu em Grenoble em 1º de abril de 1905 e morreu em Châtenay-Malabry, nos arredores de Paris, em 22 de março de 1950. Estudou filosofia em Grenoble, onde foi aluno de Jacques Chevalier, e em Paris. Em 1932 fundou, com Georges Izard e outros colaboradores, a revista Esprit, que dirigiu até a morte e que se tornou o principal veículo do personalismo na França. Em agosto de 1941, o regime de Vichy proibiu a revista; Mounier foi preso em 1942 e depois liberado e absolvido. A publicação voltou a circular no pós-guerra. Morreu aos 44 anos, em plena atividade intelectual, deixando uma obra voltada menos à construção de um sistema do que à orientação de um movimento de ideias e de engajamento. ...

Empédocles

Empédocles Empédocles (c. 494–434 a.C.) foi uma das figuras mais extraordinárias da filosofia grega: ao mesmo tempo filósofo, médico, poeta, orador e líder político em sua cidade natal, Agrigento, na Sicília. Em torno dele formou-se uma aura lendária — apresentava-se quase como um deus entre os homens, e a tradição conta que teria se lançado na cratera do Etna para confirmar sua divindade. Expôs suas ideias em dois poemas, Sobre a Natureza e Purificações. ...

Enrique Dussel

Enrique Dussel Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1934, Enrique Dussel teve formação cosmopolita — estudou na Argentina, na Espanha, na França e na Alemanha, e pesquisou também a história da Igreja na América Latina. Após um atentado a bomba contra sua casa, exilou-se no México em 1975, onde se naturalizou e viveu até sua morte, em 2023. É o principal nome da Filosofia da Libertação latino-americana e uma referência central do pensamento decolonial. ...

Epicuro

Epicuro Nascido na ilha de Samos por volta de 341 a.C., Epicuro fundou em Atenas, em 307 a.C., a escola conhecida como o Jardim (Kêpos) — comunidade de amigos que, de modo notável para a época, acolhia mulheres e escravos. Viveu de maneira simples e retirada, e morreu por volta de 270 a.C. enfrentando com serenidade as dores de uma doença renal. Sua filosofia, herdeira de Sócrates no ideal da filosofia como arte de viver, tem um objetivo terapêutico: libertar o ser humano daquilo que perturba sua paz. ...

Epiteto

Epiteto Ex-escravo frígio; o estoico que mais viveu o que pregou. Sua distinção central estrutura toda a ética estoica: o que depende de nós (eph’ hêmin: pensamentos, impulsos, julgamentos, desejos) vs. o que não depende (ouk eph’ hêmin: corpo, fama, riqueza, saúde). A liberdade interior é absoluta e não pode ser tirada por nenhum senhor. “Suporta e abstém-te” (anékhou kai apékhou). Nascido em Hierápolis, na Frígia (atual Turquia), Epiteto passou os primeiros anos da vida na condição de escravo em Roma, a serviço de Epafrodito, liberto ligado à corte de Nero. Foi nesse contexto que estudou com o estoico Musônio Rufo, de quem herdou a convicção de que a filosofia só vale na medida em que transforma a conduta. Conta-se que era coxo — tradição que ele próprio teria comentado com serena indiferença, exemplo vivo de sua doutrina de que a deficiência atinge o corpo, não a prohairesis, a vontade que escolhe. Liberto mais tarde, dedicou-se ao ensino em Roma até que o imperador Domiciano expulsou os filósofos da cidade; transferiu-se então para Nicópolis, no Epiro (noroeste da Grécia), onde fundou uma escola que atraiu discípulos de toda parte, inclusive jovens da elite romana. ...

Erasmo de Roterdã

Erasmo de Roterdã Nascido em Roterdã por volta de 1466, Erasmo (Desidério Erasmo de Roterdã) foi o maior humanista do Renascimento do Norte da Europa — o “príncipe dos humanistas”. Cônego agostiniano e padre, dedicou-se às letras e percorreu a Europa, travando amizade com Thomas Morus na Inglaterra. Erudito incomparável em grego e latim, fez da palavra culta um instrumento de reforma e de ironia. Morreu na Basileia em 1536, tendo recusado tanto o dogmatismo da velha Igreja quanto a ruptura protestante. ...

Eric Voegelin

Eric Voegelin Eric Voegelin nasceu em Colônia, Alemanha, em 3 de janeiro de 1901, e morreu em Stanford, Califórnia, em 19 de janeiro de 1985. Criado em Viena, doutorou-se em 1922 na Universidade de Viena, sob orientação de Hans Kelsen e Othmar Spann, e ali lecionou até o Anschluss de 1938, quando emigrou para os Estados Unidos. Lecionou na Louisiana State University (de 1942 a 1958), retornou à Alemanha para ocupar a cátedra de ciência política da Universidade de Munique (1958–1969) e passou seus últimos anos no Hoover Institution, em Stanford. ...

Ernst Cassirer

Ernst Cassirer Ernst Cassirer nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 28 de julho de 1874 e morreu em Nova York em 13 de abril de 1945. Formado na tradição neokantiana da Escola de Marburg — cujos pilares eram Hermann Cohen e Paul Natorp —, Cassirer começou a vida intelectual editando textos de Leibniz e estudando os fundamentos lógicos das ciências exatas. Mas o projeto que o tornaria singular na filosofia do século XX foi uma ampliação radical da herança kantiana: onde Kant havia perguntado pelas condições de possibilidade do conhecimento científico, Cassirer perguntou pelas condições de possibilidade de toda forma de sentido humano — do mito à linguagem, da arte à ciência. Essa reorientação resultou na monumental Filosofia das Formas Simbólicas (3 vols., 1923–1929), obra que transformou a epistemologia neokantiana em uma filosofia da cultura de alcance antropológico. ...

Étienne Gilson

Étienne Gilson Étienne Gilson nasceu em Paris em 13 de junho de 1884 e morreu em Cravant, na Borgonha, em 19 de setembro de 1978. Formado na Sorbonne, onde teve entre seus mestres o sociólogo Lucien Lévy-Bruhl, defendeu em 1913 uma tese sobre a liberdade em Descartes e sua relação com a teologia escolástica, o que o levou a estudar de perto as fontes medievais do pensamento moderno. Foi professor em Lille, Estrasburgo e na Sorbonne e, a partir de 1932, ocupou a cátedra de filosofia medieval no Collège de France, que deixou em 1951. Proferiu em Aberdeen as Gifford Lectures de 1931–1932, publicadas como L’Esprit de la philosophie médiévale (1932). Em 1929 contribuiu para a fundação, em Toronto, do Institut d’études médiévales (mais tarde Pontifical Institute of Mediaeval Studies), onde ensinou por longos períodos. Foi eleito para a Académie française em 1946. ...

Farias Brito

Farias Brito Raimundo de Farias Brito (1862–1917), nascido no Ceará, é considerado um dos pensadores mais originais da filosofia brasileira de seu período. Em uma época marcada pela hegemonia do positivismo e do materialismo de inspiração científica, Farias Brito desenvolveu um espiritualismo de tom próprio, no qual a consciência é tomada como a realidade fundamental e como verdadeiro ponto de partida da reflexão filosófica. Sua obra, de forte acento metafísico, dirige-se contra a redução do real ao mero mecanismo material e busca recolocar o problema do espírito no centro da filosofia. Embora menos lido fora dos círculos especializados, exerceu influência duradoura sobre o pensamento católico e espiritualista brasileiro das gerações seguintes. ...

Ferdinand de Saussure

Ferdinand de Saussure Ferdinand de Saussure (26 de novembro de 1857, Genebra — 22 de fevereiro de 1913, Vufflens-le-Château) foi um linguista suíço, considerado o pai da linguística moderna e a fonte teórica de que se alimentaria o estruturalismo no século XX. Formou-se na tradição comparatista de Leipzig, entre os neogramáticos, e aos 21 anos publicou o Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes (1878), em que postulou, por pura coerência do sistema, a existência de “coeficientes sonânticos” cuja realidade só seria confirmada décadas depois, com o deciframento do hitita (as laringais). Lecionou em Paris e, a partir de 1891, em Genebra, onde ministrou três vezes (1907; 1908–09; 1910–11) um curso de linguística geral. Publicou pouco em vida; sua obra decisiva é póstuma. ...

Filon de Alexandria

Filon de Alexandria Nota sobre datação: as datas de Fílon não são conhecidas com precisão; sua vida é estimada entre c. 25/15 a.C. e c. 45/50 d.C., tendo como ponto de referência firmemente datado a embaixada que liderou a Calígula em 39/40 d.C., relatada em Legatio ad Gaium. Fílon de Alexandria — em latim Philo Iudaeus, “Fílon o Judeu” — foi um pensador judeu helenístico, oriundo de uma das famílias mais ricas e influentes da diáspora judaica de Alexandria. Cidadão romano, contemporâneo de Jesus, Sêneca e dos primeiros imperadores júlio-claudianos, escreveu inteiramente em grego e operou no cruzamento de duas tradições: o judaísmo bíblico e a filosofia grega — especialmente o platonismo médio, o estoicismo e o pitagorismo. Em 38 d.C. Alexandria foi palco de violentos ataques antijudaicos sob o governo de Aulo Avílio Flaco (narrados em In Flaccum), e em 39/40 d.C. Fílon liderou a delegação dos judeus de Alexandria que se dirigiu a Roma para apresentar queixas a Calígula. Atenção: Fílon é frequentemente classificado, de modo impreciso, como “neoplatônico”; rigorosamente, ele é pré-neoplatônico — anterior a Plotino em mais de dois séculos — e deve ser situado no platonismo médio. ...

Fiódor Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 11 de novembro de 1821 (30 de outubro, pelo calendário juliano) e morreu em São Petersburgo em 9 de fevereiro de 1881 (28 de janeiro, no calendário juliano). Estreou na literatura com Gente Pobre (1846). Em 1849 foi preso por sua ligação com o círculo de Petrachévski, simulou-se sua execução e a pena foi comutada em trabalhos forçados na Sibéria, em Omsk (1850–1854), seguidos de serviço militar. A experiência da prisão, descrita em Memórias da Casa dos Mortos (1860–1862), e seu retorno à fé cristã ortodoxa marcaram profundamente sua obra posterior. ...

Frances Kamm

Frances Kamm Frances Myrna Kamm (n. c. 1947) é uma das mais rigorosas e influentes filósofas morais da tradição analítica contemporânea. Formada nos Estados Unidos, construiu sua carreira acadêmica em instituições como NYU, Rutgers e Harvard, onde lecionou por muitos anos na Escola de Governo Kennedy e no departamento de filosofia. Seu projeto intelectual central consiste em desenvolver uma teoria não-consequencialista dos direitos morais e do dano permissível que seja ao mesmo tempo normativamente precisa e metodologicamente transparente. Contra as éticas que avaliam ações exclusivamente pelos seus resultados, Kamm argumenta que há restrições deontológicas genuínas — estruturas morais que determinam o que é permitido fazer a uma pessoa, independentemente do quanto bem isso geraria no todo. ...

Francis Bacon

Francis Bacon “Pai do Empirismo” e da ciência experimental moderna. Lorde Chanceler da Inglaterra; caiu em desgraça por corrupção. Seu projeto era renovar o saber substituindo o Organon de Aristóteles por um novo método indutivo-experimental. Bacon escreve na passagem do Renascimento para a modernidade, num momento em que a filosofia natural ainda era dominada pelo aristotelismo escolástico transmitido pelas universidades. Contra essa tradição, ele diagnostica que o conhecimento herdado havia se tornado estéril: muito hábil em disputar e classificar, mas incapaz de produzir obras úteis e de ampliar o domínio humano sobre a natureza. O problema central, para Bacon, não era a falta de inteligência, mas a falta de um método correto. A lógica silogística de Aristóteles, em sua leitura, apenas reorganiza noções confusas já contidas nas palavras, sem garantir que essas noções correspondam às coisas; por isso ela serve para vencer debates, não para descobrir verdades novas sobre o mundo. Em resposta, Bacon propõe uma “Grande Instauração” (Instauratio Magna) do saber, um recomeço que parte da experiência ordenada e da observação metódica em vez da autoridade dos antigos. ...

Francis Fukuyama

Francis Fukuyama Francis Yoshihiro Fukuyama (1952–) nasceu em Chicago, filho de um pastor protestante nipo-americano de segunda geração, doutor em sociologia, e de uma nascida em Kyoto, filha do economista Shiro Kawata, fundador do Departamento de Economia da Universidade de Kyoto. Formou-se em estudos clássicos pela Universidade Cornell — onde foi aluno de Allan Bloom — e doutorou-se em ciência política pela Universidade Harvard. Trabalhava no corpo de planejamento político (Policy Planning Staff) do Departamento de Estado dos Estados Unidos quando publicou, no verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o ensaio que o tornaria mundialmente conhecido: “The End of History?”, na revista The National Interest. Ampliado em livro como O Fim da História e o Último Homem (1992), o argumento provocou um dos debates intelectuais mais intensos do fim do século XX. ...

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