Claude Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss Antropólogo e filósofo francês; fundador do estruturalismo nas ciências humanas. Aplicou o modelo da linguística de Saussure à antropologia, transformando o estudo dos mitos, parentesco e culturas “primitivas”. Nascido em Bruxelas em 1908 e falecido em Paris em 2009, Lévi-Strauss estudou filosofia e direito antes de se tornar professor no Brasil — lecionou na Universidade de São Paulo entre 1935 e 1939, período em que realizou trabalho de campo entre povos indígenas do Mato Grosso e da Amazônia. Essa experiência direta com sociedades ameríndias foi decisiva: em vez de confirmar o evolucionismo dominante, ela o levou a questionar radicalmente a hierarquia entre “pensamento primitivo” e “pensamento científico”. De volta à Europa e depois exilado em Nova York durante a Segunda Guerra Mundial, frequentou o linguista Roman Jakobson, cujo formalismo fonológico forneceu a Lévi-Strauss o instrumento metodológico central: a análise das oposições binárias como chave para decifrar sistemas culturais. ...

Confúcio (Kǒngzǐ)

Confúcio (Kǒngzǐ) Confúcio (em chinês: Kǒngzǐ 孔子, “Mestre Kong”; latinização jesuíta: Confucius) nasceu no estado de Lu (atual província de Shandong, China) em 551 a.C. e faleceu em 479 a.C. Foi professor, funcionário público e reformador moral que, após uma vida de esforços políticos frustrados, dedicou-se ao ensino e ao estudo dos clássicos da Antiguidade chinesa. Seu pensamento é conhecido principalmente pelo Lunyu (Analectos 論語), compilação de ditos e diálogos feita por seus discípulos e pela tradição posterior — a historicidade de passagens individuais é objeto de debate entre especialistas. ...

Crisipo de Solos

Crisipo de Solos Crisipo de Solos (c. 280–c. 207 a.C.) foi o terceiro escolarca (diretor) da escola estoica de Atenas e é considerado, ao lado de Zenão de Cítio, o segundo fundador do Estoicismo. Enquanto Zenão fundou a escola e estabeleceu suas teses fundamentais, foi Crisipo quem elaborou sistematicamente a lógica, a física e a ética estoicas, produzindo uma obra monumental que a tradição antiga estimava em mais de 700 títulos — quase todos perdidos. O que sabemos de seu pensamento vem de fontes secundárias: Diógenes Laërcio, Plutarco, Cícero, Sextus Empiricus e Epicteto. ...

Daniel Dennett

Daniel Dennett Daniel Clement Dennett foi um dos filósofos da mente e da ciência cognitiva mais influentes e provocadores das últimas décadas. Professor na Universidade Tufts, onde co-dirigiu o Centro de Estudos Cognitivos, defendeu ao longo de toda a sua obra um naturalismo radical: a mente, a consciência e o livre-arbítrio podem ser plenamente integrados a uma visão de mundo científica e darwiniana, sem resíduos misteriosos. Escritor de extraordinária clareza e humor, Dennett dialogou de perto com a inteligência artificial, a biologia evolutiva e a neurociência, e tornou-se também uma figura pública conhecida por suas críticas à religião. Faleceu em abril de 2024. ...

David Chalmers

David Chalmers David John Chalmers é um dos filósofos da mente mais influentes das últimas três décadas. Nascido em Sydney, Austrália, e com formação em matemática antes de migrar para a filosofia, Chalmers tornou-se professor na Universidade do Arizona e depois em Nova York (NYU), onde co-dirige o Centro para Mente, Cérebro e Consciência. Seu livro de estreia, The Conscious Mind (1996), redefiniu os termos do debate sobre a consciência e colocou o que ele nomeou como “problema difícil” no centro da agenda filosófica e científica. ...

David Hume

David Hume Figura central do Iluminismo escocês, David Hume nasceu em Edimburgo em 1711. Publicou ainda muito jovem seu Tratado da Natureza Humana (1739-40), obra que, em suas próprias palavras, “caiu natimorta do prelo” e só seria reconhecida muito depois. Sua fama de cético em matéria de religião custou-lhe as cátedras universitárias a que aspirava; ganhou a vida como bibliotecário, secretário diplomático e, sobretudo, como ensaísta e historiador de grande êxito. Homem de temperamento sereno e afável — o “bom David” —, morreu em 1776 enfrentando a morte com a tranquilidade de um sábio. ...

Demócrito

Demócrito Natural de Abdera, na Trácia, e ativo por volta de 430 a.C., Demócrito foi um dos espíritos mais eruditos da Antiguidade — viajou muito e escreveu sobre quase tudo, embora nenhuma de suas obras tenha chegado até nós. A tradição o apelidou de “o filósofo que ri”, em contraste com o melancólico Heráclito. Junto com seu mestre Leucipo, é o fundador do atomismo, a primeira filosofia plenamente materialista e mecanicista da história. ...

Denis Diderot

Denis Diderot Denis Diderot (1713–1784) é uma das figuras mais complexas e produtivas do Iluminismo francês. Filho de um cuteleiro de Langres, estudou em Paris, percorreu décadas de vida intelectual tumultuada e foi o principal responsável pela concepção e execução da Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers (1751–1772), que co-editou com Jean le Rond d’Alembert. O projeto reuniu as maiores inteligências do século — Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Turgot — com o objetivo de recolher, sistematizar e difundir o saber humano, colocando-o a serviço da razão e da crítica às superstições. A empresa, perseguida pela censura real e pela Igreja, é o monumento maior do espírito enciclopedista e da crença iluminista no poder transformador do conhecimento. ...

Derek Parfit

Derek Parfit Derek Parfit (11 de dezembro de 1942, Chengdu, China — janeiro de 2017, Oxford) foi um filósofo britânico, fellow do All Souls College de Oxford, considerado um dos mais importantes filósofos morais do final do século XX. Trabalhava de modo obsessivo e quase ascético, e publicou pouco — mas cada obra deixou marca profunda na filosofia da identidade pessoal, da racionalidade e da ética. Seu Razões e Pessoas (Reasons and Persons, 1984) é uma das obras-referência da filosofia analítica contemporânea. ...

Diógenes de Sinope

Diógenes de Sinope “Diógenes, o cão” (kynikós) — refundador e principal figura do Cinismo. Vivia num grande jarro de cerâmica (pithos) em Atenas, reduzia as necessidades ao mínimo e desprezava toda convenção social. Dizia buscar “um ser humano” (ἄνθρωπον) andando com lanterna acesa à luz do dia. Quando Alexandre Magno se ofereceu a conceder-lhe qualquer desejo, pediu apenas que saísse da frente do sol. Encarnou o anticultural radical: a virtude exige autossuficiência total, não filosofia abstrata. ...

Dogen

Dogen Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Dōgen Kigen (道元希玄), também conhecido como Dōgen Zenji (道元禅師, “o mestre Zen Dōgen”), é o fundador, no Japão, da escola Sōtō (曹洞) do Zen. Ordenou-se monge ainda na adolescência no monte Hiei, centro do budismo Tendai, e em 1223 partiu para a China Song meridional, onde estudou com o mestre Tiantong Rujing (天童如淨), na linhagem Caodong, da qual o Sōtō japonês descende. Voltou ao Japão em 1227 trazendo, em suas palavras, “olhos horizontais e nariz vertical” — isto é, nada além da experiência direta da prática. Em 1244 fundou o templo Eihei-ji (永平寺), até hoje uma das duas matrizes do Sōtō. ...

Don Ihde

Don Ihde Don Ihde nasceu em Hope, Kansas, em 14 de janeiro de 1934, e faleceu em 17 de janeiro de 2024, poucos dias depois de completar noventa anos. Doutorou-se em filosofia pela Boston University em 1964, sob orientação de Erazim Kohák, com uma tese sobre a metodologia fenomenológica de Paul Ricoeur. Em 1969 ingressou no corpo docente da State University of New York em Stony Brook, onde ajudou a fundar o Departamento de Filosofia no início da década de 1970 e permaneceu por 43 anos, aposentando-se em 2012 como Distinguished Professor. ...

Donald Davidson

Donald Davidson Donald Davidson foi um dos filósofos analíticos mais originais da segunda metade do século XX. Professor na Universidade da Califórnia em Berkeley a partir de 1981, após passagens por Stanford, Princeton e Rockefeller, Davidson construiu um sistema filosófico notável pela coerência interna: sua filosofia da mente, sua teoria da ação, sua semântica e sua epistemologia estão intimamente conectadas, articuladas em torno de temas como eventos, causalidade, verdade e interpretação. ...

Duns Scotus

Duns Scotus Nascido por volta de 1266 em Duns, na Escócia, João Duns Scotus entrou na ordem franciscana e ensinou em Oxford, Paris e Colônia, onde morreu prematuramente em 1308. A sutileza e o rigor de suas distinções lhe valeram o título de “Doutor Sutil”. Ao lado de Tomás de Aquino e Guilherme de Ockham, é um dos grandes nomes da alta Escolástica — e o principal contraponto franciscano ao tomismo. ...

Edmund Husserl

Edmund Husserl Nascido em 1859 em Proßnitz, na Morávia (então Império Austríaco), Edmund Husserl formou-se em matemática antes de se voltar para a filosofia sob a influência de Franz Brentano, de quem herdou a noção de intencionalidade. Insatisfeito com o psicologismo que reduzia a lógica a leis da mente, propôs-se a refundar a filosofia como ciência rigorosa, capaz de descrever com exatidão a experiência. Foi professor em Göttingen e Freiburg, onde teve Heidegger como assistente e sucessor. Judeu, foi despojado de seus direitos pelo nazismo e morreu isolado em 1938; seus milhares de manuscritos só se salvaram porque um monge franciscano os contrabandeou para a Bélgica. ...

Édouard Glissant

Édouard Glissant Édouard Glissant (21 de setembro de 1928, Sainte-Marie, Martinica — 3 de fevereiro de 2011, Paris) foi poeta, romancista, ensaísta e filósofo, uma das maiores figuras do pensamento caribenho e da teoria pós-colonial de língua francesa. Aluno do Lycée Schœlcher, onde teve Aimé Césaire entre seus professores, estudou depois filosofia na Sorbonne e etnografia no Musée de l’Homme, em Paris. Recebeu o Prêmio Renaudot em 1958 pelo romance La Lézarde. Toda a sua obra — atravessando poesia, ficção e filosofia — gira em torno de uma intuição: a de que a identidade não se funda numa raiz única, mas numa relação sempre aberta com o outro. Contra as filosofias da pureza e da origem, Glissant pensou o Caribe — terra da plantação, do desenraizamento e da mistura forçada — como laboratório de uma humanidade por vir. ...

Edward Said

Edward Said Edward Wadie Said (1935–2003) foi um crítico literário e teórico cultural palestino-americano. Nasceu em Jerusalém sob o Mandato Britânico, em família cristã palestina; foi criado entre Jerusalém e o Cairo, formou-se em Princeton e Harvard, e ensinou literatura comparada na Universidade Columbia de 1963 até sua morte. Sua obra Orientalism (1978; Orientalismo) é considerada texto fundador dos estudos pós-coloniais: ali, mobilizando Foucault (discurso/poder) e Gramsci (hegemonia), Said sustenta que o “Oriente” não é uma região neutra do mundo, mas uma construção do discurso ocidental que produz seu objeto e legitima a dominação colonial. Said foi também um intelectual público de primeira grandeza: membro do Conselho Nacional Palestino entre 1977 e 1991, defensor da causa palestina, modelo influente do “intelectual exilado” e dissidente. ...

Elizabeth Anscombe

Elizabeth Anscombe Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe (1919–2001) foi uma das mais originais filósofas analíticas do século XX. Aluna e amiga próxima de Ludwig Wittgenstein em Cambridge, tornou-se uma de suas executoras literárias e traduziu para o inglês as Investigações Filosóficas (Philosophical Investigations, 1953), tradução até hoje canônica. Católica convicta, uniu o rigor da tradição analítica a uma sensibilidade aristotélico-tomista que marcaria toda a sua obra. Sua monografia Intention (1957) é amplamente reconhecida como o texto fundador da filosofia da ação contemporânea, enquanto o artigo “Modern Moral Philosophy” (1958) é apontado como o ponto de partida do revival da ética da virtude no mundo anglófono. Lecionou em Oxford e, a partir de 1970, ocupou a cátedra de filosofia em Cambridge que pertencera a Wittgenstein. ...

Emmanuel Lévinas

Emmanuel Lévinas Filósofo lituano-francês, um dos pensadores mais importantes do século XX. Introduziu Husserl e Heidegger na França, mas depois os superou criticamente. Sobrevivente do Holocausto, desenvolveu uma filosofia onde a ética é a filosofia primeira — anterior à ontologia. Conceitos-chave O Rosto (le visage): a manifestação do Outro que me interpela e exige resposta — não é uma face física, mas uma presença ética que diz “não matarás”; o ponto de onde emerge toda responsabilidade moral Ética como filosofia primeira: contra Heidegger, para quem a ontologia (ser) é fundamento de tudo — para Lévinas, a relação ética com o Outro precede e funda toda ontologia Alteridade radical (autrui): o Outro não é redutível ao mesmo, não pode ser totalmente compreendido ou assimilado — sua irredutibilidade é o fato ético fundamental Totalidade e Infinito: a filosofia ocidental tende à “totalização” — englobar o diferente no mesmo. O Infinito irrompe nessa totalidade pelo rosto do Outro, resistindo à captura Responsabilidade infinita: sou responsável pelo Outro de modo assimétrico e sem reciprocidade — “sou responsável mesmo pelo que não fiz”; a responsabilidade precede a liberdade Il y a (há): experiência do ser anônimo, impessoal, ameaçador — o rumor do ser antes de qualquer existente; a noite em que o ser se torna insuportável Dizer e Dito (le Dire / le Dit): o “Dizer” é a exposição ética ao Outro, o ato de endereçamento; o “Dito” é o conteúdo proposicional — a ética está no Dizer, que o Dito sempre trai Influenciado por Husserl — fenomenologia (foi seu aluno e tradutor) Heidegger — ontologia fundamental (depois criticamente superado) Bergson — filosofia da duração e vida Tradição judaica (Talmude, Rosenzweig, Buber) Influenciou Derrida — desconstrução e ética (debate sobre violência e metafísica) Habermas — ética e reconhecimento do outro Judith Butler — vulnerabilidade e responsabilidade ética Teologia cristã e judaica contemporânea Estudos pós-coloniais e teoria do reconhecimento Obras Da Existência ao Existente (1947); Totalidade e Infinito (1961); De Outra Forma que Ser (1974); Ética e Infinito (1982). ...

Empédocles

Empédocles Empédocles (c. 494–434 a.C.) foi uma das figuras mais extraordinárias da filosofia grega: ao mesmo tempo filósofo, médico, poeta, orador e líder político em sua cidade natal, Agrigento, na Sicília. Em torno dele formou-se uma aura lendária — apresentava-se quase como um deus entre os homens, e a tradição conta que teria se lançado na cratera do Etna para confirmar sua divindade. Expôs suas ideias em dois poemas, Sobre a Natureza e Purificações. ...

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