René Descartes

René Descartes Frequentemente chamado de “pai da filosofia moderna”, René Descartes nasceu em 1596 em La Haye, na Touraine francesa, e formou-se no rigoroso colégio jesuíta de La Flèche. Insatisfeito com o saber livresco, alistou-se como voluntário nos exércitos da Guerra dos Trinta Anos; foi nesse período, segundo seu relato, que teve em 1619 a intuição de um método universal capaz de dar à filosofia a mesma certeza da matemática. Viveu a maior parte da vida produtiva na Holanda e morreu em 1650 em Estocolmo, para onde fora convidado a instruir a rainha Cristina da Suécia. Foi também grande matemático: a geometria analítica e o sistema de coordenadas que leva seu nome são criações suas. ...

René Girard

René Girard René Girard nasceu em Avignon, na França, em 25 de dezembro de 1923, e morreu em Stanford, na Califórnia, em 4 de novembro de 2015. Formado como paleógrafo e arquivista pela École des Chartes, mudou-se para os Estados Unidos em 1947 e doutorou-se em história pela Universidade de Indiana em 1950. Lecionou na Universidade Johns Hopkins, na Universidade Estadual de Nova York em Buffalo e, a partir de 1981, em Stanford, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1995. Foi eleito membro da Academia Francesa em 2005. ...

Richard Rorty

Richard Rorty Richard McKay Rorty foi um filósofo americano que lecionou em Princeton, na Universidade da Virgínia e em Stanford. Começou como filósofo analítico formado na tradição Wittgenstein-Sellars, mas Philosophy and the Mirror of Nature (1979) o projetou como um dos críticos mais radicais da tradição epistemológica ocidental. Rorty é o principal representante do neopragmatismo, que combina a herança pragmatista americana (Dewey, James) com elementos da filosofia continental (Heidegger, Derrida) e da filosofia analítica tardia (Wittgenstein, Quine, Sellars). ...

Robert Nozick

Robert Nozick Robert Nozick foi um filósofo político americano, professor em Harvard, cujo Anarchy, State, and Utopia (1974) se tornou a resposta libertária mais sistemática e rigorosa à teoria da justiça de John Rawls, reorientando o debate político-filosófico anglofônico por décadas. Além da filosofia política, contribuiu de modo original à epistemologia, à metafísica e à ética. Conceitos-chave Teoria do Direito como Restrição Lateral (Anarchy, State, and Utopia, 1974): Nozick sustenta que os direitos individuais são restrições laterais (side constraints) à ação — não fatores a serem maximizados dentro de um cálculo, mas limites que não podem ser violados mesmo quando a violação produziria resultados melhores para o maior número. A dignidade individual proíbe usar pessoas como meros meios para fins alheios. Estado Mínimo: O único Estado justificável é o Estado mínimo — limitado a proteger os cidadãos contra violência, roubo, fraude e a fazer cumprir contratos. Qualquer Estado mais extenso que redistribua riqueza viola os direitos de pessoas sem seu consentimento — seria equivalente ao trabalho forçado (taxar o fruto do trabalho de alguém para beneficiar outro). Teoria do Direito (Entitlement Theory): A distribuição de bens é justa se resulta de aquisições e transferências justas — não importa o padrão resultante, mas a história. Nozick distingue: (a) justiça na aquisição — como os recursos não-possuídos podem ser apropriados legitimamente; (b) justiça na transferência — como bens passam de mãos por troca voluntária, doação, herança; (c) retificação — correção de injustiças históricas. Argumento de Wilt Chamberlain: Qualquer distribuição “padrão” (igualitária, proporcional etc.) será desfeita por trocas voluntárias. Se cada pessoa, livremente, dá um centavo a Wilt Chamberlain para vê-lo jogar, o padrão original se desfaz — mas nenhum direito foi violado. Assim, respeitar a liberdade desfaz padrões; impor padrões requer interferência contínua na liberdade. Crítica a Rawls: O princípio da diferença rawlsiano (desigualdades só se justificam se beneficiam os mais desfavorecidos) trata a sociedade como se seus recursos fossem um bolo a distribuir. Mas os recursos já pertencem a alguém — resultado de escolhas, esforços e trocas livres. Não há “distribuição social” neutra a ser (re)feita. Filosofia Posterior: Philosophical Explanations (1981) explora epistemologia (condicionais subjuntivos como análise do conhecimento), metafísica da identidade pessoal e ética, com estilo mais tentativo do que o tom assertivo de Anarchy. The Examined Life (1989) é mais pessoal e reflexivo. Em The Nature of Rationality (1993) examina a racionalidade prática e teórica. ...

Rodolfo Kusch

Rodolfo Kusch Nascido em Buenos Aires em 1922, em família de origem alemã, Rodolfo Kusch uniu filosofia e antropologia de um modo raro: em vez de pensar a América a partir dos livros europeus, percorreu o noroeste argentino e o altiplano boliviano em extenso trabalho de campo, ouvindo o pensamento quéchua e aimará. Dessa experiência nasceu uma pergunta radical: a ontologia europeia seria mesmo capaz de compreender a maior parte da experiência humana? ...

Roland Barthes

Roland Barthes Roland Barthes (12 de novembro de 1915, Cherbourg — 26 de março de 1980, Paris) foi um crítico literário, semiólogo e ensaísta francês, uma das figuras centrais do estruturalismo e da virada pós-estruturalista. Marcado na juventude pela tuberculose, que o afastou da carreira universitária regular, construiu uma obra inclassificável, a meio caminho entre a crítica, a filosofia e a literatura. Em 1977 foi eleito para uma cátedra de semiologia literária no Collège de France. Morreu em 1980, semanas depois de ser atropelado por uma camionete em Paris. ...

Romano Guardini

Romano Guardini Romano Guardini nasceu em Verona em 17 de fevereiro de 1885 e morreu em Munique em 1º de outubro de 1968. Filho de pais italianos, cresceu em Mainz, na Alemanha, e naturalizou-se alemão. Estudou química, economia e teologia, foi ordenado sacerdote em 1910 e obteve a habilitação em 1922 com um trabalho sobre a doutrina da redenção em Boaventura. Em 1923 recebeu em Berlim uma cátedra de filosofia da religião e visão de mundo católica, que ocupou até 1939, quando o regime nacional-socialista o afastou do ensino. Depois da guerra, lecionou em Tübingen (1945–1948) e, a partir de 1948, em Munique, até 1962. Foi também figura importante do movimento juvenil católico, especialmente no Burg Rothenfels, e do movimento litúrgico alemão. ...

Ronald Dworkin

Ronald Dworkin Filósofo do direito e da moral americano, professor em Yale, Oxford e New York University; a obra de Dworkin constitui a mais influente crítica ao positivismo jurídico do século XX e uma teoria normativa abrangente que integra direito, moralidade política e ética. Conceitos-chave Princípios vs. regras: contra Hart, Dworkin argumenta que os sistemas jurídicos incluem não apenas regras (que se aplicam tudo-ou-nada) mas também princípios e políticas. Princípios como “ninguém deve se beneficiar de seu próprio ilícito” têm peso e dimensão; não derivam de nenhuma regra de reconhecimento — o que prova que o positivismo é insuficiente como teoria descritiva do direito Crítica à discricionariedade: Hart admite que nos “casos difíceis” os juízes exercem discricionariedade, criando direito novo. Dworkin rejeita isso: mesmo nos casos difíceis existe uma resposta correta (one right answer thesis) — o juiz descobre o direito existente, não o cria Direitos como trunfos (rights as trumps): em Taking Rights Seriously (1977), os direitos individuais são “trunfos” que se sobrepõem a argumentos de utilidade coletiva ou política — nenhum objetivo social pode justificar violá-los. Dworkin defende um liberalismo igualitário fundado em igual consideração e respeito Direito como integridade (law as integrity): em Law’s Empire (1986), o direito não é um conjunto de fatos brutos (positivismo) nem uma lista de valores naturais (jusnaturalismo), mas uma prática interpretativa. O direito como integridade exige que os juízes tratem o sistema como expressão de um conjunto coerente de princípios morais Romance em cadeia (chain novel): metáfora do processo interpretativo — o juiz que decide um caso difícil é como um escritor que continua um romance escrito por vários autores; deve ser fiel aos capítulos anteriores e, ao mesmo tempo, tornar a obra a melhor possível Juiz Hércules: personagem ideal (não real) dotado de capacidade sobre-humana de encontrar a decisão que melhor se ajusta aos princípios do sistema e o torna moralmente mais coerente. Crítica implícita: decisões judiciais reais devem se aproximar deste ideal Igualdade de recursos (equality of resources): em Sovereign Virtue (2000), a distribuição justa exige que os recursos sejam divididos de modo que ninguém inveje a cota do outro, corrigindo desvantagens impostas pela fortuna bruta (doenças, deficiências) mas respeitando as escolhas pessoais Unidade do valor: em Justice for Hedgehogs (2011) — título evocando Isaiah Berlin e o ouriço que sabe “uma grande coisa” —, Dworkin defende que os valores éticos e morais formam um sistema coerente: viver bem e tratar os outros com justiça não são exigências em tensão, mas mutuamente dependentes Religião sem Deus: Religion without God (2013, póstumo) expande a tese da unidade do valor a uma atitude religiosa secular que reconhece valor e beleza intrínsecos no universo sem pressupor um Deus pessoal Influenciado por H.L.A. Hart — positivismo que Dworkin critica em profundidade Lon Fuller — “moralidade interna do direito” e a função integrativa dos princípios John Rawls — liberalismo igualitário, debate sobre igualdade Ronald Dworkin foi leitor atento de Isaiah Berlin, Kant e da tradição liberal americana Influenciou Toda a filosofia do direito contemporânea (ponto de referência obrigatório) Nino, Alexy e os debates sobre ponderação de princípios Jurisprudência constitucional americana e europeia Debates sobre controle de constitucionalidade e interpretação da Constituição Obras Taking Rights Seriously (1977); A Matter of Principle (1985); Law’s Empire (1986); Life’s Dominion (1993); Freedom’s Law (1996); Sovereign Virtue (2000); Justice in Robes (2006); Is Democracy Possible Here? (2006); Justice for Hedgehogs (2011); Religion without God (2013, póstumo). ...

Rudolf Carnap

Rudolf Carnap Rudolf Carnap foi a figura mais sistemática e influente do Círculo de Viena e do empirismo lógico, movimento que buscou refundar a filosofia sobre o rigor da lógica moderna e a fidelidade à experiência. Formado em física, lógica e filosofia na Alemanha, estudou com Gottlob Frege em Jena antes de se associar ao Círculo de Viena nos anos 1920. Com a ascensão do nazismo, emigrou para os Estados Unidos, onde lecionou em Chicago e na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Sua obra atravessa a construção lógica do conhecimento, a sintaxe e a semântica da linguagem, a teoria da confirmação e a lógica indutiva, sempre guiada pelo ideal de clareza conceitual. ...

Santo Agostinho

Santo Agostinho Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, no norte da África romana, filho de mãe cristã (Mônica) e pai pagão. Professor de retórica em Cartago, Roma e Milão, percorreu um longo itinerário intelectual e espiritual: entusiasmou-se com a filosofia ao ler Cícero, aderiu por anos ao maniqueísmo, passou pelo ceticismo e encontrou no neoplatonismo de Plotino o instrumento que o reconduziria ao cristianismo. Sua conversão, em Milão (386) — a célebre cena do “tolle, lege” (“toma e lê”) narrada nas Confissões —, foi um divisor de águas. Tornou-se bispo de Hipona e, até sua morte em 430, durante o cerco dos vândalos, foi o maior pensador da Patrística e uma das figuras mais influentes de toda a história do Ocidente. ...

São Boaventura

São Boaventura Giovanni di Fidanza, conhecido como Boaventura de Bagnoregio. Teólogo e filósofo franciscano; cardeal e Ministro-Geral da Ordem Franciscana. Contemporâneo e adversário cordial de Tomás de Aquino. Chamado de Doctor Seraphicus. Boaventura formou-se na Universidade de Paris, então o grande centro da escolástica latina, onde estudou as artes liberais e depois a teologia sob a orientação do mestre franciscano Alexandre de Hales. Ali lecionou ao mesmo tempo que Tomás de Aquino, num período em que a chegada maciça das obras de Aristóteles — muitas mediadas pelos comentários árabes de Averróis — forçava os teólogos cristãos a decidir o quanto da nova filosofia natural podiam absorver sem comprometer a fé. Boaventura representa a resposta agostiniana e franciscana a esse desafio: em vez de naturalizar plenamente a razão como Tomás, manteve a primazia da iluminação divina e da experiência interior, recusando-se a tratar a filosofia como saber autônomo separado da sabedoria que conduz a Deus. ...

Saul Kripke

Saul Kripke Saul Aaron Kripke foi provavelmente o filósofo analítico mais dotado tecnicamente de sua geração. Nascido em Omaha, Nebraska, revelou aptidão extraordinária desde a adolescência: publicou seu primeiro artigo lógico de maturidade — uma prova de completude para lógica modal — com dezoito anos, e correspondeu-se com profissionais de lógica enquanto ainda cursava o ensino médio. Professor em Princeton e depois no CUNY Graduate Center, Kripke transformou a metafísica, a filosofia da linguagem e a lógica modal de modo que praticamente toda filosofia analítica posterior ao debate em torno de Naming and Necessity é, em algum grau, uma resposta a ele. ...

Sêneca

Sêneca Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córduba, na Hispânia, por volta de 4 a.C., filho de Sêneca, o Velho, célebre mestre de retórica. Foi o mais influente e também o mais controverso dos estoicos romanos: senador rico e poderoso, conheceu o exílio na Córsega sob o imperador Cláudio e, de volta a Roma, tornou-se preceptor e depois conselheiro do jovem Nero, a quem buscou moderar nos primeiros anos de governo. Acusado de participar da conspiração de Pisão, foi obrigado por Nero a tirar a própria vida em 65 d.C. — morte que, segundo o relato de Tácito, enfrentou com a serenidade que sua filosofia pregava. ...

Sexto Empírico

Sexto Empírico Médico e filósofo grego, principal sistematizador do ceticismo pirrônico. Suas obras são a fonte mais completa sobre a tradição cética antiga fundada por Pirro. Enquanto os dogmáticos (estoicos, epicuristas, platônicos) pretendiam alcançar a verdade definitiva, Sexto defende a suspensão do juízo (epoché) como caminho para a tranquilidade (ataraxia). Sua influência foi decisiva na filosofia moderna, especialmente em Montaigne, Descartes e Hume. Sexto Empírico viveu e escreveu provavelmente entre os séculos II e III d.C., num período em que o ceticismo pirrônico havia sido revivido por Enesidemo cerca de dois séculos após Pirro de Élis. O cognome “Empírico” indica sua filiação à escola médica empírica, que rejeitava teorias causais ocultas e se atinha à experiência observável — postura metodológica que ressoa diretamente em sua filosofia. Embora pouquíssimo se saiba de sua biografia, sua produção textual é excepcional: as Hipotiposes Pirrônicas oferecem uma apresentação pedagógica do método cético em três livros, enquanto os onze livros de Adversus Mathematicos desmontam sistematicamente as pretensões de gramáticos, retóricos, geômetras, aritméticos, astrólogos, músicos, lógicos, físicos e éticos. Essa amplitude mostra que o ceticismo de Sexto não era uma posição de niilismo intelectual, mas um programa filosófico rigoroso: ao demonstrar que para cada afirmação dogmática existe um argumento contrário de igual força (isostenia), ele visa produzir a suspensão do juízo e, por consequência, a paz de espírito. ...

Sigmund Freud

Sigmund Freud Neurologista e fundador da psicanálise. Embora não seja estritamente filósofo, sua teoria do inconsciente, das pulsões e da repressão tornou-se uma das matrizes filosóficas mais influentes do séc. XX, especialmente para a Escola de Frankfurt, o existencialismo e o pós-estruturalismo. Conceitos-chave Inconsciente: a maior parte da vida mental escapa à consciência; desejos, traumas e conflitos reprimidos determinam o comportamento. O inconsciente não obedece à lógica ou ao tempo linear Topografia psíquica: 1.ª tópica: Inconsciente / Pré-consciente / Consciente 2.ª tópica: Id (pulsões primitivas) / Ego (mediação com a realidade) / Superego (interiorização das normas sociais) Pulsões: Eros (pulsão de vida, amor, criatividade) e Tânatos (pulsão de morte, agressão, repetição) — conflito fundamental da psique Repressão e recalque: a civilização exige a repressão das pulsões; o custo é a neurose. Tema central de O Mal-Estar na Civilização (1930) Complexo de Édipo: desejo pelo pai/mãe do sexo oposto e rivalidade com o do mesmo sexo; estrutura da entrada na cultura e formação do superego Sonhos, lapsos e sintomas: “Via régia para o inconsciente” — linguagem cifrada dos desejos reprimidos Critica da religião: O Futuro de uma Ilusão (1927) — a religião é ilusão infantil de um pai protetor; Totem e Tabu — origem da religião no parricídio primordial Influenciado por Charles Darwin — pulsões e evolução biológica Nietzsche — crítica da moral, forças inconscientes (paralelismos notáveis) Franz Brentano — filosofia da mente e intencionalidade Influenciou Marcuse — Eros e Civilização: liberdade vs. mais-repressão capitalista Adorno e Horkheimer — inconsciente social, autoritarismo Walter Benjamin — sonho, imagem dialética Sartre — critica a psicanálise mas dialoga com ela (má-fé vs. repressão) Simone de Beauvoir — psicanálise e construção do feminino Derrida — rastro, différance e o inconsciente como escrita Foucault — critica o dispositivo da sexualidade em História da Sexualidade Jacques Lacan — releitura estruturalista de Freud Obras A Interpretação dos Sonhos (1900); Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905); Totem e Tabu (1913); Introdução à Psicanálise (1916–17); O Ego e o Id (1923); O Futuro de uma Ilusão (1927); O Mal-Estar na Civilização (1930); Moisés e o Monoteísmo (1939). ...

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir Filósofa francesa; companheira intelectual de Sartre. Fundadora do feminismo existencialista. O Segundo Sexo é um dos livros mais influentes do séc. XX. Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir formou-se em filosofia pela Sorbonne e pelo agrégation em 1929, tornando-se uma das primeiras mulheres a conquistar esse título na França. Inserida no círculo existencialista parisiense do pós-guerra, participou ativamente da revista Les Temps Modernes e engajou-se nos grandes debates políticos e morais de sua época, do anticolonialismo à crítica ao stalinismo. Seu projeto filosófico central consiste em aplicar as categorias do existencialismo sartriano — facticidade, situação, projeto — à condição concreta da mulher, mostrando que a opressão feminina não decorre da natureza, mas de estruturas históricas e sociais que podem e devem ser transformadas. ...

Simone Weil

Simone Weil Filósofa, mística e ativista francesa. Aluna de Alain (Émile Chartier) na École Normale Supérieure, militou junto a operários e combateu na Guerra Civil Espanhola. Sua obra, quase inteiramente póstuma, cruza filosofia, mística cristã (sem adesão formal à Igreja), crítica social e reflexão sobre o trabalho. Morreu aos 34 anos em Londres, debilitada pela tuberculose e pela recusa de se alimentar mais do que os racionados na França ocupada. Pensadora inclassificável que fascinou Camus, que editou seus primeiros livros. ...

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek Filósofo e teórico cultural esloveno, pesquisador na Universidade de Liubliana. Combina a psicanálise de Jacques Lacan com a dialética de Hegel e a crítica da ideologia de tradição marxista. Prolífico e provocador, é conhecido por analisar fenômenos da cultura pop (cinema, piadas, publicidade) como ilustrações de estruturas ideológicas profundas. Crítico tanto do capitalismo liberal quanto da esquerda identitária, defende um universalismo emancipatório. Conceitos-chave Ideologia como fantasia: a ideologia não é falsa consciência (ilusão que se desfaz com o saber), mas uma fantasia estruturante — “eles sabem o que fazem, mas mesmo assim o fazem” (cinismo como forma ideológica dominante) O Real, o Simbólico e o Imaginário: retoma a tríade lacaniana — o Real é o que resiste à simbolização; irrupções do Real desestabilizam a ordem simbólica (trauma, antagonismo social) Gozo (jouissance): o sujeito está preso a modos de satisfação paradoxais que sustentam a ordem ideológica — a ideologia funciona não pela crença, mas pelo gozo investido nas práticas sociais Paralaxe (parallax view): mudança de perspectiva que revela que o objeto é constituído pelo próprio deslocamento do olhar — não há ponto de vista neutro; o antagonismo é irredutível Grande Outro (grand Autre): a ordem simbólica (linguagem, lei, normas sociais) — o sujeito se constitui em relação ao Outro, mas o Outro é inconsistente, barrado Sujeito barrado: o sujeito não é uma identidade plena, mas uma falta constitutiva — é o que emerge na falha da ordem simbólica Cultura pop como filosofia: filmes (Matrix, Hitchcock), piadas e anedotas são lidos como encenações de estruturas lacanianas e hegelianas Influenciado por Hegel — dialética, negatividade, contradição como motor do pensamento Jacques Lacan — psicanálise estrutural; Real, Simbólico, Imaginário Marx — crítica da ideologia e fetichismo da mercadoria Kant — sujeito transcendental e antinomias Schelling — liberdade e o abismo do fundamento Influenciou Teoria crítica contemporânea Estudos culturais e análise ideológica do cinema Esquerda pós-marxista e debate político contemporâneo Alain Badiou — interlocução sobre sujeito e evento Obras O Sublime Objeto da Ideologia (The Sublime Object of Ideology, 1989); Eles Não Sabem o que Fazem (For They Know Not What They Do, 1991); A Visão em Paralaxe (The Parallax View, 2006); Vivendo no Fim dos Tempos (Living in the End Times, 2010); Menos que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (Less Than Nothing, 2012); Como Ler Lacan (How to Read Lacan, 2006). ...

Sócrates

Sócrates Sócrates é o pivô da filosofia grega: sua figura divide a tradição entre os pré-socráticos, voltados à investigação da natureza (physis), e os socráticos, que deslocam o foco para o ser humano, a alma e a ética. Ateniense do século V a.C., filho do escultor Sofronisco e da parteira Fenáreta, atravessou os anos da Guerra do Peloponeso — serviu como hoplita em Potideia, Delos e Anfípolis — e fez das ruas e ginásios de Atenas o espaço de uma filosofia inteiramente oral. Não deixou nenhum escrito: tudo o que sabemos vem de terceiros, sobretudo dos diálogos de Platão e dos escritos de Xenofonte, além da caricatura cômica de Aristófanes (As Nuvens). A dificuldade de separar o Sócrates histórico do personagem literário é o que os estudiosos chamam de “problema socrático”. ...

Søren Kierkegaard

Søren Kierkegaard Filósofo dinamarquês; o “pai do existencialismo”. Escreveu frequentemente sob pseudônimos para apresentar perspectivas opostas. Sua filosofia é uma reação ao sistema especulativo de Hegel e ao conforto burguês do Cristianismo institucional. Conceitos-chave Três estádios da existência: Estético: vida orientada pelo prazer, novidade, estética — o desespero do enfado inevitável Ético: comprometimento com o dever, universal moral, casamento — o desespero da culpa que não se perdoa Religioso: suspensão do ético pelo singular diante de Deus — o “salto de fé” além da razão Angústia (Begrebet Angest, 1844): a liberdade humana como “vertigem da possibilidade”; a angústia não tem objeto determinado (diferente do medo) — é a tontura diante do abismo do possível Desespero (A Doença para a Morte, 1849): não querer ser si mesmo, ou querer ser outro que si mesmo — a condição universal do humano sem relação com Deus Subjetividade (“A subjetividade é a verdade”): a verdade existencial não se alcança pela especulação objetiva de Hegel, mas pelo comprometimento subjetivo e apaixonado Salto de fé: Abraão que vai sacrificar Isaque — ato que suspende o ético e só tem sentido diante do singular de Deus; Camus o critica como “suicídio filosófico” Pseudônimos: Victor Eremita, Johannes Climacus, Anti-Climacus, Constantine Constantius — cada um representa um estádio ou perspectiva Influenciado por Hegel — ponto de partida e adversário principal; rejeita o sistema especulativo Sócrates — ironia e método indireto; identificou-se com ele Platão — diálogos e posição socrática Lutero — fé individual contra a instituição Influenciou Heidegger — angústia, autenticidade, ser-para-a-morte Sartre — liberdade radical, má-fé, projeto existencial Camus — absurdo (mas recusa o salto de fé de Kierkegaard) Simone de Beauvoir — situação existencial concreta Teologia existencial (Karl Barth, Paul Tillich) Obras Ou-Ou (1843); Temor e Tremor (1843); O Conceito de Angústia (1844); Estágios no Caminho da Vida (1845); Migalhas Filosóficas (1844); A Doença para a Morte (1849); Ponto de Vista sobre Minha Obra como Escritor (1859, póstumo). ...

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