Nikolai Berdiáev

Nikolai Berdiáev Nikolai Aleksándrovitch Berdiáev (18 de março de 1874, Kiev — 24 de março de 1948, Clamart, França) foi filósofo religioso e político russo, frequentemente descrito como um “existencialista cristão”. De origem aristocrática, começou marxista — chegou a ser exilado internamente sob o tsarismo por suas atividades —, mas rompeu cedo com o materialismo rumo ao idealismo e à Ortodoxia. Participou da coletânea crítica Vekhi (1909). Expulso da Rússia soviética em 1922, no episódio dos “navios dos filósofos”, viveu em Berlim e depois em Clamart, perto de Paris, onde dirigiu a revista Put e se tornou a voz mais conhecida do pensamento russo no exílio. Foi indicado várias vezes ao Prêmio Nobel. ...

Nishida Kitaro

Nishida Kitaro Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Na convenção japonesa o sobrenome (Nishida) precede o nome próprio (Kitarō); usa-se aqui a ordem japonesa, conforme prática editorial corrente para filósofos modernos do Japão. Nishida Kitarō (西田 幾多郎) é o fundador da Escola de Kyoto e o filósofo japonês moderno mais influente do século XX. Praticante de Zen Rinzai desde a juventude — sob orientação dos mestres Setsumon e Kōshū —, formou-se em filosofia na Universidade Imperial de Tóquio e lecionou na Universidade Imperial de Kyoto, onde reuniu em torno de si a geração que daria corpo à dita “Escola”. Seu projeto pode ser descrito como a tentativa, sem precedente comparável no Japão moderno, de articular a experiência meditativa budista com o vocabulário e o rigor da filosofia europeia (sobretudo alemã) — sem, contudo, reduzir uma à outra. ...

Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho Olavo Luiz Pimentel de Carvalho nasceu em Campinas (SP), em 29 de abril de 1947, e morreu em Richmond, Virgínia (EUA), em 24 de janeiro de 2022, dias depois de testar positivo para covid-19. Autodidata, sem diploma universitário, construiu fora da academia uma obra extensa — mais de quarenta livros, além de milhares de artigos e aulas — e tornou-se o pensador brasileiro de maior influência pública das últimas décadas. ...

Oswald Spengler

Oswald Spengler Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880–1936) nasceu em Blankenburg, na Alemanha, filho de um funcionário dos correios. Formou-se em matemática e ciências naturais, lecionou brevemente no ensino secundário e depois se dedicou inteiramente à escrita como autor independente em Munique. Sua obra magna, A Decadência do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes), publicada em dois volumes — Forma e Realidade (1918) e Perspectivas da História Universal (1922) — converteu-o, quase da noite para o dia, num dos autores mais discutidos da Europa entreguerras: o primeiro volume apareceu poucos meses antes da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, e seu título parecia profetizar o colapso então em curso. ...

Parmênides

Parmênides Natural de Eleia, colônia grega no sul da Itália, e ativo na primeira metade do século V a.C., Parmênides é o fundador da ontologia — a investigação sobre o ser enquanto ser — e a maior figura da chamada escola eleática. Expôs seu pensamento num poema filosófico, Sobre a Natureza, do qual restam fragmentos: nele, um jovem é conduzido em um carro até uma deusa que lhe revela a verdade. ...

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend Paul Feyerabend foi um filósofo da ciência austríaco, uma das vozes mais provocadoras do século XX. Formado em Viena e radicado por décadas em Berkeley, começou próximo do empirismo lógico e do racionalismo crítico de Popper — chegou a estudar com Popper na London School of Economics — para depois se tornar um de seus críticos mais incisivos. Sua obra mais célebre, Contra o Método (1975), defende o anarquismo epistemológico: a tese de que não existe um método científico único, universal e a-histórico capaz de explicar o sucesso da ciência. Examinando episódios reais da história da ciência, sobretudo o caso de Galileu, Feyerabend argumenta que o progresso frequentemente exigiu violar as regras metodológicas então vigentes. Sua provocação tornou-se sinônimo de uma defesa radical do pluralismo e da liberdade intelectual contra qualquer dogmatismo, inclusive o científico. ...

Paul Ricoeur

Paul Ricoeur Filósofo francês, um dos maiores hermeneutas do século XX. Sintetizou a fenomenologia de Husserl com a hermenêutica de Gadamer, a psicanálise de Freud e a filosofia analítica da ação. Sua obra percorre o conflito das interpretações, a teoria da narrativa e a ética do si mesmo. Conceitos-chave Hermenêutica do suspeito vs. da confiança: existem duas grandes tradições interpretativas — a da suspeita (Marx, Nietzsche, Freud — os textos escondem algo) e a da confiança (a tradição religiosa e poética — os textos revelam algo). A hermenêutica madura oscila entre as duas Identidade narrativa (identité narrative): a identidade pessoal não é uma substância fixa, mas é construída narrativamente — somos os personagens das histórias que contamos sobre nós mesmos (idem vs. ipse: identidade como mesmidade vs. ipseidade) Tempo e narrativa: o tempo humano só se torna compreensível quando narrado — a narrativa (historiografia e ficção) configura a experiência temporal e lhe dá sentido (mimesis em três fases: prefiguração, configuração, refiguração) Metáfora viva: a metáfora não é mero ornamento retórico — ela cria novos significados ao aproximar campos semânticos distantes; “redescrevia a realidade” Conflito das interpretações: não há interpretação neutra — toda leitura envolve uma posição; a hermenêutica deve assumir o conflito entre perspectivas em vez de eliminá-lo O si mesmo como um outro (soi-même comme un autre): a ipseidade (quem sou) é sempre mediada pelo outro — a alteridade constitui o si mesmo; proposta de uma ética da solicitude e da justiça Pequena ética: “visar à vida boa, com e para os outros, em instituições justas” — articulação entre perspectiva ética (teleológica) e perspectiva moral (deontológica) Influenciado por Husserl e Heidegger — fenomenologia Gadamer — hermenêutica filosófica Freud — psicanálise e suspeita Marx e Nietzsche — hermenêutica da suspeita Filosofia analítica da ação (Austin, Strawson) Influenciou Teologia narrativa e bíblica Filosofia do direito e hermenêutica jurídica Historiografia e filosofia da história Habermas — ética e comunicação Obras Filosofia da Vontade (1950–60); Da Interpretação: Ensaio sobre Freud (1965); O Conflito das Interpretações (1969); A Metáfora Viva (1975); Tempo e Narrativa (3 vols., 1983–85); O Si-Mesmo Como um Outro (1990); A Memória, a História, o Esquecimento (2000). ...

Paulo Freire

Paulo Freire Nascido no Recife em 1921, em meio à pobreza do Nordeste brasileiro, Paulo Freire é o pensador brasileiro mais citado e traduzido no mundo, e o Patrono da Educação Brasileira. Sua filosofia nasceu da prática: em 1963, na experiência pioneira de Angicos, alfabetizou trabalhadores rurais em poucas semanas com um método que unia a leitura da palavra e a leitura do mundo. Visto como ameaça, foi preso e exilado após o golpe de 1964, passando por Bolívia, Chile, Estados Unidos e Suíça; só retornaria ao Brasil em 1980. Articulou fenomenologia, marxismo e existencialismo numa teoria que é, a um só tempo, pedagogia e filosofia política da emancipação. ...

Pável Florenski

Pável Florenski Pável Aleksándrovitch Florenski (21 de janeiro de 1882 [v.a. 9 de janeiro], Yevlakh, atual Azerbaijão — 8 de dezembro de 1937, executado próximo a Leningrado) foi sacerdote ortodoxo, filósofo, matemático, físico e historiador da arte — uma das inteligências mais abrangentes da Rússia do século XX. Seus contemporâneos o chamaram de “o Leonardo da Vinci russo”, expressão que, embora encomiástica, aponta para a real amplitude de suas contribuições: estudou teologia em Moscou sob a orientação de Serguei Trubetskói, ordenou-se sacerdote em 1911 e, em paralelo, lecionou matemática e filosofia nas mais importantes instituições do país. Após a Revolução de 1917, continuou trabalhando em institutos científicos soviéticos — recusando emigrar como fizeram muitos de seus contemporâneos —, até ser preso pela primeira vez em 1928. Deportado ao Gulag, foi finalmente fuzilado em 8 de dezembro de 1937; durante décadas, o regime soviético falsificou a data de sua morte, registrando erroneamente 1943. ...

Peter Singer

Peter Singer Filósofo australiano, professor na Universidade de Princeton. É o mais influente filósofo utilitarista vivo e um dos fundadores do movimento contemporâneo pelos direitos dos animais. Sua obra Libertação Animal (1975) introduziu o conceito de especismo e transformou o debate ético sobre o tratamento dos animais. Defende um utilitarismo de preferências (posteriormente revisado para utilitarismo hedonista) e aplica a filosofia moral a questões práticas: pobreza global, eutanásia, aborto, meio ambiente e altruísmo eficaz. ...

Philippa Foot

Philippa Foot Philippa Foot (1920–2010) foi uma das mais influentes filósofas morais britânicas do século XX e figura central no renascimento da ética da virtude. Formada e por muito tempo radicada em Oxford, ensinou também por longos períodos nos Estados Unidos. Sua trajetória intelectual representa um desafio sistemático ao não-cognitivismo e ao emotivismo que dominavam a metaética anglófona do pós-guerra: contra a tese de uma separação radical entre fato e valor, Foot procurou mostrar que os juízos morais têm conteúdo cognitivo e estão enraizados em fatos sobre a vida humana. Sua obra culmina no naturalismo ético neoaristotélico de Natural Goodness (2001). Foi também figura de consciência cívica: ajudou a fundar a Oxfam, organização de combate à fome e à pobreza. ...

Pico della Mirandola

Pico della Mirandola Giovanni Pico della Mirandola. Filósofo italiano prodigio; sabia latim, grego, hebraico, árabe e aramaico. Propôs realizar um debate em Roma com 900 teses de todas as tradições filosóficas — o papa Inocêncio VIII condenou algumas delas. Morreu aos 31 anos. Formado na Academia Platônica de Florença em estreito diálogo com Marcílio Ficino e no círculo de Lorenzo de’ Medici, Pico representou o ápice do humanismo renascentista. Em 1486, redigiu as 900 Conclusiones — teses extraídas de fontes tão diversas quanto Platão, Aristóteles, Avicena, Averróis, a Cabala judaica e o Corpus Hermeticum — com a ambição de demonstrar que a verdade filosófica e religiosa era uma só, acessível por múltiplos caminhos. O projeto foi interrompido quando uma comissão papal condenou treze das teses como heréticas; Pico refugiou-se em França e só retornou à Itália graças à proteção de Lorenzo de’ Medici. ...

Pirro

Pirro Fundador do Ceticismo Antigo. Acompanhou Alexandre Magno até a Índia e encontrou ascetas que influenciaram seu pensamento. Não deixou escritos; viveu coerentemente com a epoché. A tranquilidade (ataraxia) chega naturalmente quando se suspende todo julgamento: como não podemos saber se algo é bom ou mau, belo ou feio, não há razão para perturbação. Natural de Élis, no Peloponeso, Pirro viveu em torno de 365 a 270 a.C. e atuou num período marcado pela dissolução do mundo da polis clássica e pela ascensão do cosmopolitismo helenístico. Nesse contexto de instabilidade política e diversidade cultural, a pergunta sobre como alcançar a felicidade (eudaimonia) ganhou urgência renovada. Pirro respondeu de forma radical: a felicidade não depende de conhecer a verdade última das coisas, mas sim de reconhecer que tal verdade não está ao nosso alcance. Para ele, as coisas são igualmente indetermináveis, inapreensíveis e indecidíveis (adiáfora, astathmêta, anepíkrita); diante disso, a postura sábia é a epoché — a suspensão do juízo — e não a afirmação apressada. Seu principal discípulo, Timão de Fliúnte, preservou suas ideias em forma de poema, permitindo que o pirronismo chegasse às gerações seguintes. ...

Pitágoras

Pitágoras Nascido na ilha de Samos por volta de 570 a.C., Pitágoras emigrou para Crotona, no sul da Itália (a Magna Grécia), onde fundou uma comunidade filosófico-religiosa célebre por seu modo de vida austero, suas regras de silêncio e o caráter secreto de seus ensinamentos. Como nada escreveu e seus discípulos atribuíam tudo ao mestre, é difícil separar suas ideias das dos pitagóricos que o seguiram; sua figura, já na Antiguidade, mesclava-se à lenda. ...

Platão

Platão Discípulo de Sócrates e o mais influente filósofo da Antiguidade, Platão nasceu em uma família aristocrática ateniense por volta de 428 a.C. A condenação do mestre, em 399 a.C., marcou-o profundamente e afastou-o da carreira política que sua origem lhe reservava. Após anos de viagens — que a tradição associa a contatos com os pitagóricos do sul da Itália e às frustradas tentativas de educar os tiranos de Siracusa —, fundou por volta de 387 a.C. a Academia, a primeira instituição de ensino superior do Ocidente, que funcionaria por mais de novecentos anos. Sua obra chegou quase íntegra até nós, quase toda em forma de diálogo, com Sócrates como personagem central. ...

Plotino

Plotino Nascido por volta de 205 d.C., provavelmente no Egito romano, Plotino estudou por anos em Alexandria com o enigmático mestre Amônio Sacas e, mais tarde, fixou-se em Roma, onde fundou uma escola e levou uma vida de notável ascese. Suas lições foram reunidas e organizadas por seu discípulo Porfírio nas Enéadas. É o fundador do neoplatonismo e o maior filósofo da Antiguidade tardia, fazendo de Platão o ponto de partida de uma das mais grandiosas metafísicas já concebidas. ...

Porfirio

Porfirio Porfírio de Tiro — em grego Porphýrios, nome adotado a partir do original semita Malco (em fenício, “rei”) — nasceu por volta de 234 d.C. em Tiro (na atual costa do Líbano) e morreu cerca de 305 d.C. Atenção: não deve ser confundido com Porfírio de Gaza (séc. V), bispo cristão homônimo, nem com outros personagens tardios que carregaram o mesmo nome. Após estudar em Atenas com Cássio Longino, juntou-se em c. 263 d.C. ao círculo de Plotino em Roma, do qual se tornou o discípulo mais célebre. Tornou-se editor das Enéadas (publicação póstuma c. 301), agrupando os escritos do mestre em seis grupos de nove tratados, precedidos por uma Vita Plotini (Vida de Plotino) — fonte biográfica fundamental sobre Plotino. Sua influência, contudo, vai muito além da edição dos textos plotinianos: através da Isagoge, Porfírio formatou o ingresso da lógica aristotélica no mundo medieval. ...

Proclo

Proclo Proclo Lício Diádoco (em grego Próklos Lýkios Diádokhos, “Proclo o Lício, o Sucessor”) nasceu em Constantinopla em 412 d.C. e morreu em Atenas em 17 de abril de 485 d.C. Atenção: não deve ser confundido com Proclo Procópio (orador do séc. V) nem com outros homônimos da Antiguidade tardia. Filho de família abastada da Lícia (sul da atual Turquia), formou-se em Alexandria e logo migrou para Atenas, onde estudou com Plutarco de Atenas (não confundir com o ensaísta de Queroneia) e com Siriano, a quem sucedeu como escolarca da Academia — daí o título Diádokhos, “o Sucessor”. Foi o último grande sistematizador do neoplatonismo pagão antes do fechamento da Academia pelo imperador Justiniano em 529 d.C. Sua obra organiza a herança plotiniana em uma rede rigorosa de proposições e tríades, num projeto comparável, em ambição, à Suma tomista — mas em sentido inteiramente pagão. ...

Protágoras

Protágoras Nascido em Abdera por volta de 490 a.C., Protágoras foi o primeiro e mais famoso dos sofistas — os mestres itinerantes que, mediante pagamento, ensinavam aos jovens a retórica e a aretê (excelência) necessárias para o sucesso na vida pública das cidades gregas. Frequentou o círculo de Péricles em Atenas e chegou a redigir as leis da colônia de Túrios. É a figura que melhor encarna o espírito do movimento sofístico. ...

Ralph Waldo Emerson

Ralph Waldo Emerson Ralph Waldo Emerson nasceu em Boston, Massachusetts, em 25 de maio de 1803, e morreu em Concord, Massachusetts, em 27 de abril de 1882. Estudou em Harvard, formando-se em 1821, e tornou-se pastor unitarista da Second Church de Boston. Em 1832 renunciou ao cargo, por divergir da prática da Ceia do Senhor, e a partir de então viveu como conferencista e escritor, estabelecendo-se em Concord. Tornou-se a figura mais conhecida do transcendentalismo, movimento intelectual da Nova Inglaterra que se reuniu em torno do Transcendental Club (1836) e da revista The Dial, e que reunia nomes como Margaret Fuller, Henry David Thoreau e Bronson Alcott. ...

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