Martin Heidegger

Martin Heidegger Martin Heidegger nasceu em Meßkirch, no sul da Alemanha, em 1889, em família católica modesta, e chegou à filosofia pela teologia. Assistente e depois sucessor de Husserl em Freiburg, publicou em 1927 Ser e Tempo, obra que o consagrou como um dos filósofos mais influentes — e mais controversos — do século XX. A controvérsia é inseparável de sua biografia: em 1933 assumiu a reitoria de Freiburg e filiou-se ao partido nazista, comprometimento que nunca renegou publicamente e que os Cadernos Negros, publicados décadas depois, revelaram atravessado por antissemitismo. O peso moral e filosófico desse engajamento permanece um debate em aberto. ...

Martinho Lutero

Martinho Lutero Teólogo agostiniano alemão; iniciador da Reforma Protestante. As 95 Teses (1517) contra as indulgências papais desencadearam uma ruptura que transformou a Europa religiosa, política e intelectualmente. Conceitos-chave Justificação pela fé somente (sola fide): o homem não é salvo por obras, méritos ou sacramentos — somente pela fé em Cristo; contra a soteriologia do mérito da Igreja Católica Sola Scriptura: a Bíblia é a única autoridade religiosa; a tradição e os decretos papais não têm autoridade equivalente. Traduziu a Bíblia para o alemão — funda a língua literária alemã moderna Sacerdócio universal dos crentes: todos os cristãos batizados são sacerdotes — dissolve a hierarquia clerical como mediação necessária entre Deus e o fiel Dois reinos (Zwei-Reiche-Lehre): o reino espiritual (governado pelo Evangelho) e o reino temporal (governado pela lei e pela espada) — clara separação que influenciou a secularização política Liberdade cristã (De Liberdade do Cristão, 1520): “O cristão é senhor livre de todas as coisas e não está submetido a ninguém. O cristão é servo obediente em todas as coisas e está submetido a todos” — paradoxo da liberdade interior com serviço ao próximo Contra o livre-arbítrio (De Servo Arbítrio, 1525): contra Erasmo — a vontade humana é escravizada pelo pecado; só a graça divina irresistível pode liberar; predestinação Influenciado por Santo Agostinho — graça, pecado original, predestinação São Paulo — justificação pela fé (Romanos, Gálatas) Guilherme de Ockham — nominalismo e crítica da metafísica escolástica Erasmo — humanismo textual (mas rompe com ele) Influenciou Calvino — reforma reformada e predestinação absoluta Kant — autonomia moral (secularização da consciência individual luterana) Kierkegaard — fé radical e individual contra a instituição Secularização e modernidade política europeia Hegel — Reforma como momento do Espírito na história Obras 95 Teses (1517); Da Liberdade do Cristão (1520); Da Babel Babilônica da Igreja (1520); Do Servo Arbítrio (1525); Catecismo Maior e Menor (1529); Bíblia em Alemão (NT: 1522; completa: 1534). ...

Mary Wollstonecraft

Mary Wollstonecraft Mary Wollstonecraft foi uma escritora, filósofa e defensora dos direitos das mulheres britânica, cujo A Vindication of the Rights of Woman (1792) é considerado um dos textos fundadores do feminismo filosófico moderno. Contemporânea das revoluções americana e francesa, Wollstonecraft aplicou os princípios iluministas de razão e igualdade às relações entre os sexos, desafiando a divisão entre esferas pública e privada que excluía as mulheres da cidadania plena. Conceitos-chave Igualdade Racional (A Vindication of the Rights of Woman, 1792): Argumento central — mulheres e homens compartilham a mesma natureza racional. Se a razão é o fundamento da dignidade e dos direitos, como sustentam os iluministas, então as mulheres têm os mesmos títulos aos direitos políticos e educativos que os homens. A exclusão das mulheres da esfera racional é inconsistente com os próprios princípios do Iluminismo. Crítica à Educação Feminina: A educação convencional das mulheres cultivava ornamento, passividade e sedução ao invés de razão e virtude. Wollstonecraft argumenta que essa educação não educa — corrompe. Mulheres treinadas para agradar são reduzidas a uma infantilidade permanente, tornando-se incapazes de exercer responsabilidades morais e cívicas. Crítica a Rousseau: Émile (1762) prescreve para Sophie — a mulher ideal — uma educação radicalmente diferente da de Émile, orientada à submissão e ao agrado masculino. Wollstonecraft vê nisso uma contradição interna: Rousseau condena o despotismo político e ao mesmo tempo prescreve despotismo doméstico. Uma mulher educada na dependência será má esposa, má mãe e má cidadã. Virtude e Moralidade: Wollstonecraft sustenta uma ética de orientação kantiana avant la lettre: a virtude é a mesma para homens e mulheres — implica o exercício da razão, a autonomia moral e o cumprimento dos deveres. A virtude não é feminina ou masculina, mas humana. A “feminilidade” cultivada pela educação contemporânea é incompatível com a virtude genuína. Cidadania e Esfera Pública: As mulheres não deveriam ser confinadas ao lar — deveriam participar da vida pública como cidadãs. Wollstonecraft pede acesso feminino à educação, às profissões e, implicitamente, ao voto (questão que ela não desenvolve sistematicamente, mas que suas premissas implicam). A Vindication of the Rights of Men (1790): Primeira resposta publicada às Reflexões sobre a Revolução na França de Edmund Burke, antes mesmo da Vindication of the Rights of Woman. Wollstonecraft defende os princípios da Revolução Francesa e ataca o conservadorismo de Burke. ...

Maurice Merleau-Ponty

Maurice Merleau-Ponty Nascido em 1908, na França, Maurice Merleau-Ponty formou-se na École Normale Supérieure ao lado de Sartre e Simone de Beauvoir, com quem fundaria a revista Les Temps Modernes antes de uma ruptura política. Em 1952 tornou-se o mais jovem catedrático de filosofia do Collège de France. Morreu subitamente em 1961, deixando inacabada sua última obra. É o grande fenomenólogo do corpo. Sua originalidade está em deslocar o centro da fenomenologia. Onde Husserl e o primeiro Sartre situavam a subjetividade na consciência, Merleau-Ponty a situa no corpo próprio (corps propre). O corpo não é um objeto que a mente habita, nem uma máquina movida pela alma: eu sou meu corpo. É por ele, e não por uma consciência desencarnada, que tenho um mundo — donde o primado da percepção, anterior a toda reflexão e a toda separação entre sujeito e objeto. ...

Max Horkheimer

Max Horkheimer Nascido em Stuttgart em 1895, Max Horkheimer foi a alma organizadora da Escola de Frankfurt: em 1930 assumiu a direção do Instituto de Pesquisa Social e reuniu em torno de si pensadores como Adorno, Marcuse e Walter Benjamin. Judeu e marxista, exilou-se nos Estados Unidos durante o nazismo e, no pós-guerra, retornou a Frankfurt, onde foi reitor. Morreu em 1973. Foi Horkheimer quem definiu o programa da Teoria Crítica, em um ensaio de 1937. Ele distingue a teoria tradicional — descritiva, especializada, que aceita o mundo como dado — da teoria crítica, que se sabe parte da sociedade que estuda, recusa-se a separar fato e valor e se orienta para a emancipação humana. A teoria, aqui, não é contemplação neutra, mas instrumento de transformação. ...

Max Scheler

Max Scheler Max Scheler nasceu em Munique em 22 de agosto de 1874 e morreu em Frankfurt em 19 de maio de 1928. Estudou em Munique, Berlim e Jena, onde se doutorou sob a orientação de Rudolf Eucken. Conheceu Edmund Husserl em 1901 e tornou-se uma das figuras do movimento fenomenológico, atuando em Munique e no círculo de Göttingen. Convertido ao catolicismo, foi professor em Colônia a partir de 1919, onde deveria ser o pensador católico do novo instituto de pesquisa em ciências sociais, e, em 1927, assumiu uma cátedra em Frankfurt. Sua obra é uma das mais influentes da filosofia alemã da primeira metade do século XX, embora tenha ficado inacabada. ...

McTaggart

McTaggart John McTaggart Ellis McTaggart nasceu em Londres em 3 de setembro de 1866 e passou quase toda a sua carreira como fellow e lecturer de filosofia no Trinity College, Cambridge; aposentou-se em 1923 e morreu em Londres em 18 de janeiro de 1925. Formado no idealismo britânico da virada do século — ao lado de Francis Herbert Bradley e influenciado decisivamente por Hegel —, McTaggart desenvolveu uma metafísica de alcance sistemático e original que destoa tanto do monismo absoluto de Bradley quanto do naturalismo emergente que marcaria o século XX. Sua obra maior, The Nature of Existence (2 vols., 1921–1927), constitui um dos últimos grandes sistemas metafísicos da filosofia de língua inglesa, construído com rigor lógico comparável ao das Ciências da Lógica hegeliana. No campo da filosofia do tempo, sua distinção entre Série A e Série B, publicada no artigo “The Unreality of Time” (Mind, 1908), tornou-se o ponto de partida obrigatório de todo debate posterior sobre a ontologia temporal. ...

Mencio

Mencio Nota sobre fontes: As datas de Mêncio (孟子 Mèngzǐ, “Mestre Meng”; nome pessoal Kē 軻) são estimativas convencionais — c. 372–289 a.C. — baseadas em cronologias históricas tradicionais. O texto Mèngzǐ (孟子), compilado em 7 livros (piān), é considerado uma obra mais unitária do que os Analectos de Confúcio, embora também envolva contribuições de discípulos na redação final. Mêncio é considerado na tradição confuciana o “Segundo Sábio” (Yàshèng 亞聖), imediatamente abaixo de Confúcio. ...

Mestre Eckhart

Mestre Eckhart Eckhart de Hochheim, conhecido como Mestre Eckhart, nasceu por volta de 1260 em Tambach, na Turíngia, e morreu por volta de 1328, provavelmente em Avignon, antes de 30 de abril de 1328, data em que um documento papal já o menciona como falecido. Ingressou na Ordem dos Pregadores (dominicanos), estudou em Colônia e Paris e obteve o título de magister, de onde o nome “Mestre”. Ocupou a cátedra de teologia dos dominicanos em Paris em dois períodos (1302–1303 e 1311–1313), foi provincial da Saxônia a partir de 1303 e vigário-geral da Boêmia, e atuou como pregador e orientador espiritual em Estrasburgo e Colônia. ...

Michael Sandel

Michael Sandel Michael Sandel (n. 1953, Minneapolis) é um filósofo político americano, professor de governo em Harvard desde 1980, conhecido tanto pelo rigor acadêmico de sua crítica ao liberalismo rawlsiano quanto pelo enorme alcance público de seu curso “Justice”, uma das aulas mais populares da história de Harvard. Sandel é uma das figuras centrais do chamado debate liberalismo–comunitarismo dos anos 1980, embora também recuse o rótulo. Sua tese de doutorado, publicada como Liberalism and the Limits of Justice (1982), ofereceu uma das mais incisivas críticas filosóficas a Uma Teoria da Justiça de John Rawls. Em décadas seguintes, ampliou seu escopo para a crítica da mercantilização da vida social e da ideologia meritocrática. ...

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

Michel Foucault

Michel Foucault Michel Foucault nasceu em Poitiers em 1926 e formou-se na École Normale Supérieure, onde teve entre seus mestres Jean Hyppolite e Louis Althusser. Psicólogo de formação além de filósofo, ocupou a partir de 1970 a cátedra de “História dos Sistemas de Pensamento” no Collège de France e foi um intelectual politicamente engajado — sobretudo na luta pela reforma das prisões. Tornou-se uma das figuras mais citadas das ciências humanas em todo o mundo. Morreu em Paris, em 1984, de doença relacionada à aids. ...

Miguel de Unamuno

Miguel de Unamuno Miguel de Unamuno y Jugo nasceu em Bilbau, em 29 de setembro de 1864, e morreu em Salamanca, em 31 de dezembro de 1936. Catedrático de língua e literatura gregas da Universidade de Salamanca, foi seu reitor entre 1900 e 1914 e de novo a partir de 1931, durante a Segunda República. Figura central da chamada Geração de 98, escreveu ensaio, poesia, teatro e romance, e recusou a separação rígida entre filosofia e literatura. Por sua oposição à ditadura de Primo de Rivera foi desterrado em 1924 para Fuerteventura e depois viveu em Paris e Hendaia até 1930. ...

Miguel Reale

Miguel Reale Miguel Reale nasceu em São Bento do Sapucaí (SP) em 6 de novembro de 1910 e morreu em São Paulo em 14 de abril de 2006. Formado em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, foi professor catedrático da Universidade de São Paulo, da qual foi reitor em duas ocasiões (1949–1950 e 1969–1973), e ocupou a cadeira 14 da Academia Brasileira de Letras de 1975 até sua morte. É considerado o mais influente filósofo do direito do Brasil no século XX e um dos principais representantes do chamado culturalismo brasileiro. ...

Mikhail Bakhtin

Mikhail Bakhtin Mikhail Mikháilovitch Bakhtin (16 de novembro de 1895, Oriol — 7 de março de 1975, Moscou) foi filósofo da linguagem, teórico da literatura e da cultura. Marginalizado e quase desconhecido em vida na União Soviética — preso e enviado ao exílio em 1929, lecionou por décadas em universidades provincianas —, foi redescoberto a partir dos anos 1960 e tornou-se um dos pensadores russos mais influentes do mundo nas ciências humanas. Foi o centro do chamado Círculo de Bakhtin, que reunia também Valentin Volóchinov e Pável Medviédev (a autoria de algumas obras assinadas por eles é objeto de debate acadêmico). ...

Montesquieu

Montesquieu Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu, nasceu em 1689 perto de Bordéus, em família da nobreza de toga. Magistrado e presidente do Parlamento de Bordéus, ganhou fama literária com as Cartas Persas (1721), sátira anônima e espirituosa que critica os costumes e as instituições francesas pelos olhos de viajantes persas fictícios. Depois de viajar pela Europa — admirando sobretudo a constituição inglesa —, dedicou cerca de vinte anos à sua obra-prima, O Espírito das Leis (1748), em que funda a moderna ciência política comparada. ...

Nāgārjuna

Nāgārjuna Nāgārjuna (c. 150–c. 250 d.C.) é o fundador da escola Mādhyamaka do Budismo Mahāyāna e é considerado, em muitas tradições budistas, como o segundo Buda. Sua obra exerceu influência decisiva sobre o Budismo tibetano, chinês (e daí japonês e coreano), bem como sobre a filosofia indiana posterior. Sua principal obra, a Mūlamadhyamakakārikā (MMK — Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio), é um dos textos mais comentados e discutidos da história da filosofia. ...

Nancy Fraser

Nancy Fraser Nancy Fraser (n. 20 de maio de 1947, Baltimore) é uma teórica crítica e filósofa feminista norte-americana, professora emérita da cátedra Henry A. and Louise Loeb na New School for Social Research, em Nova York. Herdeira da tradição da Escola de Frankfurt, é uma das vozes mais influentes da teoria crítica contemporânea. Sua contribuição mais célebre foi reformular a questão da justiça em torno da tensão entre redistribuição (a dimensão econômica) e reconhecimento (a dimensão cultural), alertando para o risco de que as lutas por identidade e visibilidade eclipsem as lutas por igualdade material. Nas últimas décadas, ampliou esse diagnóstico numa crítica abrangente do capitalismo e de suas relações com o feminismo, a ecologia e a democracia. ...

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico Nascido em Toruń, na Polônia, em 1473, Nicolau Copérnico foi cônego da catedral de Frombork e um homem do Renascimento: estudou em Cracóvia e na Itália (Bolonha, Pádua), dedicando-se ao direito, à medicina e, sobretudo, à astronomia. De modo discreto e prudente, durante décadas amadureceu uma ideia que mudaria a imagem do mundo — e que só publicaria no fim da vida. Essa ideia é o heliocentrismo: não a Terra, mas o Sol, está no centro do sistema planetário; a Terra é apenas mais um planeta, que gira sobre seu próprio eixo e se desloca em torno do Sol. Era uma ruptura com mais de mil anos de cosmologia geocêntrica, herdada de Ptolomeu e Aristóteles, segundo a qual a Terra imóvel ocupava o centro do universo. Copérnico não buscava apenas a verdade física, mas também uma explicação matematicamente mais simples e harmoniosa do que o complicado sistema de epiciclos ptolomaico. ...

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa Cardeal alemão; figura de transição entre a Escolástica e o Renascimento. Usou a matemática como analogia filosófica (não como método em sentido técnico) para expressar a relação entre o infinito divino e o finito humano. Nascido em Kues (atual Bernkastel-Kues, Alemanha) em 1401, Nicolau frequentou a escola dos Irmãos da Vida Comum em Deventer e se formou em direito canônico em Pádua, onde tomou contato com o humanismo italiano. Tornou-se cardeal em 1448 e bispo de Brixen (Bressanone), desempenhando papel ativo nos debates conciliares que agitaram a Igreja no século XV — primeiro como defensor da supremacia do concílio sobre o papa, posição que mais tarde reviu a favor do primado pontifício. Sua trajetória eclesiástica e intelectual reflete o espírito do século: um pensamento que oscila entre a tradição medieval e as novas perspectivas abertas pela redescoberta dos textos platônicos e neoplatônicos. ...

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