Abelardo (Pedro Abelardo)

Abelardo (Pedro Abelardo) O intelectual mais brilhante e polêmico do séc. XII. Famoso também por seu amor trágico com Heloísa (castrado por ordem do tio dela). Propôs o conceitualismo na disputa dos universais e introduziu a razão dialética na teologia. “Entender para crer” — a razão deve examinar antes de aceitar pela fé (inversão de Anselmo de Cantuária). Nascido na Bretanha em uma família da pequena nobreza, Abelardo renunciou à herança militar para dedicar-se às artes liberais, tornando-se um mestre itinerante que atraía multidões de estudantes às escolas de Paris. Sua trajetória atravessa o momento decisivo em que o ensino deixa de ser monopólio dos mosteiros e migra para as escolas urbanas, prenunciando a universidade medieval. Polemista incansável, enfrentou seu próprio professor Guilherme de Champeaux sobre os universais e depois se viu em conflito direto com a autoridade monástica representada por Bernardo de Claraval, que via na sua confiança na razão um perigo para a fé. Essa tensão entre a dialética e a tradição contemplativa marca toda a sua obra e ajuda a explicar as condenações que sofreu em concílios eclesiásticos. ...

Achille Mbembe

Achille Mbembe Joseph-Achille Mbembe nasceu em 1957 em Otélé, Camarões. Formou-se em história e filosofia na Sorbonne (Paris I) e obteve o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). É atualmente professor sênior do Wits Institute for Social and Economic Research (WISER), na Universidade de Witwatersrand, Johannesburg, África do Sul. Mbembe é considerado um dos intelectuais africanos mais influentes da atualidade, com trabalho que articula história africana, teoria pós-colonial, filosofia política e crítica cultural. Escreve em francês; suas obras principais foram traduzidas para o inglês, português, alemão e outras línguas. ...

Adam Smith

Adam Smith Filósofo moral e economista escocês, considerado o pai da economia política moderna. Membro central do Iluminismo Escocês, amigo íntimo de Hume. Sua obra combina ética dos sentimentos com teoria do mercado. Antes de se tornar conhecido como teórico da economia, Smith foi professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow, e é nessa cadeira que se forma o núcleo de seu pensamento. Em A Teoria dos Sentimentos Morais (1759), ele parte de uma pergunta tipicamente iluminista: como seres movidos por seus próprios interesses chegam a fazer juízos morais e a se importar com os outros? A resposta está na simpatia — não um sentimento piedoso, mas a capacidade de imaginar-se na situação alheia — e no “espectador imparcial”, instância interior que nos leva a julgar nossa conduta como a julgaria um observador bem-informado e desinteressado. A moral, para Smith, não deriva de uma razão abstrata nem de mandamentos externos, mas dessa rede de afetos e julgamentos recíprocos que sustenta a vida social. ...

Adi Shankara

Adi Shankara Nota sobre a datação: As datas de Ādi Śaṅkara (também grafado Shankara; honoríficamente Śaṅkarācārya, “o mestre Śaṅkara”) são disputadas. A tradição o situa em 788–820 d.C., mas muitos estudiosos modernos preferem uma datação anterior, em torno de c. 700–750 d.C. Sua biografia foi entrelaçada com material hagiográfico, de modo que muitos episódios de sua vida pertencem mais à lenda do que ao registro histórico verificável. Śaṅkara é o sistematizador mais influente do Advaita Vedānta, a corrente “não-dualista” da filosofia hindu. Sua obra consiste sobretudo em comentários rigorosos aos textos canônicos, nos quais defende uma metafísica em que a multiplicidade do mundo é, em última análise, redutível a uma única realidade. Sua influência sobre o pensamento indiano posterior — e sobre a recepção ocidental do hinduísmo — é enorme. ...

Aimé Césaire

Aimé Césaire Aimé Fernand David Césaire (26 de junho de 1913, Basse-Pointe, Martinica — 17 de abril de 2008, Fort-de-France) foi poeta, dramaturgo e político, uma das vozes fundadoras do pensamento anticolonial do século XX. Aluno da École Normale Supérieure em Paris (turma de 1935), foi ali, no efervescente meio dos estudantes negros das colônias francesas, que ajudou a forjar — ao lado do senegalês Léopold Sédar Senghor e do guianense Léon-Gontran Damas — o movimento da Négritude. Mais tarde, eleito prefeito de Fort-de-France (1945–2001) e deputado à Assembleia Nacional francesa, foi um dos arquitetos da lei de 1946 que transformou a Martinica em departamento ultramarino — decisão que ele próprio veio a reavaliar criticamente. Foi também professor de Frantz Fanon no Lycée Schœlcher. ...

Al-Farabi

Al-Farabi Abū Naṣr Muḥammad ibn Muḥammad al-Fārābī (c. 872–c. 950) foi um dos maiores filósofos do mundo islâmico medieval, chamado pela tradição de “o Segundo Professor” (al-Muʿallim al-Thānī) — sendo o primeiro Aristóteles. Nascido na região de Farab (atual Cazaquistão/Uzbequistão), trabalhou principalmente em Bagdá e Aleppo, sob o patronato da corte hamdânida. Sua obra abrange lógica, filosofia política, metafísica, filosofia da música e teoria das ciências. Conceitos-chave A Cidade Virtuosa (Al-Madīna al-Fāḍila, “As Opiniões dos Habitantes da Cidade Virtuosa”): Obra política modelada na República e nas Leis de Platão, integrada à cosmologia neoplatônica e ao pensamento islâmico. A cidade virtuosa é aquela cujos cidadãos compartilham as opiniões e ações corretas que conduzem à felicidade verdadeira. O governante ideal é simultaneamente filósofo e profeta — une perfeição intelectual e capacidade de comunicar a verdade à maioria por meio de imagens e símbolos (função da religião). ...

Alasdair MacIntyre

Alasdair MacIntyre Alasdair MacIntyre (1929–2025) foi um filósofo moral escocês-americano, autor de uma das obras mais influentes da filosofia moral do século XX, After Virtue (1981; Depois da Virtude). Sua trajetória intelectual foi marcada por uma longa peregrinação: partiu do marxismo na juventude, atravessou diferentes posições e acabou por converter-se ao catolicismo e ao tomismo aristotélico em sua maturidade. Faleceu em maio de 2025. MacIntyre diagnosticou que a linguagem moral moderna se encontra em estado de grave desordem — composta de fragmentos descontextualizados de tradições que se perderam — e sustentou que o “projeto iluminista” de fornecer uma justificação racional autônoma para a moral fracassou, abrindo caminho ao emotivismo. Sua proposta foi a recuperação de uma ética das virtudes de raiz aristotélico-tomista, ancorada na vida comunitária e nas tradições de investigação. ...

Albert Borgmann

Albert Borgmann nasceu em Freiburg, Alemanha, em 23 de novembro de 1937, e cresceu à sombra da catedral gótica, da Floresta Negra e da universidade onde Husserl e Heidegger haviam lecionado. Ainda estudante em Freiburg, assistiu em 1957 a aulas de Heidegger, experiência que marcaria de modo duradouro sua futura reflexão sobre a técnica. Transferiu-se depois para os Estados Unidos, onde obteve um mestrado em literatura alemã pela Universidade de Illinois em Urbana e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Munique, com uma tese sobre o cardeal John Henry Newman. Lecionou brevemente literatura alemã em Illinois e filosofia na DePaul University e na Universidade do Havaí, antes de se fixar por décadas na Universidade de Montana, em Missoula, onde faleceu em 7 de maio de 2023, aos 85 anos. ...

Albert Camus

Albert Camus Nascido em 1913 na Argélia francesa, em uma família pobre de colonos (pieds-noirs), Albert Camus perdeu o pai ainda bebê, na Primeira Guerra, e foi criado pela mãe analfabeta e parcialmente surda, num bairro humilde de Argel. A tuberculose marcaria toda a sua vida. Jornalista e escritor, dirigiu o jornal Combat na Resistência francesa e recebeu o Nobel de Literatura em 1957, aos 44 anos. Próximo do existencialismo — embora rejeitasse o rótulo —, rompeu com Sartre em razão de divergências sobre a violência revolucionária. Morreu em 1960, num acidente de carro, aos 46 anos. ...

Alberto Magno (Albertus Magnus)

Alberto Magno (Albertus Magnus) Frade dominicano, bispo de Ratisbona e Doctor Universalis. Foi o mestre de Tomás de Aquino e o principal responsável pela introdução sistemática de Aristóteles no mundo latino medieval. Diferentemente de outros escolásticos, Alberto possuía um interesse genuíno pelas ciências naturais — botânica, zoologia, mineralogia, alquimia — combinando observação empírica com reflexão filosófica. Canonizado e declarado Doutor da Igreja em 1931, é patrono dos cientistas naturais. ...

Amartya Sen

Amartya Sen Amartya Sen (n. 1933, Santiniketan, Bengala) é um economista e filósofo indiano cujo trabalho dissolveu a fronteira que separava a economia da ética. Recebeu o Prêmio Nobel Memorial de Economia em 1998 pelas suas contribuições à teoria da escolha social e à economia do bem-estar. Professor em Harvard, Sen estudou em Calcutá e em Cambridge, tendo presidido o Trinity College. Marcado em sua juventude pela fome de Bengala de 1943 — que matou milhões e na qual perdeu um parente —, dedicou-se a entender as causas da pobreza e da privação e a reconstruir os fundamentos normativos da economia. Em parceria intelectual com a filósofa Martha Nussbaum, desenvolveu a abordagem das capacidades. Recebeu o Bharat Ratna, mais alta condecoração civil da Índia, em 1999. ...

Anaxágoras

Anaxágoras Natural de Clazômenas, na Jônia, e nascido por volta de 500 a.C., Anaxágoras foi o primeiro filósofo a levar a tradição jônica para Atenas, onde viveu cerca de trinta anos e tornou-se amigo e conselheiro do estadista Péricles. Sua ousadia intelectual lhe custou caro: acusado de impiedade por sustentar que o Sol não era um deus, mas uma pedra incandescente, foi processado e teve de deixar a cidade, refugiando-se em Lâmpsaco. ...

Anaximandro

Anaximandro Concidadão e discípulo de Tales de Mileto, Anaximandro (c. 610–546 a.C.) foi um dos espíritos mais ousados da escola de Mileto e talvez o primeiro pensador a escrever um tratado em prosa sobre a natureza. A ele a tradição atribui o uso pioneiro do termo arché (“princípio”), além de feitos notáveis: o desenho do primeiro mapa do mundo habitado e a introdução do gnômon (relógio de sol) na Grécia. Insatisfeito com a água de Tales, Anaximandro propôs como princípio o ápeiron — o ilimitado, indeterminado e imperecível. Nenhum elemento particular poderia originar todos os outros sem ser por eles consumido; só algo indefinido e inesgotável poderia ser a fonte eterna de tudo. Do ápeiron, eterno e divino, separam-se os opostos (quente e frio, úmido e seco), e dessa separação nascem os mundos — que, no devido tempo, retornam a ele. O único fragmento literal que se conservou, transmitido por Simplício, fala dessa cosmologia em termos morais: as coisas “pagam umas às outras pena e retribuição pela injustiça, segundo a ordem do tempo”. ...

Anaxímenes

Anaxímenes Terceiro grande nome da escola de Mileto, Anaxímenes (c. 585–525 a.C.) foi discípulo de Anaximandro. À primeira vista, deu um passo atrás ao recusar o indeterminado ápeiron do mestre e voltar a um elemento concreto como princípio: o ar (aér). Mas sua escolha trazia uma vantagem decisiva — o ar, sendo determinado, permitia explicar como o princípio único se transforma em todas as coisas, algo que nem a água de Tales de Mileto nem o ápeiron explicavam com clareza. ...

Andrew Feenberg

Andrew Feenberg Andrew Feenberg nasceu em 1943, nos Estados Unidos. Doutorou-se em filosofia pela Universidade da Califórnia em San Diego em 1972, sob orientação de Marcuse, de quem foi aluno direto nos anos finais da carreira do filósofo alemão exilado nos Estados Unidos. Ainda estudante, Feenberg envolveu-se ativamente com a Nova Esquerda, tendo fundado o periódico Alternatives e participado, ao lado do próprio Marcuse, dos eventos de Maio de 1968 em Paris — Marcuse, que se encontrava na cidade para uma conferência da Unesco sobre Marx, foi reconhecido por estudantes que ocupavam a École des Beaux-Arts e convidado a discursar à assembleia; Feenberg, que o acompanhava, testemunhou o episódio e viria décadas depois a escrever, em coautoria com Jim Freedman, o livro When Poetry Ruled the Streets (2001), sobre aquele movimento. Lecionou filosofia na San Diego State University entre 1969 e 2003, com estadias como professor visitante em Duke, na SUNY Buffalo, na Sorbonne, na École des Hautes Études en Sciences Sociales e na Universidade de Tóquio, entre outras instituições. Posteriormente ocupou a Canada Research Chair em Filosofia da Técnica na Simon Fraser University, em Vancouver, onde dirigiu o Applied Communication and Technology Lab (ACT Lab) até se tornar professor emérito. ...

Anselmo de Cantuária

Anselmo de Cantuária Nascido em Aosta, nos Alpes, em 1033, Anselmo entrou no célebre mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, onde se tornou mestre admirado, e mais tarde foi arcebispo de Cantuária, em meio a duros conflitos com os reis ingleses sobre a autoridade da Igreja. É chamado de “pai da Escolástica” por ter inaugurado o esforço sistemático de usar a razão para penetrar os conteúdos da fé. Seu lema resume todo o programa medieval: “fides quaerens intellectum” — a fé que busca compreender. No Proslógio, ele o radicaliza: “não busco compreender para crer, mas creio para compreender” — fórmula que recolhe o “crede ut intelligas” de Santo Agostinho. ...

Antonin Sertillanges

Antonin Sertillanges Antonin-Dalmace Sertillanges (1863–1948) — de batismo Antonin-Gilbert — foi um frade dominicano francês, filósofo moral e um dos mais influentes divulgadores do tomismo no início do século XX. Nascido em Clermont-Ferrand, ingressou na Ordem dos Pregadores em 1883 e foi ordenado sacerdote em 1888. Tornou-se professor de filosofia moral no Institut Catholique de Paris e, em 1893, esteve entre os fundadores da Revue Thomiste, periódico que se tornaria central na renovação dos estudos sobre Tomás de Aquino. Em 1918 foi eleito para a Académie des sciences morales et politiques. Embora tenha produzido vasta obra de exegese tomista, seu nome chegou ao grande público sobretudo por um pequeno livro de 1921, La Vie intellectuelle (A Vida Intelectual), que se tornou um clássico duradouro sobre a disciplina, a ética e o método do trabalho do espírito. ...

Antonio Gramsci

Antonio Gramsci Antonio Gramsci (22 de janeiro de 1891, Ales, Sardenha — 27 de abril de 1937, Roma) foi um filósofo, jornalista e dirigente comunista italiano, uma das figuras mais originais do marxismo do século XX. Em Turim, fundou o jornal L’Ordine Nuovo (1919) durante o movimento dos conselhos de fábrica, e em 1921 ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano, do qual se tornou secretário-geral. Eleito deputado, foi preso pelo regime fascista em 1926; no julgamento, o promotor declarou que era preciso “impedir esse cérebro de funcionar por vinte anos”. Foi no cárcere, em condições penosas, que Gramsci escreveu sua obra decisiva — os Cadernos do Cárcere —, redigida entre 1929 e 1935 e publicada após sua morte. ...

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

Arnold Toynbee

Arnold Toynbee Arnold Joseph Toynbee (1889–1975) nasceu em Londres e formou-se em história clássica greco-romana no Balliol College, Oxford. Serviu no Foreign Office britânico durante e após a Primeira Guerra Mundial e dirigiu por décadas o departamento de estudos do Royal Institute of International Affairs (Chatham House), combinando erudição acadêmica com intensa atividade de análise das relações internacionais. Sua obra magna, A Study of History, publicada em doze volumes entre 1934 e 1961, é a mais ambiciosa tentativa do século XX de escrever uma história comparada de todas as civilizações conhecidas, identificando cerca de vinte e uma delas ao longo da história humana e propondo um esquema comum para compreender seu nascimento, crescimento, colapso e desintegração. ...

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