Pós-estruturalismo e pós-modernidade: Lyotard, Baudrillard e o fim das grandes narrativas

No fim dos anos 1960, a confiança estruturalista em sistemas estáveis começou a rachar por dentro. Os pensadores que levaram o estruturalismo ao seu limite — Jacques Derrida, o Michel Foucault da genealogia, Gilles Deleuze, o Roland Barthes tardio, Julia Kristeva — ficaram conhecidos (sobretudo na academia anglófona) como pós-estruturalistas. Por volta da mesma época, formou-se um diagnóstico mais amplo: o de uma condição pós-moderna. Dois filósofos franceses lhe deram as formulações mais influentes — Jean-François Lyotard, com a incredulidade diante das grandes narrativas, e Jean Baudrillard, com o hiper-real e o simulacro. Este artigo percorre o momento pós-estruturalista e o debate sobre o pós-moderno. ...

Estruturalismo: De Saussure a Lévi-Strauss, Barthes, Lacan e Althusser

Durante cerca de duas décadas — dos anos 1950 ao início dos 1970 —, uma única ideia reorganizou as ciências humanas francesas e, por extensão, boa parte do pensamento ocidental: a ideia de que os fenômenos humanos mais diversos (a língua, o parentesco, os mitos, a moda, o inconsciente, a ideologia) devem ser compreendidos como sistemas de relações — como estruturas — e não como coleções de coisas isoladas, nem como produtos de uma consciência individual. Esse foi o estruturalismo: menos uma doutrina unificada do que um método e um clima intelectual, exportado da linguística para a antropologia, a crítica literária, a psicanálise e o marxismo. Este artigo segue esse percurso, de Saussure a seus herdeiros, até a virada pós-estruturalista que o levou ao limite. ...

Foucault: Poder-Saber, Disciplina e a Sociedade da Vigilância em Vigiar e Punir

Michel Foucault talvez seja o pensador mais citado das ciências humanas no último meio século — e também um dos mais difíceis de classificar. Não construiu um sistema, não fundou uma escola, recusou os rótulos de “estruturalista” e “pós-moderno”. O que deixou foi um conjunto de investigações históricas tão originais que reescreveram o vocabulário de disciplinas inteiras: o que entendemos hoje por “poder”, “discurso”, “normalização” e “vigilância” passou, em larga medida, por suas páginas. Este artigo percorre o núcleo de seu pensamento: o método arqueológico e genealógico, a tese de que poder e saber são inseparáveis e a análise da sociedade disciplinar em Vigiar e Punir. ...

Derrida: Desconstrução, Différance e a Metafísica da Presença

Há uma experiência que talvez você já tenha vivido diante de um texto de Derrida: a sensação de que as palavras escorregam, de que o argumento se dobra sobre si mesmo, de que o autor parece mais interessado em desestabilizar o terreno do que em construir uma tese. Essa impressão não é um acidente nem uma falha de exposição — é, em larga medida, o ponto. Derrida não queria propor uma nova doutrina sobre a verdade ou a linguagem para somar à lista das que a filosofia já produziu. Queria mostrar que a própria pretensão de fixar um sentido último, pleno, presente a si mesmo, é o pressuposto frágil sobre o qual toda a tradição ocidental se edificou — e que esse pressuposto não se sustenta. ...

Gilles Deleuze: Diferença, Repetição, Rizoma e Imanência

Há filósofos que constroem sistemas e há filósofos que demolem o terreno sobre o qual os sistemas são construídos. Gilles Deleuze fez as duas coisas ao mesmo tempo. Sua obra é, por um lado, uma das tentativas metafísicas mais ambiciosas do século XX — uma ontologia da diferença e da multiplicidade que pretende reescrever a história inteira da filosofia ocidental. Por outro, é uma máquina de guerra contra a maneira como o pensamento ocidental sempre se representou a si mesmo: contra a primazia da identidade, da semelhança e da representação. Deleuze não quis acrescentar mais uma doutrina ao catálogo; quis mudar a imagem mesma do que significa pensar. E o fez forjando um vocabulário próprio — diferença em si, virtual, rizoma, corpo sem órgãos, plano de imanência — que tornou seus livros simultaneamente fascinantes e notoriamente difíceis. ...

Judith Butler: Gênero, Performatividade e os Limites de Sua Teoria

Poucos filósofos contemporâneos dividem tanto a opinião quanto Judith Butler. Para uns, ela é uma das pensadoras mais importantes do século XX — alguém que revolucionou a compreensão do gênero, da sexualidade e do poder. Para outros, é o símbolo máximo de uma filosofia que se perdeu no labirinto da própria linguagem, produzindo textos deliberadamente obscuros para mascarar ideias rasas. Para entender por que Butler provoca reações tão extremas, é preciso primeiro compreender o que ela realmente diz — e, depois, ter a honestidade intelectual de identificar onde o argumento vacila. ...

Gilles Deleuze

Gilles Deleuze Filósofo francês; criou uma filosofia da diferença e da multiplicidade que subverte a tradição metafísica centrada na identidade. Produziu obras solitárias e em colaboração com Félix Guattari. Conceitos-chave Diferença em si mesma (Diferença e Repetição, 1968): a diferença não é derivada da identidade — ela é originária; a identidade é secundária em relação à diferença. Crítica à tradição que sempre subordinou a diferença ao Mesmo Rizoma (com Guattari): contra o modelo arborescente (raiz única, hierarquia, centro), o rizoma é multiplicidade horizontal sem ponto de origem ou destino — conecta qualquer ponto com qualquer outro. Metáfora para o pensamento, a política e a cultura Linhas de fuga (lignes de fuite): todo sistema social e subjetivo contém forças de desterritorialização que escapam às estruturas dominantes — criação do novo, resistência ao controle Plano de imanência: a realidade não tem transcendência; tudo é imanente a um plano único de forças e intensidades — contra o dualismo platônico e a transcendência teológica Desejo como produção (Guattari): contra Freud (desejo como falta) — o desejo é força produtiva, afirmativa; o capitalismo captura a produção desejante mas esta sempre transborda Corpo sem órgãos: superfície de intensidades sem organização prévia — contra o organismo como modelo normativo do corpo Conceito de conceito: a filosofia cria conceitos — não representa, não contempla, não comunica; criar conceitos é a tarefa específica do filósofo Influenciado por Bergson — duração, multiplicidade, criação (Bergsonismo, 1966) Nietzsche — vontade de potência, eterno retorno, afirmação (Nietzsche e a Filosofia, 1962) Spinoza — imanência e potência (Spinoza: Filosofia Prática, 1970) Hume — empirismo radical e associacionismo Influenciou Estudos culturais e teoria queer Ciências cognitivas e biologia (auto-organização) Arquitetura, arte contemporânea Teoria política pós-marxista Obras Nietzsche e a Filosofia (1962); Bergsonismo (1966); Diferença e Repetição (1968); A Lógica do Sentido (1969); O Anti-Édipo (1972, com Guattari); Mil Platôs (1980, com Guattari); O que é a Filosofia? (1991, com Guattari). ...

Jacques Derrida

Jacques Derrida Filósofo argelino-francês; fundador da desconstrução. Subverteu a tradição metafísica ocidental mostrando que ela é estruturada por oposições binárias hierárquicas e pela metafísica da presença. Nascido em El-Biar, nos arredores de Argel, numa família judaica, Derrida formou-se na École normale supérieure de Paris e iniciou seu percurso a partir de uma leitura minuciosa da fenomenologia de Husserl. Sua entrada explosiva no debate intelectual deu-se em 1966, com a conferência apresentada na Universidade Johns Hopkins, na qual questionava a noção de estrutura como algo organizado em torno de um centro estável — gesto que o afastou do estruturalismo então dominante e abriu o que se chamaria de pós-estruturalismo. No ano seguinte publicou simultaneamente três obras que fixaram seu vocabulário e seu método, consolidando a desconstrução não como uma doutrina, mas como uma prática de leitura atenta às tensões que cada texto não consegue dominar. ...

Jean Baudrillard

Jean Baudrillard Jean Baudrillard (27 de julho de 1929, Reims — 6 de março de 2007, Paris) foi um sociólogo, filósofo e teórico da cultura francês, conhecido sobretudo por sua teoria do simulacro e do hiper-real. Formado em germanística, começou a carreira como professor de alemão e tradutor — verteu para o francês, entre outros, textos de Bertolt Brecht e Peter Weiss. A partir de 1966 ensinou sociologia em Nanterre (Paris X), epicentro das agitações de Maio de 1968, sob a influência de Henri Lefebvre e de Roland Barthes. ...

Jean-François Lyotard

Jean-François Lyotard Jean-François Lyotard (10 de agosto de 1924, Versalhes — 21 de abril de 1998, Paris) foi um filósofo francês, uma das vozes centrais do debate sobre a pós-modernidade. Formado em filosofia pela Sorbonne, ensinou no liceu de Constantine, na Argélia colonial, experiência que marcou seu engajamento político. Ao longo da carreira lecionou em Nanterre, na universidade experimental de Vincennes (Paris VIII) e, mais tarde, em universidades norte-americanas; esteve ligado ao Collège international de philosophie (fundado em 1983 por Derrida, Châtelet, Faye e Lecourt), que viria a dirigir de 1984 a 1986. ...

Judith Butler

Judith Butler Filósofa americana; figura central da teoria queer e dos estudos de gênero. Problemas de Gênero (1990) transformou as humanidades ao propor que o gênero não é identidade fixa, mas performance. Nascida em Cleveland, Ohio, em 1956, Butler doutorou-se em filosofia pela Universidade Yale em 1984 com uma dissertação sobre a recepção hegeliana na França. Sua formação atravessa o existencialismo francês, a fenomenologia e o pós-estruturalismo, combinação que lhe permitiu interrogar categorias consideradas naturais — como “sexo”, “gênero” e “sujeito” — a partir de seus processos históricos de produção. O problema central que guia sua obra é: de que modo as normas culturais fabricam corpos e identidades que passam por naturais? Essa questão a situa no cruzamento entre filosofia continental, teoria feminista e política das minorias. ...

Julia Kristeva

Julia Kristeva Julia Kristeva (nascida em 24 de junho de 1941, em Sliven, Bulgária) é uma filósofa, psicanalista, linguista, semioticista e romancista búlgaro-francesa. Chegou a Paris em 1965 com uma bolsa de doutorado e logo se integrou ao grupo da revista Tel Quel, epicentro da vanguarda intelectual francesa. Tornou-se professora na Universidade de Paris VII e psicanalista em exercício. Sua obra atravessa a linguística, a teoria literária, a psicanálise e a filosofia, com forte influência de Bakhtin, de Saussure e de Lacan. ...

Michel Foucault

Michel Foucault Michel Foucault nasceu em Poitiers em 1926 e formou-se na École Normale Supérieure, onde teve entre seus mestres Jean Hyppolite e Louis Althusser. Psicólogo de formação além de filósofo, ocupou a partir de 1970 a cátedra de “História dos Sistemas de Pensamento” no Collège de France e foi um intelectual politicamente engajado — sobretudo na luta pela reforma das prisões. Tornou-se uma das figuras mais citadas das ciências humanas em todo o mundo. Morreu em Paris, em 1984, de doença relacionada à aids. ...

Roland Barthes

Roland Barthes Roland Barthes (12 de novembro de 1915, Cherbourg — 26 de março de 1980, Paris) foi um crítico literário, semiólogo e ensaísta francês, uma das figuras centrais do estruturalismo e da virada pós-estruturalista. Marcado na juventude pela tuberculose, que o afastou da carreira universitária regular, construiu uma obra inclassificável, a meio caminho entre a crítica, a filosofia e a literatura. Em 1977 foi eleito para uma cátedra de semiologia literária no Collège de France. Morreu em 1980, semanas depois de ser atropelado por uma camionete em Paris. ...

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