Pós-colonialismo e Orientalismo: Said, Spivak, Bhabha e a Crítica do Discurso Colonial

A teoria pós-colonial é o conjunto de correntes que, a partir dos anos 1970–80, analisou criticamente os efeitos culturais, psíquicos e epistêmicos do colonialismo — não apenas durante o domínio colonial, mas em sua persistência depois das independências formais. Seu objeto não é principalmente a economia política do império (estudada por outras tradições), mas o discurso: as representações, os saberes e as estruturas de subjetividade que tornaram o colonialismo pensável, dizível e duradouro. Este artigo percorre seus precursores — Du Bois e Fanon — e a tríade que consolidou o campo: Said, Spivak e Bhabha. ...

Achille Mbembe

Achille Mbembe Joseph-Achille Mbembe nasceu em 1957 em Otélé, Camarões. Formou-se em história e filosofia na Sorbonne (Paris I) e obteve o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). É atualmente professor sênior do Wits Institute for Social and Economic Research (WISER), na Universidade de Witwatersrand, Johannesburg, África do Sul. Mbembe é considerado um dos intelectuais africanos mais influentes da atualidade, com trabalho que articula história africana, teoria pós-colonial, filosofia política e crítica cultural. Escreve em francês; suas obras principais foram traduzidas para o inglês, português, alemão e outras línguas. ...

Aimé Césaire

Aimé Césaire Aimé Fernand David Césaire (26 de junho de 1913, Basse-Pointe, Martinica — 17 de abril de 2008, Fort-de-France) foi poeta, dramaturgo e político, uma das vozes fundadoras do pensamento anticolonial do século XX. Aluno da École Normale Supérieure em Paris (turma de 1935), foi ali, no efervescente meio dos estudantes negros das colônias francesas, que ajudou a forjar — ao lado do senegalês Léopold Sédar Senghor e do guianense Léon-Gontran Damas — o movimento da Négritude. Mais tarde, eleito prefeito de Fort-de-France (1945–2001) e deputado à Assembleia Nacional francesa, foi um dos arquitetos da lei de 1946 que transformou a Martinica em departamento ultramarino — decisão que ele próprio veio a reavaliar criticamente. Foi também professor de Frantz Fanon no Lycée Schœlcher. ...

Édouard Glissant

Édouard Glissant Édouard Glissant (21 de setembro de 1928, Sainte-Marie, Martinica — 3 de fevereiro de 2011, Paris) foi poeta, romancista, ensaísta e filósofo, uma das maiores figuras do pensamento caribenho e da teoria pós-colonial de língua francesa. Aluno do Lycée Schœlcher, onde teve Aimé Césaire entre seus professores, estudou depois filosofia na Sorbonne e etnografia no Musée de l’Homme, em Paris. Recebeu o Prêmio Renaudot em 1958 pelo romance La Lézarde. Toda a sua obra — atravessando poesia, ficção e filosofia — gira em torno de uma intuição: a de que a identidade não se funda numa raiz única, mas numa relação sempre aberta com o outro. Contra as filosofias da pureza e da origem, Glissant pensou o Caribe — terra da plantação, do desenraizamento e da mistura forçada — como laboratório de uma humanidade por vir. ...

Edward Said

Edward Said Edward Wadie Said (1935–2003) foi um crítico literário e teórico cultural palestino-americano. Nasceu em Jerusalém sob o Mandato Britânico, em família cristã palestina; foi criado entre Jerusalém e o Cairo, formou-se em Princeton e Harvard, e ensinou literatura comparada na Universidade Columbia de 1963 até sua morte. Sua obra Orientalism (1978; Orientalismo) é considerada texto fundador dos estudos pós-coloniais: ali, mobilizando Foucault (discurso/poder) e Gramsci (hegemonia), Said sustenta que o “Oriente” não é uma região neutra do mundo, mas uma construção do discurso ocidental que produz seu objeto e legitima a dominação colonial. Said foi também um intelectual público de primeira grandeza: membro do Conselho Nacional Palestino entre 1977 e 1991, defensor da causa palestina, modelo influente do “intelectual exilado” e dissidente. ...

Frantz Fanon

Frantz Fanon Frantz Omar Fanon nasceu em 20 de julho de 1925 em Fort-de-France, Martinica (então colônia francesa). Psiquiatra, ensaísta e militante político, é a figura mais influente da filosofia anticolonial africana e caribenha. Formado em medicina e psiquiatria na França (Lyon), trabalhou como chefe de serviço de psiquiatria no Hospital de Blida-Joinville, na Argélia, a partir de 1953. Diante das atrocidades da Guerra de Independência da Argélia (1954–1962), aderiu ao FLN (Frente de Libertação Nacional) e tornou-se um dos principais porta-vozes intelectuais da causa anticolonial. Morreu de leucemia em Bethesda, Maryland, em 6 de dezembro de 1961, com 36 anos, dias após a publicação de Les damnés de la terre. ...

Gayatri Spivak

Gayatri Spivak Gayatri Chakravorty Spivak (n. 1942, Calcutá) é uma teórica indiana e professora de literatura comparada na Universidade Columbia. Sua tradução para o inglês de De la grammatologie (1976) tornou Derrida acessível ao mundo anglófono e marcou o início de uma das obras mais influentes — e dificultosamente sintética — da teoria contemporânea. Spivak combina desconstrução, marxismo, feminismo e crítica pós-colonial. Foi associada ao Subaltern Studies Group, coletivo de historiadores sul-asiáticos que, a partir de Gramsci e de Ranajit Guha, propunha reescrever a história colonial e nacional a partir das classes subalternas. Seu ensaio “Can the Subaltern Speak?” (1988; Pode o subalterno falar?) tornou-se referência canônica do campo. Em obras posteriores, Spivak ampliou sua reflexão para a globalização, a pedagogia e a literatura-mundo. ...

Homi Bhabha

Homi Bhabha Homi Kharshedji Bhabha (n. 1949, Bombaim — hoje Mumbai) é um teórico indiano da cultura e da literatura, formado no seio da comunidade parse de sua cidade natal e educado em Bombaim e em Oxford. Ocupa em Harvard a cátedra Anne F. Rothenberg de Literatura Inglesa e Americana e é, ao lado de Edward Said e Gayatri Spivak, um dos nomes que consolidaram a teoria pós-colonial como campo acadêmico. Sua obra de referência, The Location of Culture (O Local da Cultura, 1994), reúne ensaios que deslocaram o foco da crítica colonial: da denúncia da dominação para a análise da ambivalência que atravessa toda relação entre colonizador e colonizado. Escrevendo no cruzamento entre a desconstrução de Derrida, a psicanálise de Lacan e Freud e a clínica colonial de Fanon, Bhabha procura mostrar que o poder colonial nunca é tão coerente nem tão seguro quanto se imagina. ...

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