Neoplatonismo Tardio: Porfírio, Jâmblico e Proclo

Com Plotino (c. 204/5–270 d.C.), o neoplatonismo deu à filosofia antiga sua última grande síntese: o Uno inefável, do qual tudo emana e ao qual tudo retorna. Mas a história não terminou aí. Nas gerações seguintes, discípulos e sucessores transformaram essa visão num sistema cada vez mais vasto e articulado — e, ao mesmo tempo, cada vez mais ligado à religião e ao ritual. Esse neoplatonismo tardio, de Porfírio a Proclo, foi a forma sob a qual o platonismo chegou à Idade Média latina, árabe e bizantina. Este artigo percorre seus três grandes nomes. (Para o ponto de partida, ver o artigo sobre Plotino e a emanação do Uno.) ...

Santo Agostinho — Confissões, o Tempo, o Livre-Arbítrio e a Cidade de Deus

Quando, no ano de 410, os godos de Alarico saquearam Roma — a cidade que por oito séculos se julgara eterna —, o mundo antigo sentiu ruir o chão sob os pés. Foi nesse clima de desorientação que um bispo do norte da África empreendeu, entre a meditação íntima e a teologia da história, a obra que faria dele a maior figura intelectual da Antiguidade tardia. Aurélio Agostinho de Hipona (354–430) viveu sobre a fronteira de duas eras: educado na retórica clássica greco-romana, converteu-se ao cristianismo e transformou a herança de Platão e Plotino no idioma filosófico do Ocidente medieval. Nele, a busca da verdade deixou de ser apenas contemplação do cosmos e passou a ser exploração do interior da alma. ...

Nous: O Intelecto na Filosofia Grega — De Anaxágoras a Plotino e a Recepção Medieval

Poucos conceitos atravessam a história da filosofia ocidental com tanta persistência quanto o nous (νοῦς). A palavra grega designa, conforme o contexto, mente, intelecto, inteligência ou razão — mas seu alcance filosófico excede qualquer dessas traduções isoladas. Desde o momento em que Anaxágoras a elevou a princípio cósmico ordenador, passando pela elaboração platônica e pela análise aristotélica do intelecto no De Anima, até a metafísica emanacionista de Plotino e os intensos debates medievais entre Averróis e Tomás de Aquino, o nous constitui um fio condutor que liga cosmologia, psicologia e teologia em um único arco conceitual. ...

Plotino e o Neoplatonismo — O Uno, a Emanação e as Enéadas

Na passagem do século III d.C., quando as escolas filosóficas da Antiguidade pareciam ter esgotado suas possibilidades, um pensador nascido no Egito romano empreendeu a mais ambiciosa síntese metafísica que o mundo antigo conheceu. Plotino (c. 205–270 d.C.) não se limitou a comentar Platão: transformou o platonismo numa arquitetura ontológica completa, centrada na ideia de que toda a realidade emana de um princípio absoluto — o Uno — e que o destino da alma humana é retornar a essa unidade originária. ...

Marsílio Ficino

Marsílio Ficino Filósofo italiano e sacerdote católico. Líder da Academia Platônica de Florença sob o patrocínio de Cosme de Médici. Traduziu toda a obra de Platão para o latim pela primeira vez, além do Corpus Hermeticum e de Plotino. Ficino nasceu em Figline Valdarno, na Toscana, em 1433, e cresceu num ambiente de intenso intercâmbio cultural proporcionado pelo mecenato dos Médici. Quando Cosme de Médici decidiu fundar uma academia platônica inspirada no modelo da Antiguidade, escolheu Ficino para dirigi-la e incumbiu-o da monumental tarefa de traduzir para o latim os diálogos de Platão — corpus praticamente inacessível ao Ocidente medieval —, bem como os textos neoplatônicos de Plotino, Jâmblico e Proclo, além do recém-descoberto Corpus Hermeticum. Esse trabalho de tradução, concluído entre as décadas de 1460 e 1490, foi decisivo para que a filosofia platônica voltasse a circular no debate intelectual europeu após séculos de predominância aristotélica. ...

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa Cardeal alemão; figura de transição entre a Escolástica e o Renascimento. Usou a matemática como analogia filosófica (não como método em sentido técnico) para expressar a relação entre o infinito divino e o finito humano. Nascido em Kues (atual Bernkastel-Kues, Alemanha) em 1401, Nicolau frequentou a escola dos Irmãos da Vida Comum em Deventer e se formou em direito canônico em Pádua, onde tomou contato com o humanismo italiano. Tornou-se cardeal em 1448 e bispo de Brixen (Bressanone), desempenhando papel ativo nos debates conciliares que agitaram a Igreja no século XV — primeiro como defensor da supremacia do concílio sobre o papa, posição que mais tarde reviu a favor do primado pontifício. Sua trajetória eclesiástica e intelectual reflete o espírito do século: um pensamento que oscila entre a tradição medieval e as novas perspectivas abertas pela redescoberta dos textos platônicos e neoplatônicos. ...

Pico della Mirandola

Pico della Mirandola Giovanni Pico della Mirandola. Filósofo italiano prodigio; sabia latim, grego, hebraico, árabe e aramaico. Propôs realizar um debate em Roma com 900 teses de todas as tradições filosóficas — o papa Inocêncio VIII condenou algumas delas. Morreu aos 31 anos. Formado na Academia Platônica de Florença em estreito diálogo com Marcílio Ficino e no círculo de Lorenzo de’ Medici, Pico representou o ápice do humanismo renascentista. Em 1486, redigiu as 900 Conclusiones — teses extraídas de fontes tão diversas quanto Platão, Aristóteles, Avicena, Averróis, a Cabala judaica e o Corpus Hermeticum — com a ambição de demonstrar que a verdade filosófica e religiosa era uma só, acessível por múltiplos caminhos. O projeto foi interrompido quando uma comissão papal condenou treze das teses como heréticas; Pico refugiou-se em França e só retornou à Itália graças à proteção de Lorenzo de’ Medici. ...

Plotino

Plotino Nascido por volta de 205 d.C., provavelmente no Egito romano, Plotino estudou por anos em Alexandria com o enigmático mestre Amônio Sacas e, mais tarde, fixou-se em Roma, onde fundou uma escola e levou uma vida de notável ascese. Suas lições foram reunidas e organizadas por seu discípulo Porfírio nas Enéadas. É o fundador do neoplatonismo e o maior filósofo da Antiguidade tardia, fazendo de Platão o ponto de partida de uma das mais grandiosas metafísicas já concebidas. ...

Porfirio

Porfirio Porfírio de Tiro — em grego Porphýrios, nome adotado a partir do original semita Malco (em fenício, “rei”) — nasceu por volta de 234 d.C. em Tiro (na atual costa do Líbano) e morreu cerca de 305 d.C. Atenção: não deve ser confundido com Porfírio de Gaza (séc. V), bispo cristão homônimo, nem com outros personagens tardios que carregaram o mesmo nome. Após estudar em Atenas com Cássio Longino, juntou-se em c. 263 d.C. ao círculo de Plotino em Roma, do qual se tornou o discípulo mais célebre. Tornou-se editor das Enéadas (publicação póstuma c. 301), agrupando os escritos do mestre em seis grupos de nove tratados, precedidos por uma Vita Plotini (Vida de Plotino) — fonte biográfica fundamental sobre Plotino. Sua influência, contudo, vai muito além da edição dos textos plotinianos: através da Isagoge, Porfírio formatou o ingresso da lógica aristotélica no mundo medieval. ...

Proclo

Proclo Proclo Lício Diádoco (em grego Próklos Lýkios Diádokhos, “Proclo o Lício, o Sucessor”) nasceu em Constantinopla em 412 d.C. e morreu em Atenas em 17 de abril de 485 d.C. Atenção: não deve ser confundido com Proclo Procópio (orador do séc. V) nem com outros homônimos da Antiguidade tardia. Filho de família abastada da Lícia (sul da atual Turquia), formou-se em Alexandria e logo migrou para Atenas, onde estudou com Plutarco de Atenas (não confundir com o ensaísta de Queroneia) e com Siriano, a quem sucedeu como escolarca da Academia — daí o título Diádokhos, “o Sucessor”. Foi o último grande sistematizador do neoplatonismo pagão antes do fechamento da Academia pelo imperador Justiniano em 529 d.C. Sua obra organiza a herança plotiniana em uma rede rigorosa de proposições e tríades, num projeto comparável, em ambição, à Suma tomista — mas em sentido inteiramente pagão. ...

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