Filosofia do tempo: McTaggart, presentismo, eternalismo e a duração de Bergson

Há perguntas que a filosofia herda de cada geração sem jamais devolvê-las resolvidas. A questão do tempo é, talvez, a mais resistente de todas. Santo Agostinho, nas Confissões (livro XI), enunciou o paradoxo com uma clareza que nenhum filósofo posterior conseguiu superar: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem me pergunta, não sei.” A dificuldade não é retórica. O tempo é a condição de tudo o que existe — mudança, causalidade, memória, esperança — e, precisamente por ser tão onipresente, escapa a qualquer tentativa de defini-lo de fora, como se fosse um objeto entre outros. Este artigo percorre os principais nós da metafísica contemporânea do tempo: o argumento de McTaggart sobre a irrealidade do tempo, o debate entre presentismo e eternalismo, a teoria da passagem temporal, a durée de Bergson e a assimetria entre passado e futuro. ...

Leibniz: Mônadas, Teodiceia e o Melhor dos Mundos Possíveis

Imagine um universo composto por uma infinidade de pontos de vista, cada um deles uma alma minúscula que, sem nunca olhar pela janela, reflete dentro de si o cosmos inteiro — e que, no entanto, está em acordo perfeito com todos os outros, como se cada relógio de um vasto salão tivesse sido ajustado de uma vez para marcar a mesma hora pela eternidade. Esse é o mundo de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716): o último grande sábio universal da modernidade, matemático, lógico, jurista, diplomata, historiador e teólogo, que tentou a mais ambiciosa das sínteses — reconciliar a ciência mecânica de seu tempo com a metafísica das substâncias e com a teologia cristã. Sua filosofia é, ao mesmo tempo, um dos sistemas mais coerentes já construídos e uma das pontes que ligam Aristóteles à lógica matemática do século XX. ...

A Alegoria da Caverna e a Teoria das Formas: Platão e o Mundo Inteligível

Provavelmente nenhum texto filosófico, em vinte e cinco séculos de tradição ocidental, foi mais comentado, parafraseado, glosado e reinterpretado do que a passagem que abre o Livro VII da República de Platão. Em três páginas de tradução, Sócrates pede a Glauco que imagine homens acorrentados desde o nascimento no fundo de uma caverna, vendo apenas sombras projetadas numa parede — e propõe que essa cena descreve, com fidelidade espantosa, a condição comum dos seres humanos. Essa é a Alegoria da Caverna, e ela é, ao mesmo tempo, uma das peças mais célebres da filosofia e uma das mais sistematicamente mal compreendidas. Para lê-la com rigor, é preciso situá-la em seu contexto: ela é a terceira de três imagens articuladas — depois da metáfora do sol e da divisão da linha — que constituem o núcleo do pensamento maduro de Platão. ...

Deus, Ser e Existência: Provas, Críticas e a Pergunta Fundamental

A pergunta “Deus existe?” é, talvez, a mais antiga e a mais persistente da filosofia. Acompanha o pensamento ocidental desde os primeiros pré-socráticos — quando Xenófanes de Cólofon (c. 570–c. 475 a.C.) criticava o antropomorfismo dos deuses homéricos — até os debates analíticos contemporâneos sobre lógica modal e probabilidade bayesiana. No entanto, a pergunta, formulada nesses termos, esconde uma armadilha. Pois antes de perguntar se Deus existe, é preciso perguntar o que significa, para Deus, existir. E aqui se abre uma distinção decisiva, que separa o teísmo filosoficamente rigoroso da idolatria conceitual: a distinção entre existir (existere) e ser (esse). ...

Mário Ferreira dos Santos: a Filosofia Concreta e o Projeto Sistemático Brasileiro

Mário Ferreira dos Santos (1907–1968) é, por amplitude de produção, o maior projeto sistemático de filosofia já tentado no Brasil. Sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, planejada em mais de cinquenta volumes, é um empreendimento sem paralelo na história intelectual brasileira — e raro mesmo no contexto internacional do século XX, em que a filosofia académica abandonou progressivamente a forma sistemática. Independentemente das limitações que se possam apontar à obra — e elas existem —, o projeto de Mário Ferreira merece exame acadêmico sério: pelo escopo, pela ambição teórica e pela posição singular que ocupa entre a escolástica tomista, o pitagorismo, a fenomenologia e a tradição dialética alemã. Este artigo apresenta a vida, a obra e a doutrina central — a Filosofia Concreta — com rigor crítico e sem hagiografia. ...

Sócrates, Platão e Aristóteles: a Tríade Fundadora e a Ordem da Filosofia Grega

Há três nomes que toda história da filosofia ocidental é obrigada a pronunciar nesta ordem: Sócrates, Platão e Aristóteles. Não é uma sequência arbitrária. Trata-se de uma cadeia de transmissão direta — Sócrates foi mestre de Platão; Platão foi mestre de Aristóteles — que, em pouco mais de um século, transformou Atenas no centro do pensamento racional do mundo antigo e fixou os problemas, os métodos e o vocabulário que a filosofia usaria pelos próximos dois mil anos. ...

Heidegger — Ser e Tempo, Dasein e a Questão do Ser

A história da filosofia ocidental pode ser lida, sem exagero, como a história do esquecimento do ser. Essa é a tese que atravessa toda a obra de Martin Heidegger (1889–1976) — possivelmente o filósofo mais influente e mais controverso do século XX. Ser e Tempo (1927), sua obra principal, não propôs mais uma teoria sobre o mundo, a mente ou a moral: propôs que a filosofia inteira — de Platão a Nietzsche — havia deixado impensada a sua questão mais fundamental: o que significa ser? ...

Idealismo Filosófico: de Platão a Hegel — As Principais Vertentes e Críticas

Poucas tradições filosóficas atravessam a história do pensamento ocidental com tanta persistência quanto o idealismo. Desde a Teoria das Formas de Platão até o sistema absoluto de Hegel, passando pelo imaterialismo de Berkeley e pelo criticismo kantiano, a tese de que a realidade é, em última instância, constituída ou condicionada pelo pensamento, pela mente ou pelo espírito reaparece sob formas radicalmente diversas. Este artigo examina as principais vertentes do idealismo filosófico — suas premissas, seus argumentos, suas diferenças internas — e as críticas decisivas que lhe foram dirigidas por Marx, Russell e Moore. ...

Physis (φύσις): Natureza, Devir e o Conceito Grego que Fundou a Filosofia

Se existe uma palavra capaz de condensar o gesto inaugural da filosofia ocidental, essa palavra é φύσις (physis). Antes que os gregos inventassem termos como “metafísica”, “ontologia” ou “epistemologia”, eles já possuíam physis — e, com ela, uma maneira radicalmente nova de interrogar a realidade. Os primeiros tratados filosóficos de que temos notícia se chamavam, quase todos, Περὶ φύσεως (Perì Phýseōs, “Sobre a Natureza”). Aristóteles chamava os pré-socráticos de physikoi — “os que investigam a physis”. A própria palavra “física” é filha direta desse conceito. ...

Substância na Filosofia: De Aristóteles a Heidegger — História de um Conceito Fundamental

Poucos conceitos atravessaram a história da filosofia ocidental com tanta persistência — e tantas metamorfoses — quanto o de substância. Do grego ousia ao latim substantia, da forma aristotélica à mônada leibniziana, da res cogitans cartesiana ao substrato desconhecido de Locke, esse termo serviu de eixo para as mais decisivas questões metafísicas: O que existe de fato? O que permanece sob a mudança? O que é uma coisa independente de suas propriedades? ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno V: O Tomismo Diante da Filosofia Crítica

Este é o quinto e último artigo da série sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal (1878–1944). Nos artigos anteriores, percorremos o percurso histórico da obra: a tradição clássica do conhecimento (Caderno I), o conflito entre Racionalismo e Empirismo (Caderno II), a filosofia crítica de Kant (Caderno III) e o sistema idealista pós-kantiano de Fichte, Schelling e Hegel (Caderno IV). Chegamos agora ao Caderno V — Le thomisme devant la philosophie critique —, o coração de toda a obra e a contribuição filosófica mais original de Maréchal. É aqui que ele realiza a comparação sistemática entre o tomismo e a filosofia crítica, e apresenta sua síntese: o argumento de que o dinamismo do intelecto humano em direção ao Ser Absoluto é uma estrutura transcendental — uma condição de possibilidade de todo ato de conhecimento — e que, portanto, uma metafísica do ser é não apenas possível, mas inevitável a qualquer análise honesta do conhecimento humano. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno IV: O Sistema Idealista em Kant e nos Pós-Kantianos

Este é o quarto de cinco artigos sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal. Nos artigos anteriores, percorremos a tradição clássica do conhecimento, de Aristóteles a Tomás de Aquino (Caderno I), o conflito entre Racionalismo e Empirismo que culmina no ceticismo de Hume (Caderno II) e a análise detalhada da filosofia crítica de Kant — a Estética, a Analítica e a Dialética Transcendentais (Caderno III). Agora, no Caderno IV — intitulado Le système idéaliste chez Kant et les postkantiens e publicado postumamente em 1947, três anos após a morte de Maréchal — examinamos como o idealismo pós-kantiano desenvolveu o giro transcendental iniciado por Kant, levando-o a consequências que o próprio Kant não havia previsto nem autorizado. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno III: A Crítica de Kant

Este é o terceiro de cinco artigos sobre Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal. Nos artigos anteriores, percorremos o Caderno I — a tradição clássica do conhecimento, de Aristóteles a Tomás de Aquino — e o Caderno II — o conflito entre Racionalismo e Empirismo que culmina no ceticismo de Hume. Agora chegamos ao Caderno III, o mais extenso e tecnicamente denso de toda a obra: a análise da filosofia crítica de Immanuel Kant (1724–1804). Para Maréchal, Kant é o interlocutor inevitável — não um adversário a ser descartado, mas um pensador que colocou o problema do conhecimento com uma profundidade sem precedentes. Acompanhamos aqui como Maréchal expõe a arquitetura da Crítica da Razão Pura e onde, em sua leitura, Kant avançou decisivamente — e onde parou aquém do que sua própria análise tornava possível. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno II: Racionalismo e Empirismo antes de Kant

Este é o segundo de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique de Joseph Maréchal (1878–1944). No artigo anterior, acompanhamos o Caderno I, em que Maréchal inventariou as conquistas e os limites da tradição clássica — dos pré-socráticos a Tomás de Aquino — no que diz respeito ao problema da validade objetiva do conhecimento. A tradição escolástica havia articulado um realismo epistemológico robusto, mas sem oferecer a justificação reflexiva que o interlocutor moderno viria a exigir. O Caderno II entra agora nesse mundo moderno: analisa o grande conflito entre Racionalismo e Empirismo como a tentativa da filosofia dos séculos XVII e XVIII de resolver, cada uma à sua maneira, o problema do fundamento do conhecimento humano. Veremos que ambas as tradições fracassam, e que é o cético David Hume quem, ao radicalizar o empirismo, abre o abismo que Kant se sentirá obrigado a atravessar. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno I: A Crítica Antiga do Conhecimento

Este é o primeiro de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”) do filósofo jesuíta belga Joseph Maréchal (1878–1944). Publicada em cinco cadernos — quatro deles (I, II, III e V) entre 1922 e 1926, e o Caderno IV postumamente em 1947 —, a obra representa uma das tentativas mais ambiciosas do século XX de colocar o tomismo em diálogo com a filosofia crítica kantiana. Ao longo desta série, percorreremos cada um dos cinco cadernos: do inventário histórico da tradição clássica até a síntese original de Maréchal, que influenciou profundamente pensadores como Karl Rahner, Bernard Lonergan e Emerich Coreth. Neste primeiro artigo, acompanhamos o Caderno I, que faz um percurso histórico-crítico desde os pré-socráticos até o fim da Escolástica. ...

Adi Shankara

Adi Shankara Nota sobre a datação: As datas de Ādi Śaṅkara (também grafado Shankara; honoríficamente Śaṅkarācārya, “o mestre Śaṅkara”) são disputadas. A tradição o situa em 788–820 d.C., mas muitos estudiosos modernos preferem uma datação anterior, em torno de c. 700–750 d.C. Sua biografia foi entrelaçada com material hagiográfico, de modo que muitos episódios de sua vida pertencem mais à lenda do que ao registro histórico verificável. Śaṅkara é o sistematizador mais influente do Advaita Vedānta, a corrente “não-dualista” da filosofia hindu. Sua obra consiste sobretudo em comentários rigorosos aos textos canônicos, nos quais defende uma metafísica em que a multiplicidade do mundo é, em última análise, redutível a uma única realidade. Sua influência sobre o pensamento indiano posterior — e sobre a recepção ocidental do hinduísmo — é enorme. ...

Al-Farabi

Al-Farabi Abū Naṣr Muḥammad ibn Muḥammad al-Fārābī (c. 872–c. 950) foi um dos maiores filósofos do mundo islâmico medieval, chamado pela tradição de “o Segundo Professor” (al-Muʿallim al-Thānī) — sendo o primeiro Aristóteles. Nascido na região de Farab (atual Cazaquistão/Uzbequistão), trabalhou principalmente em Bagdá e Aleppo, sob o patronato da corte hamdânida. Sua obra abrange lógica, filosofia política, metafísica, filosofia da música e teoria das ciências. Conceitos-chave A Cidade Virtuosa (Al-Madīna al-Fāḍila, “As Opiniões dos Habitantes da Cidade Virtuosa”): Obra política modelada na República e nas Leis de Platão, integrada à cosmologia neoplatônica e ao pensamento islâmico. A cidade virtuosa é aquela cujos cidadãos compartilham as opiniões e ações corretas que conduzem à felicidade verdadeira. O governante ideal é simultaneamente filósofo e profeta — une perfeição intelectual e capacidade de comunicar a verdade à maioria por meio de imagens e símbolos (função da religião). ...

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

Avicena (Ibn Sīnā)

Avicena (Ibn Sīnā) Nascido em 980 perto de Bukhara, na Ásia Central de língua persa, Abu Ali Ibn Sīnā — latinizado como Avicena — foi um prodígio: dizem que aos dezoito anos já dominava a medicina de seu tempo. Levou uma vida agitada, entre cortes, prisões e cargos de vizir, mas deixou mais de duzentas obras. Seu Cânon da Medicina foi o principal manual médico do Ocidente por séculos, e seu Livro da Cura é uma vasta enciclopédia filosófica. É o maior filósofo do mundo islâmico medieval, e seu nome ficou ligado a uma distinção que mudaria a metafísica ocidental. ...

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