Montaigne — Ensaios, Ceticismo e a Arte do Autoconhecimento

Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) é um daqueles raros pensadores cuja influência não se mede pela construção de um sistema, mas pela invenção de uma forma. Ao criar o ensaio — palavra que ele mesmo cunhou, do francês essai, tentativa — inaugurou um modo de pensar que recusa a pretensão de verdade definitiva e faz do próprio sujeito pensante o objeto e o instrumento da investigação. Seus Essais, publicados entre 1580 e 1595, permanecem entre os textos mais lidos e relidos da literatura ocidental, e sua relevância filosófica só cresceu com o tempo. ...

Erasmo de Roterdã

Erasmo de Roterdã Nascido em Roterdã por volta de 1466, Erasmo (Desidério Erasmo de Roterdã) foi o maior humanista do Renascimento do Norte da Europa — o “príncipe dos humanistas”. Cônego agostiniano e padre, dedicou-se às letras e percorreu a Europa, travando amizade com Thomas Morus na Inglaterra. Erudito incomparável em grego e latim, fez da palavra culta um instrumento de reforma e de ironia. Morreu na Basileia em 1536, tendo recusado tanto o dogmatismo da velha Igreja quanto a ruptura protestante. ...

Ludwig Feuerbach

Ludwig Feuerbach Filósofo alemão; discípulo dissidente de Hegel. Sua crítica materialista e antropológica da religião foi o elo fundamental entre o idealismo hegeliano e o materialismo histórico de Marx. Inverteu Hegel ao dissolver a teologia em antropologia: o sujeito real da filosofia não é o Espírito, mas o homem sensível. Feuerbach estudou inicialmente teologia antes de migrar para a filosofia e tornar-se ouvinte de Hegel em Berlim. Aos poucos rompeu com o mestre: sua carreira acadêmica foi inviabilizada por escritos de teor heterodoxo sobre a imortalidade, e ele acabou por viver afastado das universidades, escrevendo a partir da vida privada. Foi nesse contexto que publicou sua obra mais célebre, dedicada à essência do cristianismo, que teve impacto imediato sobre toda uma geração de jovens intelectuais alemães e fez dele a figura central do chamado hegelianismo de esquerda. O ponto de partida de seu pensamento é uma operação metódica que ele próprio descreve como uma inversão: onde a especulação idealista faz do pensamento, do Espírito ou de Deus o sujeito e do homem concreto o mero predicado, Feuerbach propõe trocar os papéis e reconhecer no homem sensível, corpóreo e finito o verdadeiro sujeito do qual aqueles conceitos são predicados projetados. ...

Marsílio Ficino

Marsílio Ficino Filósofo italiano e sacerdote católico. Líder da Academia Platônica de Florença sob o patrocínio de Cosme de Médici. Traduziu toda a obra de Platão para o latim pela primeira vez, além do Corpus Hermeticum e de Plotino. Ficino nasceu em Figline Valdarno, na Toscana, em 1433, e cresceu num ambiente de intenso intercâmbio cultural proporcionado pelo mecenato dos Médici. Quando Cosme de Médici decidiu fundar uma academia platônica inspirada no modelo da Antiguidade, escolheu Ficino para dirigi-la e incumbiu-o da monumental tarefa de traduzir para o latim os diálogos de Platão — corpus praticamente inacessível ao Ocidente medieval —, bem como os textos neoplatônicos de Plotino, Jâmblico e Proclo, além do recém-descoberto Corpus Hermeticum. Esse trabalho de tradução, concluído entre as décadas de 1460 e 1490, foi decisivo para que a filosofia platônica voltasse a circular no debate intelectual europeu após séculos de predominância aristotélica. ...

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa Cardeal alemão; figura de transição entre a Escolástica e o Renascimento. Usou a matemática como analogia filosófica (não como método em sentido técnico) para expressar a relação entre o infinito divino e o finito humano. Nascido em Kues (atual Bernkastel-Kues, Alemanha) em 1401, Nicolau frequentou a escola dos Irmãos da Vida Comum em Deventer e se formou em direito canônico em Pádua, onde tomou contato com o humanismo italiano. Tornou-se cardeal em 1448 e bispo de Brixen (Bressanone), desempenhando papel ativo nos debates conciliares que agitaram a Igreja no século XV — primeiro como defensor da supremacia do concílio sobre o papa, posição que mais tarde reviu a favor do primado pontifício. Sua trajetória eclesiástica e intelectual reflete o espírito do século: um pensamento que oscila entre a tradição medieval e as novas perspectivas abertas pela redescoberta dos textos platônicos e neoplatônicos. ...

Pico della Mirandola

Pico della Mirandola Giovanni Pico della Mirandola. Filósofo italiano prodigio; sabia latim, grego, hebraico, árabe e aramaico. Propôs realizar um debate em Roma com 900 teses de todas as tradições filosóficas — o papa Inocêncio VIII condenou algumas delas. Morreu aos 31 anos. Formado na Academia Platônica de Florença em estreito diálogo com Marcílio Ficino e no círculo de Lorenzo de’ Medici, Pico representou o ápice do humanismo renascentista. Em 1486, redigiu as 900 Conclusiones — teses extraídas de fontes tão diversas quanto Platão, Aristóteles, Avicena, Averróis, a Cabala judaica e o Corpus Hermeticum — com a ambição de demonstrar que a verdade filosófica e religiosa era uma só, acessível por múltiplos caminhos. O projeto foi interrompido quando uma comissão papal condenou treze das teses como heréticas; Pico refugiou-se em França e só retornou à Itália graças à proteção de Lorenzo de’ Medici. ...

Thomas More (Thomas Morus)

Thomas More (Thomas Morus) Humanista, jurista e estadista inglês. Lord Chanceler de Henrique VIII; recusou reconhecer o rei como chefe supremo da Igreja e foi decapitado. Canonizado pela Igreja Católica (1935). Autor do conceito de utopia. Thomas More nasceu em Londres em 1478, filho de um advogado bem-sucedido, e recebeu formação clássica rigorosa — estudou em Oxford e nos Inns of Court, tornando-se um dos juristas mais respeitados da Inglaterra Tudor. Sua amizade com Erasmo, selada ainda no início do século XVI, definiu sua orientação intelectual: o humanismo cristão, que acreditava ser possível reformar a sociedade através do aprofundamento moral e da renovação das letras, sem ruptura com a tradição católica. Nesse contexto, Utopia (1516) não é apenas uma fantasia literária, mas uma obra de filosofia política rigorosa, que combina o gênero do diálogo platônico com a sátira lucianesca para radiografar os males da Europa de sua época — a concentração fundiária, a corrupção da nobreza, as guerras dinásticas e a desumanidade das penas capitais. ...

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