Hannah Arendt

Hannah Arendt Filósofa política alemã-americana, judia, discípula de Heidegger e Jaspers. Pensadora do totalitarismo, da liberdade política e da ação humana. Uma das vozes mais originais do séc. XX. Formada na tradição fenomenológica e existencial alemã, Arendt escreveu sua tese de doutorado sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, sob a orientação de Jaspers. A ascensão do nazismo interrompeu radicalmente sua trajetória: judia, viu-se forçada a fugir da Alemanha em 1933 e, depois de anos como apátrida na França, emigrou para os Estados Unidos, onde se naturalizou cidadã norte-americana. A experiência do desenraizamento, da perseguição e da perda do mundo comum tornou-se o solo vivido a partir do qual sua obra interroga o que significa, no século dos campos de concentração e do refúgio em massa, conservar um lugar para a dignidade e a pluralidade humanas. ...

Henry David Thoreau

Henry David Thoreau Henry David Thoreau nasceu em Concord, Massachusetts, em 12 de julho de 1817, e morreu na mesma cidade em 6 de maio de 1862, de tuberculose. Batizado David Henry, passou a usar a ordem inversa do nome depois de formado. Estudou em Harvard (1837), lecionou por algum tempo e trabalhou com o pai, na fabricação de lápis, e como agrimensor, ao mesmo tempo que escrevia. Foi amigo próximo de Ralph Waldo Emerson, que o apoiou e em cujo círculo de Concord ele se formou. Seu Journal, mantido por décadas, é uma parte essencial de sua obra. ...

Iris Marion Young

Iris Marion Young Iris Marion Young (2 de janeiro de 1949, Nova York — 1º de agosto de 2006, Chicago) foi uma filósofa política e teórica feminista norte-americana, professora de Ciência Política na Universidade de Chicago. Uma das vozes mais influentes da filosofia política de sua geração, dedicou-se a repensar as categorias herdadas da tradição liberal — justiça, igualdade, cidadania — a partir da experiência concreta dos grupos sociais marginalizados. Combinando teoria crítica, fenomenologia e feminismo, Young argumentou que uma teoria da justiça centrada apenas na distribuição de bens é cega às estruturas de poder, de trabalho e de cultura que produzem a dominação. Morreu de câncer aos 57 anos; sua última obra, Responsibility for Justice, foi publicada postumamente em 2011. ...

Isaiah Berlin

Isaiah Berlin Filósofo político e historiador das ideias britânico-letão, um dos maiores pensadores liberais do século XX. Famoso pela distinção entre liberdade negativa e positiva, e pela defesa do pluralismo de valores contra toda forma de utopismo político. Nascido em Riga em 1909, no que então era o Império Russo, Berlin testemunhou as revoluções de 1917 em Petrogrado — para onde a família se mudara em 1916 — antes de a família regressar a Riga e emigrar para a Inglaterra em 1921, experiência que marcou de modo duradouro sua desconfiança diante das promessas de redenção coletiva. Educado e mais tarde professor em Oxford — onde ocupou a cátedra Chichele de teoria social e política —, dedicou-se menos à construção de um sistema do que à história das ideias, recuperando vozes esquecidas e contracorrentes do pensamento moderno. Foi nessa chave que proferiu, em 1958, a célebre conferência inaugural “Dois conceitos de liberdade”, texto que organizou o debate político do pós-guerra ao mostrar que a liberdade como autodomínio (positiva) podia, levada ao extremo, autorizar a coerção em nome do “verdadeiro eu” do cidadão. ...

Jacques Maritain

Jacques Maritain Jacques Maritain nasceu em Paris em 18 de novembro de 1882 e morreu em Toulouse em 28 de abril de 1973. Educado em ambiente protestante liberal e republicano, estudou na Sorbonne, onde conheceu Raïssa Oumançoff, com quem se casou, e frequentou as aulas de Bergson no Collège de France; por algum tempo estudou também biologia na Alemanha, com Hans Driesch. Em 1906, sob a influência de Léon Bloy, converteu-se ao catolicismo e, na sequência, dedicou-se ao estudo de Tomás de Aquino, cuja filosofia passou a defender como “filosofia perene” capaz de dialogar com a modernidade. Lecionou no Institut Catholique de Paris, ensinou depois nos Estados Unidos e no Canadá, foi embaixador da França junto à Santa Sé (1945–1948) e professor em Princeton. Nos últimos anos viveu em Toulouse junto aos Irmãozinhos de Jesus, comunidade à qual se uniu em 1970. ...

Jean-Jacques Rousseau

Jean-Jacques Rousseau Nascido em Genebra em 1712 e órfão de mãe desde o nascimento, Jean-Jacques Rousseau foi em grande parte autodidata e levou uma vida errante antes de despontar em Paris, onde conviveu com os enciclopedistas — de quem viria a se afastar com estrépito. A consagração veio em 1750, ao vencer o concurso da Academia de Dijon com um discurso que já anunciava sua tese mais provocadora: a de que as artes e as ciências, longe de aperfeiçoarem o homem, corrompem os costumes. Perseguido após a publicação do Emílio, condenado e forçado ao exílio, terminou a vida atormentado, em 1778, deixando as Confissões. É o grande crítico do Iluminismo dentro do próprio Iluminismo. ...

John Locke

John Locke John Locke nasceu em Wrington, na Inglaterra, em 1632, formou-se em Oxford e exerceu a medicina antes de se tornar secretário e médico do conde de Shaftesbury, o que o aproximou da alta política inglesa. Envolvido nas disputas que opunham o Parlamento à coroa absolutista dos Stuart, exilou-se na Holanda durante o reinado de Jaime II e só voltou em 1689, com a Revolução Gloriosa, que consagrava o regime parlamentar que ele ajudaria a justificar filosoficamente. É considerado o pai do liberalismo clássico e uma das maiores influências do empirismo e do pensamento político moderno. ...

John Rawls

John Rawls Filósofo político americano; Uma Teoria da Justiça (1971) relançou a filosofia política normativa após décadas de domínio do positivismo e do utilitarismo. A obra mais influente da filosofia política do séc. XX. Professor em Harvard durante a maior parte de sua carreira, Rawls escreveu num momento em que muitos consideravam a filosofia política morta, reduzida a análise conceitual ou a uma história das doutrinas. Seu problema central era encontrar uma concepção de justiça para as instituições básicas da sociedade — a constituição, a economia, a família — que pudesse ser aceita por cidadãos livres e iguais sem apelar a uma única visão de mundo. Contra o utilitarismo dominante, que estava disposto a sacrificar o bem-estar de alguns em nome da soma agregada, Rawls insistia que cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem o bem-estar geral pode anular. Para articular essa intuição, recuperou a tradição contratualista de Locke, Rousseau e Kant, mas em um nível mais alto de abstração: o acordo não versa sobre um governo concreto, e sim sobre os próprios princípios que devem reger a estrutura básica. ...

Kimberlé Crenshaw

Kimberlé Crenshaw Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959, em Canton, Ohio) é uma jurista norte-americana, professora de direito na UCLA e na Universidade Columbia. É uma das fundadoras da Teoria Crítica da Raça (Critical Race Theory) e a autora que cunhou o conceito de interseccionalidade, hoje central nos estudos de gênero, raça e filosofia política, mas originalmente formulado no terreno do direito antidiscriminatório. O problema de que parte é prático e jurídico. Analisando casos de discriminação — em especial o caso DeGraffenreid v. General Motors (1976), em que mulheres negras foram juridicamente desamparadas porque a empresa contratava mulheres (brancas) e negros (homens) —, Crenshaw mostrou que os enquadramentos de eixo único (discriminação ou por raça ou por gênero) deixavam invisível a situação de quem está na interseção de mais de um eixo. ...

Kwame Nkrumah

Kwame Nkrumah Kwame Nkrumah (21 de setembro de 1909 – 27 de abril de 1972) nasceu em Nkroful, na Costa do Ouro (atual Gana). Estudou nos EUA (Lincoln University e University of Pennsylvania) e no Reino Unido (London School of Economics), onde desenvolveu suas ideias pan-africanistas em contato com figuras como C.L.R. James e George Padmore. Retornou à Costa do Ouro em 1947, liderou o movimento de independência e tornou-se o primeiro presidente de Gana em 1957 — o primeiro país africano subsaariano a obter independência no período pós-guerra. Foi deposto por um golpe militar em 1966, enquanto estava em Pequim, a caminho de Hanói. Viveu o restante de sua vida no exílio, na Guiné-Conakri, onde morreu em 1972. Nkrumah é considerado um dos pais fundadores do pan-africanismo moderno e figura central da Organização da Unidade Africana (fundada em 1963). ...

Laozi (老子)

Laozi (老子) Nota histórica fundamental: A existência de Laozi como personagem histórico individual é debatida entre os especialistas. O historiador Sima Qian (c. 145–86 a.C.), em Shiji, registra várias tradições sobre Laozi sem poder decidir entre elas — indicativo de que a incerteza é antiga. O texto a ele atribuído, o Dàodéjīng (道德經, “Clássico do Caminho e da Virtude”, também chamado Laozi), pode ser uma compilação de materiais de diferentes origens; a erudição moderna situa a forma atual do texto no século IV ou III a.C. A figura de Laozi como sábio ancião que teria encontrado Confúcio e depois deixado a China pelo Ocidente é provavelmente lendária. ...

Leo Strauss

Leo Strauss Leo Strauss nasceu em Kirchhain, Hesse, Alemanha, em 20 de setembro de 1899, em família judaica, e morreu em Annapolis, Maryland, em 18 de outubro de 1973. Doutorou-se em Hamburgo em 1921, sob orientação de Ernst Cassirer, trabalhou na Academia para a Pesquisa Judaica em Berlim e, com a ascensão do nazismo, deixou a Alemanha em 1932 com uma bolsa Rockefeller, passando por Paris e Inglaterra antes de se fixar nos Estados Unidos. Lecionou na New School for Social Research (1938–1949) e na Universidade de Chicago (1949–1968), encerrando a carreira no Claremont Men’s College e no St. John’s College, em Annapolis. ...

Léopold Sédar Senghor

Léopold Sédar Senghor Léopold Sédar Senghor (9 de outubro de 1906, Joal, Senegal — 20 de dezembro de 2001, Verson, França) foi poeta, filósofo da cultura e estadista. Primeiro presidente do Senegal independente (1960–1980) e primeiro africano eleito para a Académie française (1983), foi também, ao lado de Aimé Césaire e Léon-Gontran Damas, um dos fundadores da Négritude nos anos 1930 em Paris. Enquanto Césaire deu ao movimento sua força poética, Senghor empenhou-se em conferir-lhe uma elaboração filosófica e estética sistemática, fazendo dele uma teoria geral da contribuição africana à civilização humana. Sua obra é hoje objeto tanto de reconhecimento quanto de viva controvérsia. ...

Louis Althusser

Louis Althusser Louis Althusser (16 de outubro de 1918, Birmendreïs, Argélia francesa — 22 de outubro de 1990, La Verrière) foi um filósofo marxista francês, principal nome do marxismo estrutural. Professor na École Normale Supérieure da rua d’Ulm por décadas, formou e influenciou uma geração inteira (Foucault, Derrida, Jacques Rancière, Étienne Balibar, Alain Badiou). Membro do Partido Comunista Francês desde 1948, empenhou-se em uma releitura rigorosa e “científica” de Marx, contra as leituras humanistas e historicistas então dominantes. Sua biografia foi marcada por grave doença mental: em 1980, num episódio psicótico, matou sua esposa, Hélène Rytmann, e foi declarado inimputável. ...

Luce Irigaray

Luce Irigaray (nascida em 3 de maio de 1930, na Bélgica) é uma filósofa, linguista e psicanalista belga-francesa, uma das principais vozes do chamado feminismo da diferença. Com doutorados em linguística e em filosofia, integrou o círculo lacaniano até a publicação de sua tese, Espéculo da Outra Mulher (1974), cuja crítica radical à psicanálise lhe custou a expulsão da École freudienne de Paris, de Jacques Lacan, e o posto de docente na Universidade de Vincennes. ...

Maquiavel

Maquiavel Nascido em Florença em 1469, Nicolau Maquiavel viveu o auge e a crise das repúblicas italianas do Renascimento. Por catorze anos serviu como secretário da Segunda Chancelaria da República de Florença, em missões diplomáticas que o puseram diante de reis, papas e do temível Cesare Bórgia — experiência direta do poder que marcaria todo o seu pensamento. Com o retorno dos Médici em 1512, foi afastado, preso e torturado sob suspeita de conspiração. Foi no exílio rural, então, que escreveu O Príncipe (1513). É considerado o fundador da ciência política moderna. ...

Marco Aurélio

Marco Aurélio Marco Aurélio Antonino governou Roma de 161 a 180 d.C. e é lembrado como o último dos “cinco bons imperadores” e como o exemplo mais célebre da antiga ideia do rei-filósofo. Adotado na linha de sucessão por Antonino Pio, recebeu educação esmerada e converteu-se cedo ao estoicismo, sobretudo pela leitura de Epiteto, a quem foi apresentado por seu mestre Júnio Rústico. Seu reinado, longe de tranquilo, foi atravessado por guerras nas fronteiras do Danúbio, por revoltas e pela devastadora peste antonina — circunstâncias em que sua filosofia se mostrou menos doutrina e mais disciplina de sobrevivência interior. ...

María Lugones

María Lugones María Lugones (Buenos Aires, Argentina, 26 de janeiro de 1944 — 14 de julho de 2020, Syracuse, Nova York) foi uma filósofa e ativista argentino-estadunidense, professora de Literatura Comparada e Estudos de Mulheres da Universidade de Binghamton. Sua trajetória intelectual entrelaça filosofia política, teoria feminista e pensamento decolonial latino-americano de maneira singular: em vez de aplicar categorias eurocêntricas à experiência das mulheres do Sul Global, Lugones propôs refundá-las a partir daquilo que a colonização destruiu e daquilo que a resistência das colonizadas preservou. Seu trabalho articula o feminismo de cor norte-americano — especialmente o de Gloria Anzaldúa — com a crítica decolonial de Aníbal Quijano, produzindo uma teoria em que raça e gênero não são variáveis separadas que se somam, mas dimensões fundidas numa única estrutura de poder. ...

Marilena Chaui

Marilena Chaui Marilena de Souza Chaui (nascida em 1941, em São Paulo) é uma das mais influentes filósofas brasileiras vivas e professora emérita da Universidade de São Paulo, onde se formou e construiu toda a sua carreira docente. Sua obra articula um conhecimento profundo da filosofia de Espinosa e da fenomenologia de Merleau-Ponty com uma reflexão crítica e engajada sobre a sociedade brasileira. Defensora da universidade pública e intelectual de esquerda, Chaui tornou-se também figura pública de grande projeção, sem abrir mão do rigor acadêmico. Seu manual Convite à Filosofia (1994) é um dos textos introdutórios mais lidos no Brasil, e sua leitura de Espinosa, consolidada na obra A Nervura do Real, é referência internacional sobre o filósofo holandês. ...

Martha Nussbaum

Martha Nussbaum Filósofa americana, professora na Universidade de Chicago. Uma das mais influentes pensadoras contemporâneas, trabalha na interseção entre ética, filosofia política, direito e literatura. Formada na tradição aristotélica, desenvolveu com Amartya Sen a abordagem das capacidades (capabilities approach) como alternativa ao utilitarismo e ao contratualismo na teoria da justiça. Defende que as emoções têm conteúdo cognitivo e são essenciais para o julgamento ético. Conceitos-chave Abordagem das capacidades (capabilities approach): a justiça não se mede pelo PIB ou pela utilidade agregada, mas pelas capacidades reais que cada pessoa tem de ser e fazer — viver, ter saúde, pensar, participar politicamente, etc.; lista de 10 capacidades centrais como limiar mínimo de dignidade humana Fragilidade do bem (The Fragility of Goodness): a vida boa depende de condições externas (sorte, relações, corpo) que escapam ao controle — contra a autossuficiência estoica e platônica; a vulnerabilidade é constitutiva da excelência moral Emoções e razão: as emoções não são impulsos irracionais, mas juízos avaliativos (appraisals) — medo, compaixão, indignação contêm avaliações cognitivas sobre o que importa; uma ética sem emoções é cega Justiça cosmopolita: obrigações de justiça não param nas fronteiras nacionais — deveres para com a humanidade inteira, inspirada nos estoicos e em Kant Educação humanística: as humanidades (filosofia, literatura, artes) são indispensáveis para formar cidadãos democráticos capazes de imaginação empática e pensamento crítico Capacidades animais: estende a abordagem das capacidades para incluir os direitos dos animais não humanos Influenciado por Aristóteles — ética das virtudes, phronesis, a boa vida humana John Rawls — justiça como equidade (mas critica os limites do contratualismo) Amartya Sen — desenvolvimento como liberdade; abordagem das capacidades Kant — cosmopolitismo e dignidade Estoicos — cosmopolitismo antigo Influenciou Teoria do desenvolvimento humano (Índice de Desenvolvimento Humano da ONU) Filosofia do direito e direitos humanos Ética animal contemporânea Filosofia da educação Obras The Fragility of Goodness (1986); The Therapy of Desire (1994); Cultivating Humanity (1997); Women and Human Development (2000); Upheavals of Thought: The Intelligence of Emotions (2001); Frontiers of Justice (2006); Creating Capabilities (2011); The Monarchy of Fear (2018). ...

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