Filosofia da História: Sentido, Progresso e a Crítica ao Historicismo

Existe um sentido na história? Um fio condutor, uma direção, talvez até uma lei que governe a sucessão dos impérios, das revoluções e das ideias — ou a história é apenas, como dizia Shakespeare por outras palavras, “som e fúria, nada significando”? Essa pergunta, que parece simples, abriga na verdade duas perguntas muito diferentes, e a confusão entre elas é responsável por boa parte dos mal-entendidos que cercam a “filosofia da história”. A primeira pergunta é especulativa: qual é o sentido, o motor ou a lei do processo histórico como um todo? A segunda é crítica ou epistemológica: como se conhece o passado, que tipo de ciência (se é que é uma ciência) é a história, e o que significa “compreender” um acontecimento humano? Este artigo percorre as respostas mais influentes dadas à primeira pergunta — de Agostinho a Fukuyama — e mostra como, no século XX, a segunda pergunta se voltou contra a primeira, num movimento de desconfiança que vai de Dilthey a Popper e Lyotard. ...

O Grande Inquisidor: a parábola de Dostoiévski sobre liberdade, fé e poder

No coração de Os Irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, há um capítulo que ganhou vida própria e se tornou um dos textos mais comentados da filosofia política, da teologia e da literatura: “O Grande Inquisidor”. É um “poema” — assim o chama seu autor ficcional — que condensa, em poucas páginas, a mais formidável objeção já formulada contra a liberdade humana. Este artigo o examina por dentro: seu enredo, sua arquitetura argumentativa e as camadas de leitura que o tornaram inesgotável. ...

Utilitarismo: de Bentham e Mill a Singer — a maior felicidade e suas críticas

Poucas teorias morais foram tão influentes — e tão atacadas — quanto o utilitarismo. Sua ideia central é desconcertantemente simples: a ação correta é aquela que produz a maior quantidade de bem-estar para o maior número de afetados. Nascido como filosofia reformadora na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, moldou o direito penal, a economia do bem-estar, as políticas públicas e, mais recentemente, a ética animal e o combate à pobreza global. Este artigo expõe sua estrutura, seus principais autores e as objeções que o perseguem. ...

Feminismo: ondas, correntes filosóficas e críticas

O feminismo não é uma doutrina única, mas uma família heterogênea de teorias e movimentos — frequentemente em tensão entre si — que têm em comum a tese de que as relações entre os sexos envolvem desigualdades que merecem exame crítico. Como objeto de estudo filosófico, é também um dos campos mais controversos do pensamento contemporâneo: divide-se internamente em correntes que discordam quanto ao diagnóstico, quanto às causas e quanto às soluções, e atrai objeções vigorosas de fora. Este artigo mapeia a história (o esquema das “ondas”), as principais correntes, os conceitos centrais e — com atenção particular — as críticas que o feminismo recebeu, de dentro e de fora. ...

Marxismo Ocidental: Lukács, Gramsci, Frankfurt e Althusser

Depois da Revolução Russa de 1917, esperava-se que a revolução se espalhasse pela Europa industrializada. Não se espalhou: as insurreições alemã e húngara de 1918–1919 foram esmagadas, e o capitalismo ocidental sobreviveu. Dessa derrota nasceu uma das tradições mais ricas do pensamento do século XX — o marxismo ocidental. Diante do fracasso da revolução no Ocidente e do enrijecimento do marxismo soviético em dogma de Estado, um grupo de pensadores reabriu as questões que a ortodoxia havia fechado: por que as massas não se rebelaram? Como a cultura, a ideologia e a consciência sustentam a dominação? Que lugar têm a filosofia e a estética na luta política? Este artigo percorre essa tradição, de seus fundadores em 1923 à virada estrutural de Althusser. ...

A Abordagem das Capacidades: Sen, Nussbaum e o Desenvolvimento como Liberdade

Quando queremos saber se uma sociedade é justa ou se uma vida vai bem, o que devemos medir? A renda? A riqueza? A felicidade declarada? A abordagem das capacidades (capability approach), desenvolvida pelo economista e filósofo indiano Amartya Sen (n. 1933) e pela filósofa norte-americana Martha Nussbaum (n. 1947), responde de outro modo: o que importa é o que as pessoas são efetivamente capazes de ser e de fazer — as liberdades reais de que dispõem para viver a vida que têm razão de valorizar. É uma das contribuições mais influentes da filosofia política e da economia normativa das últimas décadas, na fronteira entre as duas disciplinas. ...

Democracia Deliberativa e seus Críticos: Habermas, Schmitt e Mouffe

A Democracia como Problema Filosófico A democracia não é apenas um regime político — é um problema filosófico de primeira ordem. Ela levanta questões sobre a natureza da legitimidade (por que as decisões coletivas obrigam os que discordam?), sobre a relação entre facticidade e validade normativa (como normas positivamente vigentes podem aspirar à validade racional?), e sobre a possibilidade mesma de um espaço público de razões compartilhadas em sociedades marcadas por profundo pluralismo de valores. A teoria deliberativa da democracia é, no século XX, a tentativa mais sistemática de responder a estas questões a partir de uma perspectiva filosófica ancorada na tradição iluminista. ...

Rawls e Nozick: Justiça, Liberdade e o Grande Debate da Filosofia Política Contemporânea

O Encontro que Definiu uma Era Em 1971, John Rawls (1921–2002) publicou Uma Teoria da Justiça — obra que ressuscitou a filosofia política normativa depois de décadas de dominância positivista. Três anos depois, em 1974, Robert Nozick (1938–2002) respondeu com Anarquia, Estado e Utopia, que se tornaria a crítica libertária mais rigorosa ao programa rawlsiano. Ambos eram professores em Harvard. O debate que travaram — amigável pessoalmente, radical filosoficamente — permanece como o confronto mais produtivo da filosofia política anglofônica do século XX. ...

Contrato Social: Hobbes, Locke e Rousseau e a Fundação da Política Moderna

Por que devemos obedecer ao Estado? O que torna uma lei legítima e não uma simples ordem imposta pela força? Essas perguntas, na história da filosofia ocidental, encontram sua primeira formulação sistematicamente moderna nos séculos XVII e XVIII, com três pensadores que mudaram para sempre o vocabulário da política: Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Os três respondem de modos radicalmente diferentes, mas compartilham um mesmo método: o contratualismo — a ideia de que a legitimidade política deve ser pensada a partir de um pacto hipotético entre indivíduos livres. ...

Maquiavel e a Autonomia do Político: O Príncipe, Virtù e Fortuna

Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli, 1469–1527) é, ao lado de poucos outros, um dos nomes cuja obra dividiu a história da filosofia em antes e depois. Antes dele, a filosofia política pertencia ao gênero do “espelho de príncipes” — tratados que prescreviam ao governante as virtudes morais clássicas (prudência, justiça, fortaleza, temperança) e a obediência à lei divina. Depois dele, a política tornou-se um domínio autônomo, com lógica própria, que não pode ser reduzido à moral nem à teologia. Essa ruptura é tão decisiva que muitos historiadores fazem coincidir o nascimento da filosofia política moderna com a publicação de O Príncipe (1513). ...

Justiça na Filosofia — De Platão a Rawls e Além

Poucos conceitos atravessam toda a história da filosofia com tanta persistência quanto o de justiça. De Atenas no século V a.C. às universidades do século XX, a pergunta permanece essencialmente a mesma: o que é justo? As respostas, porém, variam radicalmente — e é precisamente nessa variação que reside o interesse filosófico. Este artigo percorre os principais marcos da reflexão sobre justiça no pensamento ocidental, desde o embate socrático com Trasímaco até as teorias contemporâneas de Amartya Sen e Martha Nussbaum. ...

Hannah Arendt — Filosofia Política, Banalidade do Mal e Vita Activa

Poucos pensadores do século XX marcaram tão profundamente a reflexão sobre política, liberdade e responsabilidade moral quanto Hannah Arendt. Nascida na Alemanha em 1906, forçada ao exílio pelo nazismo, apátrida durante quase duas décadas, Arendt construiu uma obra filosófica que é simultaneamente um testemunho da catástrofe totalitária e uma defesa radical da dignidade da vida política. Suas categorias — banalidade do mal, vita activa, espaço público, natalidade — tornaram-se indispensáveis para quem quer compreender o que acontece quando os seres humanos abdicam de pensar, de julgar e de agir no mundo comum. ...

Alienação na Filosofia: De Hegel a Debord — Trabalho, Religião e Espetáculo

Poucos conceitos filosóficos atravessaram tantos séculos, tradições e disciplinas como o de alienação. Da exteriorização metafísica do Espírito em Hegel à denúncia do trabalho desumanizado em Marx, da projeção religiosa em Feuerbach à sociedade do espetáculo de Debord, a alienação designa uma situação em que o ser humano se torna estranho a si mesmo, ao produto de sua atividade ou às suas próprias relações sociais. Compreender a genealogia desse conceito é compreender uma das linhas de força mais persistentes da filosofia moderna e contemporânea. ...

Judith Butler: Gênero, Performatividade e os Limites de Sua Teoria

Poucos filósofos contemporâneos dividem tanto a opinião quanto Judith Butler. Para uns, ela é uma das pensadoras mais importantes do século XX — alguém que revolucionou a compreensão do gênero, da sexualidade e do poder. Para outros, é o símbolo máximo de uma filosofia que se perdeu no labirinto da própria linguagem, produzindo textos deliberadamente obscuros para mascarar ideias rasas. Para entender por que Butler provoca reações tão extremas, é preciso primeiro compreender o que ela realmente diz — e, depois, ter a honestidade intelectual de identificar onde o argumento vacila. ...

Achille Mbembe

Achille Mbembe Joseph-Achille Mbembe nasceu em 1957 em Otélé, Camarões. Formou-se em história e filosofia na Sorbonne (Paris I) e obteve o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). É atualmente professor sênior do Wits Institute for Social and Economic Research (WISER), na Universidade de Witwatersrand, Johannesburg, África do Sul. Mbembe é considerado um dos intelectuais africanos mais influentes da atualidade, com trabalho que articula história africana, teoria pós-colonial, filosofia política e crítica cultural. Escreve em francês; suas obras principais foram traduzidas para o inglês, português, alemão e outras línguas. ...

Aimé Césaire

Aimé Césaire Aimé Fernand David Césaire (26 de junho de 1913, Basse-Pointe, Martinica — 17 de abril de 2008, Fort-de-France) foi poeta, dramaturgo e político, uma das vozes fundadoras do pensamento anticolonial do século XX. Aluno da École Normale Supérieure em Paris (turma de 1935), foi ali, no efervescente meio dos estudantes negros das colônias francesas, que ajudou a forjar — ao lado do senegalês Léopold Sédar Senghor e do guianense Léon-Gontran Damas — o movimento da Négritude. Mais tarde, eleito prefeito de Fort-de-France (1945–2001) e deputado à Assembleia Nacional francesa, foi um dos arquitetos da lei de 1946 que transformou a Martinica em departamento ultramarino — decisão que ele próprio veio a reavaliar criticamente. Foi também professor de Frantz Fanon no Lycée Schœlcher. ...

Al-Farabi

Al-Farabi Abū Naṣr Muḥammad ibn Muḥammad al-Fārābī (c. 872–c. 950) foi um dos maiores filósofos do mundo islâmico medieval, chamado pela tradição de “o Segundo Professor” (al-Muʿallim al-Thānī) — sendo o primeiro Aristóteles. Nascido na região de Farab (atual Cazaquistão/Uzbequistão), trabalhou principalmente em Bagdá e Aleppo, sob o patronato da corte hamdânida. Sua obra abrange lógica, filosofia política, metafísica, filosofia da música e teoria das ciências. Conceitos-chave A Cidade Virtuosa (Al-Madīna al-Fāḍila, “As Opiniões dos Habitantes da Cidade Virtuosa”): Obra política modelada na República e nas Leis de Platão, integrada à cosmologia neoplatônica e ao pensamento islâmico. A cidade virtuosa é aquela cujos cidadãos compartilham as opiniões e ações corretas que conduzem à felicidade verdadeira. O governante ideal é simultaneamente filósofo e profeta — une perfeição intelectual e capacidade de comunicar a verdade à maioria por meio de imagens e símbolos (função da religião). ...

Amartya Sen

Amartya Sen Amartya Sen (n. 1933, Santiniketan, Bengala) é um economista e filósofo indiano cujo trabalho dissolveu a fronteira que separava a economia da ética. Recebeu o Prêmio Nobel Memorial de Economia em 1998 pelas suas contribuições à teoria da escolha social e à economia do bem-estar. Professor em Harvard, Sen estudou em Calcutá e em Cambridge, tendo presidido o Trinity College. Marcado em sua juventude pela fome de Bengala de 1943 — que matou milhões e na qual perdeu um parente —, dedicou-se a entender as causas da pobreza e da privação e a reconstruir os fundamentos normativos da economia. Em parceria intelectual com a filósofa Martha Nussbaum, desenvolveu a abordagem das capacidades. Recebeu o Bharat Ratna, mais alta condecoração civil da Índia, em 1999. ...

Antonio Gramsci

Antonio Gramsci Antonio Gramsci (22 de janeiro de 1891, Ales, Sardenha — 27 de abril de 1937, Roma) foi um filósofo, jornalista e dirigente comunista italiano, uma das figuras mais originais do marxismo do século XX. Em Turim, fundou o jornal L’Ordine Nuovo (1919) durante o movimento dos conselhos de fábrica, e em 1921 ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano, do qual se tornou secretário-geral. Eleito deputado, foi preso pelo regime fascista em 1926; no julgamento, o promotor declarou que era preciso “impedir esse cérebro de funcionar por vinte anos”. Foi no cárcere, em condições penosas, que Gramsci escreveu sua obra decisiva — os Cadernos do Cárcere —, redigida entre 1929 e 1935 e publicada após sua morte. ...

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

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