Filosofia Oriental: Confucionismo, Taoismo, Budismo e Vedānta

Falar em “filosofia oriental” no singular é, em rigor, uma simplificação ocidental: sob esse rótulo cabem tradições milenares e mutuamente independentes da China, da Índia e do Japão, separadas por línguas, problemas e pressupostos profundamente distintos. O que as une não é uma doutrina comum, mas o fato de terem desenvolvido — em paralelo às origens gregas da filosofia, no que Karl Jaspers chamou de Era Axial (c. séc. VIII–III a.C.) — respostas rigorosas e sistemáticas às grandes questões sobre a realidade, o conhecimento, o eu e a conduta correta. ...

Schopenhauer e a Filosofia da Vontade — O Mundo como Vontade e Representação

Em 1818, um jovem filósofo de trinta anos publicou em Dresden uma obra que o mundo recebeu com indiferença quase absoluta: O Mundo como Vontade e Representação (Die Welt als Wille und Vorstellung). Arthur Schopenhauer estava convicto de ter decifrado o enigma do mundo — e não se enganava quanto à importância do que havia escrito, apenas quanto à paciência que precisaria ter. Décadas de obscuridade se passariam antes que a Europa reconhecesse nele um dos pensadores mais originais do século XIX: o filósofo que ousou afirmar que a essência da realidade não é razão, progresso ou espírito — mas um impulso cego, irracional e insaciável chamado Vontade. ...

Adi Shankara

Adi Shankara Nota sobre a datação: As datas de Ādi Śaṅkara (também grafado Shankara; honoríficamente Śaṅkarācārya, “o mestre Śaṅkara”) são disputadas. A tradição o situa em 788–820 d.C., mas muitos estudiosos modernos preferem uma datação anterior, em torno de c. 700–750 d.C. Sua biografia foi entrelaçada com material hagiográfico, de modo que muitos episódios de sua vida pertencem mais à lenda do que ao registro histórico verificável. Śaṅkara é o sistematizador mais influente do Advaita Vedānta, a corrente “não-dualista” da filosofia hindu. Sua obra consiste sobretudo em comentários rigorosos aos textos canônicos, nos quais defende uma metafísica em que a multiplicidade do mundo é, em última análise, redutível a uma única realidade. Sua influência sobre o pensamento indiano posterior — e sobre a recepção ocidental do hinduísmo — é enorme. ...

Buda

Buda Nota sobre fontes e datação: As datas de Sidarta Gautama (Siddhārtha Gautama; também chamado Śākyamuni, “o sábio dos Śākya”) são objeto de controvérsia acadêmica. A cronologia tradicional o situa em c. 563–483 a.C., mas a pesquisa revisada das últimas décadas tende a uma “datação curta”, colocando sua morte por volta de 400 a.C. (vida aproximada c. 480–400 a.C.). Igualmente importante: os ensinamentos do Buda foram transmitidos oralmente por gerações e só foram fixados por escrito séculos depois, sobretudo no Cânone Páli (Tipiṭaka, em sânscrito Tripiṭaka). Esses textos não são, portanto, escritos do próprio Buda, mas registros posteriores da comunidade monástica, e a reconstrução do que ele historicamente ensinou é tarefa filológica delicada. ...

Confúcio (Kǒngzǐ)

Confúcio (Kǒngzǐ) Confúcio (em chinês: Kǒngzǐ 孔子, “Mestre Kong”; latinização jesuíta: Confucius) nasceu no estado de Lu (atual província de Shandong, China) em 551 a.C. e faleceu em 479 a.C. Foi professor, funcionário público e reformador moral que, após uma vida de esforços políticos frustrados, dedicou-se ao ensino e ao estudo dos clássicos da Antiguidade chinesa. Seu pensamento é conhecido principalmente pelo Lunyu (Analectos 論語), compilação de ditos e diálogos feita por seus discípulos e pela tradição posterior — a historicidade de passagens individuais é objeto de debate entre especialistas. ...

Dogen

Dogen Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Dōgen Kigen (道元希玄), também conhecido como Dōgen Zenji (道元禅師, “o mestre Zen Dōgen”), é o fundador, no Japão, da escola Sōtō (曹洞) do Zen. Ordenou-se monge ainda na adolescência no monte Hiei, centro do budismo Tendai, e em 1223 partiu para a China Song meridional, onde estudou com o mestre Tiantong Rujing (天童如淨), na linhagem Caodong, da qual o Sōtō japonês descende. Voltou ao Japão em 1227 trazendo, em suas palavras, “olhos horizontais e nariz vertical” — isto é, nada além da experiência direta da prática. Em 1244 fundou o templo Eihei-ji (永平寺), até hoje uma das duas matrizes do Sōtō. ...

Laozi (老子)

Laozi (老子) Nota histórica fundamental: A existência de Laozi como personagem histórico individual é debatida entre os especialistas. O historiador Sima Qian (c. 145–86 a.C.), em Shiji, registra várias tradições sobre Laozi sem poder decidir entre elas — indicativo de que a incerteza é antiga. O texto a ele atribuído, o Dàodéjīng (道德經, “Clássico do Caminho e da Virtude”, também chamado Laozi), pode ser uma compilação de materiais de diferentes origens; a erudição moderna situa a forma atual do texto no século IV ou III a.C. A figura de Laozi como sábio ancião que teria encontrado Confúcio e depois deixado a China pelo Ocidente é provavelmente lendária. ...

Mencio

Mencio Nota sobre fontes: As datas de Mêncio (孟子 Mèngzǐ, “Mestre Meng”; nome pessoal Kē 軻) são estimativas convencionais — c. 372–289 a.C. — baseadas em cronologias históricas tradicionais. O texto Mèngzǐ (孟子), compilado em 7 livros (piān), é considerado uma obra mais unitária do que os Analectos de Confúcio, embora também envolva contribuições de discípulos na redação final. Mêncio é considerado na tradição confuciana o “Segundo Sábio” (Yàshèng 亞聖), imediatamente abaixo de Confúcio. ...

Nāgārjuna

Nāgārjuna Nāgārjuna (c. 150–c. 250 d.C.) é o fundador da escola Mādhyamaka do Budismo Mahāyāna e é considerado, em muitas tradições budistas, como o segundo Buda. Sua obra exerceu influência decisiva sobre o Budismo tibetano, chinês (e daí japonês e coreano), bem como sobre a filosofia indiana posterior. Sua principal obra, a Mūlamadhyamakakārikā (MMK — Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio), é um dos textos mais comentados e discutidos da história da filosofia. ...

Nishida Kitaro

Nishida Kitaro Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Na convenção japonesa o sobrenome (Nishida) precede o nome próprio (Kitarō); usa-se aqui a ordem japonesa, conforme prática editorial corrente para filósofos modernos do Japão. Nishida Kitarō (西田 幾多郎) é o fundador da Escola de Kyoto e o filósofo japonês moderno mais influente do século XX. Praticante de Zen Rinzai desde a juventude — sob orientação dos mestres Setsumon e Kōshū —, formou-se em filosofia na Universidade Imperial de Tóquio e lecionou na Universidade Imperial de Kyoto, onde reuniu em torno de si a geração que daria corpo à dita “Escola”. Seu projeto pode ser descrito como a tentativa, sem precedente comparável no Japão moderno, de articular a experiência meditativa budista com o vocabulário e o rigor da filosofia europeia (sobretudo alemã) — sem, contudo, reduzir uma à outra. ...

Wang Yangming

Wang Yangming Wang Yangming (王陽明 Wáng Yángmíng, 1472–1529; nome de cortesia Bó’ān, nome pessoal Shǒurén 守仁) é o mais influente pensador neoconfuciano da dinastia Ming e fundador da chamada “escola da mente” (xīnxué 心學). Além de filósofo, foi alto funcionário do Estado e comandante militar bem-sucedido, e sua doutrina nasce em diálogo com essa experiência prática. Seu pensamento constitui a principal alternativa à ortodoxia neoconfuciana de Zhu Xi, a “escola do princípio” (lǐxué 理學), que dominava o sistema de exames imperiais. ...

Xunzi

Xunzi Xunzi (荀子 Xún Zǐ, “Mestre Xun”; nome pessoal Kuàng 況), que viveu por volta de c. 310–c. 235 a.C., é, ao lado de Confúcio e Mêncio, um dos três grandes pensadores do confucionismo clássico. Atuou no período dos Reinos Combatentes e foi figura de prestígio na academia Jixia, no Estado de Qi. Sua filosofia destaca-se pelo rigor argumentativo e pelo naturalismo: enquanto outros confucianos fundamentavam a moral em uma ordem celestial moralmente engajada, Xunzi a fundamenta na cultura humana, no ritual e na educação deliberada. ...

Zhu Xi

Zhu Xi Nota sobre romanização: os nomes chineses são apresentados em pinyin, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Os tons não são marcados graficamente, conforme o uso editorial corrente. Zhu Xi (朱熹), filósofo da dinastia Song meridional, é o grande sistematizador do que se convencionou chamar Neoconfucionismo — também conhecido como Lixue (理學, “Estudo do Princípio”) ou escola Cheng-Zhu, em referência aos irmãos Cheng (Cheng Hao e Cheng Yi), cujos escritos Zhu Xi organizou em síntese. Funcionário e mestre, passou a maior parte da vida ensinando em academias privadas e revisando textos clássicos. Sua importância histórica é difícil de exagerar: o currículo educacional fundado em seus comentários aos Sishu (四書, “Quatro Livros”) foi a base dos exames imperiais chineses de 1313 a 1905, e por essa via moldou também o pensamento da Coreia, do Vietnã e do Japão. ...

Zhuangzi

Nota sobre fontes e autoria: As datas de Zhuangzi (莊子, “Mestre Zhuang”; nome pessoal Zhōu 周) são incertas — c. 369–286 a.C. é a estimativa convencional, derivada de menções históricas em textos do período. O texto homônimo Zhuangzi (莊子), tal como chegou até nós, é uma compilação de três seções: os 7 capítulos internos (nèipiān 內篇), geralmente atribuídos ao próprio Zhuangzi pela erudição moderna; os 15 capítulos externos (wàipiān 外篇) e os 11 capítulos mistos (zápiān 雜篇), considerados trabalhos de discípulos e comentadores posteriores. A edição que chegou à modernidade deve-se ao estudioso Guo Xiang (c. 252–312 d.C.). ...

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