Filosofia Latino-americana e da Libertação: Zea, Dussel, Freire e o Pensamento Descolonial

A filosofia latino-americana tem uma peculiaridade que a distingue de outras tradições: ela se interroga sobre sua própria possibilidade antes de consolidar um corpo de doutrinas. A pergunta “existe uma filosofia genuinamente nossa?” não é sinal de fraqueza, mas traço constitutivo — resultado de uma história em que o pensamento foi importado, adaptado e, aos poucos, confrontado com a experiência concreta dos povos do continente. Este artigo percorre essa trajetória: do debate fundacional sobre a autenticidade até a Filosofia da Libertação, a pedagogia de Freire e o pensamento descolonial. ...

Enrique Dussel

Enrique Dussel Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1934, Enrique Dussel teve formação cosmopolita — estudou na Argentina, na Espanha, na França e na Alemanha, e pesquisou também a história da Igreja na América Latina. Após um atentado a bomba contra sua casa, exilou-se no México em 1975, onde se naturalizou e viveu até sua morte, em 2023. É o principal nome da Filosofia da Libertação latino-americana e uma referência central do pensamento decolonial. ...

José Carlos Mariátegui

Nascido em Moquegua, no Peru, em 1894, José Carlos Mariátegui venceu uma infância pobre e uma saúde frágil — que lhe custaria uma perna e, mais tarde, o confinaria à cama — para se tornar, como autodidata, o mais original pensador marxista da América Latina. Jornalista combativo, passou alguns anos na Itália, onde absorveu o marxismo e as ideias de Croce e Sorel; de volta ao Peru, fundou a influente revista Amauta e o Partido Socialista. Morreu em 1930, com apenas 35 anos, deixando uma obra breve e fulgurante. ...

Leopoldo Zea

Leopoldo Zea Nascido na Cidade do México em 1912, Leopoldo Zea foi discípulo de José Gaos — o filósofo espanhol exilado que trouxe ao México o legado de Ortega y Gasset. Zea tornou-se o maior historiador da filosofia latino-americana e a figura central de um debate decisivo: existe uma filosofia propriamente latino-americana, ou a região apenas repete o pensamento europeu? Sua resposta é afirmativa e libertadora. Herdando de Ortega a ideia de que pensamos sempre a partir de uma circunstância (“sou eu e minha circunstância”), Zea defende que o filósofo americano deve partir de sua própria situação histórica concreta — sem complexo de inferioridade e sem esperar o aval europeu. Daí seu lema: a filosofia latino-americana é “filosofia, sin más” (“filosofia, sem mais”), tão legítima quanto qualquer outra, sem necessidade de adjetivos que a rebaixem a um estatuto menor. ...

Paulo Freire

Paulo Freire Nascido no Recife em 1921, em meio à pobreza do Nordeste brasileiro, Paulo Freire é o pensador brasileiro mais citado e traduzido no mundo, e o Patrono da Educação Brasileira. Sua filosofia nasceu da prática: em 1963, na experiência pioneira de Angicos, alfabetizou trabalhadores rurais em poucas semanas com um método que unia a leitura da palavra e a leitura do mundo. Visto como ameaça, foi preso e exilado após o golpe de 1964, passando por Bolívia, Chile, Estados Unidos e Suíça; só retornaria ao Brasil em 1980. Articulou fenomenologia, marxismo e existencialismo numa teoria que é, a um só tempo, pedagogia e filosofia política da emancipação. ...

Rodolfo Kusch

Rodolfo Kusch Nascido em Buenos Aires em 1922, em família de origem alemã, Rodolfo Kusch uniu filosofia e antropologia de um modo raro: em vez de pensar a América a partir dos livros europeus, percorreu o noroeste argentino e o altiplano boliviano em extenso trabalho de campo, ouvindo o pensamento quéchua e aimará. Dessa experiência nasceu uma pergunta radical: a ontologia europeia seria mesmo capaz de compreender a maior parte da experiência humana? ...

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