O Grande Inquisidor: a parábola de Dostoiévski sobre liberdade, fé e poder

No coração de Os Irmãos Karamázov (1880), de Dostoiévski, há um capítulo que ganhou vida própria e se tornou um dos textos mais comentados da filosofia política, da teologia e da literatura: “O Grande Inquisidor”. É um “poema” — assim o chama seu autor ficcional — que condensa, em poucas páginas, a mais formidável objeção já formulada contra a liberdade humana. Este artigo o examina por dentro: seu enredo, sua arquitetura argumentativa e as camadas de leitura que o tornaram inesgotável. ...

Secularização e A Era Secular: Charles Taylor e o Quadro Imanente

Por que, por volta de 1500, era praticamente impossível não crer em Deus na sociedade ocidental, ao passo que, por volta de 2000, a descrença tornou-se não apenas possível, mas, para muitos, a posição mais natural — às vezes a única concebível? Essa é a pergunta que move A Era Secular (A Secular Age, 2007), a obra mais ambiciosa do filósofo canadense Charles Taylor (n. 1931). O livro — quase novecentas páginas que nasceram de suas conferências Gifford de 1998–99, em Edimburgo, e lhe valeram o Prêmio Templeton de 2007 — recusa as explicações fáceis da secularização e propõe, em seu lugar, uma reconstrução histórica e filosófica de como mudaram, ao longo de cinco séculos, as próprias condições de crença no Ocidente. ...

Kierkegaard: Os Estágios da Existência, a Angústia e o Salto de Fé

Há filósofos que constroem sistemas e filósofos que dinamitam sistemas. Søren Kierkegaard pertence ao segundo grupo — mas com uma diferença decisiva: o que ele quis salvar dos escombros do grande edifício hegeliano não foi outra teoria, e sim o indivíduo singular que existe, sofre, decide e morre. Contra a pretensão de explicar a realidade inteira a partir de um conceito, ele opôs uma pergunta aparentemente modesta e, no entanto, abissal: o que significa, para mim, existir? ...

Filosofia da Religião: Teodiceia, Fideísmo e Experiência Religiosa

A filosofia da religião é um dos campos mais vastos e mais disputados da filosofia. Seu objeto não é a religião como fenômeno social ou cultural — isso compete à sociologia e à antropologia —, mas as afirmações de verdade que as tradições religiosas fazem: que Deus existe, que o mundo foi criado, que há vida após a morte, que certos textos são revelados. A pergunta filosófica não é “por que as pessoas creem?” mas “há razões para crer?” e “o que significa crer?”. ...

Deus, Ser e Existência: Provas, Críticas e a Pergunta Fundamental

A pergunta “Deus existe?” é, talvez, a mais antiga e a mais persistente da filosofia. Acompanha o pensamento ocidental desde os primeiros pré-socráticos — quando Xenófanes de Cólofon (c. 570–c. 475 a.C.) criticava o antropomorfismo dos deuses homéricos — até os debates analíticos contemporâneos sobre lógica modal e probabilidade bayesiana. No entanto, a pergunta, formulada nesses termos, esconde uma armadilha. Pois antes de perguntar se Deus existe, é preciso perguntar o que significa, para Deus, existir. E aqui se abre uma distinção decisiva, que separa o teísmo filosoficamente rigoroso da idolatria conceitual: a distinção entre existir (existere) e ser (esse). ...

Tomás de Aquino — Fé e Razão, as Cinco Vias e a Síntese Escolástica

Se a filosofia medieval tivesse de ser representada por um único nome, esse nome seria Tomás de Aquino (1225–1274). Frade dominicano, teólogo e filósofo, Tomás empreendeu a mais ambiciosa síntese intelectual da Idade Média: harmonizar a filosofia de Aristóteles — recém-redescoberta no Ocidente latino através de traduções árabes e gregas — com a teologia cristã. O resultado foram duas Summae monumentais e dezenas de comentários, questões disputadas e opúsculos que moldaram a teologia católica, o direito natural, a ética política e a metafísica ocidental por séculos. ...

Alberto Magno (Albertus Magnus)

Alberto Magno (Albertus Magnus) Frade dominicano, bispo de Ratisbona e Doctor Universalis. Foi o mestre de Tomás de Aquino e o principal responsável pela introdução sistemática de Aristóteles no mundo latino medieval. Diferentemente de outros escolásticos, Alberto possuía um interesse genuíno pelas ciências naturais — botânica, zoologia, mineralogia, alquimia — combinando observação empírica com reflexão filosófica. Canonizado e declarado Doutor da Igreja em 1931, é patrono dos cientistas naturais. ...

Friedrich Schleiermacher

Friedrich Schleiermacher Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 21 de novembro de 1768 e faleceu em Berlim em 12 de fevereiro de 1834. Filho de um capelão reformado, estudou no seminário morávia de Barby e depois em Halle. Tornou-se pregador em Berlim, professor em Halle (1804–1807) e, a partir de 1810, professor de teologia e filosofia na recém-fundada Universidade de Berlim — da qual foi um dos principais articuladores intelectuais, ao lado de Wilhelm von Humboldt e Fichte. ...

Liev Chestov

Liev Chestov Liev Chestov — nome literário de Yeguda Lev Shvartsman (Kiev, 5 de fevereiro de 1866 — Paris, 19 de novembro de 1938) — foi filósofo russo que se tornou uma das vozes mais radicais da crítica ao racionalismo filosófico europeu. Nascido numa família judaica de Kiev, estudou Direito e Matemática em Moscou antes de se dedicar inteiramente à filosofia. Após a Revolução Bolchevique, emigrou; em 1922 passou a lecionar filosofia russa na Universidade de Paris, onde permaneceu até a morte. Nesse exílio frutífero, amadureceu suas ideias mais originais e escreveu sua obra principal. ...

Maimônides

Maimônides Mošé ben Maimon — conhecido pelo acrônimo Rambam e, no Ocidente latino, como Maimônides — nasceu em Córdoba, na Al-Andalus, por volta de 1138, e é o maior filósofo judeu da Idade Média. Fugindo da perseguição almóada, sua família peregrinou pelo norte da África até se fixar no Egito, onde Maimônides se tornou médico de corte e líder espiritual da comunidade judaica do Cairo. Foi, ao mesmo tempo, jurista, talmudista, médico e filósofo, e morreu em 1204. ...

Martinho Lutero

Martinho Lutero Teólogo agostiniano alemão; iniciador da Reforma Protestante. As 95 Teses (1517) contra as indulgências papais desencadearam uma ruptura que transformou a Europa religiosa, política e intelectualmente. Conceitos-chave Justificação pela fé somente (sola fide): o homem não é salvo por obras, méritos ou sacramentos — somente pela fé em Cristo; contra a soteriologia do mérito da Igreja Católica Sola Scriptura: a Bíblia é a única autoridade religiosa; a tradição e os decretos papais não têm autoridade equivalente. Traduziu a Bíblia para o alemão — funda a língua literária alemã moderna Sacerdócio universal dos crentes: todos os cristãos batizados são sacerdotes — dissolve a hierarquia clerical como mediação necessária entre Deus e o fiel Dois reinos (Zwei-Reiche-Lehre): o reino espiritual (governado pelo Evangelho) e o reino temporal (governado pela lei e pela espada) — clara separação que influenciou a secularização política Liberdade cristã (De Liberdade do Cristão, 1520): “O cristão é senhor livre de todas as coisas e não está submetido a ninguém. O cristão é servo obediente em todas as coisas e está submetido a todos” — paradoxo da liberdade interior com serviço ao próximo Contra o livre-arbítrio (De Servo Arbítrio, 1525): contra Erasmo — a vontade humana é escravizada pelo pecado; só a graça divina irresistível pode liberar; predestinação Influenciado por Santo Agostinho — graça, pecado original, predestinação São Paulo — justificação pela fé (Romanos, Gálatas) Guilherme de Ockham — nominalismo e crítica da metafísica escolástica Erasmo — humanismo textual (mas rompe com ele) Influenciou Calvino — reforma reformada e predestinação absoluta Kant — autonomia moral (secularização da consciência individual luterana) Kierkegaard — fé radical e individual contra a instituição Secularização e modernidade política europeia Hegel — Reforma como momento do Espírito na história Obras 95 Teses (1517); Da Liberdade do Cristão (1520); Da Babel Babilônica da Igreja (1520); Do Servo Arbítrio (1525); Catecismo Maior e Menor (1529); Bíblia em Alemão (NT: 1522; completa: 1534). ...

Pável Florenski

Pável Florenski Pável Aleksándrovitch Florenski (21 de janeiro de 1882 [v.a. 9 de janeiro], Yevlakh, atual Azerbaijão — 8 de dezembro de 1937, executado próximo a Leningrado) foi sacerdote ortodoxo, filósofo, matemático, físico e historiador da arte — uma das inteligências mais abrangentes da Rússia do século XX. Seus contemporâneos o chamaram de “o Leonardo da Vinci russo”, expressão que, embora encomiástica, aponta para a real amplitude de suas contribuições: estudou teologia em Moscou sob a orientação de Serguei Trubetskói, ordenou-se sacerdote em 1911 e, em paralelo, lecionou matemática e filosofia nas mais importantes instituições do país. Após a Revolução de 1917, continuou trabalhando em institutos científicos soviéticos — recusando emigrar como fizeram muitos de seus contemporâneos —, até ser preso pela primeira vez em 1928. Deportado ao Gulag, foi finalmente fuzilado em 8 de dezembro de 1937; durante décadas, o regime soviético falsificou a data de sua morte, registrando erroneamente 1943. ...

Santo Agostinho

Santo Agostinho Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, no norte da África romana, filho de mãe cristã (Mônica) e pai pagão. Professor de retórica em Cartago, Roma e Milão, percorreu um longo itinerário intelectual e espiritual: entusiasmou-se com a filosofia ao ler Cícero, aderiu por anos ao maniqueísmo, passou pelo ceticismo e encontrou no neoplatonismo de Plotino o instrumento que o reconduziria ao cristianismo. Sua conversão, em Milão (386) — a célebre cena do “tolle, lege” (“toma e lê”) narrada nas Confissões —, foi um divisor de águas. Tornou-se bispo de Hipona e, até sua morte em 430, durante o cerco dos vândalos, foi o maior pensador da Patrística e uma das figuras mais influentes de toda a história do Ocidente. ...

São Boaventura

São Boaventura Giovanni di Fidanza, conhecido como Boaventura de Bagnoregio. Teólogo e filósofo franciscano; cardeal e Ministro-Geral da Ordem Franciscana. Contemporâneo e adversário cordial de Tomás de Aquino. Chamado de Doctor Seraphicus. Boaventura formou-se na Universidade de Paris, então o grande centro da escolástica latina, onde estudou as artes liberais e depois a teologia sob a orientação do mestre franciscano Alexandre de Hales. Ali lecionou ao mesmo tempo que Tomás de Aquino, num período em que a chegada maciça das obras de Aristóteles — muitas mediadas pelos comentários árabes de Averróis — forçava os teólogos cristãos a decidir o quanto da nova filosofia natural podiam absorver sem comprometer a fé. Boaventura representa a resposta agostiniana e franciscana a esse desafio: em vez de naturalizar plenamente a razão como Tomás, manteve a primazia da iluminação divina e da experiência interior, recusando-se a tratar a filosofia como saber autônomo separado da sabedoria que conduz a Deus. ...

Tomás de Aquino

Tomás de Aquino Nascido por volta de 1225 em Roccasecca, perto de Aquino, no sul da Itália, Tomás pertencia à alta nobreza, que se opôs com firmeza ao seu ingresso na ordem mendicante dos dominicanos — chegando a mantê-lo confinado por cerca de um ano. Estudou com Alberto Magno em Paris e Colônia e tornou-se mestre de teologia na Universidade de Paris. Apesar do apelido de “boi mudo”, revelou-se o maior gênio da Escolástica. Após uma intensa experiência em 1273, deixou de escrever, dizendo que tudo o que produzira lhe parecia “palha”; morreu no ano seguinte, a caminho do Concílio de Lyon. Canonizado em 1323, é o “Doutor Angélico”, e o tomismo permanece referência oficial da filosofia católica. ...

William James

William James Filósofo e psicólogo americano, co-fundador do pragmatismo e pioneiro da psicologia moderna. Irmão do escritor Henry James. Popularizou e desenvolveu o pragmatismo de Peirce numa direção mais psicológica e humanista, com influência enorme sobre a filosofia, a psicologia e a teologia do século XX. Conceitos-chave Pragmatismo como método: uma ideia é verdadeira se funciona, se produz consequências satisfatórias para a ação — verdade como valor instrumental, não correspondência estática Verdade como processo: “a verdade acontece a uma ideia; ela se torna verdade, é feita verdadeira pelos eventos” — a verdade é dinâmica e verificável na experiência Empirismo radical: a experiência não inclui apenas coisas, mas também as relações entre elas — crítica ao empirismo clássico que fragmentava a experiência em átomos isolados Fluxo de consciência (stream of consciousness): a consciência não é discreta e estática, mas contínua, pessoal e seletiva — conceito que influenciou profundamente a literatura modernista Vontade de crer (will to believe): diante de questões onde a evidência é insuficiente e a decisão é forçada e importante (como a crença em Deus), é racionalmente legítimo crer com base em razões práticas e emotivas Variedades da experiência religiosa: a religião deve ser avaliada pelos seus efeitos na vida das pessoas, não por sua metafísica; o misticismo tem validade psicológica real Pluralismo: a realidade é múltipla e inacabada — crítica ao monismo absoluto hegeliano Influenciado por Peirce — máxima pragmática original Darwin — evolucionismo e funcionalismo mental Hume — ceticismo e empirismo Kant — teoria do conhecimento (criticamente) Influenciou John Dewey — instrumentalismo e filosofia da educação Bergson — relação mútua entre filosofia da vida e do tempo Wittgenstein — referências explícitas em Investigações Filosóficas Psicologia americana (funcionalismo, behaviorismo) Teologia liberal e movimento modernista religioso Obras Os Princípios da Psicologia (1890); A Vontade de Crer (1897); As Variedades da Experiência Religiosa (1902); Pragmatismo (1907); Empirismo Radical (1912). ...

Xenófanes de Cólofon

Xenófanes de Cólofon Poeta-filósofo grego itinerante, nascido em Cólofon, na Jônia (costa ocidental da Ásia Menor), por volta de 570 a.C. Com a conquista persa da Jônia em meados do século VI a.C., Xenófanes deixou sua cidade natal e passou o restante da vida em movimento pelo mundo helênico, instalando-se por períodos em Zancle e Catânia (Sicília) e, segundo a tradição, em Élea, no sul da Itália. Viveu excepcionalmente longo — fontes antigas sugerem que ultrapassou os noventa anos —, e toda a sua produção chegou até nós apenas em fragmentos citados por autores posteriores como Sexto Empírico, Simplício e Ateneu. ...

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