Estruturalismo: De Saussure a Lévi-Strauss, Barthes, Lacan e Althusser

Durante cerca de duas décadas — dos anos 1950 ao início dos 1970 —, uma única ideia reorganizou as ciências humanas francesas e, por extensão, boa parte do pensamento ocidental: a ideia de que os fenômenos humanos mais diversos (a língua, o parentesco, os mitos, a moda, o inconsciente, a ideologia) devem ser compreendidos como sistemas de relações — como estruturas — e não como coleções de coisas isoladas, nem como produtos de uma consciência individual. Esse foi o estruturalismo: menos uma doutrina unificada do que um método e um clima intelectual, exportado da linguística para a antropologia, a crítica literária, a psicanálise e o marxismo. Este artigo segue esse percurso, de Saussure a seus herdeiros, até a virada pós-estruturalista que o levou ao limite. ...

Derrida: Desconstrução, Différance e a Metafísica da Presença

Há uma experiência que talvez você já tenha vivido diante de um texto de Derrida: a sensação de que as palavras escorregam, de que o argumento se dobra sobre si mesmo, de que o autor parece mais interessado em desestabilizar o terreno do que em construir uma tese. Essa impressão não é um acidente nem uma falha de exposição — é, em larga medida, o ponto. Derrida não queria propor uma nova doutrina sobre a verdade ou a linguagem para somar à lista das que a filosofia já produziu. Queria mostrar que a própria pretensão de fixar um sentido último, pleno, presente a si mesmo, é o pressuposto frágil sobre o qual toda a tradição ocidental se edificou — e que esse pressuposto não se sustenta. ...

Wittgenstein: Do Tractatus às Investigações — Limites da Linguagem e Jogos de Linguagem

Poucos filósofos escreveram duas obras tão diferentes a ponto de uma parecer a refutação da outra — e ambas terem se tornado clássicas. Ludwig Wittgenstein é o caso paradigmático. O jovem que em 1921 publicou o Tractatus Logico-Philosophicus, convencido de ter resolvido em definitivo os problemas da filosofia, é o mesmo homem que, três décadas depois, deixou nas Investigações Filosóficas uma crítica meticulosa às suas próprias teses iniciais. Entre as duas obras está não apenas uma virada teórica, mas uma das histórias intelectuais mais singulares do século XX. Compreender Wittgenstein é compreender duas maneiras opostas de pensar o que a linguagem é e o que a filosofia pode fazer. ...

Filosofia da Linguagem: Da Virada Linguística à Teoria do Significado

A Linguagem como Objeto Filosófico Por que a linguagem se tornou o problema central da filosofia no séc. XX? A resposta tem múltiplas dimensões. Primeiro, a descoberta de que muitos problemas filosóficos clássicos resultavam de confusões linguísticas — mal-entendidos sobre a forma lógica das proposições. Segundo, a percepção de que compreender como a linguagem funciona é compreender como pensamos e como nos relacionamos com o mundo. Terceiro, a revolução lógica iniciada por Frege, que forneceu ferramentas rigorosas para a análise da linguagem. ...

Donald Davidson

Donald Davidson Donald Davidson foi um dos filósofos analíticos mais originais da segunda metade do século XX. Professor na Universidade da Califórnia em Berkeley a partir de 1981, após passagens por Stanford, Princeton e Rockefeller, Davidson construiu um sistema filosófico notável pela coerência interna: sua filosofia da mente, sua teoria da ação, sua semântica e sua epistemologia estão intimamente conectadas, articuladas em torno de temas como eventos, causalidade, verdade e interpretação. ...

Ferdinand de Saussure

Ferdinand de Saussure Ferdinand de Saussure (26 de novembro de 1857, Genebra — 22 de fevereiro de 1913, Vufflens-le-Château) foi um linguista suíço, considerado o pai da linguística moderna e a fonte teórica de que se alimentaria o estruturalismo no século XX. Formou-se na tradição comparatista de Leipzig, entre os neogramáticos, e aos 21 anos publicou o Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes (1878), em que postulou, por pura coerência do sistema, a existência de “coeficientes sonânticos” cuja realidade só seria confirmada décadas depois, com o deciframento do hitita (as laringais). Lecionou em Paris e, a partir de 1891, em Genebra, onde ministrou três vezes (1907; 1908–09; 1910–11) um curso de linguística geral. Publicou pouco em vida; sua obra decisiva é póstuma. ...

Friedrich Schleiermacher

Friedrich Schleiermacher Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 21 de novembro de 1768 e faleceu em Berlim em 12 de fevereiro de 1834. Filho de um capelão reformado, estudou no seminário morávia de Barby e depois em Halle. Tornou-se pregador em Berlim, professor em Halle (1804–1807) e, a partir de 1810, professor de teologia e filosofia na recém-fundada Universidade de Berlim — da qual foi um dos principais articuladores intelectuais, ao lado de Wilhelm von Humboldt e Fichte. ...

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben Giorgio Agamben é um filósofo italiano nascido em Roma em 1942, professor nas universidades de Verona e Veneza (IUAV), bem como em diversas instituições europeias e americanas. Seu trabalho articula análise histórico-filológica, filosofia política, ontologia e teoria da linguagem em torno de um projeto genealógico sobre o paradigma biopolítico do Ocidente. É um dos pensadores contemporâneos mais traduzidos e debatidos. Conceitos-chave Homo Sacer (Homo sacer: il potere sovrano e la nuda vita, 1995): Retomando uma figura do direito romano arcaico, Agamben descreve o homo sacer como aquele que pode ser morto por qualquer um sem que isso constitua homicídio (occidi), mas que não pode ser sacrificado (immolari). Esta figura articula a vida nua (nuda vita / zōē) — o mero fato biológico de viver — excluída da vida politicamente qualificada (bíos). ...

Gottlob Frege

Gottlob Frege Matemático alemão nascido em 1848, Gottlob Frege passou quase toda a carreira como professor em Jena, em relativa obscuridade — seu gênio só seria plenamente reconhecido após a morte, em 1925, sobretudo graças a Russell, Wittgenstein e ao Círculo de Viena. Hoje é considerado o fundador da lógica moderna e um dos pais da filosofia analítica. Sua primeira grande realização foi a criação, no Begriffsschrift (1879), de uma lógica de predicados que aposentou a velha silogística aristotélica: com quantificadores (“para todo”, “existe”), variáveis e funções, Frege deu à lógica a precisão e o poder expressivo de que ela precisava para analisar a matemática. Seu objetivo maior era o logicismo — demonstrar que a aritmética se reduz à lógica pura. O projeto, exposto nas Leis Básicas da Aritmética, foi atingido em cheio por uma carta de Russell (1902), que revelou uma contradição no sistema; Frege jamais se recuperou inteiramente do golpe. ...

Hans-Georg Gadamer

Hans-Georg Gadamer Filósofo alemão; principal representante da hermenêutica filosófica do séc. XX. Discípulo de Heidegger; sua obra Verdade e Método (1960) reformulou o problema da compreensão como questão filosófica fundamental. Formado em Marburgo no clima do neokantismo, Gadamer encontrou em Heidegger a virada decisiva de sua trajetória: a analítica da existência mostrava que compreender não é uma operação intelectual entre outras, mas o próprio modo de ser do homem no mundo. Seus primeiros trabalhos voltaram-se sobretudo ao diálogo platônico e à ética dialética de Platão, e foi apenas na maturidade — quando já ocupava a cátedra de Heidelberg — que publicou a obra que o consagraria, escrita já aos sessenta anos. Atravessando os anos do nazismo sem se filiar ao Partido — ainda que, como muitos acadêmicos, tenha assinado em 1933 o juramento de fidelidade dos professores ao novo regime — e sobrevivendo a duas guerras, Gadamer só alcançaria reconhecimento internacional na segunda metade do século, tornando-se uma das vozes filosóficas mais longevas e respeitadas da Europa. ...

Hilary Putnam

Hilary Putnam Hilary Whitehall Putnam foi um dos filósofos mais versáteis e intelectualmente honestos do século XX. Ao longo de uma carreira de seis décadas, na maior parte em Harvard, Putnam percorreu um itinerário filosófico incomum: defendeu posições que depois criticou com a mesma energia com que as havia estabelecido. Foi funcionalista e depois rejeitou o funcionalismo; foi realista científico e depois propôs o “realismo interno”; foi simpatizante do positivismo lógico e depois seu crítico. Esta disposição para a autocrítica é uma das marcas de seu estilo filosófico. ...

J.L. Austin

J.L. Austin John Langshaw Austin (26 de março de 1911, Lancaster — 8 de fevereiro de 1960, Oxford) foi um filósofo britânico, figura central da filosofia da linguagem ordinária de Oxford. Catedrático de filosofia moral (White’s Professor), exerceu durante a Segunda Guerra um papel destacado na inteligência militar britânica. Publicou pouco em vida; suas obras decisivas são póstumas, reconstruídas a partir de conferências e papéis. Seu estilo era paciente, antissistemático e atento às minúcias: para Austin, “nosso estoque comum de palavras incorpora todas as distinções que os homens acharam dignas de traçar” ao longo de muitas gerações — e a filosofia deve começar por examiná-las. ...

Jacques Derrida

Jacques Derrida Filósofo argelino-francês; fundador da desconstrução. Subverteu a tradição metafísica ocidental mostrando que ela é estruturada por oposições binárias hierárquicas e pela metafísica da presença. Nascido em El-Biar, nos arredores de Argel, numa família judaica, Derrida formou-se na École normale supérieure de Paris e iniciou seu percurso a partir de uma leitura minuciosa da fenomenologia de Husserl. Sua entrada explosiva no debate intelectual deu-se em 1966, com a conferência apresentada na Universidade Johns Hopkins, na qual questionava a noção de estrutura como algo organizado em torno de um centro estável — gesto que o afastou do estruturalismo então dominante e abriu o que se chamaria de pós-estruturalismo. No ano seguinte publicou simultaneamente três obras que fixaram seu vocabulário e seu método, consolidando a desconstrução não como uma doutrina, mas como uma prática de leitura atenta às tensões que cada texto não consegue dominar. ...

Johann Gottfried Herder

Johann Gottfried Herder Johann Gottfried Herder (1744–1803) nasceu em Mohrungen, na Prússia Oriental, filho de um professor e cantor luterano, em ambiente pietista que marcaria sua sensibilidade religiosa e seu interesse pela linguagem e pela cultura populares. Em 1762 ingressou na Universidade de Königsberg, onde assistiu às aulas de Kant — então um jovem Privatdozent (docente ainda sem cátedra), distante da filosofia crítica que o consagraria — e travou amizade decisiva com Johann Georg Hamann, que lhe transmitiu uma desconfiança profunda do racionalismo abstrato e um interesse duradouro pela relação entre linguagem, pensamento e fé. Entre 1764 e 1769 trabalhou como professor e pastor em Riga, cidade cosmopolita do Báltico que aguçou seu interesse pela diversidade de línguas e costumes populares. Uma viagem marítima à França em 1769, registrada no Journal meiner Reise im Jahre 1769, e o encontro com o jovem Goethe em Estrasburgo, em 1770, aproximaram-no do movimento então nascente do Sturm und Drang. Em 1776, a convite do próprio Goethe, assumiu o cargo de superintendente-geral (pregador da corte) em Weimar, onde permaneceu até a morte, em 1803, convivendo com Goethe, Schiller e Wieland no círculo que ficaria conhecido como o classicismo de Weimar. ...

John Searle

John Searle John Rogers Searle, nascido em Denver (Colorado) em 1932 e falecido em 2025, foi professor emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley. Suas contribuições abrangem filosofia da linguagem (teoria dos atos de fala), filosofia da mente (o argumento do Quarto Chinês, naturalismo biológico) e ontologia social (a construção da realidade institucional). É um dos filósofos analíticos mais lidos e debatidos do séc. XX e início do XXI. Conceitos-chave Teoria dos Atos de Fala (Speech Acts, 1969): Desenvolvendo J.L. Austin, Searle sistematiza a teoria. Todo ato de fala envolve: ...

Jürgen Habermas

Jürgen Habermas Nascido em 1929, na Alemanha, e marcado na juventude pela experiência do nazismo e do pós-guerra, Jürgen Habermas tornou-se o principal nome da segunda geração da Escola de Frankfurt e um dos filósofos mais influentes das últimas décadas (faleceu em 2026). Assistente de Adorno, herdou a tradição da Teoria Crítica, mas recusou seu pessimismo: onde Horkheimer e Adorno viam a razão moderna degenerar em pura dominação, Habermas procurou resgatar um potencial emancipatório da própria razão. ...

Ludwig Wittgenstein

Ludwig Wittgenstein Nascido em Viena em 1889, no seio de uma das famílias mais ricas e cultas do Império Austro-Húngaro, Ludwig Wittgenstein começou estudando engenharia aeronáutica, mas a reflexão sobre os fundamentos da matemática o levou à lógica e, daí, a Cambridge, para estudar com Bertrand Russell. Sua biografia é tão singular quanto seu pensamento: combateu na Primeira Guerra, doou a fortuna herdada, foi professor primário numa aldeia, jardineiro e até arquiteto, antes de retornar à filosofia acadêmica. É a figura mais influente da filosofia analítica do século XX — e, raríssimo, autor de duas filosofias distintas e igualmente decisivas, ambas centradas na linguagem. ...

Mikhail Bakhtin

Mikhail Bakhtin Mikhail Mikháilovitch Bakhtin (16 de novembro de 1895, Oriol — 7 de março de 1975, Moscou) foi filósofo da linguagem, teórico da literatura e da cultura. Marginalizado e quase desconhecido em vida na União Soviética — preso e enviado ao exílio em 1929, lecionou por décadas em universidades provincianas —, foi redescoberto a partir dos anos 1960 e tornou-se um dos pensadores russos mais influentes do mundo nas ciências humanas. Foi o centro do chamado Círculo de Bakhtin, que reunia também Valentin Volóchinov e Pável Medviédev (a autoria de algumas obras assinadas por eles é objeto de debate acadêmico). ...

Paul Ricoeur

Paul Ricoeur Filósofo francês, um dos maiores hermeneutas do século XX. Sintetizou a fenomenologia de Husserl com a hermenêutica de Gadamer, a psicanálise de Freud e a filosofia analítica da ação. Sua obra percorre o conflito das interpretações, a teoria da narrativa e a ética do si mesmo. Conceitos-chave Hermenêutica do suspeito vs. da confiança: existem duas grandes tradições interpretativas — a da suspeita (Marx, Nietzsche, Freud — os textos escondem algo) e a da confiança (a tradição religiosa e poética — os textos revelam algo). A hermenêutica madura oscila entre as duas Identidade narrativa (identité narrative): a identidade pessoal não é uma substância fixa, mas é construída narrativamente — somos os personagens das histórias que contamos sobre nós mesmos (idem vs. ipse: identidade como mesmidade vs. ipseidade) Tempo e narrativa: o tempo humano só se torna compreensível quando narrado — a narrativa (historiografia e ficção) configura a experiência temporal e lhe dá sentido (mimesis em três fases: prefiguração, configuração, refiguração) Metáfora viva: a metáfora não é mero ornamento retórico — ela cria novos significados ao aproximar campos semânticos distantes; “redescrevia a realidade” Conflito das interpretações: não há interpretação neutra — toda leitura envolve uma posição; a hermenêutica deve assumir o conflito entre perspectivas em vez de eliminá-lo O si mesmo como um outro (soi-même comme un autre): a ipseidade (quem sou) é sempre mediada pelo outro — a alteridade constitui o si mesmo; proposta de uma ética da solicitude e da justiça Pequena ética: “visar à vida boa, com e para os outros, em instituições justas” — articulação entre perspectiva ética (teleológica) e perspectiva moral (deontológica) Influenciado por Husserl e Heidegger — fenomenologia Gadamer — hermenêutica filosófica Freud — psicanálise e suspeita Marx e Nietzsche — hermenêutica da suspeita Filosofia analítica da ação (Austin, Strawson) Influenciou Teologia narrativa e bíblica Filosofia do direito e hermenêutica jurídica Historiografia e filosofia da história Habermas — ética e comunicação Obras Filosofia da Vontade (1950–60); Da Interpretação: Ensaio sobre Freud (1965); O Conflito das Interpretações (1969); A Metáfora Viva (1975); Tempo e Narrativa (3 vols., 1983–85); O Si-Mesmo Como um Outro (1990); A Memória, a História, o Esquecimento (2000). ...

Rudolf Carnap

Rudolf Carnap Rudolf Carnap foi a figura mais sistemática e influente do Círculo de Viena e do empirismo lógico, movimento que buscou refundar a filosofia sobre o rigor da lógica moderna e a fidelidade à experiência. Formado em física, lógica e filosofia na Alemanha, estudou com Gottlob Frege em Jena antes de se associar ao Círculo de Viena nos anos 1920. Com a ascensão do nazismo, emigrou para os Estados Unidos, onde lecionou em Chicago e na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Sua obra atravessa a construção lógica do conhecimento, a sintaxe e a semântica da linguagem, a teoria da confirmação e a lógica indutiva, sempre guiada pelo ideal de clareza conceitual. ...

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