Filosofia da História: Sentido, Progresso e a Crítica ao Historicismo

Existe um sentido na história? Um fio condutor, uma direção, talvez até uma lei que governe a sucessão dos impérios, das revoluções e das ideias — ou a história é apenas, como dizia Shakespeare por outras palavras, “som e fúria, nada significando”? Essa pergunta, que parece simples, abriga na verdade duas perguntas muito diferentes, e a confusão entre elas é responsável por boa parte dos mal-entendidos que cercam a “filosofia da história”. A primeira pergunta é especulativa: qual é o sentido, o motor ou a lei do processo histórico como um todo? A segunda é crítica ou epistemológica: como se conhece o passado, que tipo de ciência (se é que é uma ciência) é a história, e o que significa “compreender” um acontecimento humano? Este artigo percorre as respostas mais influentes dadas à primeira pergunta — de Agostinho a Fukuyama — e mostra como, no século XX, a segunda pergunta se voltou contra a primeira, num movimento de desconfiança que vai de Dilthey a Popper e Lyotard. ...

Arnold Toynbee

Arnold Toynbee Arnold Joseph Toynbee (1889–1975) nasceu em Londres e formou-se em história clássica greco-romana no Balliol College, Oxford. Serviu no Foreign Office britânico durante e após a Primeira Guerra Mundial e dirigiu por décadas o departamento de estudos do Royal Institute of International Affairs (Chatham House), combinando erudição acadêmica com intensa atividade de análise das relações internacionais. Sua obra magna, A Study of History, publicada em doze volumes entre 1934 e 1961, é a mais ambiciosa tentativa do século XX de escrever uma história comparada de todas as civilizações conhecidas, identificando cerca de vinte e uma delas ao longo da história humana e propondo um esquema comum para compreender seu nascimento, crescimento, colapso e desintegração. ...

Francis Fukuyama

Francis Fukuyama Francis Yoshihiro Fukuyama (1952–) nasceu em Chicago, filho de um pastor protestante nipo-americano de segunda geração, doutor em sociologia, e de uma nascida em Kyoto, filha do economista Shiro Kawata, fundador do Departamento de Economia da Universidade de Kyoto. Formou-se em estudos clássicos pela Universidade Cornell — onde foi aluno de Allan Bloom — e doutorou-se em ciência política pela Universidade Harvard. Trabalhava no corpo de planejamento político (Policy Planning Staff) do Departamento de Estado dos Estados Unidos quando publicou, no verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o ensaio que o tornaria mundialmente conhecido: “The End of History?”, na revista The National Interest. Ampliado em livro como O Fim da História e o Último Homem (1992), o argumento provocou um dos debates intelectuais mais intensos do fim do século XX. ...

Giambattista Vico

Giambattista Vico Giambattista Vico (1668–1744) nasceu e morreu em Nápoles, cidade onde passou praticamente toda a vida como professor de retórica na universidade local — cargo que ocupou a partir de 1699 e que lhe garantiu magro sustento, mas pouco prestígio acadêmico diante dos juristas e cientistas de sua época. Formado em direito, mas autodidata em filologia clássica, história romana e filosofia, Vico construiu sua obra em relativa marginalidade em relação às correntes dominantes do seu tempo — sobretudo o racionalismo cartesiano, que dominava as universidades europeias e que ele submeteu a uma crítica sistemática já em De nostri temporis studiorum ratione (Sobre o método dos estudos do nosso tempo, 1709). Contra a pretensão cartesiana de fundar todo saber no modelo matemático-dedutivo, Vico defendia que as ciências humanas — a história, o direito, a filologia — exigem um método próprio, fundado não na evidência geométrica mas na reconstrução imaginativa e histórica das obras humanas. ...

Johann Gottfried Herder

Johann Gottfried Herder Johann Gottfried Herder (1744–1803) nasceu em Mohrungen, na Prússia Oriental, filho de um professor e cantor luterano, em ambiente pietista que marcaria sua sensibilidade religiosa e seu interesse pela linguagem e pela cultura populares. Em 1762 ingressou na Universidade de Königsberg, onde assistiu às aulas de Kant — então um jovem Privatdozent (docente ainda sem cátedra), distante da filosofia crítica que o consagraria — e travou amizade decisiva com Johann Georg Hamann, que lhe transmitiu uma desconfiança profunda do racionalismo abstrato e um interesse duradouro pela relação entre linguagem, pensamento e fé. Entre 1764 e 1769 trabalhou como professor e pastor em Riga, cidade cosmopolita do Báltico que aguçou seu interesse pela diversidade de línguas e costumes populares. Uma viagem marítima à França em 1769, registrada no Journal meiner Reise im Jahre 1769, e o encontro com o jovem Goethe em Estrasburgo, em 1770, aproximaram-no do movimento então nascente do Sturm und Drang. Em 1776, a convite do próprio Goethe, assumiu o cargo de superintendente-geral (pregador da corte) em Weimar, onde permaneceu até a morte, em 1803, convivendo com Goethe, Schiller e Wieland no círculo que ficaria conhecido como o classicismo de Weimar. ...

Oswald Spengler

Oswald Spengler Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880–1936) nasceu em Blankenburg, na Alemanha, filho de um funcionário dos correios. Formou-se em matemática e ciências naturais, lecionou brevemente no ensino secundário e depois se dedicou inteiramente à escrita como autor independente em Munique. Sua obra magna, A Decadência do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes), publicada em dois volumes — Forma e Realidade (1918) e Perspectivas da História Universal (1922) — converteu-o, quase da noite para o dia, num dos autores mais discutidos da Europa entreguerras: o primeiro volume apareceu poucos meses antes da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, e seu título parecia profetizar o colapso então em curso. ...

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