Filosofia da Ciência: Popper, Kuhn e o Problema do Método

O que distingue uma teoria científica de um mito, de uma ideologia ou de um sistema metafísico? Por que aceitamos como conhecimento aquilo que a física diz, mas não aquilo que a astrologia ou a psicanálise — pelo menos em sua forma mais especulativa — afirmam? Essas perguntas, à primeira vista simples, abriram no século XX um dos debates mais consequentes da filosofia contemporânea. Suas duas figuras centrais — Karl Popper e Thomas Kuhn — formularam respostas que, longe de se conciliarem, redesenharam a paisagem da epistemologia. ...

Francis Bacon — O Método Empírico e os Ídolos da Mente

Poucos filósofos podem reivindicar ter mudado, de forma tão deliberada e programática, a própria finalidade do conhecimento humano. Francis Bacon (1561–1626) não se limitou a propor uma teoria filosófica entre outras: concebeu uma reforma total do saber, um projeto que pretendia substituir a tradição aristotélica por um novo método capaz de gerar conhecimento útil, verificável e progressivo. O título da sua obra magna — Novum Organum (1620) — anuncia, já na capa, a ambição: um novo instrumento do pensamento, destinado a tomar o lugar do antigo Organon de Aristóteles que governava a lógica ocidental havia quase dois milênios. ...

Charles Sanders Peirce

Charles Sanders Peirce Lógico, matemático, filósofo e cientista americano. Fundador do pragmatismo e da semiótica moderna. Uma das mentes mais originais da história da filosofia, embora negligenciado em vida. Seu trabalho influenciou profundamente William James, John Dewey e toda a tradição analítica e continental do séc. XX. Formado em Química pela Universidade Harvard e atuando por décadas no U.S. Coast and Geodetic Survey, Peirce nunca obteve um cargo universitário permanente — em parte por dificuldades pessoais, em parte pela hostilidade de figuras influentes do meio acadêmico, como o astrônomo Simon Newcomb; foi William James, paradoxalmente, quem o amparou nos anos de penúria e se tornou seu maior divulgador. Essa marginalidade institucional não impediu que desenvolvesse, em centenas de manuscritos não publicados, uma arquitetura filosófica de rara profundidade: uma fenomenologia original, uma lógica formal avançada, uma teoria dos signos e uma metafísica evolucionária. ...

Galileu Galilei

Galileu Galilei Nascido em Pisa em 1564, Galileu Galilei é frequentemente chamado de “pai da ciência moderna”. Professor de matemática em Pisa e Pádua, em 1609 aperfeiçoou o recém-inventado telescópio e o apontou para o céu — com resultados que abalaram a cosmologia aristotélica: montanhas e crateras na Lua, quatro satélites girando em torno de Júpiter, as fases de Vênus, manchas no Sol. O céu, afinal, não era o reino perfeito e imutável que se supunha. ...

Imre Lakatos

Imre Lakatos Imre Lakatos foi um filósofo da ciência e da matemática húngaro-britânico, professor na London School of Economics e uma das figuras centrais do debate sobre racionalidade científica nas décadas de 1960 e 1970. Sua obra busca uma posição intermediária entre o falsificacionismo de Popper e a visão histórica de Kuhn: contra a ideia de que uma única refutação derruba uma teoria, mas também contra a ideia de que mudanças científicas seriam meras “conversões” irracionais. Lakatos propôs que a unidade de avaliação científica não é a teoria isolada, mas o programa de pesquisa, julgado ao longo do tempo por sua capacidade de antecipar fatos novos. Foi também um filósofo da matemática original, mostrando em Provas e Refutações que o conhecimento matemático cresce por um processo dinâmico de conjecturas, demonstrações e contraexemplos, e não por dedução pura e acabada. ...

Isaac Newton

Isaac Newton Nascido na Inglaterra em 1643, Isaac Newton é considerado o autor da maior síntese da Revolução Científica e um dos maiores gênios da história. Durante os “anos miraculosos” de 1665-66, quando a peste o afastou de Cambridge para o campo, lançou as bases de três revoluções simultâneas: o cálculo infinitesimal, a teoria das cores e a lei da gravitação. Homem complexo, dedicou-se também, em segredo, à alquimia e a estudos teológicos heterodoxos. Foi diretor da Casa da Moeda e presidente da Royal Society, e está sepultado na Abadia de Westminster. ...

Johannes Kepler

Johannes Kepler Nascido em Weil der Stadt, na Alemanha, em 1571, Johannes Kepler foi um espírito de transição fascinante: protestante devoto, estudou teologia em Tübingen, mas dedicou a vida à astronomia, convencido de que decifrar a ordem dos céus era ler a mente de Deus. Trabalhou como assistente do grande observador Tycho Brahe em Praga e, ao herdar seus dados de altíssima precisão — sobretudo sobre Marte —, dispôs do material que tornaria possíveis suas descobertas. ...

Karl Popper

Karl Popper Filósofo austríaco-britânico. Propôs o falsificacionismo como critério de demarcação científica e defendeu a sociedade aberta contra o totalitarismo. Crítico agudo do marxismo e do historicismo. Nascido em Viena em 1902, Popper formou-se em contato com o Círculo de Viena — o grupo de filósofos e cientistas que buscava fundar o conhecimento em bases estritamente verificacionistas. Em vez de aderir ao verificacionismo, porém, Popper inverteu a questão: o problema central da epistemologia não é como confirmamos teorias, mas como as distinguimos de pseudo-ciências. Sua resposta, o falsificacionismo, estabeleceu que o marco da cientificidade é a refutabilidade: uma teoria é científica se — e somente se — é possível conceber um experimento ou observação capaz de derrubá-la. Essa virada metodológica, apresentada em A Lógica da Descoberta Científica (1934), redefiniu os fundamentos da filosofia da ciência do século XX. ...

Nicolau Copérnico

Nicolau Copérnico Nascido em Toruń, na Polônia, em 1473, Nicolau Copérnico foi cônego da catedral de Frombork e um homem do Renascimento: estudou em Cracóvia e na Itália (Bolonha, Pádua), dedicando-se ao direito, à medicina e, sobretudo, à astronomia. De modo discreto e prudente, durante décadas amadureceu uma ideia que mudaria a imagem do mundo — e que só publicaria no fim da vida. Essa ideia é o heliocentrismo: não a Terra, mas o Sol, está no centro do sistema planetário; a Terra é apenas mais um planeta, que gira sobre seu próprio eixo e se desloca em torno do Sol. Era uma ruptura com mais de mil anos de cosmologia geocêntrica, herdada de Ptolomeu e Aristóteles, segundo a qual a Terra imóvel ocupava o centro do universo. Copérnico não buscava apenas a verdade física, mas também uma explicação matematicamente mais simples e harmoniosa do que o complicado sistema de epiciclos ptolomaico. ...

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend Paul Feyerabend foi um filósofo da ciência austríaco, uma das vozes mais provocadoras do século XX. Formado em Viena e radicado por décadas em Berkeley, começou próximo do empirismo lógico e do racionalismo crítico de Popper — chegou a estudar com Popper na London School of Economics — para depois se tornar um de seus críticos mais incisivos. Sua obra mais célebre, Contra o Método (1975), defende o anarquismo epistemológico: a tese de que não existe um método científico único, universal e a-histórico capaz de explicar o sucesso da ciência. Examinando episódios reais da história da ciência, sobretudo o caso de Galileu, Feyerabend argumenta que o progresso frequentemente exigiu violar as regras metodológicas então vigentes. Sua provocação tornou-se sinônimo de uma defesa radical do pluralismo e da liberdade intelectual contra qualquer dogmatismo, inclusive o científico. ...

Thomas Kuhn

Thomas Kuhn Historiador e filósofo da ciência americano. A Estrutura das Revoluções Científicas (1962) transformou completamente a compreensão do progresso científico e introduziu o conceito de paradigma no vocabulário intelectual global. Nascido em Cincinnati (Ohio) em 1922, Kuhn formou-se em física pela Universidade Harvard e, ao preparar um curso de história da ciência para estudantes de humanidades, deparou-se com as teorias aristotélicas do movimento. A dificuldade de entender por que Aristóteles — um pensador notavelmente perspicaz — havia cometido erros tão evidentes do ponto de vista newtoniano fez Kuhn perceber que os critérios de racionalidade científica mudam de época para época. Essa revelação orientou toda a sua carreira posterior: em vez de perguntar “quem estava certo?”, passou a perguntar “como uma comunidade científica chega a enxergar o mundo de determinada maneira?”. Desse questionamento nasceria, anos mais tarde, o livro que mudaria o modo como filósofos, historiadores e cientistas compreendem a própria ciência. ...

Whitehead

Whitehead Alfred North Whitehead (1861–1947) nasceu em Ramsgate, Kent, e fez carreira nas duas margens do Atlântico: durante décadas foi professor de matemática e lógica no Trinity College de Cambridge e no University College London, antes de aceitar, já aos 63 anos, um convite para lecionar filosofia em Harvard, onde produziu sua obra metafísica de maior fôlego. Essa trajetória bifronte — do rigor matemático à especulação cosmológica — define de modo singular seu pensamento: a filosofia do processo nasce não de uma ruptura com a ciência, mas de uma meditação filosófica prolongada sobre os seus fundamentos. ...

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