A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Nietzsche e o Niilismo: O Que o Filósofo do Martelo Diria Sobre o Mundo Contemporâneo

Friedrich Nietzsche morreu em 1900, mas parece que escreveu seus livros para o século XXI. O filósofo alemão que proclamou “Deus está morto” não estava comemorando — estava lançando um diagnóstico sombrio sobre o que acontece quando uma civilização inteira perde o alicerce que organizava seus valores. No mundo contemporâneo, esse diagnóstico ressoa com uma precisão desconcertante: vivemos numa era de crise de sentido, de valores em colapso, de niilismo difuso que se esconde sob camadas de entretenimento digital, redes sociais e consumismo. Nietzsche não apenas previu esse cenário — ele descreveu em detalhes o que haveria de vir. ...

Judith Butler: Gênero, Performatividade e os Limites de Sua Teoria

Poucos filósofos contemporâneos dividem tanto a opinião quanto Judith Butler. Para uns, ela é uma das pensadoras mais importantes do século XX — alguém que revolucionou a compreensão do gênero, da sexualidade e do poder. Para outros, é o símbolo máximo de uma filosofia que se perdeu no labirinto da própria linguagem, produzindo textos deliberadamente obscuros para mascarar ideias rasas. Para entender por que Butler provoca reações tão extremas, é preciso primeiro compreender o que ela realmente diz — e, depois, ter a honestidade intelectual de identificar onde o argumento vacila. ...

Antonio Gramsci

Antonio Gramsci Antonio Gramsci (22 de janeiro de 1891, Ales, Sardenha — 27 de abril de 1937, Roma) foi um filósofo, jornalista e dirigente comunista italiano, uma das figuras mais originais do marxismo do século XX. Em Turim, fundou o jornal L’Ordine Nuovo (1919) durante o movimento dos conselhos de fábrica, e em 1921 ajudou a fundar o Partido Comunista Italiano, do qual se tornou secretário-geral. Eleito deputado, foi preso pelo regime fascista em 1926; no julgamento, o promotor declarou que era preciso “impedir esse cérebro de funcionar por vinte anos”. Foi no cárcere, em condições penosas, que Gramsci escreveu sua obra decisiva — os Cadernos do Cárcere —, redigida entre 1929 e 1935 e publicada após sua morte. ...

bell hooks

bell hooks bell hooks — pseudônimo de Gloria Jean Watkins (Hopkinsville, Kentucky, 25 de setembro de 1952 — Berea, Kentucky, 15 de dezembro de 2021) — foi uma escritora, teórica feminista e crítica cultural norte-americana. Adotou o nome da bisavó, Bell Blair Hooks, e o grafou deliberadamente em minúsculas, para deslocar a atenção da autora para as ideias. Autora prolífica, escreveu sobre feminismo, raça, educação, cultura de massa e amor, sempre numa prosa acessível, voltada a um público amplo. ...

Byung-Chul Han

Byung-Chul Han Byung-Chul Han (한병철, n. 1959, Seul) é um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Estudou metalurgia em Seul antes de migrar para a Alemanha, onde concluiu seus estudos de filosofia em Freiburg e Munique, com doutorado sobre Heidegger. Foi professor na Universidade das Artes de Berlim e tornou-se uma das vozes mais traduzidas da crítica cultural contemporânea graças a uma série de livros curtos, aforísticos e densamente fenomenológicos. Sua tese central é que a sociedade contemporânea passou da “sociedade disciplinar” descrita por Foucault para uma Leistungsgesellschaft — sociedade do desempenho — em que o sujeito, dispensado da coerção externa, exerce sobre si mesmo uma violência tão mais eficaz quanto mais voluntária. Han mobiliza Heidegger, Hegel, Hannah Arendt e o pensamento extremo-oriental (sobretudo o budismo zen) para diagnosticar nossa época. ...

Carol Gilligan

Carol Gilligan Carol Gilligan (nascida em 1936, em Nova York) é uma psicóloga e feminista norte-americana, professora na Universidade de Nova York (e, antes, em Harvard). É a principal responsável pela formulação da ética do cuidado (ethics of care), uma das contribuições mais discutidas da filosofia moral contemporânea, situada na fronteira entre a psicologia do desenvolvimento e a ética. Seu ponto de partida foi uma crítica metodológica. Trabalhando junto ao psicólogo Lawrence Kohlberg, cujas etapas do desenvolvimento moral colocavam o raciocínio por princípios abstratos e universais no topo da escala, Gilligan observou que essas etapas haviam sido construídas a partir de amostras masculinas e que, nelas, as mulheres tendiam a “pontuar” mais baixo. Em vez de concluir por uma deficiência feminina, ela inverteu a questão: e se houvesse ali outra voz moral, igualmente legítima, que a escala de Kohlberg não sabia ouvir? ...

Chandra Mohanty

Chandra Mohanty Chandra Talpade Mohanty nasceu em 1955 na Índia e é atualmente professora titular (Distinguished Professor) de Estudos das Mulheres e do Gênero, Sociologia e Fundamentos Culturais da Educação, e Professora das Humanidades do Decano, na Universidade de Syracuse (EUA). Sua trajetória intelectual se situa no cruzamento entre a teoria feminista, os estudos pós-coloniais e o pensamento anticapitalista, e é inseparável da experiência de migração e de posicionamento crítico entre o Norte e o Sul Globais. Formada nos EUA, Mohanty desenvolveu uma obra que questiona sistematicamente os pressupostos etnocêntricos do feminismo ocidental dominante sem, por isso, abandonar o projeto feminista — antes, radicaliza-o a partir da diferença histórica, geográfica e de classe. ...

Derek Parfit

Derek Parfit Derek Parfit (11 de dezembro de 1942, Chengdu, China — janeiro de 2017, Oxford) foi um filósofo britânico, fellow do All Souls College de Oxford, considerado um dos mais importantes filósofos morais do final do século XX. Trabalhava de modo obsessivo e quase ascético, e publicou pouco — mas cada obra deixou marca profunda na filosofia da identidade pessoal, da racionalidade e da ética. Seu Razões e Pessoas (Reasons and Persons, 1984) é uma das obras-referência da filosofia analítica contemporânea. ...

Édouard Glissant

Édouard Glissant Édouard Glissant (21 de setembro de 1928, Sainte-Marie, Martinica — 3 de fevereiro de 2011, Paris) foi poeta, romancista, ensaísta e filósofo, uma das maiores figuras do pensamento caribenho e da teoria pós-colonial de língua francesa. Aluno do Lycée Schœlcher, onde teve Aimé Césaire entre seus professores, estudou depois filosofia na Sorbonne e etnografia no Musée de l’Homme, em Paris. Recebeu o Prêmio Renaudot em 1958 pelo romance La Lézarde. Toda a sua obra — atravessando poesia, ficção e filosofia — gira em torno de uma intuição: a de que a identidade não se funda numa raiz única, mas numa relação sempre aberta com o outro. Contra as filosofias da pureza e da origem, Glissant pensou o Caribe — terra da plantação, do desenraizamento e da mistura forçada — como laboratório de uma humanidade por vir. ...

Ernst Cassirer

Ernst Cassirer Ernst Cassirer nasceu em Breslau (atual Wrocław, Polônia) em 28 de julho de 1874 e morreu em Nova York em 13 de abril de 1945. Formado na tradição neokantiana da Escola de Marburg — cujos pilares eram Hermann Cohen e Paul Natorp —, Cassirer começou a vida intelectual editando textos de Leibniz e estudando os fundamentos lógicos das ciências exatas. Mas o projeto que o tornaria singular na filosofia do século XX foi uma ampliação radical da herança kantiana: onde Kant havia perguntado pelas condições de possibilidade do conhecimento científico, Cassirer perguntou pelas condições de possibilidade de toda forma de sentido humano — do mito à linguagem, da arte à ciência. Essa reorientação resultou na monumental Filosofia das Formas Simbólicas (3 vols., 1923–1929), obra que transformou a epistemologia neokantiana em uma filosofia da cultura de alcance antropológico. ...

Georg Lukács

Georg Lukács Georg (György) Lukács (13 de abril de 1885, Budapeste — 4 de junho de 1971, Budapeste) foi um filósofo e crítico literário húngaro, fundador, com sua obra de 1923, daquilo que se chamaria marxismo ocidental. Nascido em família judaica abastada e assimilada, formou-se na cultura neokantiana alemã — foi próximo de Georg Simmel e Max Weber — antes de aderir ao comunismo em 1918. Foi comissário do povo para a educação e a cultura na efêmera República Soviética Húngara de 1919 e, décadas depois, ministro da cultura no governo de Imre Nagy durante a Revolução Húngara de 1956. Sua trajetória, atravessada por sucessivas autocríticas e por uma relação tensa com o stalinismo, vai da estética pré-marxista ao marxismo hegeliano e, por fim, a uma vasta Ontologia do Ser Social. ...

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben Giorgio Agamben é um filósofo italiano nascido em Roma em 1942, professor nas universidades de Verona e Veneza (IUAV), bem como em diversas instituições europeias e americanas. Seu trabalho articula análise histórico-filológica, filosofia política, ontologia e teoria da linguagem em torno de um projeto genealógico sobre o paradigma biopolítico do Ocidente. É um dos pensadores contemporâneos mais traduzidos e debatidos. Conceitos-chave Homo Sacer (Homo sacer: il potere sovrano e la nuda vita, 1995): Retomando uma figura do direito romano arcaico, Agamben descreve o homo sacer como aquele que pode ser morto por qualquer um sem que isso constitua homicídio (occidi), mas que não pode ser sacrificado (immolari). Esta figura articula a vida nua (nuda vita / zōē) — o mero fato biológico de viver — excluída da vida politicamente qualificada (bíos). ...

Harry Frankfurt

Harry Frankfurt Harry Gordon Frankfurt (29 de maio de 1929, Langhorne, Pensilvânia — 16 de julho de 2023, Santa Mônica, Califórnia) foi um filósofo norte-americano, professor emérito da Universidade de Princeton, um dos nomes mais influentes da filosofia da ação e do livre-arbítrio no século XX. Começou como estudioso de Descartes (Demons, Dreamers, and Madmen, 1970) e construiu, a seguir, uma obra concisa e incisiva sobre a vontade, a pessoa e o amor — além de um pequeno ensaio que o tornaria, tardiamente, um autor de best-seller. ...

Homi Bhabha

Homi Bhabha Homi Kharshedji Bhabha (n. 1949, Bombaim — hoje Mumbai) é um teórico indiano da cultura e da literatura, formado no seio da comunidade parse de sua cidade natal e educado em Bombaim e em Oxford. Ocupa em Harvard a cátedra Anne F. Rothenberg de Literatura Inglesa e Americana e é, ao lado de Edward Said e Gayatri Spivak, um dos nomes que consolidaram a teoria pós-colonial como campo acadêmico. Sua obra de referência, The Location of Culture (O Local da Cultura, 1994), reúne ensaios que deslocaram o foco da crítica colonial: da denúncia da dominação para a análise da ambivalência que atravessa toda relação entre colonizador e colonizado. Escrevendo no cruzamento entre a desconstrução de Derrida, a psicanálise de Lacan e Freud e a clínica colonial de Fanon, Bhabha procura mostrar que o poder colonial nunca é tão coerente nem tão seguro quanto se imagina. ...

J.L. Austin

J.L. Austin John Langshaw Austin (26 de março de 1911, Lancaster — 8 de fevereiro de 1960, Oxford) foi um filósofo britânico, figura central da filosofia da linguagem ordinária de Oxford. Catedrático de filosofia moral (White’s Professor), exerceu durante a Segunda Guerra um papel destacado na inteligência militar britânica. Publicou pouco em vida; suas obras decisivas são póstumas, reconstruídas a partir de conferências e papéis. Seu estilo era paciente, antissistemático e atento às minúcias: para Austin, “nosso estoque comum de palavras incorpora todas as distinções que os homens acharam dignas de traçar” ao longo de muitas gerações — e a filosofia deve começar por examiná-las. ...

Jacques Lacan

Jacques Lacan Jacques Lacan (13 de abril de 1901, Paris — 9 de setembro de 1981, Paris) foi um psicanalista e psiquiatra francês, a figura mais influente da psicanálise depois de Freud e um elo decisivo entre a psicanálise e o estruturalismo. Sob a bandeira do “retorno a Freud”, propôs reler a descoberta freudiana à luz da linguística de Ferdinand de Saussure e da antropologia de Lévi Strauss, depurando-a do biologismo e do psicologismo do ego. Seu Seminário, ministrado a partir de 1953, e os Escritos (1966) tornaram-se referência incontornável — e notoriamente difícil. Rompido com a Associação Psicanalítica Internacional em 1963, fundou no ano seguinte a École freudienne de Paris, que ele próprio dissolveria em 1980. ...

Jean Baudrillard

Jean Baudrillard Jean Baudrillard (27 de julho de 1929, Reims — 6 de março de 2007, Paris) foi um sociólogo, filósofo e teórico da cultura francês, conhecido sobretudo por sua teoria do simulacro e do hiper-real. Formado em germanística, começou a carreira como professor de alemão e tradutor — verteu para o francês, entre outros, textos de Bertolt Brecht e Peter Weiss. A partir de 1966 ensinou sociologia em Nanterre (Paris X), epicentro das agitações de Maio de 1968, sob a influência de Henri Lefebvre e de Roland Barthes. ...

Jean-François Lyotard

Jean-François Lyotard Jean-François Lyotard (10 de agosto de 1924, Versalhes — 21 de abril de 1998, Paris) foi um filósofo francês, uma das vozes centrais do debate sobre a pós-modernidade. Formado em filosofia pela Sorbonne, ensinou no liceu de Constantine, na Argélia colonial, experiência que marcou seu engajamento político. Ao longo da carreira lecionou em Nanterre, na universidade experimental de Vincennes (Paris VIII) e, mais tarde, em universidades norte-americanas; esteve ligado ao Collège international de philosophie (fundado em 1983 por Derrida, Châtelet, Faye e Lecourt), que viria a dirigir de 1984 a 1986. ...

Julia Kristeva

Julia Kristeva Julia Kristeva (nascida em 24 de junho de 1941, em Sliven, Bulgária) é uma filósofa, psicanalista, linguista, semioticista e romancista búlgaro-francesa. Chegou a Paris em 1965 com uma bolsa de doutorado e logo se integrou ao grupo da revista Tel Quel, epicentro da vanguarda intelectual francesa. Tornou-se professora na Universidade de Paris VII e psicanalista em exercício. Sua obra atravessa a linguística, a teoria literária, a psicanálise e a filosofia, com forte influência de Bakhtin, de Saussure e de Lacan. ...

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