Filosofia da Tecnologia: Heidegger, Ellul, Mumford e a Questão da Técnica

Vivemos cercados por instrumentos, máquinas, sistemas e algoritmos com uma naturalidade tal que raramente perguntamos o que, afinal, é a técnica. Ela costuma aparecer como um conjunto neutro de meios à disposição de fins que escolhemos livremente: um martelo, uma usina elétrica, um smartphone seriam, todos, “apenas ferramentas” — bons ou maus conforme o uso que delas fazemos. A filosofia da tecnologia nasce precisamente da suspeita de que essa neutralidade é uma ilusão confortável. Desde a Antiguidade, mas com uma urgência inédita a partir do século XX, uma linhagem de pensadores — de Aristóteles a Heidegger, de Ellul a Mumford — insistiu que a técnica não é um meio indiferente aos fins humanos, mas um modo de estar no mundo que configura antecipadamente o que contamos como real, como natureza, como verdade e até como ser humano. ...

O Núcleo da Filosofia de Nietzsche: Vontade de Potência, Eterno Retorno e Genealogia da Moral

Poucos filósofos foram tão lidos e tão mal lidos quanto Friedrich Nietzsche. Reduzido, em certas vulgatas, a um profeta do “vale tudo” ou, pior, sequestrado pela propaganda nazista que sua própria irmã ajudou a fabricar, Nietzsche construiu na verdade um dos edifícios filosóficos mais rigorosos e mais afirmativos do século XIX — um pensamento que não se contenta em diagnosticar a crise dos valores ocidentais, mas propõe, a partir dela, uma tarefa: criar valores novos, dizer sim à vida tal como ela é, com seu sofrimento e sua alegria, sem o consolo de mundos metafísicos ou de além-vidas compensatórias. Já tratamos em outro artigo do diagnóstico niilista de Nietzsche e de sua ressonância com a sociedade contemporânea — Nietzsche e o Niilismo. Este texto percorre o outro lado da mesma moeda: o núcleo positivo de sua filosofia, dos primeiros escritos sobre a tragédia grega às noções mais discutidas (e mais deturpadas) de seu pensamento — vontade de potência, eterno retorno e além-do-homem. ...

Deontologia, consequencialismo e ética da virtude: as três grandes teorias normativas

Você se depara com uma promessa que não pode cumprir sem causar dano a terceiros. Deve mantê-la, ou quebrá-la para evitar o mal? Um juiz sabe que condenar um inocente acalmará uma multidão que, do contrário, fará linchamentos e matará vinte pessoas. Deve sacrificar o inocente? Não há resposta simples — e é exatamente esse desconforto que revela por que a filosofia moral precisa de teorias. Há três grandes famílias de resposta à pergunta “o que torna uma ação moralmente correta?”: o consequencialismo, que olha para os resultados; a deontologia, que olha para deveres e regras; e a ética da virtude, que olha para o caráter do agente. Compreender como cada uma pensa, onde cada uma acerta e onde tropeça é o mapa mínimo para qualquer debate ético sério. ...

Filosofia do tempo: McTaggart, presentismo, eternalismo e a duração de Bergson

Há perguntas que a filosofia herda de cada geração sem jamais devolvê-las resolvidas. A questão do tempo é, talvez, a mais resistente de todas. Santo Agostinho, nas Confissões (livro XI), enunciou o paradoxo com uma clareza que nenhum filósofo posterior conseguiu superar: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem me pergunta, não sei.” A dificuldade não é retórica. O tempo é a condição de tudo o que existe — mudança, causalidade, memória, esperança — e, precisamente por ser tão onipresente, escapa a qualquer tentativa de defini-lo de fora, como se fosse um objeto entre outros. Este artigo percorre os principais nós da metafísica contemporânea do tempo: o argumento de McTaggart sobre a irrealidade do tempo, o debate entre presentismo e eternalismo, a teoria da passagem temporal, a durée de Bergson e a assimetria entre passado e futuro. ...

Dostoiévski: a filosofia dos romances — liberdade, fé e o abismo do niilismo

Fiódor Dostoiévski (1821–1881) não foi um filósofo no sentido técnico: não escreveu tratados, não construiu um sistema, não definiu conceitos com rigor escolar. E, no entanto, poucos pensadores marcaram tanto a filosofia do século XX. A razão é que seus romances funcionam como laboratórios de ideias: em vez de demonstrar teses, ele as encarna em personagens e as leva até as últimas consequências, fazendo-as colidir umas com as outras. Este artigo expõe a filosofia que pulsa por trás de suas obras — a defesa da liberdade contra a razão calculista, o niilismo e seu abismo, o problema do mal e a resposta da fé. ...

O problema do bonde: dilemas morais, duplo efeito e os limites do consequencialismo

Um bonde desgovernado avança sobre cinco pessoas presas aos trilhos. Você está ao lado de uma alavanca que pode desviá-lo para um ramal — onde há apenas uma pessoa. Puxar a alavanca? A maioria diz que sim. Agora outra cena: não há alavanca, mas você está numa passarela ao lado de um homem corpulento; empurrá-lo sobre os trilhos deteria o bonde e salvaria os cinco. A maioria, agora, recusa. Por que cinco-por-um é aceitável num caso e repugnante no outro, se a aritmética é a mesma? Essa é a forma mais célebre do problema do bonde — talvez o experimento mental mais conhecido da ética. ...

O sentido da vida e o absurdo: de Schopenhauer e Camus a Nagel e Susan Wolf

Poucas perguntas são tão imediatas e tão difíceis quanto esta: a vida tem sentido? Ela pode irromper numa madrugada de insônia, num luto ou no tédio de uma rotina, e desafia tanto o crente quanto o cético. Embora seja antiquíssima em substância — atravessa o Eclesiastes, os estoicos e Agostinho —, só recentemente tornou-se um tema explícito e tecnicamente trabalhado da filosofia. Este artigo percorre suas formulações principais: a crise do sentido cósmico, o pessimismo, o absurdo de Camus, a resposta irônica de Nagel e a virada analítica que distingue o sentido da vida do sentido na vida. ...

Feminismo: ondas, correntes filosóficas e críticas

O feminismo não é uma doutrina única, mas uma família heterogênea de teorias e movimentos — frequentemente em tensão entre si — que têm em comum a tese de que as relações entre os sexos envolvem desigualdades que merecem exame crítico. Como objeto de estudo filosófico, é também um dos campos mais controversos do pensamento contemporâneo: divide-se internamente em correntes que discordam quanto ao diagnóstico, quanto às causas e quanto às soluções, e atrai objeções vigorosas de fora. Este artigo mapeia a história (o esquema das “ondas”), as principais correntes, os conceitos centrais e — com atenção particular — as críticas que o feminismo recebeu, de dentro e de fora. ...

Pós-estruturalismo e pós-modernidade: Lyotard, Baudrillard e o fim das grandes narrativas

No fim dos anos 1960, a confiança estruturalista em sistemas estáveis começou a rachar por dentro. Os pensadores que levaram o estruturalismo ao seu limite — Jacques Derrida, o Michel Foucault da genealogia, Gilles Deleuze, o Roland Barthes tardio, Julia Kristeva — ficaram conhecidos (sobretudo na academia anglófona) como pós-estruturalistas. Por volta da mesma época, formou-se um diagnóstico mais amplo: o de uma condição pós-moderna. Dois filósofos franceses lhe deram as formulações mais influentes — Jean-François Lyotard, com a incredulidade diante das grandes narrativas, e Jean Baudrillard, com o hiper-real e o simulacro. Este artigo percorre o momento pós-estruturalista e o debate sobre o pós-moderno. ...

Estruturalismo: De Saussure a Lévi-Strauss, Barthes, Lacan e Althusser

Durante cerca de duas décadas — dos anos 1950 ao início dos 1970 —, uma única ideia reorganizou as ciências humanas francesas e, por extensão, boa parte do pensamento ocidental: a ideia de que os fenômenos humanos mais diversos (a língua, o parentesco, os mitos, a moda, o inconsciente, a ideologia) devem ser compreendidos como sistemas de relações — como estruturas — e não como coleções de coisas isoladas, nem como produtos de uma consciência individual. Esse foi o estruturalismo: menos uma doutrina unificada do que um método e um clima intelectual, exportado da linguística para a antropologia, a crítica literária, a psicanálise e o marxismo. Este artigo segue esse percurso, de Saussure a seus herdeiros, até a virada pós-estruturalista que o levou ao limite. ...

Marxismo Ocidental: Lukács, Gramsci, Frankfurt e Althusser

Depois da Revolução Russa de 1917, esperava-se que a revolução se espalhasse pela Europa industrializada. Não se espalhou: as insurreições alemã e húngara de 1918–1919 foram esmagadas, e o capitalismo ocidental sobreviveu. Dessa derrota nasceu uma das tradições mais ricas do pensamento do século XX — o marxismo ocidental. Diante do fracasso da revolução no Ocidente e do enrijecimento do marxismo soviético em dogma de Estado, um grupo de pensadores reabriu as questões que a ortodoxia havia fechado: por que as massas não se rebelaram? Como a cultura, a ideologia e a consciência sustentam a dominação? Que lugar têm a filosofia e a estética na luta política? Este artigo percorre essa tradição, de seus fundadores em 1923 à virada estrutural de Althusser. ...

Derrida: Desconstrução, Différance e a Metafísica da Presença

Há uma experiência que talvez você já tenha vivido diante de um texto de Derrida: a sensação de que as palavras escorregam, de que o argumento se dobra sobre si mesmo, de que o autor parece mais interessado em desestabilizar o terreno do que em construir uma tese. Essa impressão não é um acidente nem uma falha de exposição — é, em larga medida, o ponto. Derrida não queria propor uma nova doutrina sobre a verdade ou a linguagem para somar à lista das que a filosofia já produziu. Queria mostrar que a própria pretensão de fixar um sentido último, pleno, presente a si mesmo, é o pressuposto frágil sobre o qual toda a tradição ocidental se edificou — e que esse pressuposto não se sustenta. ...

Gilles Deleuze: Diferença, Repetição, Rizoma e Imanência

Há filósofos que constroem sistemas e há filósofos que demolem o terreno sobre o qual os sistemas são construídos. Gilles Deleuze fez as duas coisas ao mesmo tempo. Sua obra é, por um lado, uma das tentativas metafísicas mais ambiciosas do século XX — uma ontologia da diferença e da multiplicidade que pretende reescrever a história inteira da filosofia ocidental. Por outro, é uma máquina de guerra contra a maneira como o pensamento ocidental sempre se representou a si mesmo: contra a primazia da identidade, da semelhança e da representação. Deleuze não quis acrescentar mais uma doutrina ao catálogo; quis mudar a imagem mesma do que significa pensar. E o fez forjando um vocabulário próprio — diferença em si, virtual, rizoma, corpo sem órgãos, plano de imanência — que tornou seus livros simultaneamente fascinantes e notoriamente difíceis. ...

Lévinas — A Ética do Outro: Rosto, Alteridade e Responsabilidade

Imagine que toda a filosofia ocidental, de Parmênides a Heidegger, tenha cometido o mesmo gesto fundamental: reduzir o que é diferente ao que é idêntico, absorver o estranho no familiar, converter o Outro em um objeto do meu saber. Essa é a acusação que percorre a obra de Emmanuel Lévinas (1906–1995). Contra uma tradição que fez da pergunta pelo ser a sua questão maior, Lévinas afirma algo aparentemente simples e radicalmente subversivo: antes da ontologia há a ética. Antes de eu compreender o mundo, já estou obrigado por um rosto que me olha e diz “não matarás”. ...

Bem-estar Animal: Peter Singer, Especismo e a Libertação Animal

Uma Revolução Moral Silenciosa Em 1975, o filósofo australiano Peter Singer publicou Animal Liberation — livro que se tornaria um dos textos filosóficos com maior impacto prático do século XX, dando impulso decisivo ao movimento pelos direitos animais e motivando mudanças na legislação de vários países. A tese central é ao mesmo tempo simples e radical: a exclusão dos animais não-humanos da consideração moral plena não tem justificação racional — é uma forma de preconceito comparável ao racismo e ao sexismo. ...

Bioética: Princípios, Dilemas e as Fronteiras da Vida

O Nascimento de um Campo O termo bioética foi cunhado pelo oncologista e bioquímico Van Rensselaer Potter em 1971, no livro Bioethics: Bridge to the Future. Para Potter, a bioética era uma disciplina de síntese entre as ciências biológicas e os valores humanos — uma “ponte” capaz de orientar a humanidade diante dos riscos que o progresso tecnológico impunha à sobrevivência da espécie e do ecossistema. Potter entendia a bioética em sentido amplo, quase ambiental, englobando a relação do ser humano com toda a biosfera. ...

Ética Ambiental: Hans Jonas e o Princípio Responsabilidade

O Problema da Ética na Era Tecnológica A ética filosófica, desde os gregos até Kant, foi elaborada para um mundo de alcance humano limitado. As ações dos seres humanos afetavam o entorno imediato — a polis, a família, os contemporâneos. O futuro distante e a natureza não-humana permaneciam fora do escopo da consideração moral: eram domínios da teologia, da cosmologia ou simplesmente dados imutáveis do cenário no qual a ética operava. ...

Ética da Inteligência Artificial: Algoritmos, Poder e Responsabilidade

Tecnologia e Ética: Uma Relação Antiga, Um Problema Novo A inquietação ética diante do poder tecnológico não é nova. No século XX, Norbert Wiener — matemático do MIT e fundador da cibernética — dedicou o livro The Human Use of Human Beings (1950) a refletir sobre as implicações morais e sociais das máquinas automatizadas. Wiener alertava para os riscos de sistemas que, uma vez em operação, produzem consequências independentes da intenção original de seus criadores, e para a possibilidade de que a automação gerasse desemprego em massa e concentração de poder. ...

Heidegger — Ser e Tempo, Dasein e a Questão do Ser

A história da filosofia ocidental pode ser lida, sem exagero, como a história do esquecimento do ser. Essa é a tese que atravessa toda a obra de Martin Heidegger (1889–1976) — possivelmente o filósofo mais influente e mais controverso do século XX. Ser e Tempo (1927), sua obra principal, não propôs mais uma teoria sobre o mundo, a mente ou a moral: propôs que a filosofia inteira — de Platão a Nietzsche — havia deixado impensada a sua questão mais fundamental: o que significa ser? ...

Gadamer e a Hermenêutica Filosófica — Compreensão, Diálogo e Tradição

Há uma experiência que qualquer leitor sério já viveu ao menos uma vez: abrir um livro escrito há séculos — a República de Platão, as Confissões de Agostinho, o Discurso do Método de Descartes — e perceber que aquele texto ainda diz algo. Não diz a mesma coisa que disse ao autor ou aos seus contemporâneos, é claro. Diz algo diferente, algo que nasce do encontro entre o que o texto carrega e o que nós trazemos. A pergunta é: o que exatamente acontece nesse encontro? Como é possível que um texto do passado fale ao presente sem que o presente simplesmente o deforme? E mais radicalmente: o que significa, afinal, compreender? ...

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