O ceticismo: de Pirro e Sexto Empírico a Descartes, Hume e o cérebro na cuba

Podemos conhecer alguma coisa? O ceticismo é a corrente que leva essa pergunta a sério — e, em suas versões mais radicais, responde que não, ou ao menos que não temos como saber. Mais do que uma atitude de dúvida casual, é uma posição (e, na Antiguidade, um modo de vida) que se tornou o grande motor da epistemologia: boa parte das teorias do conhecimento nasceu da tentativa de responder ao desafio cético. Este artigo percorre suas formas antigas e modernas e as principais respostas que recebeu. ...

Neoplatonismo Tardio: Porfírio, Jâmblico e Proclo

Com Plotino (c. 204/5–270 d.C.), o neoplatonismo deu à filosofia antiga sua última grande síntese: o Uno inefável, do qual tudo emana e ao qual tudo retorna. Mas a história não terminou aí. Nas gerações seguintes, discípulos e sucessores transformaram essa visão num sistema cada vez mais vasto e articulado — e, ao mesmo tempo, cada vez mais ligado à religião e ao ritual. Esse neoplatonismo tardio, de Porfírio a Proclo, foi a forma sob a qual o platonismo chegou à Idade Média latina, árabe e bizantina. Este artigo percorre seus três grandes nomes. (Para o ponto de partida, ver o artigo sobre Plotino e a emanação do Uno.) ...

A Alegoria da Caverna e a Teoria das Formas: Platão e o Mundo Inteligível

Provavelmente nenhum texto filosófico, em vinte e cinco séculos de tradição ocidental, foi mais comentado, parafraseado, glosado e reinterpretado do que a passagem que abre o Livro VII da República de Platão. Em três páginas de tradução, Sócrates pede a Glauco que imagine homens acorrentados desde o nascimento no fundo de uma caverna, vendo apenas sombras projetadas numa parede — e propõe que essa cena descreve, com fidelidade espantosa, a condição comum dos seres humanos. Essa é a Alegoria da Caverna, e ela é, ao mesmo tempo, uma das peças mais célebres da filosofia e uma das mais sistematicamente mal compreendidas. Para lê-la com rigor, é preciso situá-la em seu contexto: ela é a terceira de três imagens articuladas — depois da metáfora do sol e da divisão da linha — que constituem o núcleo do pensamento maduro de Platão. ...

Arché (ἀρχή): O Princípio Originário na Filosofia Pré-Socrática

Há um momento na história do pensamento em que a humanidade deixa de perguntar quem criou o mundo e começa a perguntar do que o mundo é feito. Essa passagem — do mito à investigação racional — encontra sua expressão mais concentrada em uma única palavra grega: ἀρχή (arché). Princípio, origem, fundamento, comando: a arché é, ao mesmo tempo, a primeira coisa que existe e a razão pela qual tudo o mais existe. Compreender esse conceito é compreender o gesto inaugural da filosofia ocidental. ...

Physis (φύσις): Natureza, Devir e o Conceito Grego que Fundou a Filosofia

Se existe uma palavra capaz de condensar o gesto inaugural da filosofia ocidental, essa palavra é φύσις (physis). Antes que os gregos inventassem termos como “metafísica”, “ontologia” ou “epistemologia”, eles já possuíam physis — e, com ela, uma maneira radicalmente nova de interrogar a realidade. Os primeiros tratados filosóficos de que temos notícia se chamavam, quase todos, Περὶ φύσεως (Perì Phýseōs, “Sobre a Natureza”). Aristóteles chamava os pré-socráticos de physikoi — “os que investigam a physis”. A própria palavra “física” é filha direta desse conceito. ...

Plotino e o Neoplatonismo — O Uno, a Emanação e as Enéadas

Na passagem do século III d.C., quando as escolas filosóficas da Antiguidade pareciam ter esgotado suas possibilidades, um pensador nascido no Egito romano empreendeu a mais ambiciosa síntese metafísica que o mundo antigo conheceu. Plotino (c. 205–270 d.C.) não se limitou a comentar Platão: transformou o platonismo numa arquitetura ontológica completa, centrada na ideia de que toda a realidade emana de um princípio absoluto — o Uno — e que o destino da alma humana é retornar a essa unidade originária. ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno I: A Crítica Antiga do Conhecimento

Este é o primeiro de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”) do filósofo jesuíta belga Joseph Maréchal (1878–1944). Publicada em cinco cadernos — quatro deles (I, II, III e V) entre 1922 e 1926, e o Caderno IV postumamente em 1947 —, a obra representa uma das tentativas mais ambiciosas do século XX de colocar o tomismo em diálogo com a filosofia crítica kantiana. Ao longo desta série, percorreremos cada um dos cinco cadernos: do inventário histórico da tradição clássica até a síntese original de Maréchal, que influenciou profundamente pensadores como Karl Rahner, Bernard Lonergan e Emerich Coreth. Neste primeiro artigo, acompanhamos o Caderno I, que faz um percurso histórico-crítico desde os pré-socráticos até o fim da Escolástica. ...

Os Pré-Socráticos: O Nascimento da Filosofia Ocidental

Imagine um mundo onde tudo o que acontece — uma tempestade, uma colheita destruída, uma criança que nasce — é explicado pela vontade de algum deus. Durante milênios, a humanidade viveu dentro dessa visão mítica do cosmos. Então, por volta do século VI a.C., em uma pequena cidade costeira da Ásia Menor chamada Mileto, algo extraordinário aconteceu: um grupo de pensadores decidiu perguntar por quê sem recorrer aos deuses. Essa virada — do mythos ao logos, do mito à razão — é um dos momentos mais decisivos da história intelectual humana. Os homens que protagonizaram essa transformação são chamados de pré-socráticos: os filósofos que antecederam Sócrates e fundaram, com suas perguntas ousadas, a tradição filosófica ocidental. ...

Anaxágoras

Anaxágoras Natural de Clazômenas, na Jônia, e nascido por volta de 500 a.C., Anaxágoras foi o primeiro filósofo a levar a tradição jônica para Atenas, onde viveu cerca de trinta anos e tornou-se amigo e conselheiro do estadista Péricles. Sua ousadia intelectual lhe custou caro: acusado de impiedade por sustentar que o Sol não era um deus, mas uma pedra incandescente, foi processado e teve de deixar a cidade, refugiando-se em Lâmpsaco. ...

Anaximandro

Anaximandro Concidadão e discípulo de Tales de Mileto, Anaximandro (c. 610–546 a.C.) foi um dos espíritos mais ousados da escola de Mileto e talvez o primeiro pensador a escrever um tratado em prosa sobre a natureza. A ele a tradição atribui o uso pioneiro do termo arché (“princípio”), além de feitos notáveis: o desenho do primeiro mapa do mundo habitado e a introdução do gnômon (relógio de sol) na Grécia. Insatisfeito com a água de Tales, Anaximandro propôs como princípio o ápeiron — o ilimitado, indeterminado e imperecível. Nenhum elemento particular poderia originar todos os outros sem ser por eles consumido; só algo indefinido e inesgotável poderia ser a fonte eterna de tudo. Do ápeiron, eterno e divino, separam-se os opostos (quente e frio, úmido e seco), e dessa separação nascem os mundos — que, no devido tempo, retornam a ele. O único fragmento literal que se conservou, transmitido por Simplício, fala dessa cosmologia em termos morais: as coisas “pagam umas às outras pena e retribuição pela injustiça, segundo a ordem do tempo”. ...

Anaxímenes

Anaxímenes Terceiro grande nome da escola de Mileto, Anaxímenes (c. 585–525 a.C.) foi discípulo de Anaximandro. À primeira vista, deu um passo atrás ao recusar o indeterminado ápeiron do mestre e voltar a um elemento concreto como princípio: o ar (aér). Mas sua escolha trazia uma vantagem decisiva — o ar, sendo determinado, permitia explicar como o princípio único se transforma em todas as coisas, algo que nem a água de Tales de Mileto nem o ápeiron explicavam com clareza. ...

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

Carnéades de Cirene

Carnéades de Cirene Carnéades de Cirene (c. 214/213–129/128 a.C.) foi o mais eminente escolarca da Academia Nova de Atenas e a figura central do ceticismo acadêmico. Nascido na cidade de Cirene, no norte da África, emigrou para Atenas e ali permaneceu por toda a vida, à frente de uma Academia que se tornara radicalmente cética desde Arcesilau. Carnéades não deixou nenhum escrito — escolha aparentemente deliberada, compatível com sua posição de que nenhuma tese deve ser sustentada de forma dogmática. Seu pensamento chegou até nós principalmente por três mediações: o discípulo Clitômaco de Cartago, que registrou suas lições em mais de quatrocentos livros; Cícero, que em Academica e De Natura Deorum expõe e debate as posições carnéadianas; e Sexto Empírico, que preservou vários de seus argumentos contra os estoicos. ...

Confúcio (Kǒngzǐ)

Confúcio (Kǒngzǐ) Confúcio (em chinês: Kǒngzǐ 孔子, “Mestre Kong”; latinização jesuíta: Confucius) nasceu no estado de Lu (atual província de Shandong, China) em 551 a.C. e faleceu em 479 a.C. Foi professor, funcionário público e reformador moral que, após uma vida de esforços políticos frustrados, dedicou-se ao ensino e ao estudo dos clássicos da Antiguidade chinesa. Seu pensamento é conhecido principalmente pelo Lunyu (Analectos 論語), compilação de ditos e diálogos feita por seus discípulos e pela tradição posterior — a historicidade de passagens individuais é objeto de debate entre especialistas. ...

Demócrito

Demócrito Natural de Abdera, na Trácia, e ativo por volta de 430 a.C., Demócrito foi um dos espíritos mais eruditos da Antiguidade — viajou muito e escreveu sobre quase tudo, embora nenhuma de suas obras tenha chegado até nós. A tradição o apelidou de “o filósofo que ri”, em contraste com o melancólico Heráclito. Junto com seu mestre Leucipo, é o fundador do atomismo, a primeira filosofia plenamente materialista e mecanicista da história. ...

Empédocles

Empédocles Empédocles (c. 494–434 a.C.) foi uma das figuras mais extraordinárias da filosofia grega: ao mesmo tempo filósofo, médico, poeta, orador e líder político em sua cidade natal, Agrigento, na Sicília. Em torno dele formou-se uma aura lendária — apresentava-se quase como um deus entre os homens, e a tradição conta que teria se lançado na cratera do Etna para confirmar sua divindade. Expôs suas ideias em dois poemas, Sobre a Natureza e Purificações. ...

Filon de Alexandria

Filon de Alexandria Nota sobre datação: as datas de Fílon não são conhecidas com precisão; sua vida é estimada entre c. 25/15 a.C. e c. 45/50 d.C., tendo como ponto de referência firmemente datado a embaixada que liderou a Calígula em 39/40 d.C., relatada em Legatio ad Gaium. Fílon de Alexandria — em latim Philo Iudaeus, “Fílon o Judeu” — foi um pensador judeu helenístico, oriundo de uma das famílias mais ricas e influentes da diáspora judaica de Alexandria. Cidadão romano, contemporâneo de Jesus, Sêneca e dos primeiros imperadores júlio-claudianos, escreveu inteiramente em grego e operou no cruzamento de duas tradições: o judaísmo bíblico e a filosofia grega — especialmente o platonismo médio, o estoicismo e o pitagorismo. Em 38 d.C. Alexandria foi palco de violentos ataques antijudaicos sob o governo de Aulo Avílio Flaco (narrados em In Flaccum), e em 39/40 d.C. Fílon liderou a delegação dos judeus de Alexandria que se dirigiu a Roma para apresentar queixas a Calígula. Atenção: Fílon é frequentemente classificado, de modo impreciso, como “neoplatônico”; rigorosamente, ele é pré-neoplatônico — anterior a Plotino em mais de dois séculos — e deve ser situado no platonismo médio. ...

Górgias

Górgias Natural de Leontinos, na Sicília, Górgias viveu, segundo a tradição, mais de cem anos (c. 483–375 a.C.). Chegou a Atenas em 427 a.C. como embaixador de sua cidade e deslumbrou os atenienses com um estilo oratório novo, repleto de figuras e ritmos — tornando-se o mais célebre e bem pago mestre de retórica da Antiguidade. Ao lado de Protágoras, é a grande figura da primeira geração dos sofistas. Seu lado filosófico aparece no provocador tratado Sobre o Não-Ser, em que defende, por encadeamento de argumentos, três teses radicais: primeiro, que nada existe; segundo, que, mesmo que algo existisse, não poderíamos conhecê-lo; e terceiro, que, mesmo que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo a outrem. Trata-se em parte de uma paródia da metafísica de Parmênides e dos eleatas, levando ao extremo o poder da argumentação. ...

Heráclito

Heráclito Natural de Éfeso, na Jônia, e ativo por volta de 500 a.C., Heráclito pertencia a uma antiga família aristocrática. De temperamento altivo e solitário, escreveu em um estilo de sentenças enigmáticas que lhe valeu já na Antiguidade o epíteto de “o Obscuro”. Restam dele cerca de 126 fragmentos — densos, paradoxais e de extraordinária força poética. Sua intuição central é a do devir universal: nada permanece, tudo se transforma sem cessar — “panta rhei”, “tudo flui”. Daí a imagem mais célebre: não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois novas águas correm sobre quem nele entra. Como símbolo desse fluxo perpétuo, Heráclito escolheu o fogo como princípio (arché): a realidade é como uma chama que se mantém justamente porque está sempre se consumindo e se renovando. ...

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