A Alegoria da Caverna e a Teoria das Formas: Platão e o Mundo Inteligível

Provavelmente nenhum texto filosófico, em vinte e cinco séculos de tradição ocidental, foi mais comentado, parafraseado, glosado e reinterpretado do que a passagem que abre o Livro VII da República de Platão. Em três páginas de tradução, Sócrates pede a Glauco que imagine homens acorrentados desde o nascimento no fundo de uma caverna, vendo apenas sombras projetadas numa parede — e propõe que essa cena descreve, com fidelidade espantosa, a condição comum dos seres humanos. Essa é a Alegoria da Caverna, e ela é, ao mesmo tempo, uma das peças mais célebres da filosofia e uma das mais sistematicamente mal compreendidas. Para lê-la com rigor, é preciso situá-la em seu contexto: ela é a terceira de três imagens articuladas — depois da metáfora do sol e da divisão da linha — que constituem o núcleo do pensamento maduro de Platão. ...

21 maio 2026 · 10 minutos · Resumidor de Filosofia

Plotino e o Neoplatonismo — O Uno, a Emanação e as Enéadas

Na passagem do século III d.C., quando as escolas filosóficas da Antiguidade pareciam ter esgotado suas possibilidades, um pensador nascido no Egito romano empreendeu a mais ambiciosa síntese metafísica que o mundo antigo conheceu. Plotino (c. 205–270 d.C.) não se limitou a comentar Platão: transformou o platonismo numa arquitetura ontológica completa, centrada na ideia de que toda a realidade emana de um princípio absoluto — o Uno — e que o destino da alma humana é retornar a essa unidade originária. ...

8 maio 2026 · 13 minutos · Resumidor de Filosofia

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno I: A Crítica Antiga do Conhecimento

Este é o primeiro de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”) do filósofo jesuíta belga Joseph Maréchal (1878–1944). Publicada em cinco cadernos — quatro deles (I, II, III e V) entre 1922 e 1926, e o Caderno IV postumamente em 1947 —, a obra representa uma das tentativas mais ambiciosas do século XX de colocar o tomismo em diálogo com a filosofia crítica kantiana. Ao longo desta série, percorreremos cada um dos cinco cadernos: do inventário histórico da tradição clássica até a síntese original de Maréchal, que influenciou profundamente pensadores como Karl Rahner, Bernard Lonergan e Emerich Coreth. Neste primeiro artigo, acompanhamos o Caderno I, que faz um percurso histórico-crítico desde os pré-socráticos até o fim da Escolástica. ...

27 abril 2026 · 10 minutos · Resumidor de Filosofia

Os Pré-Socráticos: O Nascimento da Filosofia Ocidental

Imagine um mundo onde tudo o que acontece — uma tempestade, uma colheita destruída, uma criança que nasce — é explicado pela vontade de algum deus. Durante milênios, a humanidade viveu dentro dessa visão mítica do cosmos. Então, por volta do século VI a.C., em uma pequena cidade costeira da Ásia Menor chamada Mileto, algo extraordinário aconteceu: um grupo de pensadores decidiu perguntar por quê sem recorrer aos deuses. Essa virada — do mythos ao logos, do mito à razão — é um dos momentos mais decisivos da história intelectual humana. Os homens que protagonizaram essa transformação são chamados de pré-socráticos: os filósofos que antecederam Sócrates e fundaram, com suas perguntas ousadas, a tradição filosófica ocidental. ...

27 abril 2026 · 15 minutos · Resumidor de Filosofia

Anaxágoras

Anaxágoras Natural de Clazômenas, na Jônia, e nascido por volta de 500 a.C., Anaxágoras foi o primeiro filósofo a levar a tradição jônica para Atenas, onde viveu cerca de trinta anos e tornou-se amigo e conselheiro do estadista Péricles. Sua ousadia intelectual lhe custou caro: acusado de impiedade por sustentar que o Sol não era um deus, mas uma pedra incandescente, foi processado e teve de deixar a cidade, refugiando-se em Lâmpsaco. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Anaximandro

Anaximandro Concidadão e discípulo de Tales de Mileto, Anaximandro (c. 610–546 a.C.) foi um dos espíritos mais ousados da escola de Mileto e talvez o primeiro pensador a escrever um tratado em prosa sobre a natureza. A ele a tradição atribui o uso pioneiro do termo arché (“princípio”), além de feitos notáveis: o desenho do primeiro mapa do mundo habitado e a introdução do gnômon (relógio de sol) na Grécia. Insatisfeito com a água de Tales, Anaximandro propôs como princípio o ápeiron — o ilimitado, indeterminado e imperecível. Nenhum elemento particular poderia originar todos os outros sem ser por eles consumido; só algo indefinido e inesgotável poderia ser a fonte eterna de tudo. Do ápeiron, eterno e divino, separam-se os opostos (quente e frio, úmido e seco), e dessa separação nascem os mundos — que, no devido tempo, retornam a ele. O único fragmento literal que se conservou, transmitido por Simplício, fala dessa cosmologia em termos morais: as coisas “pagam umas às outras pena e retribuição pela injustiça, segundo a ordem do tempo”. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Anaxímenes

Anaxímenes Terceiro grande nome da escola de Mileto, Anaxímenes (c. 585–525 a.C.) foi discípulo de Anaximandro. À primeira vista, deu um passo atrás ao recusar o indeterminado ápeiron do mestre e voltar a um elemento concreto como princípio: o ar (aér). Mas sua escolha trazia uma vantagem decisiva — o ar, sendo determinado, permitia explicar como o princípio único se transforma em todas as coisas, algo que nem a água de Tales de Mileto nem o ápeiron explicavam com clareza. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Confúcio (Kǒngzǐ)

Confúcio (Kǒngzǐ) Confúcio (em chinês: Kǒngzǐ 孔子, “Mestre Kong”; latinização jesuíta: Confucius) nasceu no estado de Lu (atual província de Shandong, China) em 551 a.C. e faleceu em 479 a.C. Foi professor, funcionário público e reformador moral que, após uma vida de esforços políticos frustrados, dedicou-se ao ensino e ao estudo dos clássicos da Antiguidade chinesa. Seu pensamento é conhecido principalmente pelo Lunyu (Analectos 論語), compilação de ditos e diálogos feita por seus discípulos e pela tradição posterior — a historicidade de passagens individuais é objeto de debate entre especialistas. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Demócrito

Demócrito Natural de Abdera, na Trácia, e ativo por volta de 430 a.C., Demócrito foi um dos espíritos mais eruditos da Antiguidade — viajou muito e escreveu sobre quase tudo, embora nenhuma de suas obras tenha chegado até nós. A tradição o apelidou de “o filósofo que ri”, em contraste com o melancólico Heráclito. Junto com seu mestre Leucipo, é o fundador do atomismo, a primeira filosofia plenamente materialista e mecanicista da história. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Empédocles

Empédocles Empédocles (c. 494–434 a.C.) foi uma das figuras mais extraordinárias da filosofia grega: ao mesmo tempo filósofo, médico, poeta, orador e líder político em sua cidade natal, Agrigento, na Sicília. Em torno dele formou-se uma aura lendária — apresentava-se quase como um deus entre os homens, e a tradição conta que teria se lançado na cratera do Etna para confirmar sua divindade. Expôs suas ideias em dois poemas, Sobre a Natureza e Purificações. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Filon de Alexandria

Filon de Alexandria Nota sobre datação: as datas de Fílon não são conhecidas com precisão; sua vida é estimada entre c. 25/15 a.C. e c. 45/50 d.C., tendo como ponto de referência firmemente datado a embaixada que liderou a Calígula em 39/40 d.C., relatada em Legatio ad Gaium. Fílon de Alexandria — em latim Philo Iudaeus, “Fílon o Judeu” — foi um pensador judeu helenístico, oriundo de uma das famílias mais ricas e influentes da diáspora judaica de Alexandria. Cidadão romano, contemporâneo de Jesus, Sêneca e dos primeiros imperadores júlio-claudianos, escreveu inteiramente em grego e operou no cruzamento de duas tradições: o judaísmo bíblico e a filosofia grega — especialmente o platonismo médio, o estoicismo e o pitagorismo. Em 38 d.C. Alexandria foi palco de violentos ataques antijudaicos sob o governo de Aulo Avílio Flaco (narrados em In Flaccum), e em 39/40 d.C. Fílon liderou a delegação dos judeus de Alexandria que se dirigiu a Roma para apresentar queixas a Calígula. Atenção: Fílon é frequentemente classificado, de modo impreciso, como “neoplatônico”; rigorosamente, ele é pré-neoplatônico — anterior a Plotino em mais de dois séculos — e deve ser situado no platonismo médio. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Górgias

Górgias Natural de Leontinos, na Sicília, Górgias viveu, segundo a tradição, mais de cem anos (c. 483–375 a.C.). Chegou a Atenas em 427 a.C. como embaixador de sua cidade e deslumbrou os atenienses com um estilo oratório novo, repleto de figuras e ritmos — tornando-se o mais célebre e bem pago mestre de retórica da Antiguidade. Ao lado de Protágoras, é a grande figura da primeira geração dos sofistas. Seu lado filosófico aparece no provocador tratado Sobre o Não-Ser, em que defende, por encadeamento de argumentos, três teses radicais: primeiro, que nada existe; segundo, que, mesmo que algo existisse, não poderíamos conhecê-lo; e terceiro, que, mesmo que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo a outrem. Trata-se em parte de uma paródia da metafísica de Parmênides e dos eleatas, levando ao extremo o poder da argumentação. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Heráclito

Heráclito Natural de Éfeso, na Jônia, e ativo por volta de 500 a.C., Heráclito pertencia a uma antiga família aristocrática. De temperamento altivo e solitário, escreveu em um estilo de sentenças enigmáticas que lhe valeu já na Antiguidade o epíteto de “o Obscuro”. Restam dele cerca de 126 fragmentos — densos, paradoxais e de extraordinária força poética. Sua intuição central é a do devir universal: nada permanece, tudo se transforma sem cessar — “panta rhei”, “tudo flui”. Daí a imagem mais célebre: não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois novas águas correm sobre quem nele entra. Como símbolo desse fluxo perpétuo, Heráclito escolheu o fogo como princípio (arché): a realidade é como uma chama que se mantém justamente porque está sempre se consumindo e se renovando. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Laozi (老子)

Laozi (老子) Nota histórica fundamental: A existência de Laozi como personagem histórico individual é debatida entre os especialistas. O historiador Sima Qian (c. 145–86 a.C.), em Shiji, registra várias tradições sobre Laozi sem poder decidir entre elas — indicativo de que a incerteza é antiga. O texto a ele atribuído, o Dàodéjīng (道德經, “Clássico do Caminho e da Virtude”, também chamado Laozi), pode ser uma compilação de materiais de diferentes origens; a erudição moderna situa a forma atual do texto no século IV ou III a.C. A figura de Laozi como sábio ancião que teria encontrado Confúcio e depois deixado a China pelo Ocidente é provavelmente lendária. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Mencio

Mencio Nota sobre fontes: As datas de Mêncio (孟子 Mèngzǐ, “Mestre Meng”; nome pessoal Kē 軻) são estimativas convencionais — c. 372–289 a.C. — baseadas em cronologias históricas tradicionais. O texto Mèngzǐ (孟子), compilado em 7 livros (piān), é considerado uma obra mais unitária do que os Analectos de Confúcio, embora também envolva contribuições de discípulos na redação final. Mêncio é considerado na tradição confuciana o “Segundo Sábio” (Yàshèng 亞聖), imediatamente abaixo de Confúcio. ...

1 janeiro 2026 · 4 minutos · Resumidor de Filosofia

Nāgārjuna

Nāgārjuna Nāgārjuna (c. 150–c. 250 d.C.) é o fundador da escola Mādhyamaka do Budismo Mahāyāna e é considerado, em muitas tradições budistas, como o segundo Buda. Sua obra exerceu influência decisiva sobre o Budismo tibetano, chinês (e daí japonês e coreano), bem como sobre a filosofia indiana posterior. Sua principal obra, a Mūlamadhyamakakārikā (MMK — Versos Fundamentais sobre o Caminho do Meio), é um dos textos mais comentados e discutidos da história da filosofia. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Parmênides

Parmênides Natural de Eleia, colônia grega no sul da Itália, e ativo na primeira metade do século V a.C., Parmênides é o fundador da ontologia — a investigação sobre o ser enquanto ser — e a maior figura da chamada escola eleática. Expôs seu pensamento num poema filosófico, Sobre a Natureza, do qual restam fragmentos: nele, um jovem é conduzido em um carro até uma deusa que lhe revela a verdade. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Pitágoras

Pitágoras Nascido na ilha de Samos por volta de 570 a.C., Pitágoras emigrou para Crotona, no sul da Itália (a Magna Grécia), onde fundou uma comunidade filosófico-religiosa célebre por seu modo de vida austero, suas regras de silêncio e o caráter secreto de seus ensinamentos. Como nada escreveu e seus discípulos atribuíam tudo ao mestre, é difícil separar suas ideias das dos pitagóricos que o seguiram; sua figura, já na Antiguidade, mesclava-se à lenda. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Platão

Platão Discípulo de Sócrates e o mais influente filósofo da Antiguidade, Platão nasceu em uma família aristocrática ateniense por volta de 428 a.C. A condenação do mestre, em 399 a.C., marcou-o profundamente e afastou-o da carreira política que sua origem lhe reservava. Após anos de viagens — que a tradição associa a contatos com os pitagóricos do sul da Itália e às frustradas tentativas de educar os tiranos de Siracusa —, fundou por volta de 387 a.C. a Academia, a primeira instituição de ensino superior do Ocidente, que funcionaria por mais de novecentos anos. Sua obra chegou quase íntegra até nós, quase toda em forma de diálogo, com Sócrates como personagem central. ...

1 janeiro 2026 · 4 minutos · Resumidor de Filosofia
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