Wittgenstein: Do Tractatus às Investigações — Limites da Linguagem e Jogos de Linguagem

Poucos filósofos escreveram duas obras tão diferentes a ponto de uma parecer a refutação da outra — e ambas terem se tornado clássicas. Ludwig Wittgenstein é o caso paradigmático. O jovem que em 1921 publicou o Tractatus Logico-Philosophicus, convencido de ter resolvido em definitivo os problemas da filosofia, é o mesmo homem que, três décadas depois, deixou nas Investigações Filosóficas uma crítica meticulosa às suas próprias teses iniciais. Entre as duas obras está não apenas uma virada teórica, mas uma das histórias intelectuais mais singulares do século XX. Compreender Wittgenstein é compreender duas maneiras opostas de pensar o que a linguagem é e o que a filosofia pode fazer. ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Bernard Williams

Bernard Williams Bernard Williams foi um dos mais importantes filósofos morais britânicos do século XX e um dos críticos mais penetrantes da pretensão de fundar a ética em um sistema teórico único e impessoal. Lecionou em Cambridge, Berkeley e Oxford. Contra o utilitarismo e contra o kantismo, Williams insistiu na complexidade irredutível da vida moral, na importância da perspectiva em primeira pessoa, dos compromissos pessoais e das emoções, e na incapacidade das grandes teorias de capturar tudo o que importa eticamente. Sua escrita combina erudição clássica, sensibilidade psicológica e uma desconfiança elegante diante das simplificações filosóficas. ...

Bertrand Russell

Bertrand Russell Nascido em 1872 numa influente família aristocrática britânica — era neto de um primeiro-ministro —, Bertrand Russell teve uma das trajetórias mais longas e variadas da filosofia: foi lógico, matemático, ensaísta, educador e ativista político, atravessando quase um século de história. Estudou em Cambridge, recebeu o Nobel de Literatura em 1950 e, fiel ao seu pacifismo, foi preso durante a Primeira Guerra e liderou, já nonagenário, a campanha contra as armas nucleares (Manifesto Russell-Einstein, 1955). É, com Frege e Wittgenstein, um dos fundadores da filosofia analítica. ...

Daniel Dennett

Daniel Dennett Daniel Clement Dennett foi um dos filósofos da mente e da ciência cognitiva mais influentes e provocadores das últimas décadas. Professor na Universidade Tufts, onde co-dirigiu o Centro de Estudos Cognitivos, defendeu ao longo de toda a sua obra um naturalismo radical: a mente, a consciência e o livre-arbítrio podem ser plenamente integrados a uma visão de mundo científica e darwiniana, sem resíduos misteriosos. Escritor de extraordinária clareza e humor, Dennett dialogou de perto com a inteligência artificial, a biologia evolutiva e a neurociência, e tornou-se também uma figura pública conhecida por suas críticas à religião. Faleceu em abril de 2024. ...

David Chalmers

David Chalmers David John Chalmers é um dos filósofos da mente mais influentes das últimas três décadas. Nascido em Sydney, Austrália, e com formação em matemática antes de migrar para a filosofia, Chalmers tornou-se professor na Universidade do Arizona e depois em Nova York (NYU), onde co-dirige o Centro para Mente, Cérebro e Consciência. Seu livro de estreia, The Conscious Mind (1996), redefiniu os termos do debate sobre a consciência e colocou o que ele nomeou como “problema difícil” no centro da agenda filosófica e científica. ...

Derek Parfit

Derek Parfit Derek Parfit (11 de dezembro de 1942, Chengdu, China — janeiro de 2017, Oxford) foi um filósofo britânico, fellow do All Souls College de Oxford, considerado um dos mais importantes filósofos morais do final do século XX. Trabalhava de modo obsessivo e quase ascético, e publicou pouco — mas cada obra deixou marca profunda na filosofia da identidade pessoal, da racionalidade e da ética. Seu Razões e Pessoas (Reasons and Persons, 1984) é uma das obras-referência da filosofia analítica contemporânea. ...

Donald Davidson

Donald Davidson Donald Davidson foi um dos filósofos analíticos mais originais da segunda metade do século XX. Professor na Universidade da Califórnia em Berkeley a partir de 1981, após passagens por Stanford, Princeton e Rockefeller, Davidson construiu um sistema filosófico notável pela coerência interna: sua filosofia da mente, sua teoria da ação, sua semântica e sua epistemologia estão intimamente conectadas, articuladas em torno de temas como eventos, causalidade, verdade e interpretação. ...

Elizabeth Anscombe

Elizabeth Anscombe Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe (1919–2001) foi uma das mais originais filósofas analíticas do século XX. Aluna e amiga próxima de Ludwig Wittgenstein em Cambridge, tornou-se uma de suas executoras literárias e traduziu para o inglês as Investigações Filosóficas (Philosophical Investigations, 1953), tradução até hoje canônica. Católica convicta, uniu o rigor da tradição analítica a uma sensibilidade aristotélico-tomista que marcaria toda a sua obra. Sua monografia Intention (1957) é amplamente reconhecida como o texto fundador da filosofia da ação contemporânea, enquanto o artigo “Modern Moral Philosophy” (1958) é apontado como o ponto de partida do revival da ética da virtude no mundo anglófono. Lecionou em Oxford e, a partir de 1970, ocupou a cátedra de filosofia em Cambridge que pertencera a Wittgenstein. ...

Frances Kamm

Frances Kamm Frances Myrna Kamm (n. c. 1947) é uma das mais rigorosas e influentes filósofas morais da tradição analítica contemporânea. Formada nos Estados Unidos, construiu sua carreira acadêmica em instituições como NYU, Rutgers e Harvard, onde lecionou por muitos anos na Escola de Governo Kennedy e no departamento de filosofia. Seu projeto intelectual central consiste em desenvolver uma teoria não-consequencialista dos direitos morais e do dano permissível que seja ao mesmo tempo normativamente precisa e metodologicamente transparente. Contra as éticas que avaliam ações exclusivamente pelos seus resultados, Kamm argumenta que há restrições deontológicas genuínas — estruturas morais que determinam o que é permitido fazer a uma pessoa, independentemente do quanto bem isso geraria no todo. ...

G.E. Moore

G.E. Moore Filósofo britânico, cofundador — junto com Russell e Frege — da filosofia analítica. Sua crítica ao idealismo britânico e seu trabalho em ética influenciaram decisivamente toda a tradição analítica do século XX. Conceitos-chave Falácia naturalista (naturalistic fallacy): o erro de definir o bem em termos de propriedades naturais (prazer, evolução, desejo). O bem (good) é simples, indefinível e não-natural — não pode ser reduzido a nenhuma propriedade empírica. Crítica central ao utilitarismo e ao naturalismo ético Questão aberta (open question argument): para qualquer propriedade natural X, sempre faz sentido perguntar “X é bom?” — se o bem fosse idêntico a X, a questão seria absurda. Isso prova que bem ≠ X Intuicionismo moral: os valores morais fundamentais são conhecidos por intuição direta, não por inferência ou definição. Ética é uma ciência autônoma, não redutível às ciências naturais Realismo do senso comum: contra o idealismo de Berkeley e Hegel — o mundo externo existe independentemente da mente. Defesa do realismo do senso comum como ponto de partida filosófico Prova do mundo externo: “aqui está uma mão, aqui está outra” — argumenta que podemos provar a existência do mundo externo com mais certeza do que qualquer premissa filosófica abstrata que a negue Análise dos conceitos: a tarefa central da filosofia é a análise — decompor conceitos complexos em seus componentes mais simples e precisos; programa que define a filosofia analítica Bens intrínsecos: certos estados são bons por si mesmos (amizade, beleza, conhecimento) — independentemente de qualquer consequência. Crítica ao hedonismo utilitarista Influenciado por Kant — ética deontológica e autonomia da moral Russell — programa analítico (influência mútua) Sidgwick — intuicionismo moral britânico Influenciou Russell e Wittgenstein — filosofia analítica Grupo de Bloomsbury (Virginia Woolf, Keynes) — ética e estética Metaética contemporânea (intuicionismo, realismo moral) Karl Popper — teoria do conhecimento Obras Principia Ethica (1903); Ética (1912); Estudos Filosóficos (1922); Alguns Problemas Fundamentais da Filosofia (1953). ...

Gottlob Frege

Gottlob Frege Matemático alemão nascido em 1848, Gottlob Frege passou quase toda a carreira como professor em Jena, em relativa obscuridade — seu gênio só seria plenamente reconhecido após a morte, em 1925, sobretudo graças a Russell, Wittgenstein e ao Círculo de Viena. Hoje é considerado o fundador da lógica moderna e um dos pais da filosofia analítica. Sua primeira grande realização foi a criação, no Begriffsschrift (1879), de uma lógica de predicados que aposentou a velha silogística aristotélica: com quantificadores (“para todo”, “existe”), variáveis e funções, Frege deu à lógica a precisão e o poder expressivo de que ela precisava para analisar a matemática. Seu objetivo maior era o logicismo — demonstrar que a aritmética se reduz à lógica pura. O projeto, exposto nas Leis Básicas da Aritmética, foi atingido em cheio por uma carta de Russell (1902), que revelou uma contradição no sistema; Frege jamais se recuperou inteiramente do golpe. ...

H.L.A. Hart

H.L.A. Hart Filósofo do direito britânico, professor de Jurisprudência em Oxford (1952–1968); The Concept of Law (1961) é a obra mais influente do positivismo jurídico do século XX e redefiniu os termos do debate sobre a natureza, a validade e a obrigatoriedade do direito. Conceitos-chave Regras primárias e secundárias: distinção central de The Concept of Law. Regras primárias impõem deveres de conduta (não matar, cumprir contratos). Regras secundárias são meta-regras sobre as regras primárias, subdivididas em: (a) regra de reconhecimento — critério que identifica quais normas pertencem ao sistema jurídico; (b) regras de mudança — procedimentos para criar, alterar e revogar regras primárias; (c) regras de adjudicação — conferem competência a autoridades para decidir litígios Regra de reconhecimento (rule of recognition): a norma que define os critérios de validade jurídica num dado sistema — ela própria não é válida ou inválida, apenas existe como fato social, aceita pelos funcionários do sistema a partir do “ponto de vista interno”. Responde à questão “o que é direito?” sem recorrer à moral Ponto de vista interno (internal point of view): quem aceita uma regra como padrão de conduta e de crítica — e não apenas a obedece por temor de sanção — adota o ponto de vista interno. A análise do direito exige compreender este ponto de vista, não apenas descrever comportamentos externos (como fazia o behaviorismo austiniano) Textura aberta (open texture): toda linguagem geral possui casos claros de aplicação e uma zona de penumbra inevitável onde a norma não determina a solução. Nos casos difíceis, os juízes exercem discricionariedade — escolhem, dentro de limites, qual interpretação adotar. Hart recusa a ideia de que o direito sempre tem uma resposta pronta (a crítica que Dworkin lhe dirigirá) Separação conceitual entre direito e moral: ao contrário do jusnaturalismo, a validade jurídica de uma norma depende de critérios formais (pertença ao sistema), não de seu conteúdo moral. Uma norma injusta pode ser válida; uma norma moralmente correta pode não ser direito. Isso não implica que o direito não deva ser criticado moralmente — apenas que tal crítica pertence a um plano distinto Conteúdo mínimo de direito natural: apesar da separação, Hart admite que qualquer sistema jurídico que aspire à subsistência deve incorporar um núcleo de normas (proteção da vida, propriedade, cumprimento de promessas) impostas pelas contingências da natureza humana — o “conteúdo mínimo de direito natural” Debate Hart-Fuller (1958): no Harvard Law Review, Hart e Lon Fuller travaram o debate mais célebre da filosofia do direito anglofônica do séc. XX. Contra a tese de Fuller de que o direito possui uma “moralidade interna”, Hart insiste que validade e moralidade são conceitualmente distintas Influenciado por Jeremy Bentham — precursor do positivismo jurídico, crítico do direito natural John Austin — command theory e a ideia de que o direito é o comando do soberano (Hart critica e supera Austin) Ludwig Wittgenstein — filosofia da linguagem, significado como uso, textura aberta J.L. Austin — filosofia da linguagem ordinária de Oxford Hans Kelsen — positivismo normativista (Hart dialoga criticamente com a Grundnorm) Influenciou Ronald Dworkin — Taking Rights Seriously (1977) e Law’s Empire (1986) são a principal resposta filosófica a Hart Joseph Raz — The Concept of a Legal System (1970) e a tese da autoridade do direito Neil MacCormick — positivismo institucional Toda a tradição da jurisprudência analítica anglofônica Obras Causation in the Law (1959, com Tony Honoré); The Concept of Law (1961; 2.ª ed. póstumo 1994, com “Postscript”); Law, Liberty, and Morality (1963); The Morality of the Criminal Law (1964); Punishment and Responsibility (1968); Essays on Bentham (1982); Essays in Jurisprudence and Philosophy (1983). ...

Harry Frankfurt

Harry Frankfurt Harry Gordon Frankfurt (29 de maio de 1929, Langhorne, Pensilvânia — 16 de julho de 2023, Santa Mônica, Califórnia) foi um filósofo norte-americano, professor emérito da Universidade de Princeton, um dos nomes mais influentes da filosofia da ação e do livre-arbítrio no século XX. Começou como estudioso de Descartes (Demons, Dreamers, and Madmen, 1970) e construiu, a seguir, uma obra concisa e incisiva sobre a vontade, a pessoa e o amor — além de um pequeno ensaio que o tornaria, tardiamente, um autor de best-seller. ...

Hilary Putnam

Hilary Putnam Hilary Whitehall Putnam foi um dos filósofos mais versáteis e intelectualmente honestos do século XX. Ao longo de uma carreira de seis décadas, na maior parte em Harvard, Putnam percorreu um itinerário filosófico incomum: defendeu posições que depois criticou com a mesma energia com que as havia estabelecido. Foi funcionalista e depois rejeitou o funcionalismo; foi realista científico e depois propôs o “realismo interno”; foi simpatizante do positivismo lógico e depois seu crítico. Esta disposição para a autocrítica é uma das marcas de seu estilo filosófico. ...

J.L. Austin

J.L. Austin John Langshaw Austin (26 de março de 1911, Lancaster — 8 de fevereiro de 1960, Oxford) foi um filósofo britânico, figura central da filosofia da linguagem ordinária de Oxford. Catedrático de filosofia moral (White’s Professor), exerceu durante a Segunda Guerra um papel destacado na inteligência militar britânica. Publicou pouco em vida; suas obras decisivas são póstumas, reconstruídas a partir de conferências e papéis. Seu estilo era paciente, antissistemático e atento às minúcias: para Austin, “nosso estoque comum de palavras incorpora todas as distinções que os homens acharam dignas de traçar” ao longo de muitas gerações — e a filosofia deve começar por examiná-las. ...

John Searle

John Searle John Rogers Searle, nascido em Denver (Colorado) em 1932 e falecido em 2025, foi professor emérito da Universidade da Califórnia, Berkeley. Suas contribuições abrangem filosofia da linguagem (teoria dos atos de fala), filosofia da mente (o argumento do Quarto Chinês, naturalismo biológico) e ontologia social (a construção da realidade institucional). É um dos filósofos analíticos mais lidos e debatidos do séc. XX e início do XXI. Conceitos-chave Teoria dos Atos de Fala (Speech Acts, 1969): Desenvolvendo J.L. Austin, Searle sistematiza a teoria. Todo ato de fala envolve: ...

Judith Jarvis Thomson

Judith Jarvis Thomson Judith Jarvis Thomson (1929–2020) foi professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e uma das vozes mais rigorosas da ética analítica norte-americana da segunda metade do século XX. Seu trabalho se caracteriza pela análise minuciosa de casos concretos e pelo emprego de experimentos mentais como instrumentos de teste para princípios morais gerais. Formada na Columbia University e em Cambridge (UK), dedicou décadas ao exame sistemático de conceitos como direitos, permissibilidade moral, causalidade e responsabilidade — com atenção especial às situações em que intuições fortes entram em conflito com teorias normativas coerentes. ...

Kwame Anthony Appiah

Kwame Anthony Appiah Kwame Anthony Appiah nasceu em 8 de maio de 1954 em Londres, de pai ganês (Joe Appiah, advogado e político) e mãe britânica (Peggy Cripps). Cresceu em Kumasi, Gana, e estudou filosofia em Cambridge (BA e PhD). Lecionou em Yale, Cornell, Duke, Harvard e Princeton; atualmente é professor na New York University. Appiah é um dos filósofos mais versáteis e influentes do mundo anglófono contemporâneo, com contribuições à ética, à filosofia da linguagem, à filosofia da mente, à teoria racial e à filosofia política. É um dos pensadores que mais sistematicamente questionou os pressupostos do “racialismo” — a crença de que existem raças biológicas humanas dotadas de essências morais e intelectuais. ...

Ludwig Wittgenstein

Ludwig Wittgenstein Nascido em Viena em 1889, no seio de uma das famílias mais ricas e cultas do Império Austro-Húngaro, Ludwig Wittgenstein começou estudando engenharia aeronáutica, mas a reflexão sobre os fundamentos da matemática o levou à lógica e, daí, a Cambridge, para estudar com Bertrand Russell. Sua biografia é tão singular quanto seu pensamento: combateu na Primeira Guerra, doou a fortuna herdada, foi professor primário numa aldeia, jardineiro e até arquiteto, antes de retornar à filosofia acadêmica. É a figura mais influente da filosofia analítica do século XX — e, raríssimo, autor de duas filosofias distintas e igualmente decisivas, ambas centradas na linguagem. ...

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