Lévinas — A Ética do Outro: Rosto, Alteridade e Responsabilidade

Imagine que toda a filosofia ocidental, de Parmênides a Heidegger, tenha cometido o mesmo gesto fundamental: reduzir o que é diferente ao que é idêntico, absorver o estranho no familiar, converter o Outro em um objeto do meu saber. Essa é a acusação que percorre a obra de Emmanuel Lévinas (1906–1995). Contra uma tradição que fez da pergunta pelo ser a sua questão maior, Lévinas afirma algo aparentemente simples e radicalmente subversivo: antes da ontologia há a ética. Antes de eu compreender o mundo, já estou obrigado por um rosto que me olha e diz “não matarás”. ...

A Fenomenologia como Movimento: De Husserl a Merleau-Ponty

O Que é a Fenomenologia? “De volta às coisas mesmas!” — este princípio metodológico, associado a Edmund Husserl, resume a motivação fundamental do movimento fenomenológico: abandonar construções teóricas abstratas, hipóteses metafísicas não-verificadas e o pressuposto do naturalismo científico, para voltar a uma descrição rigorosa da experiência tal como ela se apresenta à consciência. O nome “fenomenologia” é literalmente o estudo (lógos) dos fenômenos (phainómena) — daquilo que se manifesta, que aparece. Mas o que aparece não é algo por trás do qual estaria a “coisa-em-si” oculta: o fenômeno, para Husserl, é precisamente aquilo que se dá à consciência em sua aparição, e é sobre essa aparição que a fenomenologia reflete. ...

Heidegger — Ser e Tempo, Dasein e a Questão do Ser

A história da filosofia ocidental pode ser lida, sem exagero, como a história do esquecimento do ser. Essa é a tese que atravessa toda a obra de Martin Heidegger (1889–1976) — possivelmente o filósofo mais influente e mais controverso do século XX. Ser e Tempo (1927), sua obra principal, não propôs mais uma teoria sobre o mundo, a mente ou a moral: propôs que a filosofia inteira — de Platão a Nietzsche — havia deixado impensada a sua questão mais fundamental: o que significa ser? ...

Epoché (ἐποχή): A Suspensão do Juízo dos Céticos Antigos à Fenomenologia

Poucos gestos filosóficos são tão radicais — e tão fecundos — quanto a decisão de parar de julgar. A epoché (ἐποχή), a suspensão deliberada do juízo, atravessa a história da filosofia ocidental como um fio condutor que liga o ceticismo antigo à fenomenologia contemporânea, passando pela dúvida cartesiana e pelo empirismo britânico. Nascida como prática de vida entre os céticos pirrônicos, que nela buscavam a tranquilidade da alma, a epoché foi reapropriada vinte e três séculos depois por Edmund Husserl como método fundante da fenomenologia — o caminho de acesso às “coisas mesmas”. ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Albert Borgmann

Albert Borgmann nasceu em Freiburg, Alemanha, em 23 de novembro de 1937, e cresceu à sombra da catedral gótica, da Floresta Negra e da universidade onde Husserl e Heidegger haviam lecionado. Ainda estudante em Freiburg, assistiu em 1957 a aulas de Heidegger, experiência que marcaria de modo duradouro sua futura reflexão sobre a técnica. Transferiu-se depois para os Estados Unidos, onde obteve um mestrado em literatura alemã pela Universidade de Illinois em Urbana e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Munique, com uma tese sobre o cardeal John Henry Newman. Lecionou brevemente literatura alemã em Illinois e filosofia na DePaul University e na Universidade do Havaí, antes de se fixar por décadas na Universidade de Montana, em Missoula, onde faleceu em 7 de maio de 2023, aos 85 anos. ...

Byung-Chul Han

Byung-Chul Han Byung-Chul Han (한병철, n. 1959, Seul) é um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Estudou metalurgia em Seul antes de migrar para a Alemanha, onde concluiu seus estudos de filosofia em Freiburg e Munique, com doutorado sobre Heidegger. Foi professor na Universidade das Artes de Berlim e tornou-se uma das vozes mais traduzidas da crítica cultural contemporânea graças a uma série de livros curtos, aforísticos e densamente fenomenológicos. Sua tese central é que a sociedade contemporânea passou da “sociedade disciplinar” descrita por Foucault para uma Leistungsgesellschaft — sociedade do desempenho — em que o sujeito, dispensado da coerção externa, exerce sobre si mesmo uma violência tão mais eficaz quanto mais voluntária. Han mobiliza Heidegger, Hegel, Hannah Arendt e o pensamento extremo-oriental (sobretudo o budismo zen) para diagnosticar nossa época. ...

Edmund Husserl

Edmund Husserl Nascido em 1859 em Proßnitz, na Morávia (então Império Austríaco), Edmund Husserl formou-se em matemática antes de se voltar para a filosofia sob a influência de Franz Brentano, de quem herdou a noção de intencionalidade. Insatisfeito com o psicologismo que reduzia a lógica a leis da mente, propôs-se a refundar a filosofia como ciência rigorosa, capaz de descrever com exatidão a experiência. Foi professor em Göttingen e Freiburg, onde teve Heidegger como assistente e sucessor. Judeu, foi despojado de seus direitos pelo nazismo e morreu isolado em 1938; seus milhares de manuscritos só se salvaram porque um monge franciscano os contrabandeou para a Bélgica. ...

Emmanuel Lévinas

Emmanuel Lévinas Filósofo lituano-francês, um dos pensadores mais importantes do século XX. Introduziu Husserl e Heidegger na França, mas depois os superou criticamente. Sobrevivente do Holocausto, desenvolveu uma filosofia onde a ética é a filosofia primeira — anterior à ontologia. Conceitos-chave O Rosto (le visage): a manifestação do Outro que me interpela e exige resposta — não é uma face física, mas uma presença ética que diz “não matarás”; o ponto de onde emerge toda responsabilidade moral Ética como filosofia primeira: contra Heidegger, para quem a ontologia (ser) é fundamento de tudo — para Lévinas, a relação ética com o Outro precede e funda toda ontologia Alteridade radical (autrui): o Outro não é redutível ao mesmo, não pode ser totalmente compreendido ou assimilado — sua irredutibilidade é o fato ético fundamental Totalidade e Infinito: a filosofia ocidental tende à “totalização” — englobar o diferente no mesmo. O Infinito irrompe nessa totalidade pelo rosto do Outro, resistindo à captura Responsabilidade infinita: sou responsável pelo Outro de modo assimétrico e sem reciprocidade — “sou responsável mesmo pelo que não fiz”; a responsabilidade precede a liberdade Il y a (há): experiência do ser anônimo, impessoal, ameaçador — o rumor do ser antes de qualquer existente; a noite em que o ser se torna insuportável Dizer e Dito (le Dire / le Dit): o “Dizer” é a exposição ética ao Outro, o ato de endereçamento; o “Dito” é o conteúdo proposicional — a ética está no Dizer, que o Dito sempre trai Influenciado por Husserl — fenomenologia (foi seu aluno e tradutor) Heidegger — ontologia fundamental (depois criticamente superado) Bergson — filosofia da duração e vida Tradição judaica (Talmude, Rosenzweig, Buber) Influenciou Derrida — desconstrução e ética (debate sobre violência e metafísica) Habermas — ética e reconhecimento do outro Judith Butler — vulnerabilidade e responsabilidade ética Teologia cristã e judaica contemporânea Estudos pós-coloniais e teoria do reconhecimento Obras Da Existência ao Existente (1947); Totalidade e Infinito (1961); De Outra Forma que Ser (1974); Ética e Infinito (1982). ...

Franz Brentano

Franz Brentano Franz Brentano (1838–1917) foi um filósofo austríaco-alemão cuja obra constitui um dos pontos de inflexão silenciosos da filosofia moderna. Nascido em Marienberg am Rhein, em uma família católica de origem italiana — era sobrinho do poeta romântico Clemens Brentano —, doutorou-se em 1862 em Tübingen com a tese Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles (“Dos múltiplos sentidos do ente em Aristóteles”), trabalho que, lido na adolescência por Martin Heidegger, marcaria toda uma linhagem de retorno a Aristóteles no século XX. Ordenado sacerdote católico em 1864, habilitou-se em Würzburg em 1866 e renunciou ao sacerdócio em 1873, em meio à crise aberta pelo dogma da infalibilidade papal (Vaticano I, 1870). Em Viena, onde lecionou de 1874 a 1895, formou uma constelação de discípulos — Husserl, Meinong, Twardowski, Stumpf, Ehrenfels, Marty — que dariam origem à fenomenologia, à teoria do objeto e à Escola de Lvov-Varsóvia. Perdeu a cátedra em 1880 por casar-se (a lei austríaca tratava ex-padres como ainda vinculados ao celibato) e foi reduzido a Privatdozent. Aposentado em 1895, viveu em Florença e depois em Zurique, onde morreu cego em 1917. ...

Gerd Bornheim

Gerd Alberto Bornheim (1929–2002), nascido em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, foi um dos principais introdutores e intérpretes do existencialismo e da fenomenologia no Brasil. Sua atividade intelectual abrangeu um campo amplo: além do existencialismo, dedicou-se à dialética, ao estudo dos filósofos pré-socráticos e à filosofia da arte e do teatro. Professor em diversas instituições, entre as quais a USP, a UFRGS, a UERJ e a PUC, exerceu papel decisivo na formação filosófica de várias gerações. Sua escrita conjuga clareza expositiva e rigor conceitual, o que fez de obras como sua introdução ao filosofar e seu estudo sobre Sartre referências de leitura para estudantes de filosofia no país. ...

Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre Filósofo, romancista e dramaturgo, Jean-Paul Sartre nasceu em Paris em 1905 e formou-se na École Normale Supérieure, onde conheceu Simone de Beauvoir, sua companheira intelectual e afetiva por toda a vida. Uma temporada em Berlim, nos anos 1930, pô-lo em contato direto com a fenomenologia de Husserl e Heidegger, que se tornaria a base de seu pensamento. Prisioneiro de guerra em 1940-41 e depois figura central da intelectualidade parisiense do pós-guerra, fez da filosofia um exercício público e engajado: fundou a revista Les Temps Modernes, aproximou-se do marxismo e, fiel à sua recusa de honrarias institucionais, declinou o Prêmio Nobel de Literatura em 1964. Sua morte, em 1980, levou dezenas de milhares de pessoas às ruas de Paris. ...

Marilena Chaui

Marilena Chaui Marilena de Souza Chaui (nascida em 1941, em São Paulo) é uma das mais influentes filósofas brasileiras vivas e professora emérita da Universidade de São Paulo, onde se formou e construiu toda a sua carreira docente. Sua obra articula um conhecimento profundo da filosofia de Espinosa e da fenomenologia de Merleau-Ponty com uma reflexão crítica e engajada sobre a sociedade brasileira. Defensora da universidade pública e intelectual de esquerda, Chaui tornou-se também figura pública de grande projeção, sem abrir mão do rigor acadêmico. Seu manual Convite à Filosofia (1994) é um dos textos introdutórios mais lidos no Brasil, e sua leitura de Espinosa, consolidada na obra A Nervura do Real, é referência internacional sobre o filósofo holandês. ...

Martin Heidegger

Martin Heidegger Martin Heidegger nasceu em Meßkirch, no sul da Alemanha, em 1889, em família católica modesta, e chegou à filosofia pela teologia. Assistente e depois sucessor de Husserl em Freiburg, publicou em 1927 Ser e Tempo, obra que o consagrou como um dos filósofos mais influentes — e mais controversos — do século XX. A controvérsia é inseparável de sua biografia: em 1933 assumiu a reitoria de Freiburg e filiou-se ao partido nazista, comprometimento que nunca renegou publicamente e que os Cadernos Negros, publicados décadas depois, revelaram atravessado por antissemitismo. O peso moral e filosófico desse engajamento permanece um debate em aberto. ...

Maurice Merleau-Ponty

Maurice Merleau-Ponty Nascido em 1908, na França, Maurice Merleau-Ponty formou-se na École Normale Supérieure ao lado de Sartre e Simone de Beauvoir, com quem fundaria a revista Les Temps Modernes antes de uma ruptura política. Em 1952 tornou-se o mais jovem catedrático de filosofia do Collège de France. Morreu subitamente em 1961, deixando inacabada sua última obra. É o grande fenomenólogo do corpo. Sua originalidade está em deslocar o centro da fenomenologia. Onde Husserl e o primeiro Sartre situavam a subjetividade na consciência, Merleau-Ponty a situa no corpo próprio (corps propre). O corpo não é um objeto que a mente habita, nem uma máquina movida pela alma: eu sou meu corpo. É por ele, e não por uma consciência desencarnada, que tenho um mundo — donde o primado da percepção, anterior a toda reflexão e a toda separação entre sujeito e objeto. ...

Nishida Kitaro

Nishida Kitaro Nota sobre romanização: os nomes japoneses são apresentados em romanização Hepburn, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Mācrons (ō, ū) indicam vogal longa. Na convenção japonesa o sobrenome (Nishida) precede o nome próprio (Kitarō); usa-se aqui a ordem japonesa, conforme prática editorial corrente para filósofos modernos do Japão. Nishida Kitarō (西田 幾多郎) é o fundador da Escola de Kyoto e o filósofo japonês moderno mais influente do século XX. Praticante de Zen Rinzai desde a juventude — sob orientação dos mestres Setsumon e Kōshū —, formou-se em filosofia na Universidade Imperial de Tóquio e lecionou na Universidade Imperial de Kyoto, onde reuniu em torno de si a geração que daria corpo à dita “Escola”. Seu projeto pode ser descrito como a tentativa, sem precedente comparável no Japão moderno, de articular a experiência meditativa budista com o vocabulário e o rigor da filosofia europeia (sobretudo alemã) — sem, contudo, reduzir uma à outra. ...

Paul Ricoeur

Paul Ricoeur Filósofo francês, um dos maiores hermeneutas do século XX. Sintetizou a fenomenologia de Husserl com a hermenêutica de Gadamer, a psicanálise de Freud e a filosofia analítica da ação. Sua obra percorre o conflito das interpretações, a teoria da narrativa e a ética do si mesmo. Conceitos-chave Hermenêutica do suspeito vs. da confiança: existem duas grandes tradições interpretativas — a da suspeita (Marx, Nietzsche, Freud — os textos escondem algo) e a da confiança (a tradição religiosa e poética — os textos revelam algo). A hermenêutica madura oscila entre as duas Identidade narrativa (identité narrative): a identidade pessoal não é uma substância fixa, mas é construída narrativamente — somos os personagens das histórias que contamos sobre nós mesmos (idem vs. ipse: identidade como mesmidade vs. ipseidade) Tempo e narrativa: o tempo humano só se torna compreensível quando narrado — a narrativa (historiografia e ficção) configura a experiência temporal e lhe dá sentido (mimesis em três fases: prefiguração, configuração, refiguração) Metáfora viva: a metáfora não é mero ornamento retórico — ela cria novos significados ao aproximar campos semânticos distantes; “redescrevia a realidade” Conflito das interpretações: não há interpretação neutra — toda leitura envolve uma posição; a hermenêutica deve assumir o conflito entre perspectivas em vez de eliminá-lo O si mesmo como um outro (soi-même comme un autre): a ipseidade (quem sou) é sempre mediada pelo outro — a alteridade constitui o si mesmo; proposta de uma ética da solicitude e da justiça Pequena ética: “visar à vida boa, com e para os outros, em instituições justas” — articulação entre perspectiva ética (teleológica) e perspectiva moral (deontológica) Influenciado por Husserl e Heidegger — fenomenologia Gadamer — hermenêutica filosófica Freud — psicanálise e suspeita Marx e Nietzsche — hermenêutica da suspeita Filosofia analítica da ação (Austin, Strawson) Influenciou Teologia narrativa e bíblica Filosofia do direito e hermenêutica jurídica Historiografia e filosofia da história Habermas — ética e comunicação Obras Filosofia da Vontade (1950–60); Da Interpretação: Ensaio sobre Freud (1965); O Conflito das Interpretações (1969); A Metáfora Viva (1975); Tempo e Narrativa (3 vols., 1983–85); O Si-Mesmo Como um Outro (1990); A Memória, a História, o Esquecimento (2000). ...

Paulo Freire

Paulo Freire Nascido no Recife em 1921, em meio à pobreza do Nordeste brasileiro, Paulo Freire é o pensador brasileiro mais citado e traduzido no mundo, e o Patrono da Educação Brasileira. Sua filosofia nasceu da prática: em 1963, na experiência pioneira de Angicos, alfabetizou trabalhadores rurais em poucas semanas com um método que unia a leitura da palavra e a leitura do mundo. Visto como ameaça, foi preso e exilado após o golpe de 1964, passando por Bolívia, Chile, Estados Unidos e Suíça; só retornaria ao Brasil em 1980. Articulou fenomenologia, marxismo e existencialismo numa teoria que é, a um só tempo, pedagogia e filosofia política da emancipação. ...

Rodolfo Kusch

Rodolfo Kusch Nascido em Buenos Aires em 1922, em família de origem alemã, Rodolfo Kusch uniu filosofia e antropologia de um modo raro: em vez de pensar a América a partir dos livros europeus, percorreu o noroeste argentino e o altiplano boliviano em extenso trabalho de campo, ouvindo o pensamento quéchua e aimará. Dessa experiência nasceu uma pergunta radical: a ontologia europeia seria mesmo capaz de compreender a maior parte da experiência humana? ...

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