Dostoiévski: a filosofia dos romances — liberdade, fé e o abismo do niilismo

Fiódor Dostoiévski (1821–1881) não foi um filósofo no sentido técnico: não escreveu tratados, não construiu um sistema, não definiu conceitos com rigor escolar. E, no entanto, poucos pensadores marcaram tanto a filosofia do século XX. A razão é que seus romances funcionam como laboratórios de ideias: em vez de demonstrar teses, ele as encarna em personagens e as leva até as últimas consequências, fazendo-as colidir umas com as outras. Este artigo expõe a filosofia que pulsa por trás de suas obras — a defesa da liberdade contra a razão calculista, o niilismo e seu abismo, o problema do mal e a resposta da fé. ...

Sartre: Liberdade, Má-Fé e a Tese de que a Existência Precede a Essência

“O homem está condenado a ser livre.” Poucas frases resumem tão bem um filósofo, e poucas foram tão repetidas e tão mal compreendidas. Jean-Paul Sartre foi o rosto público do existencialismo no século XX — romancista, dramaturgo, militante e celebridade intelectual —, mas por trás da figura midiática há um sistema filosófico rigoroso, construído sobre uma ontologia da consciência. Este artigo concentra-se nas teses propriamente sartrianas: a distinção entre o em-si e o para-si, a fórmula “a existência precede a essência”, a liberdade radical e seu peso, a má-fé e a experiência do outro. Para o panorama do movimento existencialista como um todo, veja o artigo dedicado ao existencialismo. ...

Kierkegaard: Os Estágios da Existência, a Angústia e o Salto de Fé

Há filósofos que constroem sistemas e filósofos que dinamitam sistemas. Søren Kierkegaard pertence ao segundo grupo — mas com uma diferença decisiva: o que ele quis salvar dos escombros do grande edifício hegeliano não foi outra teoria, e sim o indivíduo singular que existe, sofre, decide e morre. Contra a pretensão de explicar a realidade inteira a partir de um conceito, ele opôs uma pergunta aparentemente modesta e, no entanto, abissal: o que significa, para mim, existir? ...

Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo e o Feminismo Existencialista

Durante décadas, manuais de filosofia trataram Simone de Beauvoir como um apêndice de Jean-Paul Sartre — a companheira talentosa que aplicou ao “problema feminino” ideias que, supostamente, não eram suas. Essa leitura é tão tenaz quanto equivocada. Beauvoir foi uma filósofa original, cujas contribuições à ética existencialista e à teoria da opressão antecedem, em pontos decisivos, formulações que mais tarde se atribuíram a Sartre. E foi ela, não ele, quem produziu a obra que fundaria filosoficamente o feminismo do século XX. Ler Beauvoir como pensadora por direito próprio não é um gesto de cortesia historiográfica: é uma exigência de rigor. ...

Existencialismo — Da Angústia à Liberdade: Kierkegaard, Heidegger, Sartre e Além

Nenhum movimento filosófico do século XX marcou tão profundamente a cultura, a literatura e a autocompreensão do ser humano quanto o existencialismo. Surgido das ruínas de duas guerras mundiais, do colapso das certezas metafísicas e da crise das instituições tradicionais, ele colocou no centro da filosofia aquilo que os grandes sistemas haviam negligenciado: a existência concreta, singular e irrepetível de cada indivíduo. O existencialismo não é uma escola com teses uniformes. É antes uma constelação — um conjunto de pensadores que, por caminhos diversos e às vezes conflitantes, convergem numa convicção: a filosofia deve partir da experiência vivida, da angústia, da liberdade e da finitude do ser humano, e não de abstrações lógicas ou sistemas totalizantes. ...

A Estrutura da Realidade: O Que Existe, Segundo Todas as Correntes Filosóficas

Qual é a estrutura da realidade? O que existe de verdade — e o que é ilusão, aparência ou construção da nossa mente? Essa é a pergunta mais antiga, mais persistente e mais vertiginosa de toda a filosofia. De Tales de Mileto, que no século VI a.C. declarou que tudo é água, até os físicos quânticos que hoje debatem se o universo é feito de cordas vibrantes em onze dimensões, a humanidade nunca parou de perguntar: o que é isso que chamamos de realidade? ...

Albert Camus

Albert Camus Nascido em 1913 na Argélia francesa, em uma família pobre de colonos (pieds-noirs), Albert Camus perdeu o pai ainda bebê, na Primeira Guerra, e foi criado pela mãe analfabeta e parcialmente surda, num bairro humilde de Argel. A tuberculose marcaria toda a sua vida. Jornalista e escritor, dirigiu o jornal Combat na Resistência francesa e recebeu o Nobel de Literatura em 1957, aos 44 anos. Próximo do existencialismo — embora rejeitasse o rótulo —, rompeu com Sartre em razão de divergências sobre a violência revolucionária. Morreu em 1960, num acidente de carro, aos 46 anos. ...

Gerd Bornheim

Gerd Alberto Bornheim (1929–2002), nascido em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, foi um dos principais introdutores e intérpretes do existencialismo e da fenomenologia no Brasil. Sua atividade intelectual abrangeu um campo amplo: além do existencialismo, dedicou-se à dialética, ao estudo dos filósofos pré-socráticos e à filosofia da arte e do teatro. Professor em diversas instituições, entre as quais a USP, a UFRGS, a UERJ e a PUC, exerceu papel decisivo na formação filosófica de várias gerações. Sua escrita conjuga clareza expositiva e rigor conceitual, o que fez de obras como sua introdução ao filosofar e seu estudo sobre Sartre referências de leitura para estudantes de filosofia no país. ...

Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre Filósofo, romancista e dramaturgo, Jean-Paul Sartre nasceu em Paris em 1905 e formou-se na École Normale Supérieure, onde conheceu Simone de Beauvoir, sua companheira intelectual e afetiva por toda a vida. Uma temporada em Berlim, nos anos 1930, pô-lo em contato direto com a fenomenologia de Husserl e Heidegger, que se tornaria a base de seu pensamento. Prisioneiro de guerra em 1940-41 e depois figura central da intelectualidade parisiense do pós-guerra, fez da filosofia um exercício público e engajado: fundou a revista Les Temps Modernes, aproximou-se do marxismo e, fiel à sua recusa de honrarias institucionais, declinou o Prêmio Nobel de Literatura em 1964. Sua morte, em 1980, levou dezenas de milhares de pessoas às ruas de Paris. ...

Karl Jaspers

Karl Jaspers Psiquiatra e filósofo alemão, uma das figuras centrais da filosofia da existência ao lado de Heidegger e Kierkegaard. Partiu da psiquiatria (Psicopatologia Geral, 1913) para a filosofia, desenvolvendo uma reflexão sobre a existência humana centrada nas situações-limite, na comunicação existencial e na transcendência. Foi mentor de Hannah Arendt em Heidelberg. Após a Segunda Guerra, tornou-se voz influente sobre a questão da culpa alemã e sobre os fundamentos éticos da política. ...

Liev Chestov

Liev Chestov Liev Chestov — nome literário de Yeguda Lev Shvartsman (Kiev, 5 de fevereiro de 1866 — Paris, 19 de novembro de 1938) — foi filósofo russo que se tornou uma das vozes mais radicais da crítica ao racionalismo filosófico europeu. Nascido numa família judaica de Kiev, estudou Direito e Matemática em Moscou antes de se dedicar inteiramente à filosofia. Após a Revolução Bolchevique, emigrou; em 1922 passou a lecionar filosofia russa na Universidade de Paris, onde permaneceu até a morte. Nesse exílio frutífero, amadureceu suas ideias mais originais e escreveu sua obra principal. ...

Martin Heidegger

Martin Heidegger Martin Heidegger nasceu em Meßkirch, no sul da Alemanha, em 1889, em família católica modesta, e chegou à filosofia pela teologia. Assistente e depois sucessor de Husserl em Freiburg, publicou em 1927 Ser e Tempo, obra que o consagrou como um dos filósofos mais influentes — e mais controversos — do século XX. A controvérsia é inseparável de sua biografia: em 1933 assumiu a reitoria de Freiburg e filiou-se ao partido nazista, comprometimento que nunca renegou publicamente e que os Cadernos Negros, publicados décadas depois, revelaram atravessado por antissemitismo. O peso moral e filosófico desse engajamento permanece um debate em aberto. ...

Nikolai Berdiáev

Nikolai Berdiáev Nikolai Aleksándrovitch Berdiáev (18 de março de 1874, Kiev — 24 de março de 1948, Clamart, França) foi filósofo religioso e político russo, frequentemente descrito como um “existencialista cristão”. De origem aristocrática, começou marxista — chegou a ser exilado internamente sob o tsarismo por suas atividades —, mas rompeu cedo com o materialismo rumo ao idealismo e à Ortodoxia. Participou da coletânea crítica Vekhi (1909). Expulso da Rússia soviética em 1922, no episódio dos “navios dos filósofos”, viveu em Berlim e depois em Clamart, perto de Paris, onde dirigiu a revista Put e se tornou a voz mais conhecida do pensamento russo no exílio. Foi indicado várias vezes ao Prêmio Nobel. ...

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir Filósofa francesa; companheira intelectual de Sartre. Fundadora do feminismo existencialista. O Segundo Sexo é um dos livros mais influentes do séc. XX. Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir formou-se em filosofia pela Sorbonne e pelo agrégation em 1929, tornando-se uma das primeiras mulheres a conquistar esse título na França. Inserida no círculo existencialista parisiense do pós-guerra, participou ativamente da revista Les Temps Modernes e engajou-se nos grandes debates políticos e morais de sua época, do anticolonialismo à crítica ao stalinismo. Seu projeto filosófico central consiste em aplicar as categorias do existencialismo sartriano — facticidade, situação, projeto — à condição concreta da mulher, mostrando que a opressão feminina não decorre da natureza, mas de estruturas históricas e sociais que podem e devem ser transformadas. ...

Søren Kierkegaard

Søren Kierkegaard Filósofo dinamarquês; o “pai do existencialismo”. Escreveu frequentemente sob pseudônimos para apresentar perspectivas opostas. Sua filosofia é uma reação ao sistema especulativo de Hegel e ao conforto burguês do Cristianismo institucional. Conceitos-chave Três estádios da existência: Estético: vida orientada pelo prazer, novidade, estética — o desespero do enfado inevitável Ético: comprometimento com o dever, universal moral, casamento — o desespero da culpa que não se perdoa Religioso: suspensão do ético pelo singular diante de Deus — o “salto de fé” além da razão Angústia (Begrebet Angest, 1844): a liberdade humana como “vertigem da possibilidade”; a angústia não tem objeto determinado (diferente do medo) — é a tontura diante do abismo do possível Desespero (A Doença para a Morte, 1849): não querer ser si mesmo, ou querer ser outro que si mesmo — a condição universal do humano sem relação com Deus Subjetividade (“A subjetividade é a verdade”): a verdade existencial não se alcança pela especulação objetiva de Hegel, mas pelo comprometimento subjetivo e apaixonado Salto de fé: Abraão que vai sacrificar Isaque — ato que suspende o ético e só tem sentido diante do singular de Deus; Camus o critica como “suicídio filosófico” Pseudônimos: Victor Eremita, Johannes Climacus, Anti-Climacus, Constantine Constantius — cada um representa um estádio ou perspectiva Influenciado por Hegel — ponto de partida e adversário principal; rejeita o sistema especulativo Sócrates — ironia e método indireto; identificou-se com ele Platão — diálogos e posição socrática Lutero — fé individual contra a instituição Influenciou Heidegger — angústia, autenticidade, ser-para-a-morte Sartre — liberdade radical, má-fé, projeto existencial Camus — absurdo (mas recusa o salto de fé de Kierkegaard) Simone de Beauvoir — situação existencial concreta Teologia existencial (Karl Barth, Paul Tillich) Obras Ou-Ou (1843); Temor e Tremor (1843); O Conceito de Angústia (1844); Estágios no Caminho da Vida (1845); Migalhas Filosóficas (1844); A Doença para a Morte (1849); Ponto de Vista sobre Minha Obra como Escritor (1859, póstumo). ...

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