Estoicismo — Ética, Virtude e a Arte de Viver segundo a Natureza

Entre todas as escolas filosóficas da Antiguidade, nenhuma exerceu influência tão prolongada e tão diversificada quanto o estoicismo. Fundado em Atenas por volta de 300 a.C. por Zenão de Cítio, o estoicismo atravessou cinco séculos, moldou o direito romano, infiltrou-se no cristianismo primitivo e ressurgiu com força no Renascimento, no Iluminismo e — mais recentemente — na psicoterapia cognitivo-comportamental e nos movimentos de autoajuda filosófica. A razão dessa longevidade é simples: o estoicismo oferece uma resposta coerente e praticável à pergunta mais urgente da existência humana — como viver bem num mundo que não controlamos? ...

Cícero

Cícero Filósofo, orador e estadista romano. A mais importante figura na transmissão da filosofia grega para o mundo latino. Seu ecletismo sintetizou epicurismo, estoicismo e ceticismo da Nova Academia. Inventou boa parte do vocabulário filosófico latino — essentia, qualitas, moralis — que moldou toda a filosofia ocidental posterior. Conceitos-chave Lei natural: existe uma lei moral universal, fundada na razão, que transcende as leis positivas de cada povo — base do direito natural ocidental Res publica: a república como “coisa do povo” (res populi); o Estado só é legítimo quando serve ao bem comum e respeita a lei Dever (officium): a vida ética consiste em cumprir os deveres decorrentes da razão, da natureza social humana e dos papéis que cada um ocupa — sistematizado em De Officiis Probabilismo acadêmico: influenciado pelo ceticismo da Nova Academia, defende que na ausência de certeza devemos agir segundo o que parece mais provável (verisimile) Humanitas: ideal de formação humana plena que combina filosofia, retórica e virtude cívica; equivalente romano à paideia grega Bem supremo (summum bonum): debate entre escolas — para os estoicos, a virtude; para os epicuristas, o prazer. Cícero inclina-se ao estoicismo, mas apresenta os argumentos de todas as escolas Influenciado por Platão e Aristóteles — política, ética, teoria do conhecimento Zenão de Cítio — estoicismo (cosmopolitismo, lei natural, dever) Epicuro — abordado criticamente Carnéades — ceticismo da Nova Academia Influenciou Santo Agostinho e toda a filosofia medieval — vocabulário latino e lei natural Tomás de Aquino — teoria da lei natural Maquiavel, Montesquieu, Rousseau — teoria republicana Locke e Kant — direitos naturais e dever moral Humanismo renascentista — ideal de humanitas Obras Da República (De Re Publica, 54 a.C.); Das Leis (De Legibus, 52 a.C.); Discussões Tusculanas (Tusculanae Disputationes, 45 a.C.); Dos Deveres (De Officiis, 44 a.C.); Da Natureza dos Deuses (De Natura Deorum, 45 a.C.). ...

Crisipo de Solos

Crisipo de Solos Crisipo de Solos (c. 280–c. 207 a.C.) foi o terceiro escolarca (diretor) da escola estoica de Atenas e é considerado, ao lado de Zenão de Cítio, o segundo fundador do Estoicismo. Enquanto Zenão fundou a escola e estabeleceu suas teses fundamentais, foi Crisipo quem elaborou sistematicamente a lógica, a física e a ética estoicas, produzindo uma obra monumental que a tradição antiga estimava em mais de 700 títulos — quase todos perdidos. O que sabemos de seu pensamento vem de fontes secundárias: Diógenes Laërcio, Plutarco, Cícero, Sextus Empiricus e Epicteto. ...

Epiteto

Epiteto Ex-escravo frígio; o estoico que mais viveu o que pregou. Sua distinção central estrutura toda a ética estoica: o que depende de nós (eph’ hêmin: pensamentos, impulsos, julgamentos, desejos) vs. o que não depende (ouk eph’ hêmin: corpo, fama, riqueza, saúde). A liberdade interior é absoluta e não pode ser tirada por nenhum senhor. “Suporta e abstém-te” (anékhou kai apékhou). Nascido em Hierápolis, na Frígia (atual Turquia), Epiteto passou os primeiros anos da vida na condição de escravo em Roma, a serviço de Epafrodito, liberto ligado à corte de Nero. Foi nesse contexto que estudou com o estoico Musônio Rufo, de quem herdou a convicção de que a filosofia só vale na medida em que transforma a conduta. Conta-se que era coxo — tradição que ele próprio teria comentado com serena indiferença, exemplo vivo de sua doutrina de que a deficiência atinge o corpo, não a prohairesis, a vontade que escolhe. Liberto mais tarde, dedicou-se ao ensino em Roma até que o imperador Domiciano expulsou os filósofos da cidade; transferiu-se então para Nicópolis, no Epiro (noroeste da Grécia), onde fundou uma escola que atraiu discípulos de toda parte, inclusive jovens da elite romana. ...

Marco Aurélio

Marco Aurélio Marco Aurélio Antonino governou Roma de 161 a 180 d.C. e é lembrado como o último dos “cinco bons imperadores” e como o exemplo mais célebre da antiga ideia do rei-filósofo. Adotado na linha de sucessão por Antonino Pio, recebeu educação esmerada e converteu-se cedo ao estoicismo, sobretudo pela leitura de Epiteto, a quem foi apresentado por seu mestre Júnio Rústico. Seu reinado, longe de tranquilo, foi atravessado por guerras nas fronteiras do Danúbio, por revoltas e pela devastadora peste antonina — circunstâncias em que sua filosofia se mostrou menos doutrina e mais disciplina de sobrevivência interior. ...

Sêneca

Sêneca Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córduba, na Hispânia, por volta de 4 a.C., filho de Sêneca, o Velho, célebre mestre de retórica. Foi o mais influente e também o mais controverso dos estoicos romanos: senador rico e poderoso, conheceu o exílio na Córsega sob o imperador Cláudio e, de volta a Roma, tornou-se preceptor e depois conselheiro do jovem Nero, a quem buscou moderar nos primeiros anos de governo. Acusado de participar da conspiração de Pisão, foi obrigado por Nero a tirar a própria vida em 65 d.C. — morte que, segundo o relato de Tácito, enfrentou com a serenidade que sua filosofia pregava. ...

Zenão de Cítio

Zenão de Cítio Fundador do Estoicismo. Lecionava no Stoa Poikilê (Pórtico Pintado) de Atenas — daí o nome da escola. Após ouvir a história de Sócrates por meio do cinismo de Crates, abandonou o comércio para se dedicar à filosofia. Ensinou que a virtude é o único bem real; tudo o mais (riqueza, saúde, fama) é indiferente (adiaphora). O universo é perpassado pelo Lógos divino (fogo racional) e cada evento acontece por necessidade racional. ...

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