Marxismo Ocidental: Lukács, Gramsci, Frankfurt e Althusser

Depois da Revolução Russa de 1917, esperava-se que a revolução se espalhasse pela Europa industrializada. Não se espalhou: as insurreições alemã e húngara de 1918–1919 foram esmagadas, e o capitalismo ocidental sobreviveu. Dessa derrota nasceu uma das tradições mais ricas do pensamento do século XX — o marxismo ocidental. Diante do fracasso da revolução no Ocidente e do enrijecimento do marxismo soviético em dogma de Estado, um grupo de pensadores reabriu as questões que a ortodoxia havia fechado: por que as massas não se rebelaram? Como a cultura, a ideologia e a consciência sustentam a dominação? Que lugar têm a filosofia e a estética na luta política? Este artigo percorre essa tradição, de seus fundadores em 1923 à virada estrutural de Althusser. ...

Democracia Deliberativa e seus Críticos: Habermas, Schmitt e Mouffe

A Democracia como Problema Filosófico A democracia não é apenas um regime político — é um problema filosófico de primeira ordem. Ela levanta questões sobre a natureza da legitimidade (por que as decisões coletivas obrigam os que discordam?), sobre a relação entre facticidade e validade normativa (como normas positivamente vigentes podem aspirar à validade racional?), e sobre a possibilidade mesma de um espaço público de razões compartilhadas em sociedades marcadas por profundo pluralismo de valores. A teoria deliberativa da democracia é, no século XX, a tentativa mais sistemática de responder a estas questões a partir de uma perspectiva filosófica ancorada na tradição iluminista. ...

A Escola de Frankfurt: Teoria Crítica, Razão e Emancipação

O Institut für Sozialforschung Em 1923, foi fundado em Frankfurt am Main o Institut für Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social) — a primeira instituição de pesquisa marxista independente em uma universidade alemã. Associado à Universidade de Frankfurt (hoje Goethe-Universität), o Instituto reuniria ao longo das décadas seguintes pensadores que dariam origem ao que se convencionou chamar de Escola de Frankfurt e sua Teoria Crítica. A expressão “Teoria Crítica” foi usada pelos próprios membros — especialmente por Max Horkheimer — para distinguir seu projeto de uma “teoria tradicional” (positivista, orientada para a descrição e a previsão) e de uma teoria meramente normativa (que prescreve sem analisar as condições de sua realização). A Teoria Crítica se propõe unir análise social e interesse emancipatório: compreender a sociedade a partir das contradições que ela mesma gera e que apontam para a possibilidade de sua transformação. ...

Alienação na Filosofia: De Hegel a Debord — Trabalho, Religião e Espetáculo

Poucos conceitos filosóficos atravessaram tantos séculos, tradições e disciplinas como o de alienação. Da exteriorização metafísica do Espírito em Hegel à denúncia do trabalho desumanizado em Marx, da projeção religiosa em Feuerbach à sociedade do espetáculo de Debord, a alienação designa uma situação em que o ser humano se torna estranho a si mesmo, ao produto de sua atividade ou às suas próprias relações sociais. Compreender a genealogia desse conceito é compreender uma das linhas de força mais persistentes da filosofia moderna e contemporânea. ...

Herbert Marcuse

Herbert Marcuse Nascido em Berlim em 1898, Herbert Marcuse combateu na Primeira Guerra, estudou filosofia com Heidegger e Husserl em Freiburg e integrou o Instituto de Pesquisa Social. Exilado nos Estados Unidos durante o nazismo — onde nunca mais deixaria de viver —, tornou-se professor universitário e, nos anos 1960, o “guru da Nova Esquerda”: suas ideias inspiraram diretamente os movimentos estudantis de 1968, e Angela Davis foi sua aluna. ...

Jürgen Habermas

Jürgen Habermas Nascido em 1929, na Alemanha, e marcado na juventude pela experiência do nazismo e do pós-guerra, Jürgen Habermas tornou-se o principal nome da segunda geração da Escola de Frankfurt e um dos filósofos mais influentes das últimas décadas (faleceu em 2026). Assistente de Adorno, herdou a tradição da Teoria Crítica, mas recusou seu pessimismo: onde Horkheimer e Adorno viam a razão moderna degenerar em pura dominação, Habermas procurou resgatar um potencial emancipatório da própria razão. ...

Max Horkheimer

Max Horkheimer Nascido em Stuttgart em 1895, Max Horkheimer foi a alma organizadora da Escola de Frankfurt: em 1930 assumiu a direção do Instituto de Pesquisa Social e reuniu em torno de si pensadores como Adorno, Marcuse e Walter Benjamin. Judeu e marxista, exilou-se nos Estados Unidos durante o nazismo e, no pós-guerra, retornou a Frankfurt, onde foi reitor. Morreu em 1973. Foi Horkheimer quem definiu o programa da Teoria Crítica, em um ensaio de 1937. Ele distingue a teoria tradicional — descritiva, especializada, que aceita o mundo como dado — da teoria crítica, que se sabe parte da sociedade que estuda, recusa-se a separar fato e valor e se orienta para a emancipação humana. A teoria, aqui, não é contemplação neutra, mas instrumento de transformação. ...

Nancy Fraser

Nancy Fraser Nancy Fraser (n. 20 de maio de 1947, Baltimore) é uma teórica crítica e filósofa feminista norte-americana, professora emérita da cátedra Henry A. and Louise Loeb na New School for Social Research, em Nova York. Herdeira da tradição da Escola de Frankfurt, é uma das vozes mais influentes da teoria crítica contemporânea. Sua contribuição mais célebre foi reformular a questão da justiça em torno da tensão entre redistribuição (a dimensão econômica) e reconhecimento (a dimensão cultural), alertando para o risco de que as lutas por identidade e visibilidade eclipsem as lutas por igualdade material. Nas últimas décadas, ampliou esse diagnóstico numa crítica abrangente do capitalismo e de suas relações com o feminismo, a ecologia e a democracia. ...

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek Filósofo e teórico cultural esloveno, pesquisador na Universidade de Liubliana. Combina a psicanálise de Jacques Lacan com a dialética de Hegel e a crítica da ideologia de tradição marxista. Prolífico e provocador, é conhecido por analisar fenômenos da cultura pop (cinema, piadas, publicidade) como ilustrações de estruturas ideológicas profundas. Crítico tanto do capitalismo liberal quanto da esquerda identitária, defende um universalismo emancipatório. Conceitos-chave Ideologia como fantasia: a ideologia não é falsa consciência (ilusão que se desfaz com o saber), mas uma fantasia estruturante — “eles sabem o que fazem, mas mesmo assim o fazem” (cinismo como forma ideológica dominante) O Real, o Simbólico e o Imaginário: retoma a tríade lacaniana — o Real é o que resiste à simbolização; irrupções do Real desestabilizam a ordem simbólica (trauma, antagonismo social) Gozo (jouissance): o sujeito está preso a modos de satisfação paradoxais que sustentam a ordem ideológica — a ideologia funciona não pela crença, mas pelo gozo investido nas práticas sociais Paralaxe (parallax view): mudança de perspectiva que revela que o objeto é constituído pelo próprio deslocamento do olhar — não há ponto de vista neutro; o antagonismo é irredutível Grande Outro (grand Autre): a ordem simbólica (linguagem, lei, normas sociais) — o sujeito se constitui em relação ao Outro, mas o Outro é inconsistente, barrado Sujeito barrado: o sujeito não é uma identidade plena, mas uma falta constitutiva — é o que emerge na falha da ordem simbólica Cultura pop como filosofia: filmes (Matrix, Hitchcock), piadas e anedotas são lidos como encenações de estruturas lacanianas e hegelianas Influenciado por Hegel — dialética, negatividade, contradição como motor do pensamento Jacques Lacan — psicanálise estrutural; Real, Simbólico, Imaginário Marx — crítica da ideologia e fetichismo da mercadoria Kant — sujeito transcendental e antinomias Schelling — liberdade e o abismo do fundamento Influenciou Teoria crítica contemporânea Estudos culturais e análise ideológica do cinema Esquerda pós-marxista e debate político contemporâneo Alain Badiou — interlocução sobre sujeito e evento Obras O Sublime Objeto da Ideologia (The Sublime Object of Ideology, 1989); Eles Não Sabem o que Fazem (For They Know Not What They Do, 1991); A Visão em Paralaxe (The Parallax View, 2006); Vivendo no Fim dos Tempos (Living in the End Times, 2010); Menos que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (Less Than Nothing, 2012); Como Ler Lacan (How to Read Lacan, 2006). ...

Theodor W. Adorno

Theodor W. Adorno Nascido em Frankfurt em 1903, Theodor W. Adorno foi, ao lado de Horkheimer, o nome mais rigoroso da primeira geração da Escola de Frankfurt. Formado também em música — estudou composição em Viena —, uniu filosofia, sociologia e estética numa crítica radical da sociedade moderna. Judeu e marxista, exilou-se nos Estados Unidos durante o nazismo, onde observou de perto a cultura de massas; retornou a Frankfurt após a guerra e ali morreu em 1969. ...

Walter Benjamin

Walter Benjamin Nascido em Berlim em 1892, Walter Benjamin foi uma das figuras mais originais e inclassificáveis do pensamento do século XX — filósofo, crítico literário, tradutor e ensaísta, ligado de modo periférico à Escola de Frankfurt e amigo de Adorno. Sua carreira acadêmica fracassou (sua tese de habilitação foi recusada), e ele viveu da escrita, sempre em dificuldades. Em 1940, fugindo dos nazistas, viu-se bloqueado na fronteira franco-espanhola, em Portbou, e tirou a própria vida — um dos destinos mais trágicos da intelectualidade europeia. ...

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