Tomás de Aquino — Fé e Razão, as Cinco Vias e a Síntese Escolástica

Se a filosofia medieval tivesse de ser representada por um único nome, esse nome seria Tomás de Aquino (1225–1274). Frade dominicano, teólogo e filósofo, Tomás empreendeu a mais ambiciosa síntese intelectual da Idade Média: harmonizar a filosofia de Aristóteles — recém-redescoberta no Ocidente latino através de traduções árabes e gregas — com a teologia cristã. O resultado foram duas Summae monumentais e dezenas de comentários, questões disputadas e opúsculos que moldaram a teologia católica, o direito natural, a ética política e a metafísica ocidental por séculos. ...

Maimônides: Razão e Fé no Guia dos Perplexos — A Filosofia de Moses ben Maimon

No coração do século XII, entre mesquitas andaluzas, sinagogas norte-africanas e cortes islâmicas do Egito, um rabino, médico e filósofo empreendeu uma das sínteses intelectuais mais audaciosas da Idade Média: demonstrar que a razão filosófica e a revelação bíblica não se contradizem, mas se completam. Seu nome era Moses ben Maimon — em hebraico, Rambam; para o mundo latino, Maimônides. Nenhum outro pensador judeu medieval exerceu influência tão profunda e duradoura, tanto dentro do judaísmo quanto sobre a filosofia cristã e islâmica. ...

Nous: O Intelecto na Filosofia Grega — De Anaxágoras a Plotino e a Recepção Medieval

Poucos conceitos atravessam a história da filosofia ocidental com tanta persistência quanto o nous (νοῦς). A palavra grega designa, conforme o contexto, mente, intelecto, inteligência ou razão — mas seu alcance filosófico excede qualquer dessas traduções isoladas. Desde o momento em que Anaxágoras a elevou a princípio cósmico ordenador, passando pela elaboração platônica e pela análise aristotélica do intelecto no De Anima, até a metafísica emanacionista de Plotino e os intensos debates medievais entre Averróis e Tomás de Aquino, o nous constitui um fio condutor que liga cosmologia, psicologia e teologia em um único arco conceitual. ...

Pedro Abelardo: Lógica, Universais e a Ética da Intenção — O Rebelde da Escolástica

Nenhum filósofo do século XII provocou tantos tumultos — intelectuais e pessoais — quanto Pedro Abelardo (c. 1079–1142). Mestre incomparável de dialética, amante trágico de Heloísa, condenado duas vezes pela Igreja, ele transformou o panorama do pensamento medieval ao subordinar a autoridade à razão, propor uma solução original para o problema dos universais e fundar uma ética centrada na consciência individual. Sua vida é um drama que rivaliza com qualquer tragédia clássica; sua filosofia, uma antecipação de problemas que ocupariam a escolástica por séculos. ...

Maréchal e o Ponto de Partida da Metafísica — Caderno I: A Crítica Antiga do Conhecimento

Este é o primeiro de cinco artigos dedicados à obra Le point de départ de la métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”) do filósofo jesuíta belga Joseph Maréchal (1878–1944). Publicada em cinco cadernos — quatro deles (I, II, III e V) entre 1922 e 1926, e o Caderno IV postumamente em 1947 —, a obra representa uma das tentativas mais ambiciosas do século XX de colocar o tomismo em diálogo com a filosofia crítica kantiana. Ao longo desta série, percorreremos cada um dos cinco cadernos: do inventário histórico da tradição clássica até a síntese original de Maréchal, que influenciou profundamente pensadores como Karl Rahner, Bernard Lonergan e Emerich Coreth. Neste primeiro artigo, acompanhamos o Caderno I, que faz um percurso histórico-crítico desde os pré-socráticos até o fim da Escolástica. ...

Abelardo (Pedro Abelardo)

Abelardo (Pedro Abelardo) O intelectual mais brilhante e polêmico do séc. XII. Famoso também por seu amor trágico com Heloísa (castrado por ordem do tio dela). Propôs o conceitualismo na disputa dos universais e introduziu a razão dialética na teologia. “Entender para crer” — a razão deve examinar antes de aceitar pela fé (inversão de Anselmo de Cantuária). Nascido na Bretanha em uma família da pequena nobreza, Abelardo renunciou à herança militar para dedicar-se às artes liberais, tornando-se um mestre itinerante que atraía multidões de estudantes às escolas de Paris. Sua trajetória atravessa o momento decisivo em que o ensino deixa de ser monopólio dos mosteiros e migra para as escolas urbanas, prenunciando a universidade medieval. Polemista incansável, enfrentou seu próprio professor Guilherme de Champeaux sobre os universais e depois se viu em conflito direto com a autoridade monástica representada por Bernardo de Claraval, que via na sua confiança na razão um perigo para a fé. Essa tensão entre a dialética e a tradição contemplativa marca toda a sua obra e ajuda a explicar as condenações que sofreu em concílios eclesiásticos. ...

Alberto Magno (Albertus Magnus)

Alberto Magno (Albertus Magnus) Frade dominicano, bispo de Ratisbona e Doctor Universalis. Foi o mestre de Tomás de Aquino e o principal responsável pela introdução sistemática de Aristóteles no mundo latino medieval. Diferentemente de outros escolásticos, Alberto possuía um interesse genuíno pelas ciências naturais — botânica, zoologia, mineralogia, alquimia — combinando observação empírica com reflexão filosófica. Canonizado e declarado Doutor da Igreja em 1931, é patrono dos cientistas naturais. ...

Anselmo de Cantuária

Anselmo de Cantuária Nascido em Aosta, nos Alpes, em 1033, Anselmo entrou no célebre mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, onde se tornou mestre admirado, e mais tarde foi arcebispo de Cantuária, em meio a duros conflitos com os reis ingleses sobre a autoridade da Igreja. É chamado de “pai da Escolástica” por ter inaugurado o esforço sistemático de usar a razão para penetrar os conteúdos da fé. Seu lema resume todo o programa medieval: “fides quaerens intellectum” — a fé que busca compreender. No Proslógio, ele o radicaliza: “não busco compreender para crer, mas creio para compreender” — fórmula que recolhe o “crede ut intelligas” de Santo Agostinho. ...

Boécio

Boécio “O último romano e o primeiro escolástico.” Traduziu e comentou a Lógica de Aristóteles para o latim, transmitindo-a à Idade Média. A Isagoge de Porfírio — que Boécio traduziu e comentou — lançou o debate dos universais que dominará a Escolástica. Preso e condenado à morte por Teodorico, escreveu A Consolação da Filosofia na prisão — uma das obras mais lidas da Idade Média. Membro de uma antiga e ilustre família senatorial romana, Anício Mânlio Severino Boécio viveu numa Itália que, embora dominada pelos ostrogodos de Teodorico, ainda conservava as instituições e a cultura do mundo romano tardio. Cônsul e depois magister officiorum — uma das mais altas posições da administração —, conciliou a carreira pública com um projeto intelectual de enorme ambição: traduzir para o latim toda a obra de Platão e de Aristóteles e mostrar a concórdia fundamental entre os dois filósofos. O plano ficou incompleto, mas o que conseguiu realizar foi decisivo. Num Ocidente onde o conhecimento do grego se extinguia rapidamente, suas versões e comentários da lógica aristotélica e da Isagoge tornaram-se, durante séculos, praticamente a única porta de acesso a essa tradição. Boécio também legou à educação medieval o vocabulário das artes: foi ele quem cunhou o termo quadrivium para o conjunto das ciências matemáticas (aritmética, música, geometria e astronomia), escrevendo tratados como o De arithmetica e o De musica. ...

Duns Scotus

Duns Scotus Nascido por volta de 1266 em Duns, na Escócia, João Duns Scotus entrou na ordem franciscana e ensinou em Oxford, Paris e Colônia, onde morreu prematuramente em 1308. A sutileza e o rigor de suas distinções lhe valeram o título de “Doutor Sutil”. Ao lado de Tomás de Aquino e Guilherme de Ockham, é um dos grandes nomes da alta Escolástica — e o principal contraponto franciscano ao tomismo. ...

Guilherme de Ockham

Guilherme de Ockham Nascido por volta de 1287 na aldeia inglesa de Ockham, na região de Surrey, Guilherme entrou na ordem franciscana e estudou em Oxford. Acusado de heresia, foi convocado à corte papal de Avinhão; envolvido na disputa entre os franciscanos e o papa João XXII sobre a pobreza evangélica, acabou fugindo para a corte do imperador Luís da Baviera, sob cuja proteção viveu até a morte, por volta de 1347. Sua obra marca o fim da Escolástica clássica e abre caminho para a Modernidade. ...

São Boaventura

São Boaventura Giovanni di Fidanza, conhecido como Boaventura de Bagnoregio. Teólogo e filósofo franciscano; cardeal e Ministro-Geral da Ordem Franciscana. Contemporâneo e adversário cordial de Tomás de Aquino. Chamado de Doctor Seraphicus. Boaventura formou-se na Universidade de Paris, então o grande centro da escolástica latina, onde estudou as artes liberais e depois a teologia sob a orientação do mestre franciscano Alexandre de Hales. Ali lecionou ao mesmo tempo que Tomás de Aquino, num período em que a chegada maciça das obras de Aristóteles — muitas mediadas pelos comentários árabes de Averróis — forçava os teólogos cristãos a decidir o quanto da nova filosofia natural podiam absorver sem comprometer a fé. Boaventura representa a resposta agostiniana e franciscana a esse desafio: em vez de naturalizar plenamente a razão como Tomás, manteve a primazia da iluminação divina e da experiência interior, recusando-se a tratar a filosofia como saber autônomo separado da sabedoria que conduz a Deus. ...

Tomás de Aquino

Tomás de Aquino Nascido por volta de 1225 em Roccasecca, perto de Aquino, no sul da Itália, Tomás pertencia à alta nobreza, que se opôs com firmeza ao seu ingresso na ordem mendicante dos dominicanos — chegando a mantê-lo confinado por cerca de um ano. Estudou com Alberto Magno em Paris e Colônia e tornou-se mestre de teologia na Universidade de Paris. Apesar do apelido de “boi mudo”, revelou-se o maior gênio da Escolástica. Após uma intensa experiência em 1273, deixou de escrever, dizendo que tudo o que produzira lhe parecia “palha”; morreu no ano seguinte, a caminho do Concílio de Lyon. Canonizado em 1323, é o “Doutor Angélico”, e o tomismo permanece referência oficial da filosofia católica. ...

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