David Hume: Empirismo, Causalidade, Indução e a Lei de Hume

Imagine que você solta uma pedra mil vezes e mil vezes ela cai. Você está absolutamente seguro de que ela cairá na milésima primeira. Mas pare e pergunte: o que, exatamente, justifica essa certeza? Você nunca viu a “necessidade” de a pedra cair — viu apenas pedras caindo. A passagem do que aconteceu para o que vai acontecer parece óbvia, e no entanto, quando a examinamos, nenhuma prova lógica a sustenta. Este pequeno abismo, aberto por David Hume no século XVIII, ainda não foi fechado. Ele engole a causalidade, a indução, o eu e boa parte da metafísica — e é o melhor lugar para começar a entender por que Hume é, talvez, o mais perturbador dos filósofos modernos. ...

29 maio 2026 · 13 minutos · Resumidor de Filosofia

Montaigne — Ensaios, Ceticismo e a Arte do Autoconhecimento

Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) é um daqueles raros pensadores cuja influência não se mede pela construção de um sistema, mas pela invenção de uma forma. Ao criar o ensaio — palavra que ele mesmo cunhou, do francês essai, tentativa — inaugurou um modo de pensar que recusa a pretensão de verdade definitiva e faz do próprio sujeito pensante o objeto e o instrumento da investigação. Seus Essais, publicados entre 1580 e 1595, permanecem entre os textos mais lidos e relidos da literatura ocidental, e sua relevância filosófica só cresceu com o tempo. ...

13 maio 2026 · 13 minutos · Resumidor de Filosofia

Doxa e Episteme — Opinião e Conhecimento na Filosofia

Poucas distinções foram tão decisivas para a história da filosofia ocidental quanto a que separa doxa (δόξα, opinião) de episteme (ἐπιστήμη, conhecimento). Desde os pré-socráticos, a tentativa de ultrapassar o plano das aparências rumo ao saber fundamentado constituiu o impulso central do filosofar. A doxa designa o juízo não fundamentado, a crença que se apoia nas aparências sensíveis ou na convenção social; a episteme, ao contrário, aspira à verdade justificada, ao saber que se sustenta por razões necessárias. ...

8 maio 2026 · 12 minutos · Resumidor de Filosofia

Epoché (ἐποχή): A Suspensão do Juízo dos Céticos Antigos à Fenomenologia

Poucos gestos filosóficos são tão radicais — e tão fecundos — quanto a decisão de parar de julgar. A epoché (ἐποχή), a suspensão deliberada do juízo, atravessa a história da filosofia ocidental como um fio condutor que liga o ceticismo antigo à fenomenologia contemporânea, passando pela dúvida cartesiana e pelo empirismo britânico. Nascida como prática de vida entre os céticos pirrônicos, que nela buscavam a tranquilidade da alma, a epoché foi reapropriada vinte e três séculos depois por Edmund Husserl como método fundante da fenomenologia — o caminho de acesso às “coisas mesmas”. ...

8 maio 2026 · 19 minutos · Resumidor de Filosofia

Blaise Pascal

Blaise Pascal Matemático, físico e filósofo francês. Gênio precoce (inventou a calculadora mecânica aos 19 anos); convertido ao jansenismo após “noite de fogo” (1654). Sua filosofia é uma aposta existencial e um confronto com a razão dos libertinos. Conceitos-chave A aposta (pari de Pascal): argumento pragmático sobre a crença em Deus. Se Deus existe e você crê — ganho infinito; se não existe e você crê — perda finita. Se existe e não crê — perda infinita. A razão prudente aposta em Deus — mesmo sem prova racional “O coração tem razões que a razão não conhece”: há uma ordem do coração — intuição, amor, sentimento — irredutível à lógica demonstrativa de Descartes Miséria e grandeza do homem: o homem é roseau pensant (caniço pensante) — frágil como a natureza, mas sua grandeza está em pensar; mais nobre que o universo porque sabe que morre Os dois infinitos: entre o infinito grande (cosmos) e o infinito pequeno (átomo), o homem está no meio — sem fundamento firme nem nas ciências nem na metafísica Divertimento (divertissement): o homem foge do confronto consigo mesmo pela agitação — o tédio revela a miséria humana que o divertimento esconde. Crítica da superficialidade social Crítica ao cartesianismo: o método de Descartes é útil nas ciências, mas ilusório como fundamento da fé ou da moral; “Descartes inútil e incerto” Jansenismo: corrente católica que enfatizava a graça irresistível de Agostinho; Pascal defendeu Port-Royal nas Provinciais contra os jesuítas Influenciado por Santo Agostinho — graça, pecado, predestinação Montaigne — ceticismo, miséria humana (ponto de partida e adversário) Descartes — racionalismo (critica) Pirronismo antigo — ceticismo como arma apologética Influenciou Kierkegaard — aposta, paradoxo, subjetividade da fé Existencialismo — angústia e condição humana Apologética cristã moderna Teoria da decisão e teoria dos jogos (aposta como precursora) Obras Provinciais (1656–1657); Pensamentos (póstumo, 1670 — fragmentos de uma apologética inacabada); Tratado sobre a Aritmética do Triângulo (1654). ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

David Hume

David Hume Figura central do Iluminismo escocês, David Hume nasceu em Edimburgo em 1711. Publicou ainda muito jovem seu Tratado da Natureza Humana (1739-40), obra que, em suas próprias palavras, “caiu natimorta do prelo” e só seria reconhecida muito depois. Sua fama de cético em matéria de religião custou-lhe as cátedras universitárias a que aspirava; ganhou a vida como bibliotecário, secretário diplomático e, sobretudo, como ensaísta e historiador de grande êxito. Homem de temperamento sereno e afável — o “bom David” —, morreu em 1776 enfrentando a morte com a tranquilidade de um sábio. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Górgias

Górgias Natural de Leontinos, na Sicília, Górgias viveu, segundo a tradição, mais de cem anos (c. 483–375 a.C.). Chegou a Atenas em 427 a.C. como embaixador de sua cidade e deslumbrou os atenienses com um estilo oratório novo, repleto de figuras e ritmos — tornando-se o mais célebre e bem pago mestre de retórica da Antiguidade. Ao lado de Protágoras, é a grande figura da primeira geração dos sofistas. Seu lado filosófico aparece no provocador tratado Sobre o Não-Ser, em que defende, por encadeamento de argumentos, três teses radicais: primeiro, que nada existe; segundo, que, mesmo que algo existisse, não poderíamos conhecê-lo; e terceiro, que, mesmo que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo a outrem. Trata-se em parte de uma paródia da metafísica de Parmênides e dos eleatas, levando ao extremo o poder da argumentação. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

1 janeiro 2026 · 3 minutos · Resumidor de Filosofia

Pirro

Pirro Fundador do Ceticismo Antigo. Acompanhou Alexandre Magno até a Índia e encontrou ascetas que influenciaram seu pensamento. Não deixou escritos; viveu coerentemente com a epoché. A tranquilidade (ataraxia) chega naturalmente quando se suspende todo julgamento: como não podemos saber se algo é bom ou mau, belo ou feio, não há razão para perturbação. Conceitos-chave Epoché: suspensão de todo julgamento Afasia: não pronunciar afirmações sobre a realidade Ataraxia como consequência da epoché Fenomenismo: só os fenômenos (aparências) são acessíveis Influenciado por Demócrito — relatividade das percepções (filiação aceita por Diógenes Laércio IX.67) Górgias e a sofística — ceticismo radical (influência indireta, debatida na historiografia) Ascetas indianos (gymnosofistas) — encontrados durante a expedição de Alexandre Influenciou Timão de Fliúnte — discípulo Academia Nova (Arcésilau, Carnéades) Sexto Empírico — sistematização do pirronismo Montaigne, Descartes (método da dúvida) Obras Nenhuma. Fontes: Diógenes Laércio, Vidas, IX; Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas. ...

1 janeiro 2026 · 1 minuto · Resumidor de Filosofia

Sexto Empírico

Sexto Empírico Médico e filósofo grego, principal sistematizador do ceticismo pirrônico. Suas obras são a fonte mais completa sobre a tradição cética antiga fundada por Pirro. Enquanto os dogmáticos (estoicos, epicuristas, platônicos) pretendiam alcançar a verdade definitiva, Sexto defende a suspensão do juízo (epoché) como caminho para a tranquilidade (ataraxia). Sua influência foi decisiva na filosofia moderna, especialmente em Montaigne, Descartes e Hume. Conceitos-chave Epoché (suspensão do juízo): diante de argumentos equipolentes, o cético suspende o assentimento — não afirma nem nega Isostenia (isostheneia): equipolência de argumentos contrários — para cada argumento a favor, há um de igual força contra Tropos (modos da suspensão): sistematização dos argumentos céticos — 10 tropos de Enesidemo (relatividade das percepções), 5 tropos de Agripa (desacordo, regresso ao infinito, relatividade, hipótese, circularidade) Fenômeno (phainomenon): o cético aceita as aparências como guia prático de vida, sem afirmar que correspondam à realidade Critério prático: o cético vive segundo a natureza, os costumes, as leis e as artes — sem pretensão de verdade absoluta Anti-dogmatismo: crítica sistemática a todas as escolas filosóficas que pretendem conhecer a natureza última das coisas Influenciado por Pirro — fundador do ceticismo pirrônico Enesidemo — renovação do pirronismo; 10 tropos Timão de Fliunte — discípulo de Pirro Influenciou Montaigne — ceticismo dos Ensaios (Apologia de Raymond Sebond) Descartes — dúvida metódica como resposta ao ceticismo Hume — ceticismo sobre causalidade e indução Pascal — limites da razão humana Francisco Sanches — Quod nihil scitur (1581) Obras Hipotiposes Pirrônicas (Pyrrhōneioi Hypotypōseis, 3 livros) — exposição sistemática do método cético; Contra os Matemáticos (Adversus Mathematicos, 11 livros) — refutação das disciplinas dogmáticas (gramática, retórica, geometria, aritmética, astrologia, música, lógica, física, ética). ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia

Xenófanes de Cólofon

Xenófanes de Cólofon Poeta-filósofo grego itinerante. Viajou pelo mundo grego por décadas cantando seus versos filosóficos. Considerado precursor da Escola Eleata (influenciou Parmênides). Notável pela crítica à religião antropomórfica e por observações proto-epistemológicas. Conceitos-chave Crítica ao antropomorfismo religioso: Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses crimes humanos (roubo, adultério, traição); os etíopes fazem seus deuses negros e de nariz chato, os trácios fazem-nos loiros e de olhos azuis — se os bois e cavalos pudessem pintar deuses, eles os fariam bovinos e equinos Monoteísmo filosófico: há um Deus único, o maior entre deuses e homens, que não se parece em nada com os mortais — nem em corpo nem em pensamento; imóvel, governa tudo com o pensamento Epistemologia do ceticismo moderado: os deuses não revelaram tudo aos homens desde o início; os mortais descobrem o melhor progressivamente — mas nenhum homem alcança a verdade total sobre os deuses e o cosmos; mesmo que dissesse a verdade, não poderia ter certeza Geologia e fósseis: encontrou fósseis marinhos em montanhas e concluiu que a terra e o mar se alternam; usou observações empíricas para especular sobre mudanças cósmicas Influenciado por Escola de Mileto — naturalismo e crítica do mito Tradição poética grega — usa hexâmetros e elegias filosóficas Influenciou Parmênides — monismo e conceito do Uno Ceticismo antigo (pela humildade epistemológica) Platão — crítica à representação dos deuses em Homero (República) Obras Fragmentos em verso (elegias, silos, poema didático Sobre a Natureza) preservados por citações de outros autores. ...

1 janeiro 2026 · 2 minutos · Resumidor de Filosofia
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