David Hume: Empirismo, Causalidade, Indução e a Lei de Hume

Imagine que você solta uma pedra mil vezes e mil vezes ela cai. Você está absolutamente seguro de que ela cairá na milésima primeira. Mas pare e pergunte: o que, exatamente, justifica essa certeza? Você nunca viu a “necessidade” de a pedra cair — viu apenas pedras caindo. A passagem do que aconteceu para o que vai acontecer parece óbvia, e no entanto, quando a examinamos, nenhuma prova lógica a sustenta. Este pequeno abismo, aberto por David Hume no século XVIII, ainda não foi fechado. Ele engole a causalidade, a indução, o eu e boa parte da metafísica — e é o melhor lugar para começar a entender por que Hume é, talvez, o mais perturbador dos filósofos modernos. ...

Montaigne — Ensaios, Ceticismo e a Arte do Autoconhecimento

Michel Eyquem de Montaigne (1533–1592) é um daqueles raros pensadores cuja influência não se mede pela construção de um sistema, mas pela invenção de uma forma. Ao criar o ensaio — palavra que ele mesmo cunhou, do francês essai, tentativa — inaugurou um modo de pensar que recusa a pretensão de verdade definitiva e faz do próprio sujeito pensante o objeto e o instrumento da investigação. Seus Essais, publicados entre 1580 e 1595, permanecem entre os textos mais lidos e relidos da literatura ocidental, e sua relevância filosófica só cresceu com o tempo. ...

Doxa e Episteme — Opinião e Conhecimento na Filosofia

Poucas distinções foram tão decisivas para a história da filosofia ocidental quanto a que separa doxa (δόξα, opinião) de episteme (ἐπιστήμη, conhecimento). Desde os pré-socráticos, a tentativa de ultrapassar o plano das aparências rumo ao saber fundamentado constituiu o impulso central do filosofar. A doxa designa o juízo não fundamentado, a crença que se apoia nas aparências sensíveis ou na convenção social; a episteme, ao contrário, aspira à verdade justificada, ao saber que se sustenta por razões necessárias. ...

Epoché (ἐποχή): A Suspensão do Juízo dos Céticos Antigos à Fenomenologia

Poucos gestos filosóficos são tão radicais — e tão fecundos — quanto a decisão de parar de julgar. A epoché (ἐποχή), a suspensão deliberada do juízo, atravessa a história da filosofia ocidental como um fio condutor que liga o ceticismo antigo à fenomenologia contemporânea, passando pela dúvida cartesiana e pelo empirismo britânico. Nascida como prática de vida entre os céticos pirrônicos, que nela buscavam a tranquilidade da alma, a epoché foi reapropriada vinte e três séculos depois por Edmund Husserl como método fundante da fenomenologia — o caminho de acesso às “coisas mesmas”. ...

Blaise Pascal

Blaise Pascal Matemático, físico e filósofo francês. Gênio precoce (inventou a calculadora mecânica aos 19 anos); convertido ao jansenismo após “noite de fogo” (1654). Sua filosofia é uma aposta existencial e um confronto com a razão dos libertinos. Conceitos-chave A aposta (pari de Pascal): argumento pragmático sobre a crença em Deus. Se Deus existe e você crê — ganho infinito; se não existe e você crê — perda finita. Se existe e não crê — perda infinita. A razão prudente aposta em Deus — mesmo sem prova racional “O coração tem razões que a razão não conhece”: há uma ordem do coração — intuição, amor, sentimento — irredutível à lógica demonstrativa de Descartes Miséria e grandeza do homem: o homem é roseau pensant (caniço pensante) — frágil como a natureza, mas sua grandeza está em pensar; mais nobre que o universo porque sabe que morre Os dois infinitos: entre o infinito grande (cosmos) e o infinito pequeno (átomo), o homem está no meio — sem fundamento firme nem nas ciências nem na metafísica Divertimento (divertissement): o homem foge do confronto consigo mesmo pela agitação — o tédio revela a miséria humana que o divertimento esconde. Crítica da superficialidade social Crítica ao cartesianismo: o método de Descartes é útil nas ciências, mas ilusório como fundamento da fé ou da moral; “Descartes inútil e incerto” Jansenismo: corrente católica que enfatizava a graça irresistível de Agostinho; Pascal defendeu Port-Royal nas Provinciais contra os jesuítas Influenciado por Santo Agostinho — graça, pecado, predestinação Montaigne — ceticismo, miséria humana (ponto de partida e adversário) Descartes — racionalismo (critica) Pirronismo antigo — ceticismo como arma apologética Influenciou Kierkegaard — aposta, paradoxo, subjetividade da fé Existencialismo — angústia e condição humana Apologética cristã moderna Teoria da decisão e teoria dos jogos (aposta como precursora) Obras Provinciais (1656–1657); Pensamentos (póstumo, 1670 — fragmentos de uma apologética inacabada); Tratado sobre a Aritmética do Triângulo (1654). ...

Carnéades de Cirene

Carnéades de Cirene Carnéades de Cirene (c. 214/213–129/128 a.C.) foi o mais eminente escolarca da Academia Nova de Atenas e a figura central do ceticismo acadêmico. Nascido na cidade de Cirene, no norte da África, emigrou para Atenas e ali permaneceu por toda a vida, à frente de uma Academia que se tornara radicalmente cética desde Arcesilau. Carnéades não deixou nenhum escrito — escolha aparentemente deliberada, compatível com sua posição de que nenhuma tese deve ser sustentada de forma dogmática. Seu pensamento chegou até nós principalmente por três mediações: o discípulo Clitômaco de Cartago, que registrou suas lições em mais de quatrocentos livros; Cícero, que em Academica e De Natura Deorum expõe e debate as posições carnéadianas; e Sexto Empírico, que preservou vários de seus argumentos contra os estoicos. ...

David Hume

David Hume Figura central do Iluminismo escocês, David Hume nasceu em Edimburgo em 1711. Publicou ainda muito jovem seu Tratado da Natureza Humana (1739-40), obra que, em suas próprias palavras, “caiu natimorta do prelo” e só seria reconhecida muito depois. Sua fama de cético em matéria de religião custou-lhe as cátedras universitárias a que aspirava; ganhou a vida como bibliotecário, secretário diplomático e, sobretudo, como ensaísta e historiador de grande êxito. Homem de temperamento sereno e afável — o “bom David” —, morreu em 1776 enfrentando a morte com a tranquilidade de um sábio. ...

Górgias

Górgias Natural de Leontinos, na Sicília, Górgias viveu, segundo a tradição, mais de cem anos (c. 483–375 a.C.). Chegou a Atenas em 427 a.C. como embaixador de sua cidade e deslumbrou os atenienses com um estilo oratório novo, repleto de figuras e ritmos — tornando-se o mais célebre e bem pago mestre de retórica da Antiguidade. Ao lado de Protágoras, é a grande figura da primeira geração dos sofistas. Seu lado filosófico aparece no provocador tratado Sobre o Não-Ser, em que defende, por encadeamento de argumentos, três teses radicais: primeiro, que nada existe; segundo, que, mesmo que algo existisse, não poderíamos conhecê-lo; e terceiro, que, mesmo que pudéssemos conhecê-lo, não poderíamos comunicá-lo a outrem. Trata-se em parte de uma paródia da metafísica de Parmênides e dos eleatas, levando ao extremo o poder da argumentação. ...

Michel de Montaigne

Michel de Montaigne Nascido em 1533 no castelo da família, no Périgord, Michel de Montaigne recebeu uma educação humanista esmerada — criado para falar latim como primeira língua. Foi magistrado no Parlamento de Bordéus, onde viveu a amizade profunda com Étienne de La Boétie, cuja morte o marcaria para sempre. Por volta de 1571, retirou-se para a torre de seu castelo, cercado de livros, e ali, em meio às sangrentas Guerras de Religião, começou a escrever uma obra de gênero inteiramente novo: os Ensaios. É um dos pais do pensamento moderno e o inventor do ensaio como forma literária e filosófica. ...

Pirro

Pirro Fundador do Ceticismo Antigo. Acompanhou Alexandre Magno até a Índia e encontrou ascetas que influenciaram seu pensamento. Não deixou escritos; viveu coerentemente com a epoché. A tranquilidade (ataraxia) chega naturalmente quando se suspende todo julgamento: como não podemos saber se algo é bom ou mau, belo ou feio, não há razão para perturbação. Natural de Élis, no Peloponeso, Pirro viveu em torno de 365 a 270 a.C. e atuou num período marcado pela dissolução do mundo da polis clássica e pela ascensão do cosmopolitismo helenístico. Nesse contexto de instabilidade política e diversidade cultural, a pergunta sobre como alcançar a felicidade (eudaimonia) ganhou urgência renovada. Pirro respondeu de forma radical: a felicidade não depende de conhecer a verdade última das coisas, mas sim de reconhecer que tal verdade não está ao nosso alcance. Para ele, as coisas são igualmente indetermináveis, inapreensíveis e indecidíveis (adiáfora, astathmêta, anepíkrita); diante disso, a postura sábia é a epoché — a suspensão do juízo — e não a afirmação apressada. Seu principal discípulo, Timão de Fliúnte, preservou suas ideias em forma de poema, permitindo que o pirronismo chegasse às gerações seguintes. ...

Sexto Empírico

Sexto Empírico Médico e filósofo grego, principal sistematizador do ceticismo pirrônico. Suas obras são a fonte mais completa sobre a tradição cética antiga fundada por Pirro. Enquanto os dogmáticos (estoicos, epicuristas, platônicos) pretendiam alcançar a verdade definitiva, Sexto defende a suspensão do juízo (epoché) como caminho para a tranquilidade (ataraxia). Sua influência foi decisiva na filosofia moderna, especialmente em Montaigne, Descartes e Hume. Sexto Empírico viveu e escreveu provavelmente entre os séculos II e III d.C., num período em que o ceticismo pirrônico havia sido revivido por Enesidemo cerca de dois séculos após Pirro de Élis. O cognome “Empírico” indica sua filiação à escola médica empírica, que rejeitava teorias causais ocultas e se atinha à experiência observável — postura metodológica que ressoa diretamente em sua filosofia. Embora pouquíssimo se saiba de sua biografia, sua produção textual é excepcional: as Hipotiposes Pirrônicas oferecem uma apresentação pedagógica do método cético em três livros, enquanto os onze livros de Adversus Mathematicos desmontam sistematicamente as pretensões de gramáticos, retóricos, geômetras, aritméticos, astrólogos, músicos, lógicos, físicos e éticos. Essa amplitude mostra que o ceticismo de Sexto não era uma posição de niilismo intelectual, mas um programa filosófico rigoroso: ao demonstrar que para cada afirmação dogmática existe um argumento contrário de igual força (isostenia), ele visa produzir a suspensão do juízo e, por consequência, a paz de espírito. ...

Xenófanes de Cólofon

Xenófanes de Cólofon Poeta-filósofo grego itinerante, nascido em Cólofon, na Jônia (costa ocidental da Ásia Menor), por volta de 570 a.C. Com a conquista persa da Jônia em meados do século VI a.C., Xenófanes deixou sua cidade natal e passou o restante da vida em movimento pelo mundo helênico, instalando-se por períodos em Zancle e Catânia (Sicília) e, segundo a tradição, em Élea, no sul da Itália. Viveu excepcionalmente longo — fontes antigas sugerem que ultrapassou os noventa anos —, e toda a sua produção chegou até nós apenas em fragmentos citados por autores posteriores como Sexto Empírico, Simplício e Ateneu. ...

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