Epicuro

Epicuro Nascido na ilha de Samos por volta de 341 a.C., Epicuro fundou em Atenas, em 307 a.C., a escola conhecida como o Jardim (Kêpos) — comunidade de amigos que, de modo notável para a época, acolhia mulheres e escravos. Viveu de maneira simples e retirada, e morreu por volta de 270 a.C. enfrentando com serenidade as dores de uma doença renal. Sua filosofia, herdeira de Sócrates no ideal da filosofia como arte de viver, tem um objetivo terapêutico: libertar o ser humano daquilo que perturba sua paz. ...

Epiteto

Epiteto Ex-escravo frígio; o estoico que mais viveu o que pregou. Sua distinção central estrutura toda a ética estoica: o que depende de nós (eph’ hêmin: pensamentos, impulsos, julgamentos, desejos) vs. o que não depende (ouk eph’ hêmin: corpo, fama, riqueza, saúde). A liberdade interior é absoluta e não pode ser tirada por nenhum senhor. “Suporta e abstém-te” (anékhou kai apékhou). Nascido em Hierápolis, na Frígia (atual Turquia), Epiteto passou os primeiros anos da vida na condição de escravo em Roma, a serviço de Epafrodito, liberto ligado à corte de Nero. Foi nesse contexto que estudou com o estoico Musônio Rufo, de quem herdou a convicção de que a filosofia só vale na medida em que transforma a conduta. Conta-se que era coxo — tradição que ele próprio teria comentado com serena indiferença, exemplo vivo de sua doutrina de que a deficiência atinge o corpo, não a prohairesis, a vontade que escolhe. Liberto mais tarde, dedicou-se ao ensino em Roma até que o imperador Domiciano expulsou os filósofos da cidade; transferiu-se então para Nicópolis, no Epiro (noroeste da Grécia), onde fundou uma escola que atraiu discípulos de toda parte, inclusive jovens da elite romana. ...

Frances Kamm

Frances Kamm Frances Myrna Kamm (n. c. 1947) é uma das mais rigorosas e influentes filósofas morais da tradição analítica contemporânea. Formada nos Estados Unidos, construiu sua carreira acadêmica em instituições como NYU, Rutgers e Harvard, onde lecionou por muitos anos na Escola de Governo Kennedy e no departamento de filosofia. Seu projeto intelectual central consiste em desenvolver uma teoria não-consequencialista dos direitos morais e do dano permissível que seja ao mesmo tempo normativamente precisa e metodologicamente transparente. Contra as éticas que avaliam ações exclusivamente pelos seus resultados, Kamm argumenta que há restrições deontológicas genuínas — estruturas morais que determinam o que é permitido fazer a uma pessoa, independentemente do quanto bem isso geraria no todo. ...

G.E. Moore

G.E. Moore Filósofo britânico, cofundador — junto com Russell e Frege — da filosofia analítica. Sua crítica ao idealismo britânico e seu trabalho em ética influenciaram decisivamente toda a tradição analítica do século XX. Conceitos-chave Falácia naturalista (naturalistic fallacy): o erro de definir o bem em termos de propriedades naturais (prazer, evolução, desejo). O bem (good) é simples, indefinível e não-natural — não pode ser reduzido a nenhuma propriedade empírica. Crítica central ao utilitarismo e ao naturalismo ético Questão aberta (open question argument): para qualquer propriedade natural X, sempre faz sentido perguntar “X é bom?” — se o bem fosse idêntico a X, a questão seria absurda. Isso prova que bem ≠ X Intuicionismo moral: os valores morais fundamentais são conhecidos por intuição direta, não por inferência ou definição. Ética é uma ciência autônoma, não redutível às ciências naturais Realismo do senso comum: contra o idealismo de Berkeley e Hegel — o mundo externo existe independentemente da mente. Defesa do realismo do senso comum como ponto de partida filosófico Prova do mundo externo: “aqui está uma mão, aqui está outra” — argumenta que podemos provar a existência do mundo externo com mais certeza do que qualquer premissa filosófica abstrata que a negue Análise dos conceitos: a tarefa central da filosofia é a análise — decompor conceitos complexos em seus componentes mais simples e precisos; programa que define a filosofia analítica Bens intrínsecos: certos estados são bons por si mesmos (amizade, beleza, conhecimento) — independentemente de qualquer consequência. Crítica ao hedonismo utilitarista Influenciado por Kant — ética deontológica e autonomia da moral Russell — programa analítico (influência mútua) Sidgwick — intuicionismo moral britânico Influenciou Russell e Wittgenstein — filosofia analítica Grupo de Bloomsbury (Virginia Woolf, Keynes) — ética e estética Metaética contemporânea (intuicionismo, realismo moral) Karl Popper — teoria do conhecimento Obras Principia Ethica (1903); Ética (1912); Estudos Filosóficos (1922); Alguns Problemas Fundamentais da Filosofia (1953). ...

Hans Jonas

Hans Jonas Hans Jonas nasceu em Mönchengladbach, na Alemanha, em 10 de maio de 1903, e morreu em New Rochelle, estado de Nova York, em 5 de fevereiro de 1993. Estudou filosofia, teologia e história da arte em Freiburg, Berlim e Marburg, onde foi aluno de Martin Heidegger e de Rudolf Bultmann e doutorou-se em 1928 com uma tese sobre o conceito de gnose. Em Marburg iniciou uma longa amizade com Hannah Arendt. Judeu, deixou a Alemanha em 1933 após a ascensão do nazismo, passou pela Inglaterra e instalou-se na Palestina em 1934; durante a Segunda Guerra Mundial serviu na Brigada Judaica do exército britânico, e sua mãe foi assassinada em Auschwitz. Após a guerra lecionou em Israel, no Canadá e, a partir de 1955, na New School for Social Research, em Nova York, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1976. ...

Harry Frankfurt

Harry Frankfurt Harry Gordon Frankfurt (29 de maio de 1929, Langhorne, Pensilvânia — 16 de julho de 2023, Santa Mônica, Califórnia) foi um filósofo norte-americano, professor emérito da Universidade de Princeton, um dos nomes mais influentes da filosofia da ação e do livre-arbítrio no século XX. Começou como estudioso de Descartes (Demons, Dreamers, and Madmen, 1970) e construiu, a seguir, uma obra concisa e incisiva sobre a vontade, a pessoa e o amor — além de um pequeno ensaio que o tornaria, tardiamente, um autor de best-seller. ...

Henrique de Lima Vaz

Henrique Cláudio de Lima Vaz, S.J., nasceu em Ouro Preto (MG) em 24 de agosto de 1921 e morreu em Belo Horizonte em 23 de maio de 2002. Ingressou na Companhia de Jesus em 1938, estudou filosofia no escolasticado jesuíta de Nova Friburgo e, a partir de 1945, em Roma, onde obteve a licenciatura na Pontifícia Universidade Gregoriana; foi ordenado padre em 1948 e doutorou-se em filosofia na mesma instituição em 1953, com uma tese sobre dialética e contemplação em Platão. É considerado um dos mais importantes filósofos brasileiros do século XX pelo alcance sistemático de sua obra. ...

Immanuel Kant

Immanuel Kant Nascido em Königsberg, na Prússia Oriental, em 1724, e jamais tendo se afastado de sua cidade natal, Immanuel Kant levou a vida metódica de um professor universitário — tão regular, diz a tradição, que os vizinhos acertavam o relógio por seu passeio diário. Foi, segundo sua própria expressão, a leitura de Hume que o “despertou do sono dogmático” e o levou a uma longa década de silêncio, ao fim da qual publicou, já com 57 anos, a monumental Crítica da Razão Pura (1781). Sua obra encerra e ao mesmo tempo refunda a Modernidade, mediando a disputa entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume. ...

Jeremy Bentham

Jeremy Bentham Fundador do Utilitarismo. Jurista e filósofo inglês; reformador social radical. Seu esqueleto (Auto-Ícone) está exposto no University College London, conforme seu testamento. Formado para a advocacia, Bentham logo abandonou a prática do direito para dedicar-se à sua crítica. O alvo inicial foi a common law inglesa e, em particular, os Comentários sobre as Leis da Inglaterra de William Blackstone, que ele acusava de mascarar privilégios e arbitrariedades sob uma linguagem solene. Contra essa tradição, Bentham propôs um critério único, claro e mensurável para avaliar leis e instituições: o princípio da utilidade, segundo o qual o valor de qualquer ação, lei ou política se mede pela quantidade de felicidade — entendida como prazer e ausência de dor — que ela produz para os afetados. A moral e a legislação deixariam assim de repousar sobre tradição, intuição ou supostos direitos naturais (que ele rejeitava como “absurdos sobre pernas de pau”) para tornar-se objeto de um cálculo racional e secular, ancorado na observação empírica das motivações humanas. ...

John Stuart Mill

John Stuart Mill Nascido em Londres em 1806, John Stuart Mill foi submetido pelo pai, James Mill, a uma educação extraordinariamente precoce e rigorosa — concebida pelo círculo de Bentham para formar um pensador utilitarista: aprendeu grego aos três anos e devorava clássicos e economia na infância. Aos vinte, sofreu uma profunda crise existencial, da qual se recuperou em parte pela poesia romântica — experiência que o levou a corrigir o utilitarismo árido em que fora criado. Foi também economista, deputado e companheiro intelectual de Harriet Taylor. Tornou-se o mais influente liberal do século XIX. ...

Joshua Greene

Joshua Greene Joshua Greene (n. 1974) é professor de psicologia e diretor do Laboratório de Cognição Moral (Moral Cognition Lab) da Universidade de Harvard. Sua obra situa-se na confluência da filosofia moral, da psicologia experimental e das neurociências cognitivas, e representa um dos esforços mais influentes da virada empírica na ética contemporânea. Greene não se limita a descrever como as pessoas raciocinam sobre questões morais: usa esses dados para defender uma tese normativa explícita — que o utilitarismo, ou mais precisamente o consequencialismo profundo (“deep pragmatic utilitarianism”), é a teoria moral mais justificada para arbitrar conflitos entre grupos com sistemas de valores distintos. ...

Judith Jarvis Thomson

Judith Jarvis Thomson Judith Jarvis Thomson (1929–2020) foi professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e uma das vozes mais rigorosas da ética analítica norte-americana da segunda metade do século XX. Seu trabalho se caracteriza pela análise minuciosa de casos concretos e pelo emprego de experimentos mentais como instrumentos de teste para princípios morais gerais. Formada na Columbia University e em Cambridge (UK), dedicou décadas ao exame sistemático de conceitos como direitos, permissibilidade moral, causalidade e responsabilidade — com atenção especial às situações em que intuições fortes entram em conflito com teorias normativas coerentes. ...

Kwame Anthony Appiah

Kwame Anthony Appiah Kwame Anthony Appiah nasceu em 8 de maio de 1954 em Londres, de pai ganês (Joe Appiah, advogado e político) e mãe britânica (Peggy Cripps). Cresceu em Kumasi, Gana, e estudou filosofia em Cambridge (BA e PhD). Lecionou em Yale, Cornell, Duke, Harvard e Princeton; atualmente é professor na New York University. Appiah é um dos filósofos mais versáteis e influentes do mundo anglófono contemporâneo, com contribuições à ética, à filosofia da linguagem, à filosofia da mente, à teoria racial e à filosofia política. É um dos pensadores que mais sistematicamente questionou os pressupostos do “racialismo” — a crença de que existem raças biológicas humanas dotadas de essências morais e intelectuais. ...

Liev Tolstói

Liev Tolstói Liev Nikoláievitch Tolstói nasceu em Iásnaia Poliana, na província de Tula, Rússia, em 9 de setembro de 1828 (28 de agosto, pelo calendário juliano), e morreu na estação de Astápovo em 20 de novembro de 1910 (7 de novembro, no calendário juliano). Nascido numa família da alta nobreza, serviu no exército, esteve em Sebastopol durante a Guerra da Crimeia e dedicou-se à literatura e à administração de sua propriedade. Publicou Guerra e Paz (1865–1869) e Anna Karênina (1873–1877), duas das obras centrais do romance realista. ...

Marco Aurélio

Marco Aurélio Marco Aurélio Antonino governou Roma de 161 a 180 d.C. e é lembrado como o último dos “cinco bons imperadores” e como o exemplo mais célebre da antiga ideia do rei-filósofo. Adotado na linha de sucessão por Antonino Pio, recebeu educação esmerada e converteu-se cedo ao estoicismo, sobretudo pela leitura de Epiteto, a quem foi apresentado por seu mestre Júnio Rústico. Seu reinado, longe de tranquilo, foi atravessado por guerras nas fronteiras do Danúbio, por revoltas e pela devastadora peste antonina — circunstâncias em que sua filosofia se mostrou menos doutrina e mais disciplina de sobrevivência interior. ...

Mencio

Mencio Nota sobre fontes: As datas de Mêncio (孟子 Mèngzǐ, “Mestre Meng”; nome pessoal Kē 軻) são estimativas convencionais — c. 372–289 a.C. — baseadas em cronologias históricas tradicionais. O texto Mèngzǐ (孟子), compilado em 7 livros (piān), é considerado uma obra mais unitária do que os Analectos de Confúcio, embora também envolva contribuições de discípulos na redação final. Mêncio é considerado na tradição confuciana o “Segundo Sábio” (Yàshèng 亞聖), imediatamente abaixo de Confúcio. ...

Philippa Foot

Philippa Foot Philippa Foot (1920–2010) foi uma das mais influentes filósofas morais britânicas do século XX e figura central no renascimento da ética da virtude. Formada e por muito tempo radicada em Oxford, ensinou também por longos períodos nos Estados Unidos. Sua trajetória intelectual representa um desafio sistemático ao não-cognitivismo e ao emotivismo que dominavam a metaética anglófona do pós-guerra: contra a tese de uma separação radical entre fato e valor, Foot procurou mostrar que os juízos morais têm conteúdo cognitivo e estão enraizados em fatos sobre a vida humana. Sua obra culmina no naturalismo ético neoaristotélico de Natural Goodness (2001). Foi também figura de consciência cívica: ajudou a fundar a Oxfam, organização de combate à fome e à pobreza. ...

Robert Nozick

Robert Nozick Robert Nozick foi um filósofo político americano, professor em Harvard, cujo Anarchy, State, and Utopia (1974) se tornou a resposta libertária mais sistemática e rigorosa à teoria da justiça de John Rawls, reorientando o debate político-filosófico anglofônico por décadas. Além da filosofia política, contribuiu de modo original à epistemologia, à metafísica e à ética. Conceitos-chave Teoria do Direito como Restrição Lateral (Anarchy, State, and Utopia, 1974): Nozick sustenta que os direitos individuais são restrições laterais (side constraints) à ação — não fatores a serem maximizados dentro de um cálculo, mas limites que não podem ser violados mesmo quando a violação produziria resultados melhores para o maior número. A dignidade individual proíbe usar pessoas como meros meios para fins alheios. Estado Mínimo: O único Estado justificável é o Estado mínimo — limitado a proteger os cidadãos contra violência, roubo, fraude e a fazer cumprir contratos. Qualquer Estado mais extenso que redistribua riqueza viola os direitos de pessoas sem seu consentimento — seria equivalente ao trabalho forçado (taxar o fruto do trabalho de alguém para beneficiar outro). Teoria do Direito (Entitlement Theory): A distribuição de bens é justa se resulta de aquisições e transferências justas — não importa o padrão resultante, mas a história. Nozick distingue: (a) justiça na aquisição — como os recursos não-possuídos podem ser apropriados legitimamente; (b) justiça na transferência — como bens passam de mãos por troca voluntária, doação, herança; (c) retificação — correção de injustiças históricas. Argumento de Wilt Chamberlain: Qualquer distribuição “padrão” (igualitária, proporcional etc.) será desfeita por trocas voluntárias. Se cada pessoa, livremente, dá um centavo a Wilt Chamberlain para vê-lo jogar, o padrão original se desfaz — mas nenhum direito foi violado. Assim, respeitar a liberdade desfaz padrões; impor padrões requer interferência contínua na liberdade. Crítica a Rawls: O princípio da diferença rawlsiano (desigualdades só se justificam se beneficiam os mais desfavorecidos) trata a sociedade como se seus recursos fossem um bolo a distribuir. Mas os recursos já pertencem a alguém — resultado de escolhas, esforços e trocas livres. Não há “distribuição social” neutra a ser (re)feita. Filosofia Posterior: Philosophical Explanations (1981) explora epistemologia (condicionais subjuntivos como análise do conhecimento), metafísica da identidade pessoal e ética, com estilo mais tentativo do que o tom assertivo de Anarchy. The Examined Life (1989) é mais pessoal e reflexivo. Em The Nature of Rationality (1993) examina a racionalidade prática e teórica. ...

Sêneca

Sêneca Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córduba, na Hispânia, por volta de 4 a.C., filho de Sêneca, o Velho, célebre mestre de retórica. Foi o mais influente e também o mais controverso dos estoicos romanos: senador rico e poderoso, conheceu o exílio na Córsega sob o imperador Cláudio e, de volta a Roma, tornou-se preceptor e depois conselheiro do jovem Nero, a quem buscou moderar nos primeiros anos de governo. Acusado de participar da conspiração de Pisão, foi obrigado por Nero a tirar a própria vida em 65 d.C. — morte que, segundo o relato de Tácito, enfrentou com a serenidade que sua filosofia pregava. ...

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir Filósofa francesa; companheira intelectual de Sartre. Fundadora do feminismo existencialista. O Segundo Sexo é um dos livros mais influentes do séc. XX. Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir formou-se em filosofia pela Sorbonne e pelo agrégation em 1929, tornando-se uma das primeiras mulheres a conquistar esse título na França. Inserida no círculo existencialista parisiense do pós-guerra, participou ativamente da revista Les Temps Modernes e engajou-se nos grandes debates políticos e morais de sua época, do anticolonialismo à crítica ao stalinismo. Seu projeto filosófico central consiste em aplicar as categorias do existencialismo sartriano — facticidade, situação, projeto — à condição concreta da mulher, mostrando que a opressão feminina não decorre da natureza, mas de estruturas históricas e sociais que podem e devem ser transformadas. ...

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