Autonomia na Filosofia: de Kant à Bioética Contemporânea

Introdução: o que é autonomia? Poucos conceitos filosóficos atravessam tantos domínios — moral, político, existencial, jurídico, médico — quanto o de autonomia. A palavra provém do grego autós (si mesmo) e nómos (lei, norma): governar-se a si mesmo, dar-se a própria lei. Na Grécia antiga, o termo designava originalmente a condição das póleis que se regiam por leis próprias, sem sujeição a um poder estrangeiro. Uma cidade autônoma era aquela que exercia soberania sobre sua organização interna. ...

Bíos: Os Modos de Vida na Filosofia Grega — De Aristóteles a Agamben

Poucas distinções filosóficas são tão reveladoras quanto aquela que os gregos traçaram entre bíos (βίος) e zoé (ζωή). A primeira designa a vida qualificada — o modo como alguém escolhe viver, o perfil ético e político de uma existência; a segunda indica o simples fato de estar vivo, a vida biológica partilhada por todos os seres animados. Essa diferença, aparentemente terminológica, carrega consigo uma das questões mais profundas da filosofia: o que significa viver bem? ...

Hedonismo: O Prazer como Princípio Filosófico de Aristipo a Epicuro e ao Utilitarismo

De todas as respostas que a filosofia ofereceu à pergunta “o que é o bem?”, poucas foram tão intuitivas — e tão mal compreendidas — quanto a do hedonismo: o prazer é o bem supremo. A palavra evoca, no senso comum, imagens de excesso e indulgência, banquetes romanos e desregramento moral. Mas o hedonismo filosófico é outra coisa: uma tradição ética milenar que começa com Aristipo de Cirene no século V a.C., ganha sua forma mais sofisticada com Epicuro e ressurge na modernidade como pedra angular do utilitarismo de Bentham e Mill. ...

Abelardo (Pedro Abelardo)

Abelardo (Pedro Abelardo) O intelectual mais brilhante e polêmico do séc. XII. Famoso também por seu amor trágico com Heloísa (castrado por ordem do tio dela). Propôs o conceitualismo na disputa dos universais e introduziu a razão dialética na teologia. “Entender para crer” — a razão deve examinar antes de aceitar pela fé (inversão de Anselmo de Cantuária). Nascido na Bretanha em uma família da pequena nobreza, Abelardo renunciou à herança militar para dedicar-se às artes liberais, tornando-se um mestre itinerante que atraía multidões de estudantes às escolas de Paris. Sua trajetória atravessa o momento decisivo em que o ensino deixa de ser monopólio dos mosteiros e migra para as escolas urbanas, prenunciando a universidade medieval. Polemista incansável, enfrentou seu próprio professor Guilherme de Champeaux sobre os universais e depois se viu em conflito direto com a autoridade monástica representada por Bernardo de Claraval, que via na sua confiança na razão um perigo para a fé. Essa tensão entre a dialética e a tradição contemplativa marca toda a sua obra e ajuda a explicar as condenações que sofreu em concílios eclesiásticos. ...

Adam Smith

Adam Smith Filósofo moral e economista escocês, considerado o pai da economia política moderna. Membro central do Iluminismo Escocês, amigo íntimo de Hume. Sua obra combina ética dos sentimentos com teoria do mercado. Antes de se tornar conhecido como teórico da economia, Smith foi professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow, e é nessa cadeira que se forma o núcleo de seu pensamento. Em A Teoria dos Sentimentos Morais (1759), ele parte de uma pergunta tipicamente iluminista: como seres movidos por seus próprios interesses chegam a fazer juízos morais e a se importar com os outros? A resposta está na simpatia — não um sentimento piedoso, mas a capacidade de imaginar-se na situação alheia — e no “espectador imparcial”, instância interior que nos leva a julgar nossa conduta como a julgaria um observador bem-informado e desinteressado. A moral, para Smith, não deriva de uma razão abstrata nem de mandamentos externos, mas dessa rede de afetos e julgamentos recíprocos que sustenta a vida social. ...

Alasdair MacIntyre

Alasdair MacIntyre Alasdair MacIntyre (1929–2025) foi um filósofo moral escocês-americano, autor de uma das obras mais influentes da filosofia moral do século XX, After Virtue (1981; Depois da Virtude). Sua trajetória intelectual foi marcada por uma longa peregrinação: partiu do marxismo na juventude, atravessou diferentes posições e acabou por converter-se ao catolicismo e ao tomismo aristotélico em sua maturidade. Faleceu em maio de 2025. MacIntyre diagnosticou que a linguagem moral moderna se encontra em estado de grave desordem — composta de fragmentos descontextualizados de tradições que se perderam — e sustentou que o “projeto iluminista” de fornecer uma justificação racional autônoma para a moral fracassou, abrindo caminho ao emotivismo. Sua proposta foi a recuperação de uma ética das virtudes de raiz aristotélico-tomista, ancorada na vida comunitária e nas tradições de investigação. ...

Aristóteles

Aristóteles Nascido em Estagira, na Macedônia, por volta de 384 a.C., filho de Nicômaco — médico da corte macedônia —, Aristóteles ingressou aos dezessete anos na Academia de Platão, onde permaneceu cerca de vinte anos, até a morte do mestre. Mais tarde foi preceptor de Alexandre Magno e, em 335 a.C., fundou em Atenas o Liceu, escola cujos membros ficaram conhecidos como peripatéticos (do hábito de discutir caminhando). Com a morte de Alexandre e a onda antimacedônica, deixou Atenas em 323 a.C. — para que a cidade, segundo a tradição antiga, “não pecasse duas vezes contra a filosofia” — e morreu no ano seguinte em Cálcis. O conjunto de textos que herdamos dele é o maior e mais sistemático da Antiguidade, abrangendo lógica, física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, retórica e poética. ...

Arthur Schopenhauer

Arthur Schopenhauer Nascido em Dança (Danzig) em 1788, em uma abastada família de comerciantes, Arthur Schopenhauer pôde dedicar-se à filosofia com independência financeira. Doutorou-se com Sobre a Quádrupla Raiz do Princípio de Razão Suficiente (1813) e publicou aos trinta anos sua obra capital, O Mundo como Vontade e Representação (1818) — que, no entanto, foi quase totalmente ignorada durante décadas. Hostil a Hegel, então dominante, chegou a marcar suas aulas no mesmo horário que as do rival, em Berlim, sem público. O reconhecimento só veio no fim da vida, nos anos 1850. Foi também o primeiro grande filósofo ocidental a incorporar seriamente o pensamento indiano (Upanixades e budismo). ...

Baruch de Spinoza (Bento de Espinosa)

Baruch de Spinoza (Bento de Espinosa) Nascido em Amsterdã em 1632, numa família de judeus sefarditas de origem portuguesa que fugira da Inquisição, Baruch de Spinoza recebeu formação rabínica, mas suas ideias logo o puseram em rota de colisão com a comunidade: em 1656 foi alvo de um herem (excomunhão) em termos de rara severidade. Recusou cátedras e honrarias para preservar a independência de pensamento e sustentou-se humildemente polindo lentes ópticas. Morreu cedo, em 1677, e suas obras principais — entre elas a Ética — só foram publicadas após sua morte. É considerado o mais radical dos racionalistas do século XVII. ...

Bernard Williams

Bernard Williams Bernard Williams foi um dos mais importantes filósofos morais britânicos do século XX e um dos críticos mais penetrantes da pretensão de fundar a ética em um sistema teórico único e impessoal. Lecionou em Cambridge, Berkeley e Oxford. Contra o utilitarismo e contra o kantismo, Williams insistiu na complexidade irredutível da vida moral, na importância da perspectiva em primeira pessoa, dos compromissos pessoais e das emoções, e na incapacidade das grandes teorias de capturar tudo o que importa eticamente. Sua escrita combina erudição clássica, sensibilidade psicológica e uma desconfiança elegante diante das simplificações filosóficas. ...

Buda

Buda Nota sobre fontes e datação: As datas de Sidarta Gautama (Siddhārtha Gautama; também chamado Śākyamuni, “o sábio dos Śākya”) são objeto de controvérsia acadêmica. A cronologia tradicional o situa em c. 563–483 a.C., mas a pesquisa revisada das últimas décadas tende a uma “datação curta”, colocando sua morte por volta de 400 a.C. (vida aproximada c. 480–400 a.C.). Igualmente importante: os ensinamentos do Buda foram transmitidos oralmente por gerações e só foram fixados por escrito séculos depois, sobretudo no Cânone Páli (Tipiṭaka, em sânscrito Tripiṭaka). Esses textos não são, portanto, escritos do próprio Buda, mas registros posteriores da comunidade monástica, e a reconstrução do que ele historicamente ensinou é tarefa filológica delicada. ...

Carol Gilligan

Carol Gilligan Carol Gilligan (nascida em 1936, em Nova York) é uma psicóloga e feminista norte-americana, professora na Universidade de Nova York (e, antes, em Harvard). É a principal responsável pela formulação da ética do cuidado (ethics of care), uma das contribuições mais discutidas da filosofia moral contemporânea, situada na fronteira entre a psicologia do desenvolvimento e a ética. Seu ponto de partida foi uma crítica metodológica. Trabalhando junto ao psicólogo Lawrence Kohlberg, cujas etapas do desenvolvimento moral colocavam o raciocínio por princípios abstratos e universais no topo da escala, Gilligan observou que essas etapas haviam sido construídas a partir de amostras masculinas e que, nelas, as mulheres tendiam a “pontuar” mais baixo. Em vez de concluir por uma deficiência feminina, ela inverteu a questão: e se houvesse ali outra voz moral, igualmente legítima, que a escala de Kohlberg não sabia ouvir? ...

Confúcio (Kǒngzǐ)

Confúcio (Kǒngzǐ) Confúcio (em chinês: Kǒngzǐ 孔子, “Mestre Kong”; latinização jesuíta: Confucius) nasceu no estado de Lu (atual província de Shandong, China) em 551 a.C. e faleceu em 479 a.C. Foi professor, funcionário público e reformador moral que, após uma vida de esforços políticos frustrados, dedicou-se ao ensino e ao estudo dos clássicos da Antiguidade chinesa. Seu pensamento é conhecido principalmente pelo Lunyu (Analectos 論語), compilação de ditos e diálogos feita por seus discípulos e pela tradição posterior — a historicidade de passagens individuais é objeto de debate entre especialistas. ...

Crisipo de Solos

Crisipo de Solos Crisipo de Solos (c. 280–c. 207 a.C.) foi o terceiro escolarca (diretor) da escola estoica de Atenas e é considerado, ao lado de Zenão de Cítio, o segundo fundador do Estoicismo. Enquanto Zenão fundou a escola e estabeleceu suas teses fundamentais, foi Crisipo quem elaborou sistematicamente a lógica, a física e a ética estoicas, produzindo uma obra monumental que a tradição antiga estimava em mais de 700 títulos — quase todos perdidos. O que sabemos de seu pensamento vem de fontes secundárias: Diógenes Laërcio, Plutarco, Cícero, Sextus Empiricus e Epicteto. ...

David Hume

David Hume Figura central do Iluminismo escocês, David Hume nasceu em Edimburgo em 1711. Publicou ainda muito jovem seu Tratado da Natureza Humana (1739-40), obra que, em suas próprias palavras, “caiu natimorta do prelo” e só seria reconhecida muito depois. Sua fama de cético em matéria de religião custou-lhe as cátedras universitárias a que aspirava; ganhou a vida como bibliotecário, secretário diplomático e, sobretudo, como ensaísta e historiador de grande êxito. Homem de temperamento sereno e afável — o “bom David” —, morreu em 1776 enfrentando a morte com a tranquilidade de um sábio. ...

Derek Parfit

Derek Parfit Derek Parfit (11 de dezembro de 1942, Chengdu, China — janeiro de 2017, Oxford) foi um filósofo britânico, fellow do All Souls College de Oxford, considerado um dos mais importantes filósofos morais do final do século XX. Trabalhava de modo obsessivo e quase ascético, e publicou pouco — mas cada obra deixou marca profunda na filosofia da identidade pessoal, da racionalidade e da ética. Seu Razões e Pessoas (Reasons and Persons, 1984) é uma das obras-referência da filosofia analítica contemporânea. ...

Diógenes de Sinope

Diógenes de Sinope “Diógenes, o cão” (kynikós) — refundador e principal figura do Cinismo. Vivia num grande jarro de cerâmica (pithos) em Atenas, reduzia as necessidades ao mínimo e desprezava toda convenção social. Dizia buscar “um ser humano” (ἄνθρωπον) andando com lanterna acesa à luz do dia. Quando Alexandre Magno se ofereceu a conceder-lhe qualquer desejo, pediu apenas que saísse da frente do sol. Encarnou o anticultural radical: a virtude exige autossuficiência total, não filosofia abstrata. ...

Elizabeth Anscombe

Elizabeth Anscombe Gertrude Elizabeth Margaret Anscombe (1919–2001) foi uma das mais originais filósofas analíticas do século XX. Aluna e amiga próxima de Ludwig Wittgenstein em Cambridge, tornou-se uma de suas executoras literárias e traduziu para o inglês as Investigações Filosóficas (Philosophical Investigations, 1953), tradução até hoje canônica. Católica convicta, uniu o rigor da tradição analítica a uma sensibilidade aristotélico-tomista que marcaria toda a sua obra. Sua monografia Intention (1957) é amplamente reconhecida como o texto fundador da filosofia da ação contemporânea, enquanto o artigo “Modern Moral Philosophy” (1958) é apontado como o ponto de partida do revival da ética da virtude no mundo anglófono. Lecionou em Oxford e, a partir de 1970, ocupou a cátedra de filosofia em Cambridge que pertencera a Wittgenstein. ...

Emmanuel Lévinas

Emmanuel Lévinas Filósofo lituano-francês, um dos pensadores mais importantes do século XX. Introduziu Husserl e Heidegger na França, mas depois os superou criticamente. Sobrevivente do Holocausto, desenvolveu uma filosofia onde a ética é a filosofia primeira — anterior à ontologia. Conceitos-chave O Rosto (le visage): a manifestação do Outro que me interpela e exige resposta — não é uma face física, mas uma presença ética que diz “não matarás”; o ponto de onde emerge toda responsabilidade moral Ética como filosofia primeira: contra Heidegger, para quem a ontologia (ser) é fundamento de tudo — para Lévinas, a relação ética com o Outro precede e funda toda ontologia Alteridade radical (autrui): o Outro não é redutível ao mesmo, não pode ser totalmente compreendido ou assimilado — sua irredutibilidade é o fato ético fundamental Totalidade e Infinito: a filosofia ocidental tende à “totalização” — englobar o diferente no mesmo. O Infinito irrompe nessa totalidade pelo rosto do Outro, resistindo à captura Responsabilidade infinita: sou responsável pelo Outro de modo assimétrico e sem reciprocidade — “sou responsável mesmo pelo que não fiz”; a responsabilidade precede a liberdade Il y a (há): experiência do ser anônimo, impessoal, ameaçador — o rumor do ser antes de qualquer existente; a noite em que o ser se torna insuportável Dizer e Dito (le Dire / le Dit): o “Dizer” é a exposição ética ao Outro, o ato de endereçamento; o “Dito” é o conteúdo proposicional — a ética está no Dizer, que o Dito sempre trai Influenciado por Husserl — fenomenologia (foi seu aluno e tradutor) Heidegger — ontologia fundamental (depois criticamente superado) Bergson — filosofia da duração e vida Tradição judaica (Talmude, Rosenzweig, Buber) Influenciou Derrida — desconstrução e ética (debate sobre violência e metafísica) Habermas — ética e reconhecimento do outro Judith Butler — vulnerabilidade e responsabilidade ética Teologia cristã e judaica contemporânea Estudos pós-coloniais e teoria do reconhecimento Obras Da Existência ao Existente (1947); Totalidade e Infinito (1961); De Outra Forma que Ser (1974); Ética e Infinito (1982). ...

Enrique Dussel

Enrique Dussel Nascido em Mendoza, na Argentina, em 1934, Enrique Dussel teve formação cosmopolita — estudou na Argentina, na Espanha, na França e na Alemanha, e pesquisou também a história da Igreja na América Latina. Após um atentado a bomba contra sua casa, exilou-se no México em 1975, onde se naturalizou e viveu até sua morte, em 2023. É o principal nome da Filosofia da Libertação latino-americana e uma referência central do pensamento decolonial. ...

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