Metaética: Realismo Moral, Emotivismo, Expressivismo e a Falácia Naturalista

Quando alguém afirma que “a tortura é errada”, discute-se normalmente se a afirmação é verdadeira, se é compatível com certas teorias morais ou se deve ser aplicada a um caso concreto. A metaética pergunta outra coisa: o que está sendo feito quando se faz tal afirmação? Ela descreve um fato, expressa uma atitude, prescreve uma conduta? Existem fatos morais independentes das mentes humanas? Se existem, como os conhecemos? Se não, em que sentido a moralidade pode ser objetiva ou racional? ...

Filosofia do Amor: do Banquete de Platão a Eros, Philia e Ágape

O português usa uma única palavra, “amor”, para designar o desejo erótico, o afeto entre amigos, a ternura familiar, a devoção religiosa e a benevolência para com desconhecidos. O grego antigo dispunha de vários termos, e a filosofia ocidental herdou três deles como categorias centrais: eros (o desejo que tende ao que lhe falta), philia (a amizade, a afeição recíproca) e ágape (o amor desinteressado, tornado central no cristianismo). O escritor C. S. Lewis, em Os Quatro Amores (The Four Loves, 1960), acrescentou ao grupo storgē, o afeto familiar, mas a tríade eros-philia-ágape continua a ser o eixo clássico da discussão. Este artigo percorre a história filosófica dessas ideias: começa com o Banquete e o Fedro de Platão, passa por Aristóteles e pela tradição cristã, e chega a Schopenhauer, Kierkegaard e à filosofia do século XX e atual. Os conceitos podem ser consultados nos verbetes do glossário: Eros, Philia e Ágape. ...

A República de Platão: Justiça, Alma Tripartite e o Rei-Filósofo

A República (em grego Politeia, em latim Res publica) é a obra mais extensa e mais influente de Platão (c. 428/427–348/347 a.C.) e, por consenso, um dos textos fundadores da filosofia política, da ética e da filosofia da educação no Ocidente. Composta provavelmente por volta de 375 a.C., no período chamado de maturidade, ela é apresentada como um diálogo narrado por Sócrates, que relata, na primeira pessoa, uma conversa ocorrida na casa de Céfalo, no Pireu. A pergunta que move o livro é, na formulação mais simples, esta: o que é a justiça, e por que viver justamente é melhor do que viver injustamente? Para respondê-la, Platão constrói em palavras uma cidade ideal e, em paralelo, uma teoria da alma, uma teoria do conhecimento e uma teoria da educação. ...

Filosofia da Educação: da Paideia Grega a Rousseau, Dewey e Freire

O que significa formar um ser humano? Poucas perguntas atravessam a história da filosofia com tanta persistência — e poucas têm consequências tão imediatas sobre a vida de cada pessoa e de cada sociedade. Educar é conduzir alguém para fora da ignorância ou é ajudá-lo a desenvolver o que já traz em si? É moldar o caráter segundo um modelo ou libertar uma capacidade de julgar por conta própria? Este artigo percorre as principais respostas filosóficas a essas perguntas, da paideia grega às pedagogias contemporâneas, passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, Comênio, Locke, Rousseau, Kant, Dewey e Freire. ...

A ética de Kant: o imperativo categórico, o dever e a autonomia da vontade

Num mundo em que ações boas produzem resultados desastrosos e ações vis produzem prosperidade, o que ainda pode ser chamado de bom sem reservas? Immanuel Kant respondeu a essa pergunta com uma clareza que perturbou a filosofia moral por mais de dois séculos: apenas a boa vontade merece o título de bem incondicionado. Não o talento, não a coragem, não mesmo a felicidade — pois todos esses bens podem ser usados para fins perversos. Somente a vontade que age por puro respeito à lei moral, independentemente de suas consequências, possui valor moral em si mesma. A partir dessa intuição inaugural, Kant construiu, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e na Crítica da Razão Prática (1788), a arquitetura ética mais ambiciosa e mais discutida da modernidade. ...

Deontologia, consequencialismo e ética da virtude: as três grandes teorias normativas

Você se depara com uma promessa que não pode cumprir sem causar dano a terceiros. Deve mantê-la, ou quebrá-la para evitar o mal? Um juiz sabe que condenar um inocente acalmará uma multidão que, do contrário, fará linchamentos e matará vinte pessoas. Deve sacrificar o inocente? Não há resposta simples — e é exatamente esse desconforto que revela por que a filosofia moral precisa de teorias. Há três grandes famílias de resposta à pergunta “o que torna uma ação moralmente correta?”: o consequencialismo, que olha para os resultados; a deontologia, que olha para deveres e regras; e a ética da virtude, que olha para o caráter do agente. Compreender como cada uma pensa, onde cada uma acerta e onde tropeça é o mapa mínimo para qualquer debate ético sério. ...

O problema do bonde: dilemas morais, duplo efeito e os limites do consequencialismo

Um bonde desgovernado avança sobre cinco pessoas presas aos trilhos. Você está ao lado de uma alavanca que pode desviá-lo para um ramal — onde há apenas uma pessoa. Puxar a alavanca? A maioria diz que sim. Agora outra cena: não há alavanca, mas você está numa passarela ao lado de um homem corpulento; empurrá-lo sobre os trilhos deteria o bonde e salvaria os cinco. A maioria, agora, recusa. Por que cinco-por-um é aceitável num caso e repugnante no outro, se a aritmética é a mesma? Essa é a forma mais célebre do problema do bonde — talvez o experimento mental mais conhecido da ética. ...

Utilitarismo: de Bentham e Mill a Singer — a maior felicidade e suas críticas

Poucas teorias morais foram tão influentes — e tão atacadas — quanto o utilitarismo. Sua ideia central é desconcertantemente simples: a ação correta é aquela que produz a maior quantidade de bem-estar para o maior número de afetados. Nascido como filosofia reformadora na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, moldou o direito penal, a economia do bem-estar, as políticas públicas e, mais recentemente, a ética animal e o combate à pobreza global. Este artigo expõe sua estrutura, seus principais autores e as objeções que o perseguem. ...

O sentido da vida e o absurdo: de Schopenhauer e Camus a Nagel e Susan Wolf

Poucas perguntas são tão imediatas e tão difíceis quanto esta: a vida tem sentido? Ela pode irromper numa madrugada de insônia, num luto ou no tédio de uma rotina, e desafia tanto o crente quanto o cético. Embora seja antiquíssima em substância — atravessa o Eclesiastes, os estoicos e Agostinho —, só recentemente tornou-se um tema explícito e tecnicamente trabalhado da filosofia. Este artigo percorre suas formulações principais: a crise do sentido cósmico, o pessimismo, o absurdo de Camus, a resposta irônica de Nagel e a virada analítica que distingue o sentido da vida do sentido na vida. ...

Ética de Aristóteles: Eudaimonia, Virtude e o Justo Meio na Ética a Nicômaco

O que é uma vida boa? Não uma vida agradável, nem uma vida bem-sucedida aos olhos dos outros, mas uma vida verdadeiramente realizada, à altura do que somos. A resposta de Aristóteles a essa pergunta, exposta na Ética a Nicômaco, é uma das mais influentes da história — e, depois de séculos de relativo eclipse diante das morais do dever e do cálculo de consequências, voltou ao centro do debate filosófico contemporâneo sob o nome de “ética das virtudes”. Este artigo percorre o núcleo dessa ética: a eudaimonia como fim último, a virtude como hábito e justo meio, a prudência e a amizade. Para a metafísica de Aristóteles, veja o artigo sobre a substância; para sua teoria da justiça, o artigo sobre justiça. ...

Lévinas — A Ética do Outro: Rosto, Alteridade e Responsabilidade

Imagine que toda a filosofia ocidental, de Parmênides a Heidegger, tenha cometido o mesmo gesto fundamental: reduzir o que é diferente ao que é idêntico, absorver o estranho no familiar, converter o Outro em um objeto do meu saber. Essa é a acusação que percorre a obra de Emmanuel Lévinas (1906–1995). Contra uma tradição que fez da pergunta pelo ser a sua questão maior, Lévinas afirma algo aparentemente simples e radicalmente subversivo: antes da ontologia há a ética. Antes de eu compreender o mundo, já estou obrigado por um rosto que me olha e diz “não matarás”. ...

Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo e o Feminismo Existencialista

Durante décadas, manuais de filosofia trataram Simone de Beauvoir como um apêndice de Jean-Paul Sartre — a companheira talentosa que aplicou ao “problema feminino” ideias que, supostamente, não eram suas. Essa leitura é tenaz, mas a pesquisa recente a contesta: Beauvoir foi uma filósofa original, cujas contribuições à ética existencialista e à teoria da opressão antecedem, em pontos decisivos, formulações que mais tarde se atribuíram a Sartre. E foi ela, não ele, quem produziu a obra que fundaria filosoficamente o feminismo do século XX. Ler Beauvoir como pensadora por direito próprio não é um gesto de cortesia historiográfica: é uma exigência de rigor. ...

Bem-estar Animal: Peter Singer, Especismo e a Libertação Animal

Uma Revolução Moral Silenciosa Em 1975, o filósofo australiano Peter Singer publicou Animal Liberation — livro que se tornaria um dos textos filosóficos com maior impacto prático do século XX, dando impulso decisivo ao movimento pelos direitos animais e motivando mudanças na legislação de vários países. A tese central é ao mesmo tempo simples e radical: a exclusão dos animais não-humanos da consideração moral plena não tem justificação racional — é uma forma de preconceito comparável ao racismo e ao sexismo. ...

Bioética: Princípios, Dilemas e as Fronteiras da Vida

O Nascimento de um Campo O termo bioética foi cunhado pelo oncologista e bioquímico Van Rensselaer Potter em 1971, no livro Bioethics: Bridge to the Future. Para Potter, a bioética era uma disciplina de síntese entre as ciências biológicas e os valores humanos — uma “ponte” capaz de orientar a humanidade diante dos riscos que o progresso tecnológico impunha à sobrevivência da espécie e do ecossistema. Potter entendia a bioética em sentido amplo, quase ambiental, englobando a relação do ser humano com toda a biosfera. ...

Ética Ambiental: Hans Jonas e o Princípio Responsabilidade

O Problema da Ética na Era Tecnológica A ética filosófica, desde os gregos até Kant, foi elaborada para um mundo de alcance humano limitado. As ações dos seres humanos afetavam o entorno imediato — a polis, a família, os contemporâneos. O futuro distante e a natureza não-humana permaneciam fora do escopo da consideração moral: eram domínios da teologia, da cosmologia ou simplesmente dados imutáveis do cenário no qual a ética operava. ...

Ética da Inteligência Artificial: Algoritmos, Poder e Responsabilidade

Tecnologia e Ética: Uma Relação Antiga, Um Problema Novo A inquietação ética diante do poder tecnológico não é nova. No século XX, Norbert Wiener — matemático do MIT e fundador da cibernética — dedicou o livro The Human Use of Human Beings (1950) a refletir sobre as implicações morais e sociais das máquinas automatizadas. Wiener alertava para os riscos de sistemas que, uma vez em operação, produzem consequências independentes da intenção original de seus criadores, e para a possibilidade de que a automação gerasse desemprego em massa e concentração de poder. ...

Livre-Arbítrio: Compatibilismo, Determinismo e a Questão da Responsabilidade Moral

O Problema Imagine que cada pensamento que você tem, cada decisão que toma, cada movimento que faz, é o resultado necessário de estados cerebrais anteriores — que por sua vez resultam de estados físicos anteriores, numa cadeia que remonta ao Big Bang. Se isso for verdade, em que sentido você é livre para fazer diferente do que faz? E se não é livre, como podemos responsabilizá-lo moralmente por suas ações? ...

Spinoza e o Panteísmo Racional: Deus sive Natura, Monismo e Conatus

Existe um filósofo que, escrevendo em latim em uma pequena casa em Haia no século XVII, formulou uma das visões de mundo mais radicais que a filosofia ocidental jamais produziu — e o fez sob a forma improvável de um tratado de geometria. Esse filósofo é Baruch (Bento) de Spinoza (1632–1677), e o tratado é a Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, publicada postumamente no ano de sua morte. Em pouco mais de duzentas páginas, organizadas em definições, axiomas, proposições e demonstrações, Spinoza propõe simultaneamente uma metafísica do absoluto, uma teoria dos afetos humanos, uma psicologia do conhecimento e uma ética da liberdade. Sua influência atravessa três séculos — Lessing, Goethe, Hegel, Marx, Nietzsche, Deleuze, Antonio Damasio — e seu nome ainda funciona, na história da filosofia, como cifra de uma decisão intelectual: pensar Deus, a natureza e o ser humano como expressões de uma única realidade. ...

Sócrates, Platão e Aristóteles: a Tríade Fundadora e a Ordem da Filosofia Grega

Há três nomes que toda história da filosofia ocidental é obrigada a pronunciar nesta ordem: Sócrates, Platão e Aristóteles. Não é uma sequência arbitrária. Trata-se de uma cadeia de transmissão direta — Sócrates foi mestre de Platão; Platão foi mestre de Aristóteles — que, em pouco mais de um século, transformou Atenas no centro do pensamento racional do mundo antigo e fixou os problemas, os métodos e o vocabulário que a filosofia usaria pelos próximos dois mil anos. ...

Estoicismo — Ética, Virtude e a Arte de Viver segundo a Natureza

Entre todas as escolas filosóficas da Antiguidade, nenhuma exerceu influência tão prolongada e tão diversificada quanto o estoicismo. Fundado em Atenas por volta de 300 a.C. por Zenão de Cítio, o estoicismo atravessou cinco séculos, moldou o direito romano, infiltrou-se no cristianismo primitivo e ressurgiu com força no Renascimento, no Iluminismo e — mais recentemente — na psicoterapia cognitivo-comportamental e nos movimentos de autoajuda filosófica. A razão dessa longevidade é simples: o estoicismo oferece uma resposta coerente e praticável à pergunta mais urgente da existência humana — como viver bem num mundo que não controlamos? ...

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