Filosofia da Educação: da Paideia Grega a Rousseau, Dewey e Freire

O que significa formar um ser humano? Poucas perguntas atravessam a história da filosofia com tanta persistência — e poucas têm consequências tão imediatas sobre a vida de cada pessoa e de cada sociedade. Educar é conduzir alguém para fora da ignorância ou é ajudá-lo a desenvolver o que já traz em si? É moldar o caráter segundo um modelo ou libertar uma capacidade de julgar por conta própria? Este artigo percorre as principais respostas filosóficas a essas perguntas, da paideia grega às pedagogias contemporâneas, passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, Comênio, Locke, Rousseau, Kant, Dewey e Freire. ...

A ética de Kant: o imperativo categórico, o dever e a autonomia da vontade

Num mundo em que ações boas produzem resultados desastrosos e ações vis produzem prosperidade, o que ainda pode ser chamado de bom sem reservas? Immanuel Kant respondeu a essa pergunta com uma clareza que perturbou a filosofia moral por mais de dois séculos: apenas a boa vontade merece o título de bem incondicionado. Não o talento, não a coragem, não mesmo a felicidade — pois todos esses bens podem ser usados para fins perversos. Somente a vontade que age por puro respeito à lei moral, independentemente de suas consequências, possui valor moral em si mesma. A partir dessa intuição inaugural, Kant construiu, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e na Crítica da Razão Prática (1788), a arquitetura ética mais ambiciosa e mais discutida da modernidade. ...

Deontologia, consequencialismo e ética da virtude: as três grandes teorias normativas

Você se depara com uma promessa que não pode cumprir sem causar dano a terceiros. Deve mantê-la, ou quebrá-la para evitar o mal? Um juiz sabe que condenar um inocente acalmará uma multidão que, do contrário, fará linchamentos e matará vinte pessoas. Deve sacrificar o inocente? Não há resposta simples — e é exatamente esse desconforto que revela por que a filosofia moral precisa de teorias. Há três grandes famílias de resposta à pergunta “o que torna uma ação moralmente correta?”: o consequencialismo, que olha para os resultados; a deontologia, que olha para deveres e regras; e a ética da virtude, que olha para o caráter do agente. Compreender como cada uma pensa, onde cada uma acerta e onde tropeça é o mapa mínimo para qualquer debate ético sério. ...

O problema do bonde: dilemas morais, duplo efeito e os limites do consequencialismo

Um bonde desgovernado avança sobre cinco pessoas presas aos trilhos. Você está ao lado de uma alavanca que pode desviá-lo para um ramal — onde há apenas uma pessoa. Puxar a alavanca? A maioria diz que sim. Agora outra cena: não há alavanca, mas você está numa passarela ao lado de um homem corpulento; empurrá-lo sobre os trilhos deteria o bonde e salvaria os cinco. A maioria, agora, recusa. Por que cinco-por-um é aceitável num caso e repugnante no outro, se a aritmética é a mesma? Essa é a forma mais célebre do problema do bonde — talvez o experimento mental mais conhecido da ética. ...

Utilitarismo: de Bentham e Mill a Singer — a maior felicidade e suas críticas

Poucas teorias morais foram tão influentes — e tão atacadas — quanto o utilitarismo. Sua ideia central é desconcertantemente simples: a ação correta é aquela que produz a maior quantidade de bem-estar para o maior número de afetados. Nascido como filosofia reformadora na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, moldou o direito penal, a economia do bem-estar, as políticas públicas e, mais recentemente, a ética animal e o combate à pobreza global. Este artigo expõe sua estrutura, seus principais autores e as objeções que o perseguem. ...

O sentido da vida e o absurdo: de Schopenhauer e Camus a Nagel e Susan Wolf

Poucas perguntas são tão imediatas e tão difíceis quanto esta: a vida tem sentido? Ela pode irromper numa madrugada de insônia, num luto ou no tédio de uma rotina, e desafia tanto o crente quanto o cético. Embora seja antiquíssima em substância — atravessa o Eclesiastes, os estoicos e Agostinho —, só recentemente tornou-se um tema explícito e tecnicamente trabalhado da filosofia. Este artigo percorre suas formulações principais: a crise do sentido cósmico, o pessimismo, o absurdo de Camus, a resposta irônica de Nagel e a virada analítica que distingue o sentido da vida do sentido na vida. ...

Ética de Aristóteles: Eudaimonia, Virtude e o Justo Meio na Ética a Nicômaco

O que é uma vida boa? Não uma vida agradável, nem uma vida bem-sucedida aos olhos dos outros, mas uma vida verdadeiramente realizada, à altura do que somos. A resposta de Aristóteles a essa pergunta, exposta na Ética a Nicômaco, é uma das mais influentes da história — e, depois de séculos de relativo eclipse diante das morais do dever e do cálculo de consequências, voltou ao centro do debate filosófico contemporâneo sob o nome de “ética das virtudes”. Este artigo percorre o núcleo dessa ética: a eudaimonia como fim último, a virtude como hábito e justo meio, a prudência e a amizade. Para a metafísica de Aristóteles, veja o artigo sobre a substância; para sua teoria da justiça, o artigo sobre justiça. ...

Lévinas — A Ética do Outro: Rosto, Alteridade e Responsabilidade

Imagine que toda a filosofia ocidental, de Parmênides a Heidegger, tenha cometido o mesmo gesto fundamental: reduzir o que é diferente ao que é idêntico, absorver o estranho no familiar, converter o Outro em um objeto do meu saber. Essa é a acusação que percorre a obra de Emmanuel Lévinas (1906–1995). Contra uma tradição que fez da pergunta pelo ser a sua questão maior, Lévinas afirma algo aparentemente simples e radicalmente subversivo: antes da ontologia há a ética. Antes de eu compreender o mundo, já estou obrigado por um rosto que me olha e diz “não matarás”. ...

Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo e o Feminismo Existencialista

Durante décadas, manuais de filosofia trataram Simone de Beauvoir como um apêndice de Jean-Paul Sartre — a companheira talentosa que aplicou ao “problema feminino” ideias que, supostamente, não eram suas. Essa leitura é tão tenaz quanto equivocada. Beauvoir foi uma filósofa original, cujas contribuições à ética existencialista e à teoria da opressão antecedem, em pontos decisivos, formulações que mais tarde se atribuíram a Sartre. E foi ela, não ele, quem produziu a obra que fundaria filosoficamente o feminismo do século XX. Ler Beauvoir como pensadora por direito próprio não é um gesto de cortesia historiográfica: é uma exigência de rigor. ...

Bem-estar Animal: Peter Singer, Especismo e a Libertação Animal

Uma Revolução Moral Silenciosa Em 1975, o filósofo australiano Peter Singer publicou Animal Liberation — livro que se tornaria um dos textos filosóficos com maior impacto prático do século XX, dando impulso decisivo ao movimento pelos direitos animais e motivando mudanças na legislação de vários países. A tese central é ao mesmo tempo simples e radical: a exclusão dos animais não-humanos da consideração moral plena não tem justificação racional — é uma forma de preconceito comparável ao racismo e ao sexismo. ...

Bioética: Princípios, Dilemas e as Fronteiras da Vida

O Nascimento de um Campo O termo bioética foi cunhado pelo oncologista e bioquímico Van Rensselaer Potter em 1971, no livro Bioethics: Bridge to the Future. Para Potter, a bioética era uma disciplina de síntese entre as ciências biológicas e os valores humanos — uma “ponte” capaz de orientar a humanidade diante dos riscos que o progresso tecnológico impunha à sobrevivência da espécie e do ecossistema. Potter entendia a bioética em sentido amplo, quase ambiental, englobando a relação do ser humano com toda a biosfera. ...

Ética Ambiental: Hans Jonas e o Princípio Responsabilidade

O Problema da Ética na Era Tecnológica A ética filosófica, desde os gregos até Kant, foi elaborada para um mundo de alcance humano limitado. As ações dos seres humanos afetavam o entorno imediato — a polis, a família, os contemporâneos. O futuro distante e a natureza não-humana permaneciam fora do escopo da consideração moral: eram domínios da teologia, da cosmologia ou simplesmente dados imutáveis do cenário no qual a ética operava. ...

Ética da Inteligência Artificial: Algoritmos, Poder e Responsabilidade

Tecnologia e Ética: Uma Relação Antiga, Um Problema Novo A inquietação ética diante do poder tecnológico não é nova. No século XX, Norbert Wiener — matemático do MIT e fundador da cibernética — dedicou o livro The Human Use of Human Beings (1950) a refletir sobre as implicações morais e sociais das máquinas automatizadas. Wiener alertava para os riscos de sistemas que, uma vez em operação, produzem consequências independentes da intenção original de seus criadores, e para a possibilidade de que a automação gerasse desemprego em massa e concentração de poder. ...

Livre-Arbítrio: Compatibilismo, Determinismo e a Questão da Responsabilidade Moral

O Problema Imagine que cada pensamento que você tem, cada decisão que toma, cada movimento que faz, é o resultado necessário de estados cerebrais anteriores — que por sua vez resultam de estados físicos anteriores, numa cadeia que remonta ao Big Bang. Se isso for verdade, em que sentido você é livre para fazer diferente do que faz? E se não é livre, como podemos responsabilizá-lo moralmente por suas ações? ...

Spinoza e o Panteísmo Racional: Deus sive Natura, Monismo e Conatus

Existe um filósofo que, escrevendo em latim em uma pequena casa em Haia no século XVII, formulou uma das visões de mundo mais radicais que a filosofia ocidental jamais produziu — e o fez sob a forma improvável de um tratado de geometria. Esse filósofo é Baruch (Bento) de Spinoza (1632–1677), e o tratado é a Ética demonstrada segundo a ordem geométrica, publicada postumamente no ano de sua morte. Em pouco mais de duzentas páginas, organizadas em definições, axiomas, proposições e demonstrações, Spinoza propõe simultaneamente uma metafísica do absoluto, uma teoria dos afetos humanos, uma psicologia do conhecimento e uma ética da liberdade. Sua influência atravessa três séculos — Lessing, Goethe, Hegel, Marx, Nietzsche, Deleuze, Antonio Damasio — e seu nome ainda funciona, na história da filosofia, como cifra de uma decisão intelectual: pensar Deus, a natureza e o ser humano como expressões de uma única realidade. ...

Sócrates, Platão e Aristóteles: a Tríade Fundadora e a Ordem da Filosofia Grega

Há três nomes que toda história da filosofia ocidental é obrigada a pronunciar nesta ordem: Sócrates, Platão e Aristóteles. Não é uma sequência arbitrária. Trata-se de uma cadeia de transmissão direta — Sócrates foi mestre de Platão; Platão foi mestre de Aristóteles — que, em pouco mais de um século, transformou Atenas no centro do pensamento racional do mundo antigo e fixou os problemas, os métodos e o vocabulário que a filosofia usaria pelos próximos dois mil anos. ...

Estoicismo — Ética, Virtude e a Arte de Viver segundo a Natureza

Entre todas as escolas filosóficas da Antiguidade, nenhuma exerceu influência tão prolongada e tão diversificada quanto o estoicismo. Fundado em Atenas por volta de 300 a.C. por Zenão de Cítio, o estoicismo atravessou cinco séculos, moldou o direito romano, infiltrou-se no cristianismo primitivo e ressurgiu com força no Renascimento, no Iluminismo e — mais recentemente — na psicoterapia cognitivo-comportamental e nos movimentos de autoajuda filosófica. A razão dessa longevidade é simples: o estoicismo oferece uma resposta coerente e praticável à pergunta mais urgente da existência humana — como viver bem num mundo que não controlamos? ...

Autonomia na Filosofia: de Kant à Bioética Contemporânea

Introdução: o que é autonomia? Poucos conceitos filosóficos atravessam tantos domínios — moral, político, existencial, jurídico, médico — quanto o de autonomia. A palavra provém do grego autós (si mesmo) e nómos (lei, norma): governar-se a si mesmo, dar-se a própria lei. Na Grécia antiga, o termo designava originalmente a condição das póleis que se regiam por leis próprias, sem sujeição a um poder estrangeiro. Uma cidade autônoma era aquela que exercia soberania sobre sua organização interna. ...

Bíos: Os Modos de Vida na Filosofia Grega — De Aristóteles a Agamben

Poucas distinções filosóficas são tão reveladoras quanto aquela que os gregos traçaram entre bíos (βίος) e zoé (ζωή). A primeira designa a vida qualificada — o modo como alguém escolhe viver, o perfil ético e político de uma existência; a segunda indica o simples fato de estar vivo, a vida biológica partilhada por todos os seres animados. Essa diferença, aparentemente terminológica, carrega consigo uma das questões mais profundas da filosofia: o que significa viver bem? ...

Hedonismo: O Prazer como Princípio Filosófico de Aristipo a Epicuro e ao Utilitarismo

De todas as respostas que a filosofia ofereceu à pergunta “o que é o bem?”, poucas foram tão intuitivas — e tão mal compreendidas — quanto a do hedonismo: o prazer é o bem supremo. A palavra evoca, no senso comum, imagens de excesso e indulgência, banquetes romanos e desregramento moral. Mas o hedonismo filosófico é outra coisa: uma tradição ética milenar que começa com Aristipo de Cirene no século V a.C., ganha sua forma mais sofisticada com Epicuro e ressurge na modernidade como pedra angular do utilitarismo de Bentham e Mill. ...

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