Período: 1543 (De Revolutionibus de Copérnico) – 1687 (Principia de Newton) | Contexto: ruptura com a cosmologia aristotélico-ptolomaica; nascimento da ciência moderna como investigação matemática e experimental da natureza
Contexto
A Revolução Científica transforma a visão de mundo: da Terra como centro (Ptolomeu + Aristóteles) para um universo heliocêntrico e depois infinito. A ciência deixa de ser contemplação essencialista das substâncias (Aristóteles) e passa a ser investigação quantitativa, matemática e experimental dos fenômenos. Copérnico, Kepler e Galileu são herdeiros do neoplatonismo (Deus geometriza o mundo); Newton sintetiza tudo numa física universal.
I. Nicolau Copérnico (1473–1543)
Síntese
Cônego polaco; morreu no mesmo ano em que publicou sua obra-mestra — segundo a tradição, teria recebido o primeiro exemplar no leito de morte (relato hoje tido por lendário).
Teses
- Heliocentrismo: o Sol, não a Terra, está no centro do universo
- A Terra é esférica, gira em torno do Sol e ao redor do próprio eixo
- O movimento dos corpos celestes é circular e uniforme (pressuposto ainda aristotélico)
- A dimensão do universo é imensamente maior do que se pensava
- Base metafísica: interpretação realista do platonismo — o Sol como símbolo do Bem supremo
Impacto
Iniciou a “revolução copernicana” — não apenas na astronomia, mas na filosofia (Kant usará o termo para sua própria guinada epistemológica)
Referências
- Das Revoluções das Esferas Celestes (De Revolutionibus Orbium Coelestium, 1543)
- Alexandre Koyré, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito
II. Tycho Brahe (1546–1601)
Síntese
Astrônomo dinamarquês; observador sistemático sem telescópio; maior banco de dados celestes da época.
Teses
- Propôs um terceiro sistema: a Terra permanece no centro; o Sol e a Lua giram em torno da Terra; os 5 planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno) giram em torno do Sol
- Recusou tanto Ptolomeu quanto Copérnico
Legado
Seus dados foram herdados por Kepler, que os usou para demonstrar as órbitas elípticas.
III. Johannes Kepler (1571–1630)
Síntese
Astrônomo e matemático alemão; copernicano convicto e neoplatônico. Acreditava que Deus é geômetra e a natureza obedece a regras matemáticas. Estudou o movimento de Marte por 10 anos.
As Três Leis de Kepler
- 1.ª Lei (órbitas elípticas): as órbitas dos planetas são elipses, com o Sol em um dos focos
- 2.ª Lei (áreas iguais): a linha que liga o Sol ao planeta varre áreas iguais em tempos iguais — o planeta acelera perto do Sol
- 3.ª Lei (harmonia): o quadrado do período de revolução é proporcional ao cubo da distância média ao Sol (T² ∝ a³)
Metafísica do Sol
Misticismo pitagórico: o Sol como imagem de Deus Pai; o universo como imagem da Trindade (Sol/espaço/movimento)
Referências
- Astronomia Nova (1609) — 1.ª e 2.ª leis
- Harmonia do Mundo (Harmonices Mundi, 1619) — 3.ª lei
- Mistério Cosmográfico (Mysterium Cosmographicum, 1596)
IV. Galileu Galilei (1564–1642)
Síntese
“Pai da ciência moderna”. Leva o telescópio para a astronomia; confirma o heliocentrismo empiricamente; funda a mecânica moderna.
Contribuições científicas
- Telescópio (aperfeiçoado em 1609): montanhas na Lua, 4 luas de Júpiter, fases de Vênus, manchas solares — contradições ao aristotelismo celeste
- Mecânica: lei da queda dos corpos; lei do pêndulo; princípio da inércia (antecipa Newton)
- Experimento idealizado: a experiência de Pisa (torre inclinada) provavelmente nunca ocorreu fisicamente — foi uma experiência mental, conforme demonstrou Alexandre Koyré
Método científico
- Realismo matemático: “O livro da natureza está escrito em linguagem matemática” (Il Saggiatore)
- Não é essencialista (abandona a busca pelas substâncias de Aristóteles)
- Pesquisa quantitativa: causas mecânicas, não finais
- Combina o platonismo na filosofia (o real é matemático) com o aristotelismo no método (parte dos fenômenos)
O processo (1633)
- Em 1616, a Igreja condena o heliocentrismo como herético
- Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo (1632) — condena ao processo
- Condenado à prisão domiciliar até a morte (1642); a sentença foi revogada pela Igreja em 1992
Ciência e fé
Posição “e-e”, não “ou-ou”: ciência e fé ocupam domínios distintos; a Bíblia ensina a ir ao céu, não como o céu funciona
Referências
- Sidereus Nuncius (Mensageiro Sideral, 1610)
- Il Saggiatore (1623) — linguagem matemática da natureza
- Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo (1632)
- Discursos sobre Duas Novas Ciências (1638) — mecânica
- Alexandre Koyré, Estudos Galileanos
V. Isaac Newton (1643–1727)
Síntese
Maior síntese da Revolução Científica. Unifica mecânica celeste e terrestre numa única lei; funda a física clássica que dominará até Einstein. Base do Empirismo (Hume, Locke), do Iluminismo e da filosofia crítica de Kant (“o céu estrelado acima de mim”).
A Lei da Gravidade
- Todos os corpos se atraem com força proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância (F = G·m₁·m₂/r²)
- Um único princípio explica a queda das maçãs e o movimento dos planetas
As Três Leis do Movimento
- Inércia: um corpo em repouso permanece em repouso e um em movimento uniforme retilíneo continua assim, salvo força externa
- Força = massa × aceleração (F = m·a)
- Ação e reação: para toda ação há uma reação igual e contrária
Quatro Regras do Filosofar (Principia, Livro III)
- Não admitir mais causas do que as necessárias e suficientes
- Atribuir as mesmas causas a efeitos naturais da mesma espécie
- Qualidades universais confirmadas pelos experimentos devem ser assumidas como propriedades de todos os corpos
- Proposições inferidas dos fenômenos por indução geral devem ser tomadas como verdadeiras até que surjam exceções
Filosofia e Deus
Newton não era deísta simples: o universo-relógio exige um Criador que o fez e sustenta; o espaço absoluto é o “sensorium” de Deus
Referências
- Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687) — mecânica, gravitação
- Óptica (Opticks, 1704) — luz e cores
- Newton não construiu hipóteses (“Hypotheses non fingo”) — apenas leis verificadas pela experiência
Impacto filosófico geral
| Filósofo | Influência da Rev. Científica |
|---|---|
| Francis Bacon | Método experimental e indutivo como modelo do novo saber |
| Descartes | Universo como máquina regida por leis matemáticas |
| Leibniz | Co-inventor do cálculo infinitesimal (independente de Newton) |
| Hume | Causalidade como hábito da mente, não lei necessária |
| Kant | Revolução copernicana na epistemologia; o céu estrelado como dado moral |
| Iluministas | Progresso da razão; reforma das instituições pelo modelo científico |
Referências gerais
- Alexandre Koyré, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito (trad. port. Forense)
- Alexandre Koyré, Estudos Galileanos
- Steven Shapin, A Revolução Científica
- I. Bernard Cohen, A Revolução Newtoniana
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 3, cap. Revolução Científica
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume
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