Período: ~1600–1750 | Contexto: dois grandes projetos para fundar o conhecimento seguro — pela razão (inata, a priori) ou pela experiência (a posteriori)
O problema comum
Ambas as correntes respondem à pergunta: como são possíveis o conhecimento seguro e a ciência?
- Racionalismo (Descartes, Spinoza, Leibniz): o conhecimento certo parte de princípios inatos ou a priori na razão; a sensação “esconde” a causa — é preciso “saltar o muro” pela razão pura
- Empirismo (Bacon, Locke, Berkeley, Hume): o conhecimento começa e se fundamenta na experiência sensorial; a sensação “revela” a causa — é preciso “chegar ao outro lado do muro” inspecionando o lado de cá
Kant, no séc. XVIII, tentará a síntese dessas duas posições.
Parte I — Racionalismo
1. René Descartes (1596–1650) — “Pai do Racionalismo”
Projeto: encontrar as primeiras verdades absolutamente certas e delas deduzir todo o saber — como em matemática.
O Método (Discurso do Método, 1637)
Quatro regras:
- Evidência: aceitar apenas o que se apresenta clara e distintamente à razão (nenhuma precipitação)
- Análise: dividir cada dificuldade em tantas partes quantas forem possíveis
- Síntese: conduzir os pensamentos dos mais simples e fáceis aos mais compostos
- Enumeração: rever e verificar para não omitir nada
Antes de aplicá-lo à filosofia, aplica à matemática (única ciência com demonstrações certas). Moral provisória: obedecer as leis e costumes vigentes enquanto não encontra a verdade definitiva.
A Dúvida Metódica (Meditações, 1641)
- Os sentidos às vezes enganam → duvida das percepções sensoriais
- Às vezes erramos ao raciocinar → duvida do conhecimento racional
- Pode estar sonhando → duvida de toda realidade
- Hipótese do “gênio maligno” onipotente que o engana → dúvida radical de tudo
Cogito ergo sum (“Penso, logo existo”): a única certeza que a dúvida não pode eliminar é que, enquanto duvido, estou pensando — e pensar pressupõe que existo. É o primeiro princípio da filosofia moderna.
Provas da existência de Deus
- Causalidade das ideias: tenho a ideia de um ser infinitamente perfeito; essa ideia não pode vir de mim (ser imperfeito) → veio de Deus
- Argumento ontológico (versão cartesiana): Deus = ser sumamente perfeito; existir é uma perfeição → Deus existe necessariamente
Deus não engana → posso confiar na razão e nos sentidos (usados corretamente) → o mundo externo existe
Dualismo mente-corpo
- Res cogitans (coisa pensante): a alma/mente — substância cujo atributo é o pensamento
- Res extensa (coisa extensa): o corpo/matéria — substância cujo atributo é a extensão
- O homem = união das duas substâncias (problema: como se comunicam?)
- Solução cartesiana: glândula pineal como ponto de interação
Ideias inatas
Algumas ideias não vêm da experiência: a ideia de Deus, os axiomas matemáticos, a ideia de infinito
Obras
- Discurso do Método (1637); Meditações sobre Filosofia Primeira (1641); Princípios da Filosofia (1644); As Paixões da Alma (1649)
2. Nicolas Malebranche (1638–1715)
- Ocasionalismo: mente e corpo não interagem causalmente; Deus é o único agente real; toda “causa” é apenas ocasião para a ação de Deus
- Influência de Agostinho e Descartes
- Obras: Da Investigação da Verdade
3. Benedito de Espinosa / Baruch Spinoza (1632–1677)
Projeto: aplicar o método geométrico à filosofia — definições, axiomas, proposições, demonstrações.
Monismo da substância
- Existe uma única substância: Deus sive Natura (Deus ou Natureza)
- Esta substância tem infinitos atributos, dos quais conhecemos dois: pensamento e extensão
- Os seres individuais são modos (modificações) desta substância única
Consequências
- Panteísmo/Imanentismo: Deus não é criador transcendente — é a própria natureza em sua totalidade
- Determinismo absoluto: tudo que acontece é necessário; não há contingência, nem livre-arbítrio no sentido usual
- Liberdade = compreensão da necessidade; agir segundo a razão (causa adequada) em vez de ser movido por paixões externas
- Ética como geometria: as paixões têm causas necessárias; o conhecimento do terceiro gênero (intuição sub specie aeternitatis) liberta
Três gêneros de conhecimento
- Opinião/Imaginação: imagens confusas — fonte do erro
- Razão: noções comuns, relações necessárias — conhecimento adequado
- Intuição (scientia intuitiva): conhecimento de Deus e das coisas como partes do todo; amor intelectual de Deus
Política
- Tratado Teológico-Político: separação de teologia e filosofia; democracia como melhor regime para a liberdade de pensamento
Obras
- Ética Demonstrada segundo a Ordem Geométrica (1677, póstuma); Tratado Teológico-Político (1670); Tratado Político
4. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716)
Projeto: sistema metafísico completo que concilie ciência moderna, teologia e filosofia tradicional.
Mônadas
- A realidade última é composta de mônadas — substâncias simples, imateriais, sem janelas (não interagem causalmente)
- Cada mônada espelha o universo inteiro de seu próprio ponto de vista (percepções)
- Hierarquia: mônadas brutas → almas (animais) → espíritos/mentes (humanos) → Deus (Mônada das Mônadas)
Harmonia pré-estabelecida
- Deus, ao criar, programou cada mônada para que suas percepções coincidam com as de todas as outras — como dois relógios acertados juntos
- Solução ao problema mente-corpo sem ocasionalismo nem interação real
Lógica e Princípios
- Dois grandes princípios: identidade/não-contradição (verdades de razão) e razão suficiente (verdades de fato — nada acontece sem razão)
- Projeto de uma characteristica universalis — linguagem formal universal do pensamento (antecipa a lógica simbólica)
Teodiceia
- Deus criou o melhor dos mundos possíveis — o que tem o máximo de perfeição compatível com a existência do mal
- O mal é privação de ser, não entidade real
- “Vivemos no melhor dos mundos possíveis” — ridicularizado por Voltaire em Cândido
Co-invenção do Cálculo Infinitesimal
- Independentemente de Newton (1675–1676); a notação de Leibniz (dy/dx, ∫) é a usada hoje
Obras
- Discurso de Metafísica (1686); Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano (1704, póstumo 1765, contra Locke); Teodiceia (1710); Monadologia (1714)
Parte II — Empirismo
1. Francis Bacon (1561–1626) — “Pai do Empirismo”
Projeto: reformar o saber, substituir o Organon aristotélico por um novo método indutivo-experimental.
Os Ídolos (obstáculos ao conhecimento)
- Da tribo (idola tribus): defeitos comuns a toda a espécie humana — tendência à generalização precipitada, interpretar o mundo segundo nossos desejos
- Da caverna (idola specus): preconceitos individuais formados pela educação, temperamento, hábitos
- Do foro/mercado (idola fori): enganos causados pela linguagem — palavras sem referente real
- Do teatro (idola theatri): doutrinas filosóficas falsas aceitas como espetáculos cênicos por autoridade
O Novo Método Indutivo
- Antecipações da natureza (saber vulgar) vs. interpretações da natureza (saber científico)
- Método das três tábuas:
- Tábua de Presença: casos em que o fenômeno ocorre
- Tábua de Ausência: casos afins em que não ocorre
- Tábua de Graus: variações de intensidade do fenômeno
- Por eliminação das hipóteses falsas, chega-se à “primeira vindima” — hipótese provisória confirmada por instâncias da cruz (experimentos cruciais)
- Ciência e poder coincidem: “Saber é poder”
Obras
- Novum Organum (1620); Nova Atlântida (utopia científica, 1627); Avanço do Conhecimento (1605)
2. John Locke (1632–1704)
Projeto: investigar a origem, alcance e limites do entendimento humano.
Tábula rasa
- Não há ideias inatas (contra Descartes); a mente é, ao nascer, uma tábula rasa (folha em branco)
- Todo conhecimento deriva da experiência: externa (sensação) ou interna (reflexão/introspecção)
Qualidades primárias e secundárias
- Primárias (objetivas): extensão, solidez, movimento, número, forma — estão no objeto
- Secundárias (subjetivas): cor, cheiro, sabor, calor — são poderes do objeto de produzir ideias em nós
Limites do conhecimento
- Não conhecemos as substâncias em si; apenas suas qualidades
- O conhecimento é limitado às ideias que temos — humildade epistemológica
Filosofia política (Dois Tratados sobre o Governo)
- Estado de natureza é relativamente pacífico (diferente de Hobbes)
- Direitos naturais inalienáveis: vida, liberdade e propriedade
- O governo baseia-se no consentimento dos governados; se viola os direitos naturais, o povo tem direito à revolução
- Separação dos poderes: legislativo (supremo) e executivo/federativo
Obras
- Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690); Dois Tratados sobre o Governo Civil (1689); Carta sobre a Tolerância (1689)
3. George Berkeley (1685–1753)
Projeto: refutar o ateísmo e o materialismo mostrando que a matéria sem percepção é incoerente.
Esse est percipi — “Ser é ser percebido”
- Não existem substâncias materiais independentes da percepção
- Os objetos existem porque são percebidos: pelas mentes finitas (nós) ou pela mente infinita (Deus)
- Deus garante a continuidade e regularidade do mundo — o único materialismo que Berkeley rejeita; o mundo é “ideia de Deus”
Obras
- Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano (1710); Três Diálogos entre Hilas e Filonous (1713)
4. David Hume (1711–1776)
O empirismo levado às últimas consequências — e à crise da metafísica.
Impressões e ideias
- Todos os conteúdos mentais são impressões (percepções vivas) ou ideias (cópias enfraquecidas das impressões)
- Princípio de cópia: toda ideia deriva de uma impressão correspondente; ideia sem impressão = palavra vazia
Crítica à causalidade
- Não percebemos conexão necessária entre causas e efeitos — apenas conjunção constante de eventos
- A causalidade é um hábito da mente gerado pela repetição da conjunção, não uma necessidade lógica ou metafísica
- Destruição do fundamento da metafísica causal (incluindo as provas de Deus pela causalidade)
O Self como feixe de percepções
- Não há um “eu” substancial e permanente percebido introspectivamente
- O eu é um feixe de percepções (bundle theory) que se sucedem sem um substrato persistente
Ética do Sentimento Moral
- Juízos morais não são racionais, mas expressão de sentimentos de aprovação/reprovação
- A razão é “escrava das paixões” — não pode motivar por si mesma; motiva apenas indiretamente, indicando meios para fins desejados
- Guilhotina de Hume (is-ought gap): não se pode derivar um dever-ser de um ser (conceito distinto da falácia naturalista de G. E. Moore)
Influência sobre Kant
- Hume “despertou Kant de seu sono dogmático”; a crítica humiana da causalidade levou Kant a rever toda a metafísica
Obras
- Tratado da Natureza Humana (1739–1740); Investigação sobre o Entendimento Humano (1748); Investigação sobre os Princípios da Moral (1751); Diálogos sobre a Religião Natural (1779, póstumo)
Referências gerais
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 3 (Racionalismo e Empirismo)
- Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, livro 3
- Frederick Copleston, História da Filosofia, vols. 4 e 5
- Descartes: Meditações (trad. port. Martins Fontes); Discurso do Método (L&PM)
- Spinoza: Ética (trad. port. Autêntica)
- Hume: Investigação sobre o Entendimento Humano (trad. port. Hedra)
- Locke: Segundo Tratado sobre o Governo Civil (trad. port. Martin Claret)
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume
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