Período: ~600–400 a.C. | Contexto: transição do mito (mythos) ao pensamento racional (logos)


Contexto histórico

A filosofia nasce na Grécia a partir de condições específicas: a poesia de Homero e Hesíodo, as religiões pública e órfica, e as condições socioeconômicas das póleis. Os pré-socráticos rompem com o mito e buscam um princípio racional único — o arché — para explicar a totalidade das coisas. O saber buscado é sofia, logos, alétheia e episteme.


I. Pré-Socráticos

1. Monistas da Escola de Mileto

Tales de Mileto (~624–546 a.C.)

  • Arché: água (não a água que bebemos, mas o princípio úmido que permeia tudo)
  • Primeiro filósofo da tradição ocidental; afirmava que a terra flutua sobre a água
  • Referências: nenhuma obra direta; conhecemos via Aristóteles (Metafísica I, 3)

Anaximandro (~610–546 a.C.)

  • Arché: ápeiron — o infinito/ilimitado, princípio divino no qual há unidade dos opostos
  • O mundo deriva por separação dos contrários (quente/frio, seco/úmido): daí a injustiça, que os seres expiam ao se dissolver no ápeiron
  • Referências: fragmento conservado em Simplício (Comentário à Física)

Anaxímenes (~585–525 a.C.)

  • Arché: ar — o ápeiron de Anaximandro se torna determinado pelo ar; o mundo deriva por condensação (pedra, terra) e rarefação (fogo)
  • Referências: fragmentos em Simplício e Teofrasto

2. Pitagóricos

Pitágoras de Samos (~570–495 a.C.)

  • Arché: número — limite e ilimitado geram todos os números, que geram todas as coisas
  • Herdeiros do orfismo: metempsicose (transmissão da alma entre corpos) e purificação
  • A matemática como caminho de purificação da alma
  • Referências: Filolau de Crotona (Sobre a Natureza); Jâmblico (Vida de Pitágoras)

3. Heráclito de Éfeso (~535–475 a.C.)

  • Arché: fogo — princípio do devir constante (“tudo flui”, panta rei)
  • Dialética dos opostos: os contrários são idênticos em sua raiz (o caminho sobe e desce é o mesmo); o lógos governa tudo
  • O fogo transforma-se em todas as coisas e todas as coisas em fogo — ciclo eterno de transformações pelo caminho ascendente e descendente
  • Referências: fragmentos conservados em Hipólito (Refutação de Todas as Heresias) e Clemente de Alexandria

4. Escola Eleata

Xenófanes (~570–475 a.C.)

  • Crítica ao antropomorfismo: os homens criam deuses à sua imagem; um deus verdadeiro seria único, eterno, imóvel, totalmente diferente dos homens
  • Referências: fragmentos em Clemente e Simplício

Parmênides de Eleia (~515–450 a.C.)

  • Ontologia: “O ser é; o não-ser não é”
  • O ser: eterno, imóvel, homogêneo, perfeito, uno, não-gerado, incorruptível
  • Dois caminhos: verdade (razão → ser imóvel) e erro (sentidos → devir/multiplicidade ilusória)
  • Os opostos (luz/noite) são ambos ser; daí a unidade
  • Referências: poema Sobre a Natureza (fragmentos em Simplício)

Zenão de Eleia (~490–430 a.C.)

  • Discípulo de Parmênides; defende a imobilidade do ser por redução ao absurdo
  • Paradoxos: Aquiles e a tartaruga; a flecha imóvel — demonstram que movimento e multiplicidade são contraditórios
  • Referências: Aristóteles (Física VI, 9); fragmentos em Simplício

Melisso de Samos (sec. V a.C.)

  • Estende o ser eleata: infinito espacial e temporalmente
  • Referências: fragmentos em Simplício

5. Pluralistas

Empédocles (~490–430 a.C.)

  • 4 elementos (rizomata): terra, água, fogo, ar — incorruptíveis, eternos, homogêneos
  • 2 forças: Amor (philia) agrega; Ódio (neikos) desagrega — ciclo cósmico
  • Não há nascimento nem morte verdadeiros, apenas mistura e separação
  • Referências: poemas Sobre a Natureza e Purificações (fragmentos via Simplício e Clemente)

Anaxágoras (~500–428 a.C.)

  • Homeomerias (sementes): tudo está em tudo; cada coisa contém partes de todas as coisas em proporções variadas
  • Nous (Inteligência cósmica): princípio separado, puro, que ordena o mundo e inicia o movimento
  • Referências: fragmentos em Simplício; Platão (Fédon 97c–99d); Aristóteles (Metafísica I, 3)

Leucipo (meados do séc. V a.C.) e Demócrito (~460–370 a.C.) — Atomismo

  • Átomos (indivisíveis) e vazio: tudo que existe é átomo e vazio
  • Movimento eterno; combinações aleatórias de átomos geram mundos infinitos
  • Teoria dos eflúvios: conhecimento ocorre quando eídola (películas atômicas que se desprendem das superfícies dos objetos) atingem os órgãos dos sentidos, causando a percepção
  • Materialismo e mecanicismo: nenhuma finalidade ou inteligência cósmica
  • Referências: Aristóteles (De Anima, Física); Diógenes Laércio (Vidas dos Filósofos, IX)

II. Sofistas (~450–380 a.C.)

Contexto

Homens que viajavam pelas póleis vendendo seu saber (de sophos, sábio). Para Platão, eram impostores; historicamente, foram mestres da nova areté política — a habilidade retórica e argumentativa. Desenvolveram disciplinas que correspondem parcialmente ao que a Escolástica chamará de trivium (gramática, retórica, dialética).

Grupos

1.ª Geração

Protágoras de Abdera (~490–420 a.C.)

  • Relativismo: “O homem é a medida de todas as coisas” (homo mensura) — o que parece verdadeiro para cada um, é verdadeiro para cada um
  • Agnóstico sobre os deuses: não pode saber se existem
  • Referências: Platão (Protágoras, Teeteto); fragmentos em Diógenes Laércio

Górgias de Leontini (~483–375 a.C.)

  • Ceticismo radical (3 teses): 1) nada existe; 2) mesmo que existisse, não poderíamos conhecê-lo; 3) mesmo que conhecêssemos, não poderíamos comunicá-lo
  • Mestre supremo da retórica: a linguagem não reproduz a realidade, mas cria efeitos persuasivos
  • Referências: Platão (Górgias); tratado Sobre o Não-Ser (resumido por Sextus Empiricus)

Pródico de Ceos (~465–395 a.C.)

  • Técnica da sinonímia: distinção precisa de sinônimos para debates públicos eficazes

Erísticos

  • Disputas verbais como fim em si mesmas (argumentação pelo prazer de vencer, não pela verdade)

Sofistas Políticos

  • Crítias e Trasímaco: a justiça é a conveniência do mais forte; conquista do poder pela retórica

Naturalistas

  • Hípias e Antifonte: diferença entre lei natural (physis) e lei positiva (nomos) — antecipam o direito natural

Referências gerais

  • Platão (crítica nos diálogos Mênon, Górgias, Protágoras, Sofista, Eutidemo)
  • W. K. C. Guthrie, The Sophists (1971)
  • Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da Filosofia, vol. 1 — caps. sobre Sofistas

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