Período: ~1794–1831 | Contexto: radicalização pós-kantiana; superação da coisa-em-si; o pensamento como totalidade da realidade
Contexto
O idealismo alemão parte da crítica kantiana: a coisa-em-si (Ding an sich) é uma contradição — se é “pensada”, não pode ser “em si” (exterior ao pensamento). Portanto, o pensamento é o ser; nada existe fora do pensamento. A metafísica retorna como ciência. O Absoluto (Deus/Razão) se auto-desenvolve e se revela na realidade.
Diferença do realismo clássico:
- Realismo: ser é independente do pensamento; certeza e verdade se identificam imediatamente
- Idealismo: certeza = verdade de forma mediata; o ser é o pensar; o pensamento é o todo
I. Johann Gottlieb Fichte (1762–1814) — Idealismo Subjetivo
Projeto
Transformar a filosofia kantiana num sistema rigoroso — a Doutrina da Ciência (Wissenschaftslehre). Encontrar o princípio único que unifique as três Críticas de Kant.
O Eu como princípio absoluto
- O Eu puro (não o eu empírico individual) é a condição incondicionada de toda realidade
- “Eu = Eu” é o princípio originário — mais fundamental que o princípio de identidade (A = A)
- O Eu é autoposição livre: não é um fato, mas um ato — o ser é produto do agir (esse sequitur operari)
- O Eu se autopõe (tese) e, ao fazê-lo, opõe a si um Não-Eu (antítese = o mundo exterior)
- A partir dessa oposição, o Eu limita e o Não-Eu limita mutuamente (síntese) → toda a realidade
Fases do pensamento de Fichte
1.ª fase (Jena, 1794–1799): idealismo subjetivo; o Eu como atividade criadora da realidade
2.ª fase (Berlim, 1800–1814): aprofundamento místico; o Absoluto como fundamento do Eu; o Eu é manifestação de Deus; o saber tende à unidade mística com o Absoluto
Filosofia prática e política
- Discursos à Nação Alemã (1808): o primado espiritual do povo alemão; educação nacional como caminho para a liberdade
- Primeiro reitor eleito da Universidade de Berlim (1811), fundada por Wilhelm von Humboldt (1810)
Obras
- Fundamentos da Doutrina da Ciência (1794)
- A Missão do Douto (1794)
- Fundamentos do Direito Natural (1796)
- A Missão do Homem (1800)
- Discursos à Nação Alemã (1808)
II. Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775–1854) — Idealismo Objetivo / Filosofia da Identidade
Projeto
Superar a dicotomia sujeito/objeto de Fichte: a natureza não é mero produto do Eu — ela tem realidade própria como Espírito objetivado. O Absoluto é a identidade indifenciada de sujeito e objeto.
Fases do pensamento
Filosofia da Natureza (Naturphilosophie, ~1797–1801)
- A natureza não é inerte mecanismo; é Espírito visível — a mesma atividade do Eu, mas em grau inconsciente
- Hierarquia da natureza: matéria inorgânica → orgânica → consciência
- Polaridades e forças opostas como motor do desenvolvimento
- Influência sobre as ciências naturais do Romantismo alemão
Filosofia da Identidade (~1801–1809)
- O Absoluto é a indiferença (identidade indiferenciada) de sujeito e objeto, ideal e real
- Critica Fichte: o Não-Eu não pode ser mero produto do Eu
- O Absoluto conhece a si mesmo pela filosofia
Filosofia da Liberdade e do Mal (~1809)
- Investigações sobre a Liberdade Humana (1809): o primeiro grande texto do Romantismo filosófico
- O mal tem realidade positiva: é o uso perverso da liberdade, que se isola do todo
- A liberdade é possível porque o homem pode escolher o mal — tensão irresolúvel no Absoluto
Filosofia positiva (tardia, ~1820–1854)
- Crítica ao idealismo de Hegel como filosofia “negativa” (abstrata, conceitual)
- A filosofia positiva parte da existência concreta e irredutível (Existenz)
- Antecipa o Existencialismo
Obras
- Sobre o Eu como Princípio da Filosofia (1795)
- Sistema do Idealismo Transcendental (1800)
- Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana (1809)
III. Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) — Idealismo Absoluto
O mais influente filósofo do séc. XIX. Seu sistema abarca lógica, natureza, espírito, história, arte, religião e filosofia.
O Absoluto como processo
- O Absoluto não é uma coisa estática — é um processo que se auto-desenvolve e se auto-conhece
- “O Real é Racional; o Racional é Real”
- A contradição não é falha do pensamento — é o motor do desenvolvimento (dialética)
Dialética Hegeliana
Não uma fórmula mecânica (tese-antítese-síntese), mas o movimento interno da Ideia:
- Em si (an sich): a ideia em estado imediato, abstrato
- Fora de si / para fora (Außersichsein): a ideia se exterioriza — a natureza
- Em si e para si (an und für sich): a ideia retorna a si mesma — o Espírito
Cada categoria contém sua própria negação; a negação é negada (negação da negação), gerando um nível superior que conserva e supera (Aufhebung).
A Fenomenologia do Espírito (1807)
- Itinerário da consciência desde a certeza sensível (o mais imediato) até o Saber Absoluto
- Etapas: certeza sensível → percepção → entendimento → autoconsciência (luta por reconhecimento, dialética senhor/escravo) → razão → espírito → religião → saber absoluto
- Dialética Senhor/Escravo: o senhor domina, mas depende do reconhecimento do escravo; o escravo, ao trabalhar sobre o mundo, transforma-se e supera o senhor — antecipação da análise marxista aplicada à história
A Ciência da Lógica (1812–1816)
- Lógica = ontologia: as categorias do pensamento são as categorias do ser
- Movimento: Ser → Nada → Devir (síntese); depois: Essência; depois: Conceito
- A Ideia Absoluta é o resultado e o fundamento de todo o processo
Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817/1830)
Estrutura do sistema hegeliano:
- Lógica (Ideia em si e para si)
- Filosofia da Natureza (Ideia fora de si; Natureza como Espírito alienado)
- Filosofia do Espírito (Ideia que retorna a si):
- Espírito Subjetivo (psicologia, antropologia)
- Espírito Objetivo (direito, moralidade, eticidade)
- Espírito Absoluto (arte, religião, filosofia)
Filosofia do Direito (1820)
- Direito abstrato → Moralidade → Eticidade (família → sociedade civil → Estado)
- O Estado não é resultado do contrato (Locke, Rousseau), mas a realização plena da liberdade — a substância ética do povo
- História Universal: o Espírito do Mundo (Weltgeist) se realiza sucessivamente em povos diferentes; cada povo tem uma missão histórica
- “A Coruja de Minerva levanta voo ao anoitecer” — a filosofia compreende o real apenas depois que ele se consumou
Influências de Hegel
- Marx: inverte Hegel (materialismo dialético — as contradições são materiais e econômicas, não ideais)
- Kierkegaard: rejeita o sistema por ignorar o indivíduo concreto → Existencialismo
- Escola de Frankfurt: retoma a dialética como crítica social
- Croce, Bradley, McTaggart: neo-hegelismo
- Kojève, Hyppolite, Sartre: recepção francesa do séc. XX
Obras
- Fenomenologia do Espírito (1807) — trad. port. Vozes
- Ciência da Lógica (1812–1816)
- Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817)
- Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito (1820)
- Preleções sobre Filosofia da História (póstumas)
- Preleções sobre Estética (póstumas)
Linha do Idealismo Alemão
Kant (coisa-em-si incognoscível)
│
├──► Fichte (suprime a coisa-em-si → Eu absoluto cria tudo)
│ │
│ └──► Schelling (Natureza = Espírito objetivado; Absoluto = identidade)
│ │
└──────────────────► Hegel (Absoluto = processo dialético total; Lógica = Ontologia)
Referências gerais
- Hegel: Fenomenologia do Espírito (trad. Paulo Menezes, Vozes); Filosofia do Direito (trad. port. Loyola)
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 5
- Charles Taylor, Hegel
- Frederick Beiser, German Idealism: The Struggle Against Subjectivism
- Robert Pippin, Hegel’s Idealism
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. III - do Iluminismo francês a Nietzsche
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