Período: ~1350–1600 | Contexto: redescoberta dos clássicos greco-latinos; dignidade do homem; crítica à Escolástica; ruptura religiosa com a Reforma Protestante
Contexto histórico
O Humanismo (segunda metade do séc. XIV – séc. XVI) valoriza as litterae humaniores — gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral. O Renascimento representa a síntese cultural desse período na Itália, expandindo-se para toda a Europa. A Reforma Protestante (séc. XVI) é o desdobramento religioso do mesmo espírito crítico.
Principais correntes:
- Neoplatonismo (Cusa, Ficino, Pico)
- Neo-epicurismo (Valla)
- Aristotelismo renascentista
- Ceticismo humanista (Montaigne)
- Reforma religiosa
- Filosofia política moderna (Maquiavel, Morus, Bodin)
- Naturalismo (Bruno, Campanella, Telésio)
I. Iniciadores do Humanismo
Petrarca (1304–1374)
- Retorno aos clássicos latinos; crítica da Escolástica aristotélica
- Interioridade e individualidade como temas centrais
Leonardo Bruni (~1370–1444) e Coluccio Salutati (1331–1406)
- Studia humanitatis como formação cívica; o cidadão letrado como ideal
II. Neoplatonismo Renascentista
Nicolau de Cusa (1401–1464)
- Nem humanista (retórica) nem escolástico (disputatio); usa a matemática como analogia
- Douta Ignorância (docta ignorantia): a mente humana (finita) não pode atingir o infinito divino; aproximamo-nos da verdade por uma pesquisa assintótica
- Coincidência dos opostos (coincidentia oppositorum): em Deus todos os opostos coincidem — ampliar o círculo até ele se tornar uma reta
- Complicação/Explicação/Contração: Deus complica tudo em si; o universo é a explicação de Deus; cada coisa é uma contração de Deus
- O homem como microcosmo
- Obras: A Douta Ignorância, Sobre as Conjecturas, O Jogo da Pelota
Marcílio Ficino (1433–1499)
- Dirige a Academia Platônica de Florença (sob Lourenço de Médici)
- Traduz Platão, Plotino e o Corpus Hermeticum para o latim
- Alma como copula mundi: hierarquia Deus → Anjo → Alma → Qualidade → Matéria
- Amor platônico em sentido cristão: ascensão da beleza sensível ao Belo divino
- Magia natural: o filósofo pode agir sobre a natureza por meio das forças simpáticas que a perpassam
- Obras: Teologia Platônica, Sobre o Amor (De Amore)
Pico della Mirandola (1463–1494)
- Dignidade do homem (De Dignitate Hominis): o homem é a única criatura no confim de dois mundos; diferentemente dos anjos e animais, o homem não tem uma natureza fixa — é artífice de si mesmo
- Cabala cristã: fusão da mística judaica com a filosofia neoplatônica e cristã
- 900 Teses proposta de debate público (proibido pelo papa Inocêncio VIII)
- Obras: Discurso sobre a Dignidade do Homem, Conclusões Filosóficas
III. Neo-Epicurismo
Lourenço Valla (1407–1457)
- Retoma o epicurismo num contexto cristão: todos os produtos da natureza são santos e louváveis, inclusive o prazer
- Há graus de prazer; o vértice é o amor cristão a Deus
- Método filológico: respeitar a palavra em seu contexto histórico-linguístico (crítica aos textos medievais, inclusive à Doação de Constantino)
- Obras: Sobre o Prazer e o Bem Verdadeiro
IV. Ceticismo Humanista
Montaigne (1533–1592)
- “Que sais-je?” (Que sei eu?) — mote do ceticismo moderado
- Ceticismo moderado: desconfiança da razão, não da fé; a fé está num plano diferente e é inatacável
- Fideísmo: as verdades absolutas fundam-se na revelação, não na razão
- Autoconhecimento como programa filosófico: conhece-te a ti mesmo
- A grandeza do homem está em sua mediocridade — a felicidade nasce de aceitar os limites humanos
- Obra: Ensaios (3 vols.)
V. Reforma Religiosa
Erasmo de Roterdão (~1466–1536)
- Maior humanista do Norte europeu; amigo de Tomás Morus
- Crítica da filosofia aristotélico-escolástica; a verdadeira filosofia é a philosophia Christi (fé, caridade, esperança vividas)
- Elogio da Loucura: autoelogio da deusa Loucura — filha de Pluto (deus da riqueza) e Juventude; a loucura é o que dá vida ao mundo; crítica à Igreja, à guerra, ao casamento, aos teólogos e monges; o vértice é a “loucura sagrada” da fé cristã
- Método filológico aplicado à Bíblia (Novum Instrumentum — NT em grego e latim)
- Obras: Elogio da Loucura, Adágios, Colóquios, Manual do Soldado Cristão
Martinho Lutero (1483–1546)
- Fundamentos: justificação pela fé apenas (sola fide); infalibilidade da Escritura (sola Scriptura); sacerdócio universal; livre exame das Escrituras
- Ruptura com Roma (1517 — 95 Teses); excomunhão (1521)
- Tradução da Bíblia para o alemão — funda a língua literária alemã
João Calvino (1509–1564)
- Predestinação: Deus determina de eternidade quem é salvo e quem é condenado
- Providência = continuação do ato criador
- Influência: ética protestante e o espírito do capitalismo (Max Weber)
Contra-Reforma
- Concílio de Trento (1545–1563): confirma tradição + Escritura; Inquisição; Índex; Companhia de Jesus (Jesuítas — Inácio de Loyola)
VI. Filosofia Política
Nicolau Maquiavel (1469–1527)
- Fundador da ciência política moderna — separação entre ética e política
- O Príncipe (1513):
- Natureza humana: nem boa nem má, mas tende ao mal
- Formas de governo: repúblicas e principados
- Virtù: força, habilidade, vontade, astúcia
- Fortuna: a sorte governa metade dos eventos; a virtù enfrenta a outra metade
- Príncipe = leão (força) + raposa (astúcia)
- Consequencialismo: os fins justificam os meios na política
- Discursos sobre Tito Lívio (c. 1513–1519, publicado em 1531): Maquiavel republicano
- Obras: O Príncipe, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, A Arte da Guerra
Thomas Morus (1478–1535)
- Chanceler de Henrique VIII; recusou-se a reconhecê-lo como chefe da Igreja; decapitado; canonizado (1935)
- Utopia (1516): sociedade ideal sem dinheiro, com trabalho moderado (6h/dia), tolerância religiosa, igualdade — deliberada ambiguidade entre crítica e ideal
- Nome em grego significa “lugar que não existe” (ou-topos)
- Obras: Utopia, Epigramas
Jean Bodin (1530–1596)
- Fundamento do Estado: soberania — poder perpétuo e absoluto
- Limites do absolutismo: leis naturais e divinas
- Defende a tolerância religiosa
- Obras: Seis Livros da República
Hugo Grotius (1583–1645)
- Fundador do direito internacional moderno
- Direito natural fundado na razão e na natureza humana; válido mesmo que Deus não existisse
- Obras: O Direito da Guerra e da Paz (De Iure Belli ac Pacis)
VII. Naturalistas Renascentistas
Giordano Bruno (1548–1600)
- Queimado na fogueira pela Inquisição
- Universo infinito e copernicano; infinitos mundos; Deus como Uno infinito acima das coisas
- Hierarquia: Deus (Uno infinito) → Intelecto Universal (força divina nas coisas) → Matéria (universo uno-múltiplo)
- A morte = mutação acidental; o homem se torna uno com o todo (furor heroico)
- Panteísmo: antecipa Spinoza, Schelling e o Romantismo
- Obras: Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos; Sobre a Causa, o Princípio e o Uno; De gli Eroici Furori
Bernardino Telésio (1509–1588)
- Autonomia da física frente à teologia
- 3 princípios naturais: quente (força expansiva), frio (força contrativa), massa corpórea
Tommaso Campanella (1568–1639)
- Cidade do Sol: utopia teocrática-naturalista
- Deus como ente por essência: Potência/Sabedoria/Amor supremos
Referências gerais
- Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da Filosofia, vol. 3 (Humanismo e Renascimento)
- Nicolau de Cusa: A Douta Ignorância (trad. port. Loyola)
- Maquiavel: O Príncipe (diversas trad. port.)
- Erasmo: Elogio da Loucura (trad. port. L&PM)
- Giordano Bruno: Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos
- Ernst Cassirer, O Indivíduo e o Cosmos na Filosofia do Renascimento
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume
Ver na Amazon →