Período: ~1800–presente | Contexto: Crise do positivismo nas ciências humanas; reação ao neokantismo; interrogação sobre os fundamentos da compreensão histórica e da experiência vivida


Panorama

Hermenêutica e fenomenologia são dois movimentos que, embora distintos em origem, convergiram no século XX para formar uma das tradições filosóficas mais fecundas da modernidade. A hermenêutica interroga as condições de possibilidade da compreensão e da interpretação; a fenomenologia interroga as estruturas da experiência consciente e do aparecer das coisas.

PensadorContribuição Central
SchleiermacherHermenêutica universal; compreensão psicológica
DiltheyFundação das ciências do espírito; Verstehen
HusserlIntencionalidade; epoché; Lebenswelt
HeideggerHermenêutica do Dasein; Ser-no-mundo
GadamerFusão de horizontes; tradição; linguagem
RicoeurIdentidade narrativa; hermenêutica do suspeito
Merleau-PontyCorpo próprio; percepção encorporada
LévinasAlteridade; rosto; ética como filosofia primeira

I. Hermenêutica Clássica: Schleiermacher e Dilthey

Friedrich Schleiermacher (1768–1834)

Teólogo e filósofo alemão, fundador da hermenêutica universal.

Da hermenêutica regional à hermenêutica geral: Antes de Schleiermacher, a hermenêutica era um conjunto de regras técnicas para interpretar textos específicos (bíblicos, jurídicos, literários). Schleiermacher propõe uma hermenêutica geral — teoria das condições de toda compreensão.

Duplo momento da interpretação:

  • Interpretação gramatical: compreender o texto em relação à língua e ao contexto linguístico do autor
  • Interpretação psicológica (ou técnica): reconstruir o processo mental do autor; “compreender o discurso de um autor tão bem quanto ele mesmo e então melhor do que ele mesmo” — formulação atribuída a Schleiermacher pela tradição (a formulação exata é debatida pelos especialistas)

Círculo Hermenêutico: A parte só é compreendida a partir do todo; o todo só é compreendido a partir das partes. Este círculo não é vicioso — é a estrutura inevitável da compreensão.

Wilhelm Dilthey (1833–1911)

Introdução às Ciências do Espírito (1883): Dilthey demarca as ciências do espírito (Geisteswissenschaften — história, filologia, jurisprudência, economia, psicologia) das ciências da natureza (Naturwissenschaften).

Explicar vs. Compreender: As ciências naturais explicam (erklären) fenômenos por leis causais; as ciências do espírito compreendem (verstehen) expressões de vida humana — textos, ações, instituições — captando seu sentido interno.

Erlebnis (vivência): O conceito de vivência marca a experiência antes de qualquer objetivação teórica — o fluxo imediato da vida interior.

Expressão e Compreensão: Todo produto cultural é expressão da vida interior; compreender é reverter essa expressão, captando a vivência que a originou.


II. Edmund Husserl e a Fenomenologia

Edmund Husserl (1859–1938)

Matemático e filósofo, fundador da fenomenologia.

Intencionalidade (de Brentano): Todo ato de consciência é intencional — é sempre consciência de algo. Não há consciência vazia; toda percepção, recordação, imaginação, julgamento tem um correlato (noema = o que é visado; noesis = o ato de visar).

Investigações Lógicas (1900–01): Critica o psicologismo (a redução da lógica a fatos psicológicos) e inaugura a análise dos atos de significação.

Epoché e Redução Fenomenológica (Idéias I, 1913): Para estudar a consciência pura, Husserl propõe “colocar entre parênteses” (epoché) a crença na existência independente do mundo — a atitude natural. Isso não nega o mundo, mas suspende o compromisso ontológico para investigar os atos constituintes da experiência.

Redução Eidética: Abstração das particularidades para captar as essências (Wesen) dos fenômenos — as estruturas invariantes da experiência.

Ego Transcendental: Após a redução, descobre-se a consciência como fundamento constituinte do sentido do mundo.

Lebenswelt (A Crise das Ciências Europeias, 1936, póstumo 1954): O mundo-da-vida é o mundo pré-teórico da experiência cotidiana — pressuposto silencioso de toda atividade científica. A crise da ciência européia reside em ter esquecido suas origens neste solo vivido.

Intersubjetividade: As Meditações Cartesianas (1931) abordam o problema de como constituímos a experiência de outros sujeitos — empatia (Einfühlung) como modo de acesso ao outro ego.


III. Martin Heidegger: Hermenêutica do Ser-no-Mundo

Martin Heidegger (1889–1976)

Ser e Tempo (Sein und Zeit, 1927): Obra seminal do séc. XX.

A Questão do Ser: Heidegger considera que a filosofia ocidental esqueceu a questão fundamental — não “o que existe?” mas “o que é o Ser?”. Para recolocá-la, parte do único ente que tem acesso ao ser: o Dasein (ser-aí = o ser humano na sua situação concreta).

Ser-no-Mundo (In-der-Welt-Sein): O Dasein não é uma consciência fechada que depois se abre para um mundo externo; ele já está sempre no mundo, imbricado em práticas, relações, equipamentos. A estrutura básica é a ocupação (Besorgen) com entes à mão (Zuhandensein — o martelo que uso, não o que observo).

Disposição (Stimmung): Antes de qualquer juízo teórico, o Dasein está sempre em algum estado de humor que afina o modo como o mundo se apresenta. A angústia (Angst) é uma disposição privilegiada que revela o Dasein em sua nudez — sem ancoragem em nada específico.

Círculo Hermenêutico: Toda interpretação pressupõe uma pré-estrutura (Vor-struktur) de compreensão: ter-prévio (Vorhabe), ver-prévio (Vorsicht), conceber-prévio (Vorgriff). A compreensão não parte do zero — envolve sempre projeção de possibilidades sobre o que já se é.

Ser-para-a-morte: O Dasein é fundamentalmente finito; antecipar a morte como possibilidade mais própria e insubstituível singulariza o Dasein e o libera para a autenticidade.

A Virada (Kehre): O Heidegger tardio abandona a perspectiva do Dasein e volta-se para o Ser como aquilo que se dá e se retira (Ereignis — acontecimento-apropriação). A linguagem é a “casa do Ser” — o pensamento deve aprender a ouvir o Ser que se diz na linguagem poética e no pensamento originário.


IV. Hans-Georg Gadamer: Verdade e Método

Hans-Georg Gadamer (1900–2002)

Verdade e Método (Wahrheit und Methode, 1960): Obra fundamental da hermenêutica filosófica.

Crítica ao Método: Gadamer não propõe uma metodologia para as ciências humanas, mas investiga a experiência de compreensão que antecede e ultrapassa qualquer método. O título é deliberadamente ambíguo: verdade e método — mas verdade apesar de método.

Reabilitação do Preconceito e da Tradição: O Iluminismo associou preconceito (Vorurteil) a erro. Gadamer defende que nossos preconceitos — nossas compreensões prévias transmitidas pela tradição — são as condições de possibilidade da compreensão, não seus obstáculos. Distingue preconceitos legítimos (que se abrem à correção) de ilegítimos.

Efeito da História (Wirkungsgeschichte): Toda interpretação é determinada pela história dos efeitos do texto — não podemos nos situar fora da história para compreender “objetivamente”. A consciência histórica é sempre uma consciência da Wirkungsgeschichte.

Fusão de Horizontes (Horizontverschmelzung): Compreender não é reconstruir a intenção original do autor (como em Schleiermacher) nem impor o próprio horizonte sobre o texto. É uma fusão: o horizonte do intérprete e o do texto se alargam mutuamente, produzindo uma compreensão nova.

Linguagem como Médium: A linguagem não é instrumento que usamos para nos expressar — habitamos a linguagem; o ser que pode ser compreendido é linguagem.

Debate Gadamer-Habermas: Habermas critica Gadamer por naturalizar a tradição sem espaço para sua crítica ideológica. Gadamer responde que toda crítica já pressupõe compreensão, que pressupõe tradição.


V. Paul Ricoeur: Hermenêutica e Identidade Narrativa

Paul Ricoeur (1913–2005)

O Conflito das Interpretações (1969): Ricoeur propõe uma hermenêutica que integra a hermenêutica da suspeita (Freud, Marx, Nietzsche — que desconfiam do sentido manifesto e buscam sentidos ocultos) e a hermenêutica da restauração (que busca recuperar o sentido pleno dos símbolos e textos).

O Texto como Modelo: Em trabalhos como Interpretação e Ideologias e Du texte à l’action (1986), Ricoeur toma o texto escrito como paradigma da ação humana: ambos têm “autonomia semântica” — separam-se da intenção de origem e ficam disponíveis para interpretações múltiplas.

Identidade Narrativa (Soi-même comme un autre, 1990): Ricoeur distingue dois tipos de identidade:

  • Idem (mesmidade): identidade substancial, o que permanece o mesmo
  • Ipse (ipseidade): identidade como promessa, comprometimento, narração de si

A identidade pessoal é narrada — somos as histórias que contamos sobre nós mesmos. Tempo e Narrativa (3 vol., 1983–85) examina como o tempo humano se torna inteligível pela narração.


VI. Merleau-Ponty e Lévinas

Maurice Merleau-Ponty (1908–1961)

Fenomenologia da Percepção (1945): A percepção não é um processo passivo de recepção de dados sensoriais que o intelecto depois organiza. O corpo próprio (le corps propre) é sujeito intencional primordial — percebo com o corpo, não pela mente sobre o corpo.

Crítica ao Dualismo e ao Empirismo: Nem a consciência cartesiana nem o reflexo behaviorista captam o fenômeno da percepção. A motricidade, os hábitos corporais, o campo perceptivo revelam que mente e corpo são, em sua raiz, inseparáveis.

Emmanuel Lévinas (1906–1995)

Totalidade e Infinito (1961): A fenomenologia husserliana e heideggeriana permanece dentro da ontologia — reduz o Outro ao Mesmo. Lévinas propõe que a ética — a relação com o rosto do Outro (autrui) — precede a ontologia.

O rosto do Outro me convoca antes de qualquer tematização; é a resistência que não permite redução ao meu horizonte de compreensão. A expressão fundamental do rosto é: “Não matarás.”


Ver também

  • Filosofia do Século XX
  • Filosofia Analítica
  • Iluminismo e Kant