Período: ~1900–2000 | Contexto: duas Guerras Mundiais, Holocausto, totalitarismos, descolonização, globalização, crise do projeto moderno
Panorama
O séc. XX fragmenta a filosofia em escolas frequentemente incomunicáveis:
| Tradição | Eixo geográfico | Temas centrais |
|---|---|---|
| Fenomenologia | Alemanha/França | Consciência, intencionalidade, ser |
| Existencialismo | França/Dinamarca | Existência, liberdade, angústia, absurdo |
| Escola de Frankfurt | Alemanha/EUA | Razão instrumental, capitalismo, cultura de massa |
| Filosofia Analítica | Inglaterra/EUA/Áustria | Linguagem, lógica, análise conceitual |
| Estruturalismo | França | Estruturas inconscientes que regem cultura, linguagem, sociedade |
| Pós-Estruturalismo | França | Desconstrução das estruturas; poder, genealogia, diferença |
I. Fenomenologia
Edmund Husserl (1859–1938) — Fundador
Projeto: fundar a filosofia como ciência rigorosa, descrevendo os fenômenos tal como aparecem à consciência, sem pressupostos.
Intencionalidade
- Toda consciência é consciência de algo — a consciência não existe fechada em si mesma, mas sempre se dirige a um objeto
- “Toda consciência é intencional” (herdada de Brentano)
- Distinção: ato intencional (noesis) e objeto visado (noema)
Redução Fenomenológica (Epoché)
- “Colocar entre parênteses” a questão da existência real do mundo — suspender a “atitude natural”
- Não é negação do mundo, mas mudança de foco: estudar como o mundo aparece à consciência pura
Redução Eidética
- Após a epoché, variar imaginativamente o objeto até encontrar sua essência invariante (eidos)
- Intuição de essências: a fenomenologia é uma ciência das essências, não dos fatos
Mundo da Vida (Lebenswelt)
- Obra tardia: a ciência moderna esqueceu o mundo vivido (pré-científico) que é sua base
- A crise das ciências europeias deriva desse esquecimento
Obras
- Investigações Lógicas (1900–01)
- Idéias para uma Fenomenologia Pura (1913)
- Meditações Cartesianas (1931)
- A Crise das Ciências Europeias (1936, incompleto)
Martin Heidegger (1889–1976)
O mais influente filósofo alemão do séc. XX. Seu projeto: recolocar a questão do Ser, esquecida pela metafísica ocidental.
Ser e Tempo (1927)
Dasein (ser-aí): o modo de ser especificamente humano — não sujeito, mas abertura ao ser
Estruturas existenciais do Dasein:
- Ser-no-mundo (In-der-Welt-sein): o Dasein não é um sujeito fechado que depois “toca” o mundo — está sempre já no mundo
- Ser-com (Mitsein): sempre com os outros; o Man (o “se-diz”, o impessoal) tende a nivelar a existência
- Ocupação e cuidado (Sorge): modo primário de relação com o mundo (antes do conhecimento teórico)
- Facticidade (o Dasein é “lançado” numa situação que não escolheu)
- Projeto (Entwurf): o Dasein sempre se projeta em possibilidades
- Queda (Verfallenheit): tendência ao impessoal, à inautenticidade
Temporalidade e ser-para-a-morte:
- O Dasein é essencialmente ser-para-a-morte — a morte própria é a possibilidade mais extrema, certa, intransferível
- A angústia ante a morte revela a estrutura do Dasein e possibilita a autenticidade
- Temporalidade (passado como facticidade, futuro como projeto, presente como queda) é o horizonte do ser
Viragem (Kehre) — Obra tardia
- Abandona a analítica do Dasein; a história do ser substituindo a análise existencial
- Metafísica ocidental = “esquecimento do ser”; história de um declínio
- Técnica moderna como destino do ser: reduz tudo a reserva (Bestand) disponível para exploração
- Arte e Linguagem como caminhos de abertura ao ser: “A linguagem é a casa do ser”
Política — A Questão Heidegger
- Heidegger aderiu ao nazismo em 1933 (reitorado em Freiburg)
- Nunca se retratou publicamente
- Os Cadernos Negros (publicados 2014–2015) contêm passagens antissemitas filosóficas
- A relação entre sua filosofia e seu nazismo é objeto de debate filosófico intenso
Obras
- Ser e Tempo (1927) — trad. port. Vozes
- A Questão da Técnica (1954)
- A Origem da Obra de Arte (1935–36)
- Carta sobre o Humanismo (1946)
- Contribuições à Filosofia (1936–38, póstumo)
II. Existencialismo
Movimento que coloca a existência concreta individual — não a essência abstrata — como ponto de partida filosófico.
Kierkegaard (1813–1855) — Precursor
- Critica Hegel por ignorar o indivíduo concreto em favor do sistema abstrato
- Três estágios da existência: estético (viver o momento, Don Juan) → ético (dever, lei universal) → religioso (salto de fé, Abraão)
- A angústia como “tontura da liberdade”
- Obras: Ou — Ou, Temor e Tremor, O Conceito de Angústia, Pós-Escrito Conclusivo
Jean-Paul Sartre (1905–1980)
“A existência precede a essência”
- Ao contrário dos objetos (cuja essência é definida antes de existirem), o ser humano existe antes de ter uma natureza definida
- O homem é condenado a ser livre — não há desculpas, não há natureza humana prévia
- Má-fé (mauvaise foi): fugir da liberdade fingindo ser determinado (como uma coisa)
Ser-em-Si e Ser-para-Si
- Em-si (en-soi): o ser das coisas — opaco, maciço, sem consciência, idêntico a si
- Para-si (pour-soi): o ser da consciência — sempre distante de si, sempre projetando-se
- A consciência é “nada” (néant) no seio do ser — é o que não é e não é o que é
Liberdade Radical
- Somos sempre responsáveis: não podemos nos esconder atrás da natureza, da sociedade, do passado
- Autenticidade: aceitar a própria liberdade e responsabilidade sem má-fé
Filosofia Social e Política (obra tardia)
- Crítica da Razão Dialética (1960): marxismo e existencialismo como síntese; a liberdade no interior das condições materiais
Obras
- O Ser e o Nada (1943) — trad. port. Vozes
- O Existencialismo é um Humanismo (1945)
- A Náusea (romance, 1938)
- Crítica da Razão Dialética (1960)
Simone de Beauvoir (1908–1986)
- Companheira intelectual de Sartre; fundadora do feminismo existencialista
- “Não se nasce mulher, torna-se” — o feminino como construção social, não dado biológico
- Obra: O Segundo Sexo (1949) — trad. port. Nova Fronteira
Albert Camus (1913–1960) — Absurdismo
- O absurdo nasce do confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio do mundo
- Não há solução para o absurdo (rejeitando tanto o suicídio quanto o “salto de fé” religioso)
- A revolta como resposta: continuar vivendo e criando apesar do absurdo
- “É preciso imaginar Sísifo feliz”
- Obras: O Mito de Sísifo (1942); O Estrangeiro (romance, 1942); O Homem Revoltado (1951)
Maurice Merleau-Ponty (1908–1961)
- Fenomenologia da percepção: o corpo vivido (corps propre) como sujeito da experiência
- Contra o dualismo cartesiano: não há mente sem corpo; somos seres encarnados
- Obra: Fenomenologia da Percepção (1945)
III. Escola de Frankfurt — Teoria Crítica
Instituto de Pesquisa Social fundado em Frankfurt (1923). Síntese de hegelianismo (dialética), marxismo (crítica social) e freudismo (inconsciente social). Exilados nos EUA durante o nazismo.
Theodor Adorno (1903–1969)
Dialética Negativa
- Recusa a dialética hegeliana de síntese e reconciliação
- A realidade não é racional; a identidade entre razão e realidade é ideologia
- Defende a não-identidade: o objeto sempre excede o conceito; o particular resiste à subsunção pelo universal
- Filosofia como defesa das diferenças contra o universal opressor
Dialética do Iluminismo (com Horkheimer, 1944/1947)
- O Iluminismo, ao buscar dominar a natureza pela razão, autodestrói-se — torna-se mito de novo, desta vez o mito do progresso e da técnica
- Razão instrumental: a razão que só calcula meios para fins dados, sem questionar os fins
Indústria Cultural
- A cultura de massa (cinema, televisão, rádio, música popular) é produzida como mercadoria padronizada
- Molda os indivíduos como seres substituíveis, inibe a criatividade, cria conformismo
- O “tempo livre” é controlado da mesma forma que o tempo de trabalho
Arte como Resistência
- A arte autêntica (Schönberg, Beckett, Kafka) preserva a não-identidade; resiste à totalização
- Depois de Auschwitz, toda cultura é problematizada: “Escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie” — mas a arte permanece necessária como antítese da sociedade
Obras
- Dialética do Iluminismo (1947, com Horkheimer)
- Dialética Negativa (1966)
- Teoria Estética (1970, póstuma)
- Mínima Moralia (1951)
- A Personalidade Autoritária (1950, coletivo)
Max Horkheimer (1895–1973)
Teoria Crítica (1937)
- Distingue teoria tradicional (descritiva, especializada) de teoria crítica (reflexiva, totalista, orientada à emancipação)
- A pesquisa social deve tratar a sociedade como um todo — não fragmentada em especialidades
Razão Instrumental (Eclipse da Razão, 1947)
- Razão objetiva (orienta os fins, determina o que é bom e justo) foi eclipsada pela
- Razão subjetiva/instrumental (calcula apenas meios eficientes para fins dados externamente pelo sistema)
- A doença da razão: “nasceu da necessidade de dominar a natureza”
- O fascismo é “a verdade da sociedade moderna” — sua forma mais transparente de dominação
Obras
- Eclipse da Razão (1947)
- Dialética do Iluminismo (1947, com Adorno)
- Teoria Crítica (ensaios, 1968)
Herbert Marcuse (1898–1979) — “Guru da Nova Esquerda”
Eros e Civilização (1955)
- Retoma Freud: a civilização exige repressão dos instintos (princípio de realidade vs. princípio de prazer)
- Mas Marcuse distingue repressão necessária (mínima para a convivência) da mais-repressão (excesso imposto pelo capitalismo para manutenção do trabalho alienado)
- Uma civilização não-repressiva é possível: “Grande Recusa” ao princípio de realidade dominante
O Homem Unidimensional (1964)
- A sociedade industrial avançada integra a oposição — até a crítica é absorvida e neutralizada
- O homem “unidimensional”: perdeu a capacidade de pensar negativamente, de imaginar alternativas
- “Tolerância repressiva”: a tolerância liberal tolera tudo igualmente, neutralizando a crítica
Obras
- Razão e Revolução (1941) — Hegel e Marx
- Eros e Civilização (1955)
- O Homem Unidimensional (1964)
Walter Benjamin (1892–1940)
Aura e Reprodutibilidade Técnica
- “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1935/1936): a reprodução técnica destrói a aura (presença única, aqui-e-agora, autenticidade) da obra
- Potencial emancipatório: a reprodução democratiza o acesso; mas pode levar à estetização da política (fascismo)
Filosofia da História
- Contra o progresso linear: a história dos vencidos deve ser redimida
- “Toda obra de cultura é também um documento de barbárie” (Tese VII sobre o conceito de história)
- Messiânico: a revolução não é progresso linear, mas irrupção que redime o sofrimento passado
Flâneur e Modernidade
- O flâneur (passeante urbano) como figura do observador moderno
- As Passagens de Paris como arqueologia da modernidade capitalista
Obras
- A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica (1935/36)
- Sobre o Conceito de História (1940, póstumas Teses)
- Passagens (Passagenwerk, póstuma)
- Origem do Drama Barroco Alemão (1928)
Jürgen Habermas (1929–2026) — 2.ª Geração
Razão Comunicativa
- Contra Adorno e Horkheimer: a razão não está totalmente corrompida — há uma dimensão comunicativa irredutível
- Agir comunicativo vs. agir instrumental: nas relações comunicativas orientadas ao entendimento mútuo, há uma racionalidade que não se reduz ao cálculo
Teoria da Ação Comunicativa (1981)
- Sociedade = mundo da vida (Lebenswelt) + sistema (mercado + estado)
- Colonização do mundo da vida: o sistema invade e substitui a comunicação simbólica por imperativos instrumentais
- A democracia deliberativa como forma de racionalizar o mundo da vida
Obras
- Conhecimento e Interesse (1968)
- Teoria da Ação Comunicativa (1981, 2 vols.)
- O Discurso Filosófico da Modernidade (1985)
- Direito e Democracia (1992)
IV. Filosofia Analítica
Contexto
Nasce com Frege, Russell e o primeiro Wittgenstein; domina o mundo anglófono no séc. XX. Foco: análise lógica da linguagem como método filosófico.
Gottlob Frege (1848–1925)
- Fundador da lógica moderna (lógica de predicados); distinção sentido/referência
- Obras: Conceitografia (1879); Fundamentos da Aritmética (1884)
Bertrand Russell (1872–1970)
- Teoria das descrições definidas; paradoxo de Russell; Principia Mathematica (com Whitehead, 1910–1913)
- Atomismo lógico: o mundo é composto de fatos atômicos
Ludwig Wittgenstein (1889–1951)
Fase 1 — Tractatus Logico-Philosophicus (1921):
- O mundo é a totalidade dos fatos; a linguagem representa a estrutura lógica dos fatos
- O que não pode ser dito claramente deve ser calado: “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”
- A ética e a estética são inefáveis — mostram-se, não se dizem
Fase 2 — Investigações Filosóficas (póstuma, 1953):
- Abandona a figura-representativa da linguagem
- Jogos de linguagem: o significado é o uso; não há linguagem privada
- Semelhanças de família (Familienähnlichkeiten): os conceitos não têm essência comum, apenas sobreposições
- Filosofia como terapia: dissolver confusões geradas pelo mau uso da linguagem
V. Estruturalismo e Pós-Estruturalismo
Claude Lévi-Strauss (1908–2009) — Estruturalismo Antropológico
- Mitos têm estrutura lógica universal (como língua): oposições binárias (cru/cozido, natureza/cultura)
- “Os mitos pensam nos homens sem que eles saibam”
- Obras: Tristes Trópicos (1955); O Pensamento Selvagem (1962); Mitológicas (4 vols., 1964–71)
Michel Foucault (1926–1984)
Arqueologia e Genealogia
- Arqueologia: analisa os sistemas de saber (épistémès) de cada época — como se organiza o “arquivo” do que pode ser dito
- Genealogia (a partir de Nietzsche): como as práticas de poder produziram verdades, sujeitos, categorias (louco, criminoso, homossexual, etc.)
Poder-Saber
- O poder não é apenas repressivo — é produtivo: produz saberes, sujeitos, corpos dóceis
- Não há saber neutro: todo saber está atravessado por relações de poder
Biopoder e Biopolítica
- Biopoder: a partir do séc. XVIII, o poder passa a administrar corpos e populações (medicina, estatísticas, sexualidade)
- Biopolítica: governo da vida — a vida biológica como objeto do poder político
Obras
- História da Loucura na Idade Clássica (1961)
- As Palavras e as Coisas (1966)
- Arqueologia do Saber (1969)
- Vigiar e Punir (1975) — trad. port. Vozes
- História da Sexualidade (3 vols., 1976–84)
Jacques Derrida (1930–2004) — Desconstrução
Logocentrismo e Fonocentrismo
- A metafísica ocidental privilegia a presença (voz, sentido imediato) sobre a escrita (differance, ausência)
- Différance (neologismo): adiar e diferir — o sentido nunca é plenamente presente, sempre diferido na cadeia de signos
Desconstrução
- Não é destruição, mas leitura que mostra como os textos minam suas próprias oposições hierárquicas (fala/escrita, natureza/cultura, homem/mulher)
- Nenhum texto tem um sentido único e fechado; há sempre suplementos, rasuras, margens
Obras
- Gramatologia (1967) — trad. port. Perspectiva
- A Escritura e a Diferença (1967)
- Margens da Filosofia (1972)
Referências gerais
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 6 (séc. XX)
- Heidegger: Ser e Tempo (trad. Marcia Schuback, Vozes)
- Sartre: O Ser e o Nada (trad. port. Vozes); O Existencialismo é um Humanismo
- Adorno & Horkheimer: Dialética do Iluminismo (trad. Guido Antônio de Almeida, Zahar)
- Foucault: Vigiar e Punir (trad. port. Vozes)
- Wittgenstein: Investigações Filosóficas (trad. port. Vozes)
- Simon Critchley, Continental Philosophy: A Very Short Introduction
- Scott Soames, Philosophical Analysis in the Twentieth Century (2 vols.)
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. V - Filosofia russa, positivismo e existencialismo
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