Período: ~1800–1900 | Contexto: Revolução Industrial; Revoluções políticas (1789, 1848); ascensão do capitalismo; desafio ao racionalismo iluminista
Panorama
O séc. XIX é marcado pela tensão entre a confiança iluminista na razão e no progresso e as reações críticas que esse projeto produz:
| Corrente | Resposta ao Iluminismo |
|---|---|
| Romantismo | Exalta o sentimento, a intuição, a natureza orgânica |
| Utilitarismo | Aceita a razão, mas a aplica à maximização do bem-estar |
| Marxismo | Aceita o progresso, mas o fundamenta na luta de classes |
| Positivismo | Confia na ciência empírica como único saber válido |
| Schopenhauer | A realidade é vontade irracional; o pessimismo como verdade |
| Nietzsche | Critica radicalmente toda a tradição ocidental; transvaloração dos valores |
I. Romantismo Filosófico
Contexto
O Romantismo surge na Inglaterra (fins do séc. XVIII) e atinge sua expressão mais filosófica na Alemanha (Schlegel, Novalis, Hölderlin, Tieck). É inseparável do Idealismo Alemão.
Teses centrais
- Primado do sentimento e da intuição sobre a razão analítica
- A natureza não é máquina (Newton) — é organismo vivo, força criadora, expressão do divino
- O infinito e o absoluto são acessíveis pela intuição estética e pelo sentimento
- O fragmento e a ironia como formas filosófico-literárias que preservam a ambiguidade do real
- História e tradição: valorização do passado medieval, da cultura popular, das identidades nacionais
Representantes
- Friedrich Schlegel (1772–1829): teoria do fragmento, ironia romântica, conceito de poesia como “filosofia progressiva universal”
- Novalis / Friedrich von Hardenberg (1772–1801): Heinrich von Ofterdingen; a natureza como texto simbólico de Deus
- Friedrich Schleiermacher (1768–1834): hermenêutica; a religião como sentimento de dependência absoluta; fundador da teologia liberal moderna
II. Utilitarismo
Jeremy Bentham (1748–1832)
Fundador do Utilitarismo.
Princípio da Utilidade
- Toda ação deve ser julgada pelo seu resultado: a maior felicidade para o maior número de pessoas
- Felicidade = prazer; infelicidade = dor
- “A natureza colocou a humanidade sob o governo de dois mestres soberanos: a dor e o prazer”
Cálculo da Felicidade (felicific calculus)
- Prazeres e dores podem ser mensurados por: intensidade, duração, certeza, proximidade, fecundidade, pureza, extensão
- Os legisladores devem usar esse cálculo para criar leis justas
Panopticon
- Projeto de prisão circular onde um guarda no centro pode observar todos os presos sem ser visto
- O controle social pela vigilância potencial (Foucault retomará no séc. XX)
Obras
- Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação (1789)
John Stuart Mill (1806–1873)
Utilitarismo qualitativo
- Herda Bentham, mas distingue prazeres superiores (intelectuais, morais) de prazeres inferiores (físicos)
- “É melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito”
- A utilidade a longo prazo inclui virtude, cultura, desenvolvimento humano
Liberdade Individual
- Princípio do Dano (harm principle): o único limite legítimo à liberdade individual é impedir dano a outros
- Defesa da liberdade de expressão, pensamento e estilo de vida
Feminismo
- A Sujeição das Mulheres (1869): os papéis sexuais são construções sociais e devem ser abolidos
Obras
- Sistema de Lógica (1843); Utilitarismo (1863); Sobre a Liberdade (1859); A Sujeição das Mulheres (1869)
III. Auguste Comte e o Positivismo (1798–1857)
A Lei dos Três Estágios
A humanidade e cada ciência passam por três fases:
- Teológico: os fenômenos são explicados por agentes sobrenaturais
- Metafísico: explicações por entidades abstratas (essências, forças)
- Positivo/Científico: descrição das relações constantes entre fenômenos pela observação e experimentação — única fase legítima
Hierarquia das Ciências
Matemática → Astronomia → Física → Química → Biologia → Sociologia (criada por Comte)
A Sociologia é a ciência mais complexa e a que coroará o programa positivista: uma “física social” que permite ordenar cientificamente a sociedade.
Obra
- Curso de Filosofia Positiva (1830–1842, 6 vols.)
IV. Karl Marx (1818–1883)
A filosofia de Marx é inseparável da crítica econômica e da teoria política. Um dos pensamentos mais influentes do séc. XIX e XX.
Relação com Hegel
- Marx é “hegeliano de pé” — inverte Hegel: a dialética não é ideal, mas material
- No Posfácio à 2.ª edição d’O Capital (1873), afirma que a dialética hegeliana está “de cabeça para baixo” e precisa ser invertida para revelar o “cerne racional no invólucro místico”
Materialismo Histórico e Dialético
- A base de toda história é a produção material da vida (trabalho, meios de produção, relações de produção)
- Infraestrutura (base econômica: forças produtivas + relações de produção) determina a superestrutura (Estado, direito, religião, ideologia, filosofia)
- A história é a história da luta de classes: livre/escravo, patrício/plebeu, senhor/servo, burguês/proletário
Alienação (Entfremdung)
- O trabalhador se aliena de seu produto (pertence ao capitalista), do processo de trabalho (imposto de fora), dos outros trabalhadores e de sua própria essência humana (Gattungswesen)
- A alienação religiosa (Feuerbach) é consequência da alienação econômica, não sua causa
Crítica do Capitalismo
- Mais-valia (Mehrwert): o capitalista paga ao trabalhador o necessário para sua reprodução, mas se apropria do excedente produzido
- Fetichismo da mercadoria: as relações sociais aparecem como relações entre coisas; a mercadoria oculta o trabalho humano que a produziu
- Crises: o capitalismo gera suas próprias contradições internas que levam a crises periódicas
Política: A Revolução
- A classe operária (proletariado) deve tomar consciência de si e abolir as classes
- Etapas: capitalismo → revolução → ditadura do proletariado → socialismo → comunismo (sociedade sem classes, sem Estado, sem alienação)
- “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo” — Teses sobre Feuerbach
Obras
- Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844, póstumos)
- A Ideologia Alemã (1845–46, com Engels; póstuma)
- Manifesto do Partido Comunista (1848, com Engels)
- Contribuição à Crítica da Economia Política (1859) — prefácio com o materialismo histórico
- O Capital (1867, vol. 1; vols. 2–3 póstumos)
V. Arthur Schopenhauer (1788–1860)
A Vontade como Coisa-em-Si
- A coisa-em-si kantiana (incognoscível) é a Vontade — impulso cego, irracional, sem propósito
- O mundo como representação: a realidade fenomênica é “véu de Maia” (ilusão)
- O mundo como Vontade: por baixo das aparências, há um único impulso irracional que se objetiva em graus (plantas, animais, homem)
Pessimismo
- A vida é sofrimento — a Vontade nunca se satisfaz plenamente; a satisfação gera tédio; o tédio gera novo desejo
- A felicidade é ausência de dor; nenhum prazer positivo
Caminhos de Libertação
- Arte: a contemplação estética suspende temporariamente a Vontade (a música é a Vontade diretamente)
- Compaixão (Mitleid): fundamento da moral; sentir o sofrimento alheio como próprio
- Ascese: negação da Vontade de vida — caminho budista/hindu; único caminho permanente
Influências
- Kant (coisa-em-si), filosofia indiana (budismo, Upanixades), Platão
- Influenciou: Nietzsche (início), Wagner, Freud (pulsão de morte), Wittgenstein
Obras
- O Mundo como Vontade e Representação (1818/1844)
- Sobre o Fundamento da Moral (1840)
- Parerga e Paralipomena (1851)
VI. Friedrich Nietzsche (1844–1900)
Filósofo-poeta; crítico mais radical da tradição ocidental. Influência imensa sobre o séc. XX: Existencialismo, Pós-Estruturalismo, psicologia.
A Morte de Deus
- “Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos!” (A Gaia Ciência, §125)
- Não é ateísmo banal — é o diagnóstico de que os valores supremos do Ocidente (verdade, bem, Deus, progresso) perderam sua força vinculante
- Consequência: niilismo — sem Deus e sem valores absolutos, tudo parece sem sentido
O Niilismo e a Transvaloração dos Valores
- Niilismo passivo: paralisia, resignação (Schopenhauer)
- Niilismo ativo: destruição dos velhos valores como passo para criar novos
- Transvaloração de todos os valores (Umwertung aller Werte): substituir a moral do rebanho pela moral nobre
Genealogia da Moral
- A moral cristã e socrática é uma moral de escravos: nasceu do ressentimento (ressentiment) dos fracos contra os fortes
- Bem/mau (gut/schlecht — moral nobre: criação dos fortes) vs. bem/mal (gut/böse — moral escrava: reação dos fracos)
- A moral ocidental é uma forma disfarçada de ódio e fraqueza
A Vontade de Potência (Wille zur Macht)
- Não mera vontade de poder político — impulso fundamental de expansão, criação, superação
- Toda vida é vontade de potência: afirmar-se, crescer, criar formas superiores
O Além-do-Homem (Übermensch)
- O homem é uma corda sobre o abismo — entre o animal e o além-do-homem
- O além-do-homem cria seus próprios valores; não é movido pelo medo ou pelo ressentimento
- Atenção: Nietzsche nunca defendeu racismo; o Übermensch é um ideal cultural, não biológico
O Eterno Retorno
- “E se tu devesses viver uma e incontáveis vezes esta vida, ainda a quereria?”
- Não é uma cosmologia literal — é o teste supremo da afirmação da vida: querer que tudo retorne eternamente é o sinal máximo de amor fati (amor ao destino)
Apolo e Dionísio (O Nascimento da Tragédia)
- Apolo: forma, beleza, individuação, sonho, ordem
- Dionísio: embriaguez, excesso, fusão, vida pulsante
- A grande arte grega equilibrou os dois; a morte da tragédia com Sócrates (apolo sem dionísio) empobrece a vida
Obras
- O Nascimento da Tragédia (1872)
- Humano, Demasiado Humano (1878)
- A Gaia Ciência (1882)
- Assim Falou Zaratustra (1883–1885)
- Para Além do Bem e do Mal (1886)
- Genealogia da Moral (1887)
- O Crepúsculo dos Ídolos (1889)
- O Anticristo (1888/1895, póstuma)
- Ecce Homo (1888/1908, póstuma)
Referências gerais
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vols. 5 e 6
- Marx & Engels: Manifesto Comunista (trad. port. Boitempo); O Capital, vol. 1 (trad. port. Boitempo)
- Nietzsche: Genealogia da Moral (trad. Paulo César de Souza, Companhia das Letras); Assim Falou Zaratustra (trad. Mário Ferreira dos Santos)
- Schopenhauer: O Mundo como Vontade e Representação, vol. 1 (trad. Jair Barboza, UNESP)
- Mill: Utilitarismo (trad. port. L&PM); Sobre a Liberdade (trad. port. L&PM)
- Peter Singer, Marx: Uma Breve Introdução
Livros indicados:
Uma história da filosofia - Vol. IV - do utilitarismo a Sartre
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