Período: ~200–1400 d.C. | Contexto: fusão de filosofia grega com teologia cristã, islâmica e hebraica; transição do cosmocentrismo ao teocentrismo/antropocentrismo


Panorama geral

A filosofia medieval estrutura-se em torno de problemas teológico-filosóficos: relação fé/razão, existência de Deus, criação ex nihilo, imortalidade da alma, universais. O período se divide em:

  1. Patrística (sécs. I–VIII): os Padres da Igreja interpretam o cristianismo com ferramentas filosóficas gregas
  2. Escolástica (sécs. VIII–XIV): racionalização sistemática da teologia nas escolas e universidades medievais

Parte I — Patrística

Fílon de Alexandria (~20 a.C.–50 d.C.)

  • Primeiro filósofo judeu helenístico: fusão do Antigo Testamento com o platonismo; influenciou profundamente os Padres da Igreja
  • Método: alegorese (interpretação alegórica da Bíblia)
  • Logos: segundo Deus / mente de Deus / mediador entre Deus e o mundo (antecipa a cristologia)

Padres Apostólicos (sécs. I–II)

Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna — discípulos dos apóstolos; preocupação moral e ascética.

Padres Apologistas (séc. II)

Defendem o cristianismo perante o paganismo usando argumentos filosóficos:

  • Justino Mártir: primeiro platônico cristão; retoma a doutrina do Logos de Fílon; os homens possuem “sementes do Logos”
  • Clemente de Alexandria: harmonia entre fé e razão; filosofia como preparação para o Evangelho
  • Orígenes (~185–254): o conhecimento de Deus excede a mente humana; encarnação da alma para purificação; influência do platonismo médio e de Amônio Sacas (mestre de Plotino)

Patrística Latina — Antes de Agostinho (sécs. III–IV)

  • Tertuliano (~160–225): “Certum est, quia impossibile” (De Carne Christi V) — fé e razão são irreconciliáveis; a fé é superior
  • Ambrósio de Milão (~340–397): usa o método alegórico de Fílon; mestre de Agostinho
  • Jerônimo (~347–420): tradução latina da Bíblia — Vulgata

Santo Agostinho de Hipona (354–430)

O maior filósofo da Patrística e um dos mais influentes de toda a história do pensamento.

Biografia intelectual

Percorreu: Cícero → Maniqueísmo (dualismo persa: bem/mal) → Ceticismo acadêmico → Neoplatonismo (Plotino) → Cristianismo (batizado por Ambrósio, 387)

Teses fundamentais

i. Fé e razãoCrede ut intelligas, intellige ut credas” — Crer para compreender; compreender para crer. Fé e razão são conciliáveis e se implicam mutuamente.

ii. Iluminação Não há reminiscência platônica; o conhecimento vem de Deus que ilumina nossa razão de dentro — fagulha divina na alma.

iii. Provas da existência de Deus

  • Da verdade: a verdade existe (mesmo o cético admite isso ao duvidar); Deus é a fonte da verdade
  • Graus de perfeição: há graus de bem → há um bem supremo = Deus
  • Consensus gentium: todos os povos creem em algo divino

iv. Trindade Identidade substancial das três pessoas; vestígios da Trindade na mente: ser/conhecer/amar

v. Criação ex nihilo Não é geração (como pai/filho) nem fabricação (como artesão); Deus cria do nada, junto com o tempo.

vi. Razões seminais Deus cria o mundo com “sementes” de todas as coisas possíveis — potencialidades que se desenvolvem no tempo (antecipa evolução?)

vii. Tempo Surge com a criação. Três presentes na alma: memória (passado), intuição/atenção (presente), espera/antecipação (futuro)

viii. O Mal

  • Metafísico: o mal não existe; há apenas graus de perfeição
  • Moral: o mal é fruto da vontade má que se volta a bens inferiores
  • Físico: consequência do pecado original

ix. Vontade e graça O livre-arbítrio existe (o pecado é opção voluntária); mas a graça divina é necessária para o bem. O pecado original corrompeu a liberdade.

x. As Duas Cidades

  • Cidade terrena (Caim): fundada no amor de si mesmo até o desprezo de Deus
  • Cidade de Deus (Abel): fundada no amor de Deus até o desprezo de si mesmo
  • História linear com fim escatológico

Obras

ObraTema
ConfissõesAutobiografia espiritual/filosófica
A Cidade de DeusFilosofia da história; teologia política
Sobre o Livre-ArbítrioLiberdade, mal, graça
Sobre a TrindadeTeologia trinitária
Contra os AcadêmicosCrítica ao ceticismo

Parte II — Escolástica

Estrutura do período

  • 1.ª fase (fim do séc. V – fim do séc. IX): Boécio, Escoto Eriúgena
  • 2.ª fase (fim do séc. IX – fim do séc. XII): Anselmo, Abelardo, disputa dos universais
  • 3.ª fase / Era de Ouro (séc. XIII): Tomás de Aquino, Boaventura, filosofia árabe/hebraica
  • 4.ª fase (séc. XIV): crise, Duns Scotus, Ockham

1.ª Fase

Boécio (~480–524)

  • Traduz e comenta a Lógica de Aristóteles para o latim — transmissão à Idade Média
  • A Consolação da Filosofia (escrita na prisão): a filosofia ensina a verdadeira felicidade = aproximação de Deus, afastamento dos bens materiais; confia na Providência apesar do mal
  • Referências: Consolação da Filosofia, Comentário à Isagoge de Porfírio

João Escoto Eriúgena (~815–877)

  • Leitor do neoplatonismo e do Pseudo-Dionísio
  • 4 divisões da realidade: 1) que cria e não é criada (Deus); 2) que cria e é criada (Logos/arquétipos); 3) não cria e é criada (mundo); 4) não cria e não é criada (Deus como fim)
  • Não há diferença entre filosofia e religião
  • Periphyseon (Sobre a Divisão da Natureza)

2.ª Fase — A Disputa dos Universais

O problema: os universais (humanidade, bondade, círculo) existem realmente ou são apenas nomes?

PosiçãoTeseRepresentantes
Realismo exagerado (ante rem)Universais existem antes e independentemente das coisas — radicalização platônicaEriúgena, Guilherme de Champeaux
Nominalismo (post rem)Universais são apenas palavras/nomes; só existem indivíduos concretosRoscelino de Compiègne, Ockham
Conceitualismo (post rem mental)Universais existem na mente como conceitos abstratosAbelardo
Realismo moderado (in re)Universais existem nas coisas como suas determinações reaisBoécio, Tomás de Aquino

Anselmo de Cantuária (1033–1109)

  • “Credo ut intelligam” — crer para compreender
  • Argumento ontológico (a priori): Deus = “aquilo do qual nada maior pode ser pensado”; se existisse só na mente, não seria o maior concebível → Deus existe na realidade
  • Provas a posteriori: graus de bondade, grandeza, causas, perfeição
  • Críticos: Gaunilo, Tomás, Kant; defensores: Duns Scotus, Descartes, Leibniz
  • Obras: Monológio, Proslógio, Cur Deus Homo

Abelardo (~1079–1142)

  • “Entender para crer” — a razão deve examinar antes de aceitar pela fé
  • Conceitualismo: universais são conceitos abstratos formados pela mente
  • Moral da intenção: o ato é neutro; o bem/mal reside na intenção da consciência
  • Sic et Non: método dialético aplicado à teologia (colocar em confronto autoridades contraditórias)
  • Obras: Sic et Non, Ética ou Conhece-te a Ti Mesmo

3.ª Fase — Era de Ouro (séc. XIII)

Filosofia Árabe

Avicena / Ibn Sīnā (980–1037)

  • Distinção fundamental entre ente (o que existe de fato) e essência (o que a coisa é)
  • Deus: ser necessário por si mesmo; criaturas: ser contingente/possível
  • Teoria das inteligências: Deus emana 10 inteligências que regem os céus; a 10.ª irradia as formas sobre o mundo e atualiza o intelecto humano
  • Obras: O Livro da Cura (Shifa), O Livro da Salvação

Averróis / Ibn Rushd (1126–1198)

  • “O Comentador” — defender que Aristóteles é a suprema verdade filosófica
  • Intelecto único: há um intelecto possível único para toda a humanidade; o intelecto individual não é imortal
  • Eternidade do mundo: derivada da eternidade do Motor Imóvel (causa final, não eficiente)
  • Influência: Averroísmo Latino (Siger de Brabante); disputa sobre fé e razão
  • Obras: Comentários a Aristóteles; Destruição da Destruição

Filosofia Hebraica

Maimônides (1138–1204)

  • Combina Aristóteles com o judaísmo
  • Teologia negativa: só podemos dizer o que Deus não é
  • Criação no tempo (contra a eternidade do mundo de Averróis): preserva a liberdade divina
  • Obras: Guia dos Perplexos

Grandes Escolásticos

Alberto Magno (~1200–1280)

  • Introduz Aristóteles no Ocidente cristão; mestre de Tomás de Aquino
  • Filosofia e teologia têm perspectivas diferentes, mas podem coexistir

Tomás de Aquino (1225–1274)

O maior sintetizador da Escolástica; harmoniza Aristóteles com o cristianismo.

i. Ontologia

  • Distinção: essência (o que a coisa é) e ato de ser/existência (o que existe de fato)
  • Só em Deus essência = existência; Deus é ato puro
  • Criaturas: “têm” existência (contingente), não “são” existência
  • Transcendentais do ser: uno, verdadeiro, bom

ii. As 5 Vias (provas da existência de Deus)

  1. Movimento: tudo que se move é movido por outro → Motor Imóvel = Deus
  2. Causa eficiente: série de causas → Causa incausada = Deus
  3. Contingência: seres contingentes pressupõem ser necessário = Deus
  4. Graus de perfeição: perfeições graduadas exigem máxima perfeição = Deus
  5. Finalismo: seres sem inteligência agem com finalidade → Inteligência ordenadora = Deus

iii. Teoria do Direito

  • Lei eterna: plano racional de Deus para o universo
  • Lei natural: participação racional humana na lei eterna (“fazer o bem, evitar o mal”)
  • Lei humana: deriva da natural por dedução (ius gentium) ou especificação (ius civile)
  • Lei divina: lei revelada (Evangelho)

iv. Política

  • Melhor governo: monarquia (unidade e ordem); pior: tirania

Obras: Suma Teológica, Suma Contra os Gentios, Sobre o Ente e a Essência, Comentários a Aristóteles


Boaventura (1221–1274)

  • Franciscano; platônico-agostiniano
  • Deus está presente em todo ato cognitivo; não é necessário provar sua existência de fora
  • Criação por razões seminais e exemplarismo (Deus usa as Ideias de sua mente como projeto)
  • A criatura é vestígio (vestigium) de Deus
  • Obras: A Mente Rumo a Deus (Itinerarium Mentis in Deum), Comentários às Sentenças

Siger de Brabante (~1240–1282)

  • Averroísmo Latino: a filosofia de Aristóteles, seguida consequentemente, leva a conclusões contrárias à fé
  • Doutrina da dupla verdade (atribuída pelos adversários): razão e fé se movem em sentidos diferentes; ao cristão cabe escolher a fé, mas as razões filosóficas têm sua validade própria

Roger Bacon (~1214–1292) — Oxford

  • Causas da ignorância: autoritarismo, presunção, hábito, insipiência — antecipa Bacon (séc. XVII)
  • Defende o método experimental (scientia experimentalis)

4.ª Fase — Crise (séc. XIV)

Duns Scotus (~1266–1308)

  • Univocidade do ente: o conceito mais simples e universal é “ente” — predicável de Deus e criaturas no mesmo sentido (contra Tomás, que defendia a analogia)
  • Distinção formal: real (Sócrates ≠ Platão) / formal (inteligência ≠ vontade dentro do mesmo ser) / modal / de razão
  • Haecceidade (haecceitas): princípio de individuação — “esta-eidade” que torna um ser este indivíduo concreto
  • Voluntarismo: primado da vontade sobre a inteligência, em Deus e no homem
  • Obras: Ordinatio, Opus Oxoniense, Tratado sobre o Primeiro Princípio

Guilherme de Ockham (~1287–1347)

  • Príncipe nominalista
  • Navalha de Ockham: “não multiplicar entes sem necessidade” — reduzir os universais, eliminar entidades supérfluas da metafísica
  • Universais = termos lógicos, não realidades externas; o conhecimento é sempre de singulares
  • Autonomia radical de fé e razão: as verdades da fé não são evidentes nem demonstráveis pela razão
  • A Igreja como comunidade livre de fiéis, não governo papal absoluto — antecipa a Reforma
  • Obras: Suma da Lógica, Questões sobre as Sentenças

Referências gerais

  • Giovanni Reale & Dario Antiseri, História da Filosofia, vol. 2 (Patrística e Escolástica)
  • Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média
  • Frederick Copleston, História da Filosofia, vols. 2 e 3
  • Boécio: A Consolação da Filosofia (trad. port. WMF/Martins Fontes)
  • Tomás de Aquino: Suma Teológica (ed. Loyola); Sobre o Ente e a Essência
  • Agostinho: Confissões; A Cidade de Deus (ed. Paulus/WMF)

Livros indicados:

Capa do livro Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume Uma história da filosofia - Vol.II - do Renascimento a Hume Ver na Amazon →