Período: ~323 a.C. – séc. III d.C. | Contexto: queda da pólis após Alexandre Magno; cosmopolitismo; busca individual pela felicidade (eudaimonia) e tranquilidade (ataraxia)
Contexto histórico
Com a derrota grega para Filipe II da Macedônia (338 a.C.) e a expansão de Alexandre Magno (336–323 a.C.), a pólis entra em crise. O centro cultural migra de Atenas para Alexandria (maior biblioteca do mundo antigo). A filosofia abandona a reflexão política e volta-se ao indivíduo: como viver bem num mundo imprevisível? Cada escola oferece um caminho distinto para a ataraxia (ausência de perturbação):
| Escola | Caminho para a ataraxia |
|---|---|
| Cinismo | Autarquia — bastar-se a si mesmo |
| Epicurismo | Prazer = ausência de dor (aponia) + tranquilidade da alma |
| Estoicismo | Apatia — domínio das paixões pela razão |
| Ceticismo | Epoché — suspensão do juízo |
I. Cinismo
Antístenes de Atenas (~445–365 a.C.)
- Socrático; fundador do cinismo
- A virtude é suficiente para a felicidade; riqueza, prazer e fama são indiferentes
- Referências: Diógenes Laércio (Vidas, VI)
Diógenes de Sinope (~413–323 a.C.) — “Diógenes, o cão” (kynikós)
- Refundador e principal figura do cinismo
- Anticultural: a filosofia abstrata é inútil; o que importa é o exemplo e a ação
- Vivia em um grande jarro de cerâmica (pithos), reduzia as necessidades ao mínimo, desprezava convenções sociais
- Autarquia: liberdade total, independência de todos
- “Procuro um homem [honesto]” — andava com lanterna acesa à luz do dia
- Encontrou Alexandre Magno: pediu apenas que ele saísse da frente do sol
- Referências: Diógenes Laércio (Vidas, VI); Plutarco (Vida de Alexandre)
Crates de Tebas (~365–285 a.C.)
- Discípulo de Diógenes; casou-se com Hipárquia, que abraçou o cinismo
- Viviam o cinismo conjugal: sem convenções, sem propriedade
II. Epicurismo
Epicuro de Samos (~341–271 a.C.)
Fundou a Escola do Jardim (Kepoi) em Atenas (307/306 a.C.) — aberta a mulheres e escravos.
Tripartição da filosofia
- Lógica/Cânon — critérios da verdade
- Física — constituição da realidade
- Ética — como alcançar a felicidade
Lógica: critérios da verdade
- Sensações: infalíveis (são afecções passivas causadas por simulacros atômicos que emanam das coisas)
- Prolépses: pré-noções; memória das sensações passadas que permite reconhecer objetos
- Sentimentos de prazer e dor: critério axiológico do bem e do mal
- Opiniões: verdadeiras se confirmadas pela experiência; falsas se refutadas
Física: materialismo atomista
- Herda de Demócrito: átomos e vazio; nada nasce do não-ser
- Inovação: clinâmen (parenklisis) — desvio espontâneo dos átomos (evita determinismo puro, funda a liberdade)
- Mundos infinitos nascem e se dissolvem no tempo
Ética: hedonismo moderado
- Prazer (hêdonê) = ausência de dor no corpo (aponia) + tranquilidade na alma (ataraxia)
- Prazeres cinéticos (ativos) vs. prazeres catastemáticos (estáveis/negativos) — estes são superiores
- Hierarquia dos desejos: naturais e necessários > naturais e não-necessários > vãos
- Quatro remédios (tetrapharmakos): não temer os deuses; não temer a morte; o bem é fácil de obter; o mal é fácil de suportar
- Amizade (philia) como o maior bem da vida social
Obras e referências
- Epicuro: Carta a Mêneceu (ética), Carta a Heródoto (física), Carta a Pítocles (meteorologia); Máximas Capitais
- Lucrécio: De Rerum Natura — exposição poética do epicurismo
III. Estoicismo
A. Estoicismo Grego (Pórtico — Stoá Poikilê)
Zenão de Cítio (~334–262 a.C.) — fundador
- Lecionava no Pórtico Pintado (Stoá Poikilê) de Atenas
- Virtude é o único bem; o resto é indiferente (adiáphora)
- Deus = Logos/Fogo que perpassa o universo
Cleantes de Asso (~330–230 a.C.) — sucessor de Zenão
- Hino a Zeus — expressão poética do panteísmo estoico
Crisipo de Solos (~280–207 a.C.) — “segundo fundador”
- Sistematizou a lógica, física e ética estoicas; escritor prolífico
Tripartição estoica da filosofia
- Lógica (topoi): dialética + retórica; critério da verdade = representação cataléptica (phantasia katalêptikê)
- Física: o universo é um todo racional perpassado pelo Logos (fogo/pneuma divino); tudo é material; ciclos cósmicos (ekpyrosis); panteísmo
- Ética: viver segundo a natureza = viver segundo a razão; virtude como único bem real; paixões = julgamentos equivocados; quatro virtudes: sabedoria, justiça, coragem, temperança; cosmopolitismo — todos os homens são cidadãos do mundo
B. Estoicismo Romano (sécs. I–II d.C.)
Sêneca (~4 a.C.–65 d.C.)
- Tutor e conselheiro de Nero; suicídio por ordem imperial
- Filosofia como preparação para a morte; a morte como libertação
- Obras: Cartas a Lucílio, Sobre a Brevidade da Vida, Sobre a Tranquilidade da Alma, Sobre a Clemência
Epiteto (~50–135 d.C.)
- Ex-escravo; distingue o que depende de nós (eph’hêmin: pensamentos, impulsos) do que não depende
- “Suporta e abstém-te” (anékhou kai apékhou)
- Obras: Enquiridião (Ariano, discípulo), Diatribes
Marco Aurélio (121–180 d.C.) — Imperador-filósofo
- Diário filosófico escrito em grego
- A virtude é o único bem; o universo é providencial; memento mori
- Obra: Meditações (Pensamentos a Si Mesmo)
IV. Ceticismo Antigo
Pirro de Élis (~365–270 a.C.) — fundador
- Não deixou escritos; viveu coerentemente com a epoché (suspensão de todo juízo)
- Afasia (aphasia): não pronunciar sobre nada
- Tranquilidade como consequência da suspensão do juízo
Timão de Fliúnte — discípulo de Pirro; Silos (poema satírico)
Academia Nova (Arcésilau, Carnéades)
- Probabilismo: não há certeza; podemos agir com base no provável
Enesidemo — retomada do pirronismo; os 10 tropos da dúvida
Sexto Empírico (séc. II d.C.)
- Sistematização mais completa do ceticismo antigo
- Obras: Hipotiposes Pirrônicas, Contra os Matemáticos
V. Neoplatonismo (sécs. III–VI d.C.)
Plotino de Licopolis (~205–270 d.C.)
A mais importante síntese filosófica da Antiguidade tardia.
Estrutura da realidade (emanação)
- O Uno (tò hen): absoluto, inefável, além do ser e do pensamento; nada lhe falta
- Nous (Inteligência): primeira emanação do Uno; pensa a si mesmo e às Ideias
- Alma do Mundo (psychê): emanação do Nous; governa o cosmos; contém as almas individuais
- Matéria (hylê): limite da emanação; escuridão, privação, não-ser relativo
Retorno (epistrophê): a alma, por contemplação e pureza, pode ascender de volta ao Uno — êxtase místico
Influências
- Platonismo, pitagorismo, aristotelismo (Nous como motor imóvel)
- Influenciou diretamente: Porfírio, Jâmblico, Proclo; Agostinho, Pseudo-Dionísio Areopagita; Renascimento italiano; Romantismo alemão (Schelling)
Porfírio (~234–305 d.C.)
- Editor das Enéadas de Plotino (6 grupos de 9 tratados)
- Isagoge — introdução às Categorias de Aristóteles; central para a disputa dos universais na Escolástica
- Obra: Vida de Plotino
Jâmblico (~245–325 d.C.)
- Teurgia: ritual como complemento da contemplação; politeísmo filosófico
- Sobre os Mistérios
Proclo (~412–485 d.C.)
- Sistematiza o neoplatonismo em forma dedutiva
- Elementos de Teologia, Comentário ao Parmênides de Platão
Referências gerais
- Plotino: Enéadas (ed. Porfírio); trad. port. Plotino, Enéadas (Loyola)
- Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 1, caps. Helenismo e Neoplatonismo
- Pierre Hadot, Plotin ou la simplicité du regard
Livros indicados:
Uma História Da Filosofia - Vol. I - Grécia
Ver na Amazon →