Período: ~1879–presente | Contexto: Crise dos fundamentos da matemática; reação ao Idealismo Absoluto hegeliano; ascensão da lógica simbólica; debates sobre método filosófico


Panorama

A filosofia analítica surgiu no fim do séc. XIX como uma resposta à dominância do Idealismo Britânico (Bradley, Bosanquet) e ao projeto de fundamentar rigorosamente a matemática e o conhecimento. Define-se menos por doutrinas e mais por um estilo: clareza conceitual, análise lógica da linguagem, atenção às distinções.

FasePeríodoRepresentantes-chave
Origens lógicas1879–1920Frege, Russell, Moore
Atomismo lógico1910–1930Russell, Wittgenstein I
Positivismo Lógico1920–1950Schlick, Carnap, Neurath, Ayer
Filosofia da Linguagem Ordinária1945–1970Ryle, Austin, Strawson
Pós-positivismo e Naturalismo1950–1990Quine, Davidson, Kripke
Filosofia Analítica contemporânea1980–presenteMúltiplas subdisciplinas

I. As Origens: Frege e a Revolução Lógica

Gottlob Frege (1848–1925)

Matemático e lógico alemão, considerado o fundador da lógica moderna e da filosofia analítica da linguagem.

Begriffsschrift (Conceituografia, 1879): Primeira formulação de um cálculo lógico de predicados — sistema de notação para dedução formal que supera a lógica silogística aristotélica. Frege introduz quantificadores, funções e a distinção entre argumento e função.

Fundamentos da Aritmética (Grundlagen der Arithmetik, 1884): Projeto logicista — a aritmética é redutível à lógica pura. Frege busca definir os números sem recorrer à intuição espacial ou temporal.

Distinção Sentido / Referência (“Über Sinn und Bedeutung”, 1892): Um dos resultados mais influentes da filosofia da linguagem. Frege distingue:

  • Referência (Bedeutung): o objeto ao qual o termo se refere
  • Sentido (Sinn): o modo de apresentação do objeto

Exemplo: “A Estrela da Manhã” e “A Estrela da Tarde” têm a mesma referência (Vênus), mas sentidos diferentes — por isso a identidade “A Estrela da Manhã = A Estrela da Tarde” é informativa, não trivial.

Leis Básicas da Aritmética (Grundgesetze, 1893/1903): O projeto logicista sofre um golpe fatal quando Russell descobre a contradição no Axioma V de Frege (conjunto de todos os conjuntos que não se contêm — o Paradoxo de Russell).


II. Russell: Atomismo Lógico e a Teoria das Descrições

Bertrand Russell (1872–1970)

Matemático e filósofo britânico; junto com Moore, rompeu com o Idealismo Britânico e fundou a tradição analítica inglesa.

Teoria das Descrições Definidas (“On Denoting”, 1905): Russell analisa expressões como “o atual rei da França” — que parecem referenciar mas não referem a nada existente. A análise lógica revela que a forma gramatical engana: “O atual rei da França é calvo” não pressupõe a existência do rei; é simplesmente falsa quando não há tal rei. A forma lógica real é: Existe exatamente um x tal que x é atual rei da França e x é calvo.

Principia Mathematica (com A.N. Whitehead, 1910–13): Monumental tentativa de reduzir toda a matemática à lógica formal. A Teoria dos Tipos foi desenvolvida para evitar paradoxos como o de Russell.

Atomismo Lógico (1918–19): O mundo é composto de fatos atômicos (combinações de objetos simples); as proposições verdadeiras refletem esses fatos; a linguagem ideal deveria ser isomórfica à estrutura dos fatos. A filosofia deve analisar proposições complexas até seus componentes atômicos.


III. Wittgenstein I: O Tractatus

Ludwig Wittgenstein (1889–1951) — Primeira fase

Tractatus Logico-Philosophicus (1921/22): Obra de extrema concisão e sistematicidade.

Teoria Pictórica da Linguagem: Uma proposição é uma figura (Bild) de um estado de coisas possível. Proposições elementares representam fatos atômicos por compartilhar a mesma forma lógica.

Limites da Linguagem: Aquilo que pode ser dito são as proposições da ciência natural. Questões éticas, estéticas e metafísicas não podem ser ditas — elas se mostram. A famosa sentença final do Tractatus (7): “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar.”

Tautologias e Contradições: As proposições da lógica são tautologias — verdadeiras em todo estado de coisas possível; dizem nada sobre o mundo, mas mostram a estrutura lógica da linguagem.


IV. O Círculo de Viena e o Positivismo Lógico

Reunido em Viena a partir dos anos 1920 em torno de Moritz Schlick (1882–1936), o Círculo incluía Rudolf Carnap (1891–1970), Otto Neurath (1882–1945) e, na periferia, A.J. Ayer (1910–1989) no contexto britânico.

Princípio da Verificação: Uma proposição é cognitivamente significativa se e somente se é analítica (verdadeira por definição) ou empiricamente verificável. As afirmações metafísicas — “Deus existe”, “O Absoluto é eterno” — são sem sentido, não falsas.

Anti-Metafísica: Carnap no artigo “A Superação da Metafísica pela Análise Lógica da Linguagem” (1932) argumenta que proposições metafísicas violam a sintaxe lógica ou são empiricamente incontroláveis.

Fisicalismo e Unidade da Ciência: Neurath propõe que toda linguagem científica seja redutível à linguagem física observacional — protocolo de observação.

Colapso do Programa: O próprio princípio da verificação não é verificável empiricamente nem analítico — uma dificuldade reconhecida pelos próprios membros. Quine, na geração seguinte, formularia uma crítica mais fundamental.


V. Filosofia da Linguagem Ordinária

Após a Segunda Guerra, o centro da filosofia analítica deslocou-se para Oxford e Cambridge. O foco mudou: em vez de construir linguagens ideais, analisar o uso real da linguagem ordinária.

Gilbert Ryle (1900–1976)

O Conceito de Mente (The Concept of Mind, 1949): Ryle critica o dualismo cartesiano como um “erro de categoria” — tratar a mente como uma entidade ghostly dentro do corpo (o “fantasma na máquina”). Conceitos mentais descrevem disposições para comportamentos, não estados internos ocultos.

J.L. Austin (1911–1960)

Teoria dos Atos de Fala: Desenvolvida nas palestras publicadas postumamente em How to Do Things with Words (1962). Distinção fundamental:

  • Ato locucionário: o ato de proferir palavras com sentido e referência
  • Ato ilocucionário: o que se faz ao proferir (prometer, ordenar, afirmar, perguntar)
  • Ato perlocucionário: o efeito causado no ouvinte Austin havia antes distinguido enunciados constativos (descrevem fatos, verdadeiros ou falsos) de performativos (realizam ações — “Eu prometo”, “Eu batizo”), mas reconheceu depois que todo enunciado tem dimensão ilocucionária.

Peter Strawson (1919–2006)

Critica a teoria das descrições de Russell — em “On Referring” (1950) argumenta que a pergunta não é se a proposição é verdadeira ou falsa quando o rei da França não existe, mas que o enunciado não tem aplicação (pressuposição vs. asserção).


VI. Quine e a Crítica ao Empirismo Lógico

W.V.O. Quine (1908–2000)

O artigo “Dois Dogmas do Empirismo” (1951, Philosophical Review; republicado em From a Logical Point of View, 1953) destrói dois pressupostos centrais do positivismo:

Dogma 1 — Distinção Analítico/Sintético: Não há fronteira clara entre verdades analíticas (verdadeiras por significado, como “todo solteiro é não-casado”) e sintéticas (verdadeiras por fato). A noção de “verdade por significado” pressupõe a noção de “sinonímia”, que por sua vez pressupõe “analiticidade” — circularidade.

Dogma 2 — Reducionismo: A ideia de que cada proposição tem um conteúdo empírico isolado. Quine propõe o holismo: crenças enfrentam o tribunal da experiência não individualmente, mas coletivamente (tese Duhem-Quine). Diante de recalcitrância empírica, podemos ajustar qualquer crença — inclusive leis lógicas.

Word and Object (1960): A indeterminação da tradução — não há fato que determine qual de múltiplos manuais de tradução é o correto. A tradução “gavagai” por “coelho” é apenas uma entre alternativas incompatíveis mas igualmente adequadas empiricamente.

Epistemologia Naturalizada (“Epistemology Naturalized”, 1969): A epistemologia não é fundamento da ciência, mas um capítulo dela. A questão é como os seres humanos de fato chegam à ciência a partir de inputs sensoriais — uma questão empírica, não transcendental.


VII. Davidson, Kripke e Desenvolvimentos Posteriores

Donald Davidson (1917–2003)

Semântica das Condições de Verdade: A semântica de uma linguagem é dada por uma teoria do tipo de Tarski que especifica as condições de verdade das sentenças. Monismo Anômalo (“Mental Events”, 1970): Eventos mentais são físicos (monismo), mas as propriedades mentais não se reduzem a propriedades físicas por leis (anomalismo) — há dependência sem redução. Esquema Conceitual (“On the Very Idea of a Conceptual Scheme”, 1974): Critica o relativismo conceitual — a ideia de esquemas conceituais radicalmente diferentes pressupõe uma base de tradução, que é incompatível com a incomensurabilidade radical.

Saul Kripke (1940–2022)

Naming and Necessity (conferências 1970; publicado 1980): Contra a teoria das descrições de Russell e Frege: nomes próprios são designadores rígidos — referem ao mesmo objeto em todos os mundos possíveis. “Aristóteles” não é abreviação de uma descrição; nomeia diretamente. Necessidade a posteriori: “Água é H₂O” é necessariamente verdade (a água não poderia ser outra coisa em sua essência), mas é descoberta empiricamente — refuta a equivalência kantiana entre necessidade e aprioridade.


VIII. Principais Debates Contemporâneos

ÁreaQuestão Central
Metafísica analíticaPersistência, identidade, modalidade, causalidade
EpistemologiaInternalismo vs. externalismo; conhecimento e justificação
Filosofia da menteQualia, consciência, intencionalidade
Ética analíticaMetaética (realismo, expressivismo); ética normativa
Filosofia da linguagemConteúdo, contexto, pragmática
Filosofia da ciênciaExplicação, leis, realismo científico

Ver também

  • Filosofia do Século XX
  • Filosofia da Mente
  • Racionalismo e Empirismo