Período: ~1650–1800 | Contexto: construção das bases filosóficas do Estado moderno; triunfo da razão como critério universal; crítica da metafísica e fundação da epistemologia


Parte I — Contratualismo

O contratualismo é a teoria segundo a qual o Estado e os vínculos políticos derivam de um contrato social entre os indivíduos, que abrem mão de parte de sua liberdade natural em troca de segurança e ordem. Cada autor diverge sobre o estado de natureza, o contrato e o tipo de soberania resultante.


1. Thomas Hobbes (1588–1679)

Contexto: guerra civil inglesa; Leviatã publicado em 1651.

Estado de Natureza

  • Homem é naturalmente egoísta e competitivo
  • “Homo homini lupus” — o homem é lobo do homem
  • Estado de natureza = guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes)
  • Vida nesse estado: “solitária, pobre, sórdida, brutal e breve”

O Contrato

  • Os homens, pela razão, percebem a necessidade de um soberano que garanta a paz
  • Cada indivíduo cede todos os seus direitos a um soberano (indivíduo ou assembleia) em troca de segurança
  • Uma vez feito o contrato, não há direito de resistência — o soberano é absoluto

Soberania

  • Absoluta e indivisível: o soberano está acima das leis civis (mas não das naturais)
  • O Estado = Leviatã: “aquele deus mortal ao qual devemos, sob o Deus Imortal, nossa paz e defesa”

Referências

  • Leviatã (1651); De Cive (1642); De Corpore (1655)

2. John Locke (1632–1704)

(Ver também 07_racionalismo_empirismo.md)

Estado de Natureza

  • Relativamente pacífico; regido pela lei natural (razão)
  • Direitos naturais inalienáveis: vida, liberdade e propriedade

O Contrato

  • Os homens criam o Estado para proteger seus direitos naturais (sobretudo a propriedade)
  • O governo se baseia no consentimento dos governados

Limite da soberania

  • Se o governo viola os direitos naturais, o povo tem direito à revolução (direito de resistência)
  • Influência direta nas revoluções americana (1776) e francesa (1789)
  • Separação de poderes: legislativo (supremo) + executivo/federativo

Referências

  • Dois Tratados sobre o Governo Civil (1689)

3. Jean-Jacques Rousseau (1712–1778)

Estado de Natureza

  • O homem no estado natural é “bom selvagem” — bondoso e livre
  • A sociedade e a propriedade privada corrompem o homem
  • “O homem nasce livre, e em todo lugar está acorrentado” — abertura do Contrato Social

O Contrato

  • O contrato legítimo deve expressar a vontade geral (volonté générale) — não a soma das vontades particulares, mas o bem comum
  • Ao obedecer à vontade geral, o indivíduo obedece a si mesmo — liberdade civil

Educação e infância

  • Emílio: a educação deve seguir a natureza da criança; não impor prematuramente as convenções sociais
  • A criança é naturalmente boa; o educador deve criar condições para o florescimento natural

Crítica ao Iluminismo

  • Paradoxo rousseauniano: a razão e o progresso das artes e ciências não tornam o homem mais feliz — corrompem os costumes
  • Elogio do sentimento e da consciência moral natural

Referências

  • Do Contrato Social (1762); Emílio ou Da Educação (1762); Discurso sobre as Ciências e as Artes (1750); Discurso sobre a Origem das Desigualdades (1755)

Parte II — Iluminismo

O Iluminismo (séc. XVIII) é o movimento que confia no poder da razão para libertar o homem da superstição, do fanatismo e da ignorância — saída da “menoridade” (Kant). Centro: França; irradiação: toda a Europa e as Américas.

Voltaire (1694–1778)

  • Crítica feroz da Igreja, da intolerância religiosa e do fanatismo
  • “Écrasez l’infâme!” (Esmagai o infame! — a superstição religiosa)
  • Defende a tolerância, a razão crítica e a reforma das instituições
  • Satira ao otimismo leibniziano em Cândido (1759) — crítica ao “melhor dos mundos possíveis”
  • Obras: Cândido, Tratado sobre a Tolerância, Dicionário Filosófico

Montesquieu (1689–1755)

  • Separação dos três poderes: executivo, legislativo, judiciário
  • “Para que não se abuse do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder”
  • Relativismo político: as leis devem se adaptar ao clima, costumes e história de cada povo
  • Obras: O Espírito das Leis (1748); Cartas Persas (1721)

Denis Diderot (1713–1784) e D’Alembert (1717–1783)

  • Organizadores da Enciclopédia (Encyclopédie, 1751–1772): síntese do saber iluminista; instrumento de crítica da religião e do absolutismo; 28 volumes

Parte III — Immanuel Kant (1724–1804)

A maior síntese da filosofia moderna. Kant tenta unir racionalismo e empirismo, fundar a ciência e limitar a metafísica, e estabelecer a moralidade sobre bases racionais autônomas.

As Quatro Perguntas de Kant

  1. O que posso saber?Crítica da Razão Pura (epistemologia e metafísica)
  2. O que devo fazer?Crítica da Razão Prática + Fundamentação da Metafísica dos Costumes (ética)
  3. O que me é permitido esperar?Religião nos Limites da Simples Razão + Filosofia da História
  4. O que é o ser humano?Antropologia de Ponto de Vista Pragmático

A. Crítica da Razão Pura (1781/87)

O Problema Central

Por que a metafísica não tem o mesmo sucesso que a matemática e a física? Kant investiga as condições de possibilidade do conhecimento científico — o método é transcendental (não estuda os objetos, mas as condições a priori de seu conhecimento).

Juízos e Conhecimento

  • Analíticos a priori: necessários, universais, mas não ampliam o conhecimento (tautológicos)
  • Sintéticos a posteriori: ampliam o conhecimento, mas são contingentes
  • Sintéticos a priori (nova classe kantiana): necessários, universais e ampliam o conhecimento. São a chave da ciência — e o problema central: como são possíveis?

A Revolução Copernicana de Kant

  • Antes: o sujeito conhece passivamente os objetos
  • Kant: o sujeito impõe suas formas a priori aos objetos — não conhecemos as coisas como são em si (Ding an sich), mas como aparecem para nós segundo nossas estruturas cognitivas

As Estruturas Transcendentais

Estética Transcendental (sensibilidade):

  • Espaço e Tempo são formas a priori da sensibilidade — não estão nos objetos, mas são condições de toda percepção
  • Fundamento a priori da geometria (espaço) e aritmética (tempo)

Analítica Transcendental (entendimento):

  • 12 Categorias a priori do entendimento (causalidade, substância, unidade, etc.)
  • O entendimento estrutura os fenômenos segundo essas categorias
  • “Conceitos sem intuições são vazios; intuições sem conceitos são cegas”

Dialética Transcendental (razão):

  • A razão tende a aplicar as categorias além da experiência possível → ilusões transcendentais
  • 3 ideias da razão (limites, não conhecimentos): alma (paralogismos), mundo (antinomias), Deus (ideal da razão pura)
  • A metafísica como ciência é impossível; Deus, alma e liberdade não podem ser demonstrados nem refutados pela razão pura

B. Crítica da Razão Prática (1788) e Fundamentação (1785)

Imperativo Categórico

A lei moral é a priori (racional, não empírica) e incondicionada. Formulações:

  1. Universalidade: “Age apenas segundo a máxima que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal”
  2. Humanidade como fim: “Age de tal modo que uses a humanidade, tanto em tua própria pessoa quanto na de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim e nunca apenas como meio”
  3. Autonomia/Reino dos fins: “Age segundo máximas de um membro legislador universal num possível reino dos fins”

Autonomia e Dignidade

  • Autonomia: a razão prática dá a si mesma a lei — não recebe de fora (heteronomia)
  • Dignidade: os seres racionais têm valor absoluto (dignidade), não preço — são fins em si mesmos

Os Postulados da Razão Prática

A lei moral exige (não demonstra, mas postula como condições de sentido):

  1. Liberdade: sem liberdade, a lei moral seria absurda
  2. Imortalidade da alma: a perfeição moral exige progresso infinito
  3. Existência de Deus: para que virtude e felicidade possam coincidir (summum bonum)

C. Crítica do Juízo (1790)

  • Juízo estético: o belo é aquilo que agrada universalmente sem conceito; o sublime ultrapassa o sensível
  • Juízo teleológico: a natureza pode ser pensada como se tivesse finalidade (seres vivos)
  • Liga os domínios da natureza (1.ª Crítica) e da liberdade (2.ª Crítica)

Síntese do Impacto de Kant

DomínioResultado
EpistemologiaO sujeito constitui a experiência; a metafísica como ciência é impossível
ÉticaAutonomia da vontade; dignidade absoluta da pessoa humana
EstéticaO belo como prazer desinteressado universal
PolíticaPaz perpétua; federação de repúblicas
ReligiãoDentro dos limites da razão pura

Referências gerais

  • Kant: Crítica da Razão Pura (trad. Valério Rohden, UFRGS/Vozes); Fundamentação da Metafísica dos Costumes (trad. Guido Antônio de Almeida, Discurso); Crítica da Razão Prática
  • Hobbes: Leviatã (trad. port. Martins Fontes)
  • Rousseau: Do Contrato Social (trad. port. L&PM)
  • Reale & Antiseri, História da Filosofia, vol. 3 e 4
  • Roger Scruton, Kant
  • Otfried Höffe, Immanuel Kant

Livros indicados:

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