
Nota sobre romanização: os nomes chineses são apresentados em pinyin, com caracteres originais entre parênteses na primeira ocorrência. Os tons não são marcados graficamente, conforme o uso editorial corrente.
Zhu Xi (朱熹), filósofo da dinastia Song meridional, é o grande sistematizador do que se convencionou chamar Neoconfucionismo — também conhecido como Lixue (理學, “Estudo do Princípio”) ou escola Cheng-Zhu, em referência aos irmãos Cheng (Cheng Hao e Cheng Yi), cujos escritos Zhu Xi organizou em síntese. Funcionário e mestre, passou a maior parte da vida ensinando em academias privadas e revisando textos clássicos. Sua importância histórica é difícil de exagerar: o currículo educacional fundado em seus comentários aos Sishu (四書, “Quatro Livros”) foi a base dos exames imperiais chineses de 1313 a 1905, e por essa via moldou também o pensamento da Coreia, do Vietnã e do Japão.
Zhu Xi não se via como inovador, e sim como continuador fiel da via dos sábios antigos. O rótulo “racionalista”, às vezes usado para sua escola, é enganoso se entendido no sentido europeu moderno: li (理) não é “razão” no sentido cartesiano, e sim o padrão inteligível imanente às coisas — uma noção que não opõe pensamento e natureza nos termos da modernidade ocidental.
Conceitos-chave
Li (理, “princípio” ou “padrão”): o padrão constitutivo de cada coisa e do cosmos como um todo. Cada ente tem seu li particular, mas há um único li supremo (identificado ao taiji) do qual os princípios particulares são especificações. Não é causa eficiente nem substância, mas norma inteligível.
Qi (氣, “energia/matéria”): o substrato dinâmico e diferenciador do qual se constituem as coisas individuais. O qi é variável em pureza e turvação, e explica a particularidade, a corporeidade e as diferenças morais entre indivíduos. Li sem qi seria vazio; qi sem li seria caos.
Taiji (太極, “Grande Polo Supremo”): o princípio último, retomado por Zhu Xi do Taijitu shuo de Zhou Dunyi. Não é uma entidade primeira ao lado das demais, mas o li em sua máxima generalidade — “o li do céu, da terra e dos dez mil seres”.
Gewu zhizhi (格物致知, “investigação das coisas e extensão do conhecimento”): expressão tomada da Grande Aprendizagem e elevada por Zhu Xi a método ético-cognitivo. Conhecer as coisas em seu li é o passo inicial do cultivo de si; a interpretação dessa fórmula é o ponto de disputa famosa com Wang Yangming, que a lerá em chave introspectiva oposta.
Cultivo de si (xiushen, 修身) e reverência interior (jing, 敬): o cultivo ético se articula em duas dimensões — o estudo dos clássicos e a investigação das coisas, por um lado, e a atenção concentrada do coração-mente (xin, 心), por outro. A jing é a postura interior do estudioso confuciano.
Natureza humana originalmente boa: Zhu Xi retoma a tese de Mêncio segundo a qual a natureza (xing, 性) é boa, e explica o mal pela turvação do qi particular, que obscurece a manifestação do li. A prática moral é então clarificação, não criação.
Influenciado por
- Os irmãos Cheng — Cheng Hao (1032–1085) e Cheng Yi (1033–1107), os precursores diretos do Lixue cuja obra Zhu Xi sistematiza
- Zhou Dunyi (1017–1073) — autor do Taijitu shuo (“Explicação do Diagrama do Grande Polo Supremo”)
- Zhang Zai (1020–1077) — pensador do qi e autor do Ximing (“Inscrição Ocidental”)
- Confúcio e Mêncio — o cânone fundador que Zhu Xi reorganiza ao elevar os Sishu sobre os Wujing (“Cinco Clássicos”)
Influenciou
- Currículo imperial chinês — os comentários de Zhu Xi aos Quatro Livros foram base dos exames de 1313 (dinastia Yuan) a 1905 (fim do Qing)
- Pensamento da Coreia (Joseon) e do Vietnã — o “Cheng-Zhu” tornou-se ortodoxia estatal de fato
- Neoconfucionismo japonês (Edo) — Hayashi Razan e Yamazaki Ansai, entre outros
- Wang Yangming (1472–1529) — como crítico interno: rejeita a leitura de gewu como investigação externa, propondo a “unidade entre saber e agir”
- Encontro do Lago dos Gansos (Goose Lake, 1175) — debate célebre com Lu Jiuyuan sobre o método do estudo e a primazia do coração-mente
Obras
A obra mais difundida e duradoura de Zhu Xi é o Sishu Zhangju Jizhu (四書章句集注, “Comentários Coligidos aos Quatro Livros em Capítulos e Sentenças”), comentário aos Quatro Livros — Daxue (Grande Aprendizagem), Zhongyong (Doutrina do Meio), Lunyu (Analectos) e Mêncio — que ele mesmo elevou a esse estatuto canônico. Compilou também o Jinsi lu (近思錄, “Registros de Reflexões Próximas”, c. 1175), antologia temática de textos de Zhou Dunyi, Zhang Zai e dos irmãos Cheng, feita em colaboração com Lü Zuqian; e o Zhuzi Yulei (朱子語類, “Diálogos Classificados do Mestre Zhu”), enorme coletânea póstuma de seus diálogos com discípulos.
Ver também
Confucio; Wang Yangming; Mencio