
Wilfrid Sellars foi um dos filósofos analíticos americanos mais profundos e originais do século XX, embora menos lido pelo grande público do que sua influência justificaria. Formado em uma tradição que combinava o rigor analítico com o conhecimento da história da filosofia, dedicou-se a articular o que chamou de objetivo final da filosofia: “entender como as coisas, no sentido mais amplo do termo, se conectam, no sentido mais amplo do termo”. Sua obra busca conciliar o compromisso com a ciência e o naturalismo com o reconhecimento da dimensão normativa do pensamento e do conhecimento. Lecionou sobretudo na Universidade de Pittsburgh, onde formou uma linhagem influente de discípulos.
Conceitos-chave
A crítica ao Mito do Dado (“Empiricism and the Philosophy of Mind”, 1956): em sua obra mais célebre, Sellars ataca o que chama de Mito do Dado (Myth of the Given) — a ideia, central ao empirismo tradicional, de que há um estrato de conhecimento imediato, não-inferencial e não-conceitual (impressões sensoriais, dados dos sentidos) que serve de fundamento último para todo o resto do conhecimento. Sellars argumenta que nada pode ser ao mesmo tempo um dado puramente sensorial e uma razão justificadora: para que algo justifique uma crença, ele já deve ter estrutura conceitual. Não há, portanto, um fundamento epistemológico bruto e pré-conceitual.
O espaço lógico das razões: Sellars distingue dois tipos de discurso. Caracterizar um estado como conhecimento não é apenas descrever um fato psicológico ou causal sobre o sujeito, mas situá-lo no espaço lógico das razões — no domínio normativo do justificar e do poder justificar o que se afirma. O conhecimento pertence à ordem das razões, não meramente à ordem das causas. Essa distinção entre o normativo e o factual tornou-se um dos legados mais influentes de Sellars.
A imagem manifesta e a imagem científica (“Philosophy and the Scientific Image of Man”, 1962): Sellars distingue duas grandes concepções do homem-no-mundo. A imagem manifesta (manifest image) é o quadro do senso comum refinado pela reflexão, no qual o ser humano aparece primariamente como pessoa, agente racional inserido numa rede de normas e intenções. A imagem científica (scientific image) é o quadro postulado pelas ciências teóricas, povoado por partículas, campos e processos. O grande problema filosófico, para Sellars, é articular uma visão estereoscópica que reconcilie as duas imagens sem reduzir abusivamente uma à outra — em particular, sem perder a dimensão normativa e pessoal.
O mito de Jones (em “Empiricism and the Philosophy of Mind”): para explicar de modo naturalista a origem dos conceitos do mental, Sellars conta uma fábula sobre um “ancestral ryleano” — uma comunidade que só dispõe de vocabulário comportamental público. Um gênio teórico chamado Jones introduz os pensamentos e as impressões sensoriais como entidades teóricas, postuladas por analogia com a fala aberta e com a percepção, para explicar o comportamento inteligente. A moral é que os conceitos mentais não nomeiam dados privados imediatamente acessíveis, mas têm caráter teórico e intersubjetivo — embora possam, depois de aprendidos, ser aplicados em primeira pessoa de modo não-inferencial.
Funcionalismo psicológico incipiente: ao tratar os estados mentais como postulados teóricos definidos por seu papel na explicação do comportamento e em relação a estímulos e respostas, Sellars antecipa elementos do funcionalismo que se tornaria dominante na filosofia da mente das décadas seguintes.
Influenciado por
- Immanuel Kant — a tese de que toda experiência é conceptualmente articulada
- Gilbert Ryle — a crítica ao mentalismo cartesiano
- A tradição do empirismo lógico e a filosofia analítica da linguagem
- Charles Sanders Peirce e o pragmatismo, na concepção da ciência
Influenciou
- Richard Rorty — a crítica à epistemologia fundacionista
- John McDowell e Robert Brandom — os chamados “sellarsianos de Pittsburgh”
- O debate sobre fundacionismo, coerentismo e o conteúdo da experiência
- O desenvolvimento do funcionalismo em filosofia da mente
Obras
Science, Perception and Reality (1963), coletânea que inclui “Empiricism and the Philosophy of Mind” (1956) e “Philosophy and the Scientific Image of Man” (1962); Science and Metaphysics: Variations on Kantian Themes (1968); Naturalism and Ontology (1980); a coletânea póstuma In the Space of Reasons (2007).
Ver também
W.V.O. Quine Gottlob Frege John Searle